A necessidade de compreender a história da linguagem

Ao analisarmos os históricos da língua portuguesa em diferentes contextos, percebemos que o idioma não é um conjunto “rígido e imutável de regras, mas uma somatória de sistemas linguísticos”, diz Luiz Carlos Cagliari

Por: Anelise Zanoni e Patricia Fachin

Primeiro, o país registrava um número crescente de escolas e alunos sem livros e professores sem material didático. Depois, com investimento alto, o governo passou a mudar o cenário da educação, mas faltou discutir a história da linguagem oral e os reflexos disso na escrita.

Com essa provocação, Luiz Carlos Cagliari, doutor em Linguística, reflete sobre importantes questões que envolvem o ensino e o aprendizado da língua portuguesa nas escolas. De acordo com o especialista, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, compreender a história da linguagem significa discutir a oralidade e a escrita.
“Ao fazer isto, constatamos, como sempre aconteceu na história de todos os povos e de todas as línguas, que uma língua não é um conjunto rígido e imutável de regras, mas uma somatória de sistemas linguísticos”, diz.

Com escolas tendo grandes contingentes de alunos provenientes de classes menos favorecidas, nas quais a linguagem oral apresenta diferenças notáveis com relação à variedade culta, o problema da variação na fala dos alunos ficou mais evidente e passou a exigir um tempo maior de aprendizado da norma culta, afirma o entrevistado. Para ele essa é uma das justificativas para a interpretação errônea de que a escola “afrouxou”, deixou de cuidar da norma culta.

Professor adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em Araraquara, o linguista Luiz Carlos Cagliari é doutor pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, e pós-doutor pelas universidades de Londres e Oxford. Ele é professor titular da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.

Confira a entrevista.
 


IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz do Programa Nacional do Livro Didático – PNLD 2011 e dos livros distribuídos pelo MEC? Eles defendem o uso da linguagem oral sobre a linguagem escrita?

Luiz Carlos Cagliari -
Duas questões na pergunta. A primeira questão: (PNLD), como muitas questões de política educacional e de pedagogia, é boa em tese. Seu real valor vai depender de como será tratada na prática. Pelo que eu saiba, há alguns problemas com relação ao PNLD, mas há também algumas vantagens. Com relação aos problemas, a questão mais séria diz respeito a quem faz esses livros didáticos, quem os publica e como são distribuídos. Em grande parte, predominam interesses e competências econômicas, ficando de lado competências técnicas e investimentos educacionais mais bem dirigidos pelo MEC. Quem tem mais e melhores conhecimentos científicos não costuma fazer livros didáticos. Por outro lado, os que o fazem nem sempre conseguem ter todas as informações necessárias para realizar a tarefa proposta. Pessoalmente, eu acho os livros didáticos do Brasil (todas as séries) muito ruins. Trazem informações pouco relevantes, informações erradas e, principalmente, não trazem muitas informações necessárias. Como essa questão é muito abrangente, não posso discutir detalhes aqui (veja, por exemplo, meu livro Alfabetizando sem o Ba Be Bi Bo Bu. São Paulo, Ed. Scipione, 1998).

Por outro lado, o PNLD despertou no governo a necessidade de financiar livros didáticos para as escolas públicas. Antes, havia uma situação muito estranha: escolas sem livros, alunos sem livros, professores sem material didático. Certamente, é um investimento muito alto, dado o grande número de escolas públicas do país. E o governo assumiu o encargo. Se os resultados ainda não são os melhores, diria que é um bom começo.

