Edição 365 | 13 Junho 2011

Preservação das florestas depende de política agrícola adequada

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Patricia Fachin e Rafaela Kley

Na avaliação do biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, os problemas ambientais brasileiros e a falta de cuidado com as florestas são consequência da ausência de uma política agrícola. “Em vez de aumentar as áreas agrícolas, temos de utilizar melhor o solo disponível para a agricultura”, sugere

Ásia, África e América são os continentes que abrigam as maiores florestas tropicais do mundo. Entretanto, é no Brasil que o desmatamento florestal é mais acentuado. Segundo o pesquisador, a situação ambiental das florestas é reflexo da condição econômica de cada país e a atual conjuntura brasileira explica a pressão de transformar áreas florestais em agrícolas.
Em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone, Rodrigues defende a manutenção de áreas florestais em propriedades rurais. Segundo ele, a preservação das florestas na agricultura é um importante serviço ambiental. “A maioria das culturas depende de polinizadores para aumentar a produtividade e, logicamente, os polinizadores vão estar nos ambientais naturais. Os agricultores ainda não têm essa ideia, porque não veem uma abelha ou um inseto fazendo a polinização da soja e do café. Eles não conseguem ver a importância deste polinizador na sua produtividade final”, constata.
Para o pesquisador, as florestas brasileiras deveriam ser protegidas com instrumentos de reserva legal. Contudo, se aprovado o Código Florestal, elas “serão transformadas em ambientes de baixa produtividade, serão desmatadas, e pouco utilizadas em termos de produção de alimentos”.

Ricardo Ribeiro Rodrigues é graduado em Ciências Biológicas e doutor em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Atualmente é docente na Universidade de São Paulo – USP e coordena o Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da instituição.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - As florestas tropicais existem em três regiões do planeta: América, África e Ásia. Em que continente estão mais preservadas e ameaçadas?

Ricardo Ribeiro Rodrigues – Elas estão sobre pressão em todos estes ambientes. Certamente na Ásia sofrem uma pressão maior, mas o Brasil tem batido recorde de desmatamento nos últimos anos. O dilema das florestas é reflexo da conjuntura econômica de cada país. O Brasil está em um momento econômico interessante. Portanto, há pressão para ampliar as áreas agrícolas.

IHU On-Line - Como é feito, no Brasil, a reestruturação ecológica de áreas florestais degradadas? O país tem uma preocupação em restaurar essas terras? Existe alguma política pública nesse sentido?

Ricardo Ribeiro Rodrigues – Hoje, o país investe bastante em iniciativas de restauração ecológica e dispõe de tecnologia avançada para realizar esse processo. A tecnologia brasileira está sendo referência para o mundo na questão da restauração, embora, no país, o reparo das terras florestais esteja associado à punição da aplicação da legislação ambiental, ou à certificação ambiental do produto agrícola. Então, não existe uma preocupação ambiental por si só e, sim, uma imposição penal ou de mercado. De qualquer modo, é pela imposição que, às vezes, se constrói uma cultura de preservação.

IHU On-Line - Que regiões do país mais se preocupam com a restauração ecológica?

Ricardo Ribeiro Rodrigues – Hoje, tenta-se restaurar a Mata Atlântica e os estados do Sudeste são os que mais têm investido em restauração, pois são os mais degradados e os que têm mais áreas para restaurar. Esta preocupação está sendo passada para os demais estados: Mato Grosso e Pará já estão discutindo a possibilidade de restaurar áreas degradas.

IHU On-Line - O atual texto do Código Florestal traz risco para a manutenção das florestas brasileiras?

Ricardo Ribeiro Rodrigues – Com certeza. Se o texto for mantido da forma que está, o impacto florestal será enorme, porque ele reduz as Áreas de Preservação Permanente – APPs e as exigências das reservas legais. O Brasil tem muitas florestas remanescentes em áreas de baixa aptidão agrícola, ou seja, são florestas que não deveriam ser substituídas por atividades de produção, porque o ambiente é de baixa produtividade em função da fertilidade do solo e do afloramento de rochas. As florestas poderiam ser protegidas com o instrumento da reserva legal. Mas com a mudança do Código Florestal, serão transformadas em ambientes de baixa produtividade, serão desmatadas, e pouco utilizadas em termos de produção de alimentos. O Código Florestal está na contramão da perspectiva brasileira de produzir alimentos com sustentabilidade ambiental.

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