Edição 365 | 13 Junho 2011

“Não é possível explicar o Brasil sem floresta”

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Patricia Fachin e Rafaela Kley

“A Mata Atlântica assegura a qualidade e a quantidade de água para 112 milhões de pessoas, quer dizer, dois terços da população brasileira dependem da floresta para consumir água de qualidade”, informa Clayton Ferreira Lino, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica

Para garantir a sustentabilidade das florestas tropicais, não basta criar unidades de conservação isoladas, é preciso investir em preservação territorial, protegendo as florestas “nos contextos em que elas estão inseridas”, defende Clayton Ferreira Lino, em entrevista concedida à IHU On-Line, por telefone. “Quando se fala em proteger a Mata Atlântica hoje, tenta-se proteger os remanescentes desta floresta. Entretanto, essas áreas protegidas, às vezes, são pensadas como ilhas isoladas em meio a uma paisagem destruída. Neste contexto ambiental precário, elas não conseguem sobreviver ou conservar a biodiversidade”, argumenta.
No Brasil, a Mata Atlântica é um exemplo peculiar de floresta fragmentada, que se estende do litoral do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Segundo Lino, parte dos remanescentes da floresta está localizada em áreas privadas e desprotegidas. Portanto, para recuperar esses ambientes, é preciso “criar corredores entre eles, desenvolver atividades que não aumentem a devastação e, se possível, integrar e conectar estes fragmentos entre si e com áreas protegidas. Precisamos pensar a floresta como um todo, ou seja, pensar em unidades de paisagem a serem conservadas, restauradas e reconectadas”, ressalta.

Clayton Ferreira Lino é formado em Arquitetura pela Universidade Mackenzie de São Paulo e especialista em Conservação de Manejo Florestal. Atualmente, preside o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor defende a preservação territorial das florestas, especialmente da Mata Atlântica, e não apenas de unidades isoladas de conservação. Pode nos explicar essa visão territorial? Quais os desafios neste sentido?

Clayton Ferreira Lino – O caso da Mata Atlântica é emblemático para explicar essa visão territorial. A floresta era uma das maiores do mundo, entretanto, na visão desenvolvimentista brasileira, ela atrapalhava o crescimento do país. O desenvolvimento brasileiro foi pensado por meio da agricultura, da pecuária, das indústrias, e, nesse contexto, a floresta era utilizada como fonte de matéria-prima. Há mais de 500 anos, os portugueses exploraram o Pau-Brasil e outros recursos florestais. Portanto, o primeiro ciclo econômico brasileiro aconteceu via um processo predatório dessa espécie. Esta visão de desenvolvimento se manteve ao longo dos anos, mudando apenas a planta a ser explorada: araucária, palmito jussara, imbuia. Como atrapalhavam a extensão agrícola e pecuária, as florestas não faziam parte de um zoneamento em que se buscava garantir a qualidade da água, da paisagem, do sombreamento de solo. A urbanização também contribuiu para a destruição da mata. O poder público nunca planejou a construção de casas e cidades onde existia uma fazenda ou terras de plantio. A opção foi “passar em cima da floresta”. Ou seja, as áreas florestais sempre foram consideradas improdutivas e eram vistas como “terra de ninguém” para ser ocupada.

Preservação integral 

Quando se fala em proteger a Mata Atlântica hoje, tenta-se proteger os remanescentes desta floresta. Entretanto, essas áreas protegidas, às vezes, são pensadas como ilhas isoladas em meio a uma paisagem destruída. Neste contexto ambiental precário, elas não conseguem sobreviver ou conservar a biodiversidade. Por isso, é necessário pensar as áreas protegidas nos contextos em que as florestas estão inseridas. A Mata Atlântica está fragmentada e localizada também em áreas privadas, desprotegidas. Se quisermos conservar o restante da floresta, precisamos primeiramente articular a sociedade com os proprietários rurais, com os municípios e reconectar estes fragmentos. Ou seja, precisamos criar corredores entre eles, desenvolver atividades que não aumentem a devastação e, se possível, integrar e conectar estes fragmentos entre si e com áreas protegidas. Precisamos pensar a floresta como um todo, quer dizer, pensar em unidades de paisagem a serem conservadas, restauradas e reconectadas.

Manejo sustentável

Não é possível transformar todos os fragmentos e remanescentes de Mata Atlântica em área protegida do Estado. Então, é preciso envolver a sociedade e para tal, além de educação ambiental, conscientização e mobilização, é preciso garantir benefícios aos donos de terras que optarem pela preservação das florestas. Não há condições de colocar um fiscal em cada fragmento da Mata Atlântica. Portanto, o fiscal tem que ser o próprio proprietário, os moradores da região. Também é preciso pensar em mosaicos de áreas protegidas, porque às vezes se tem um conjunto de áreas protegidas como se cada uma fosse um território isolado. Essa ideia de mosaico propõe uma gestão integrada das áreas protegidas, independente do município ou do estado em que a floresta esteja localizada. Somente assim será possível atuar politicamente para a conservação dos territórios.

IHU On-Line – Como esses corredores ecológicos terrestres e marinhos podem manter a preservação da Mata Atlântica?

Clayton Ferreira Lino – O corredor de biodiversidade terrestre liga um fragmento a outro, ou uma área protegida a outra. A função dele é aumentar a possibilidade de a natureza desenvolver e manter suas funções para não perder espécies. O corredor hídrico está ao longo de um rio e integra-se junto à mata. Nesse sentido, o corredor tenta recompor a paisagem.
Existem também os corredores das reservas da biosfera. Essas reservas são áreas reconhecidas internacionalmente pelo Programa Homem e Biosfera, da Unesco. No Brasil, existem sete reservas da biosfera, basicamente uma para cada grande bioma brasileiro: Amazônia Central ; Cerrado; Caatinga ; Pantanal ; Cinturão Verde da cidade de São Paulo, que é parte integrante da grande reserva da biosfera da Mata Atlântica, mas que tem sua especificidade; Serra do Espinhaço ; e Mata Atlântica, que vai do Ceará ao Rio Grande do Sul, e é a maior reserva da biosfera da rede mundial da Unesco. Ela envolve hoje 16 dos 17 estados que possuem Mata Atlântica, e tem 78 milhões de hectares, sendo que 700 mil hectares estão protegidos. Esta grande reserva da biosfera tem um sistema de gestão formado por um conselho nacional, por comitês estaduais e vários outros colegiados. Esses órgãos são formados por cidadãos comuns e por representantes do governo. Portanto, trata-se de uma grande articulação para conservar a natureza, promover o desenvolvimento sustentável e o conhecimento tradicional e científico dos ecossistemas que ali vivem.

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