A segunda parte da pergunta (a predominância da oralidade sobre a escrita), certamente, traz um equívoco. O MEC nunca defendeu o uso da linguagem oral sobre a linguagem escrita. Aqui já chegamos à linguística. Por outro lado, mesmo antigamente, a linguagem oral nunca foi desprezada pela escola e sempre foi, aos poucos, dirigida para a variedade culta. Como havia muitas escolas com alunos oriundos de classes sociais mais privilegiadas, a fala dos alunos já estava mais próxima da variedade culta, facilitando a tarefa linguística escolar. Com escolas tendo grandes contingentes de alunos vindos de classes menos favorecidas, nas quais a linguagem oral apresenta diferenças notáveis com relação à variedade culta, o problema da variação na fala dos alunos ficou mais evidente e passou a exigir um tempo maior de aprendizado da norma culta. Isso foi interpretado erroneamente por muitos no sentido de que a escola afrouxou, deixou de cuidar da norma culta, que passou a usar qualquer variedade da língua em lugar da norma culta. Ignorância e preconceito.
Tanto a linguagem oral quanto a linguagem escrita tem suas variantes. Essas variantes servem tanto para definir uma norma culta (historicamente definida no tempo e no espaço), como para caracterizar todos os modos que a língua tem de falar e de escrever. Um literato é diferente de outro, não só no estilo de escrever, mas também no uso gramatical e lexical do que escreve. Alguns recheiam suas obras com termos e modos de falar que não pertencem à norma culta da linguagem escrita (cf. Guimarães Rosa ), mas revelam falares estigmatizados na sociedade culta urbana. Isso faz parte da trama da vida, da obra literária e dos usos que a linguagem permite ao usuário fazer nas mais diversas situações. Portanto, na escola, desde sempre, encontramos não apenas a norma culta, mas também outras manifestações da linguagem, tanto com relação à fala, quanto com relação à escrita. É uma questão de grau, de contexto e de uso.

As diretrizes do MEC têm sido cuidadosas no sentido de trazer para o discurso pedagógico as ciências humanas, não apenas as ciências exatas. É muito comum ver as pessoas fazendo afirmações a respeito da linguagem e da escola, como se fossem grandes entendidos, quando, de fato, apenas dizem opiniões sem fundamento, sem conhecimento da realidade, simplesmente pelo fato de acharem que o que pensam é o que o mundo é ou deva ser. Vivemos em uma época de ciência e de tecnologias, que exigem um grande comprometimento com a verdade, através de ações científicas controladas e precisas. (Nesta semana, vimos a mídia invadida por esse tipo de opinião de jornalistas conceituados, mas ignorantes com relação às ciências da linguagem – cf., por exemplo, o jornal Folha de São Paulo e outros).
O MEC não passou a defender a supremacia da fala sobre a escrita. Trata-se de uma interpretação equivocada, como mencionei acima. Porém, na escola, por razões óbvias de nossa cultura, ocorre uma porcentagem muito maior de atividades com a escrita do que com atividades orais. O pouco a mais de estudo da fala, que se conseguiu introduzir na escola, bastou para gerar uma alvoroço sem sentido.


IHU On-Line - Quais os avanços e limites do Programa Nacional do Livro Didático - PNLD 2011 como instrumento de apoio ao processo de ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa? É possível falar em linguagem adequada e inadequada?

Luiz Carlos Cagliari -
A política do PNLD tem de favorecer a melhoria do ensino. Infelizmente, ainda estamos longe disso. Mas, é um bom começo, como disse acima. Também vou voltar a falar sobre se há uma linguagem adequada ou não, logo adiante.

A linguística moderna não tem dúvida alguma de que haja linguagem adequada e inadequada, coisas certas e coisas erradas, coisas diferentes se contrapondo às noções de certo e de errado. Portanto, há várias questões em jogo. Qualquer falante nativo de qualquer língua aprende uma variedade de sua língua e fala corretamente essa variedade para expressar tudo o que quiser e para entender o que ouve. Em casos de dificuldades, todas as línguas têm expressões que permitem fazer perguntas e obter respostas para que a comunicação fique esclarecida. Portanto, todo falante nativo faz um uso adequado da sua língua. Além disso, ele tem consciência do que é aceitável e do que não o é, ou seja, do contraste entre o que é adequado e o que não é adequado. Se alguém falar propreluzilmente, o ouvinte desconfiará que se trata de um advérbio terminado em –mente, mas não reconhecerá o sentido da palavra porque ela não existe em português. Se alguém disser xícara para panela de pressão, embora o ouvinte reconheça as palavras, saberá que foram usadas erradamente, e assim por diante.

Quando a fala é típica de uma comunidade ou grupo social, a gramática desse uso linguístico é reconhecida como adequada. Mas, se uma variedade estigmatizada pela sociedade for usada em um ambiente hostil a essa variedade, o uso daquela variedade nesse ambiente é inadequado. Uma pessoa que pretende ser gerente de uma grande firma, não poderá falar nóis compremu os café... não porque esse modo de falar tem uma gramática errada, mas porque o uso desse modelo naquele ambiente é inadequado e isso por razões sociais e não linguísticas. Considerações dessa natureza mostram a necessidade de se ensinar sociolinguística aos alunos como forma de conscientizá-los nos usos da linguagem e favorecer a promoção social de muitos com um uso adequado da linguagem.


IHU On-Line - Como fica o aprendizado da norma culta a partir dessa concepção de que é importante considerar a linguagem falada como correta? Em sua opinião, de que maneira os livros didáticos devem lidar/estudar/considerar a norma popular?

Luiz Carlos Cagliari -
Volto a estranhar a formulação da pergunta. Ela pressupõe que somente a escrita é correta e que a fala é sempre errada. Vamos começar, de novo, considerando o que é certo, o que é errado e o que é diferente nos usos da linguagem. Se a linguagem é expressão da racionalidade, a qual nos distingue dos demais animais..., negar ao ser humano (seja ele quem for) o uso dessa racionalidade (sua linguagem) é negar a ele o caráter humano. O fato de alguém achar que um falante nativo de uma língua fala errado significa exatamente isto: tirar dele o uso da racionalidade. Deste princípio, surgem todas as formas de preconceito e de estigma linguísticos. Primeiro se nega o indivíduo, depois, procura-se uma razão para justificar essa negação. Aí, então, entra a questão do diferente. A sociedade acha que umas pessoas são melhores do que outras por causa de suas realizações culturais, artísticas, comerciais, industriais, econômicas, militares, bélicas, etc. Com essa justificativa, estendem a diferença para aspectos que não comportam tal comparação, como discriminar quem fala diferentemente deles. Já que são “mal sucedidos” (sic), devem ser também ignorantes, incompetentes, falantes sem juízo, sem correção, etc. Ninguém fala errado porque é pobre, ninguém fala certo porque é rico. Provavelmente, vão falar de modos diferentes. Se um dia o pobre ficar rico e este ficar pobre, os valores linguísticos da norma culta vão se inverter. Foi isso o que aconteceu na passagem do latim para as línguas românicas, incluindo o português. O povo pobre que falava o latim vulgar passou a dominar o Império Romano, o qual sumiu com sua antiga nobreza, e as novas gerações (e nações) assumiram uma variedade da língua do povo (latim vulgar), gerando as línguas românicas. Portanto, a norma culta do português, do francês, do italiano, do espanhol, etc. nada mais é do que uma fala que, um dia, foi estigmatizada pelos nobres romanos. Enquanto a língua falada se transformava, a língua escrita se mantinha: não fazia sentido escrever em latim vulgar (ou romanço), mas em latim clássico, mesmo que isso trouxesse dificuldades para muitas pessoas. Somente quando surgiram escritores famosos (Dante, Camões, etc.), usando aquelas línguas derivadas do latim com grande engenho e arte, deixou-se de escrever latim e passou-se a escrever nas línguas vernáculas. É muito curioso notar que até hoje ainda há gente que acha que se deve escrever à moda do latim, que sem o latim, não se aprende português direito... e por aí vai a ignorância e o preconceito.


Escola

A escola precisa discutir a história da língua também. Isso implica em discutir a linguagem oral e escrita que a língua teve e tem. Ao fazer isto, constatamos, como sempre aconteceu na história de todos os povos e de todas as línguas, que uma língua não é um conjunto rígido e imutável de regras, mas uma somatória de sistemas linguísticos. Cada um desses sistemas tem suas regras, porque não há nada em nenhuma variedade da língua que não seja dependente de regras (isto é, a gramática de cada dialeto ou variedade). Não existe apenas a gramática da norma culta (seja fala ou escrita). Quando comparamos línguas diferentes, percebemos que as construções gramaticais variam de modo próprio a cada língua. Se, em inglês, algum diz (ou escreve) thes goods boys works (?), fazendo com que todos os elementos mostrem uma “concordância gramatical”, o resultado será uma aberração, porque, em Inglês, as regras são diferentes: the good boys work. Em português, a regra é exatamente aquela rejeitada pela gramática da língua inglesa: os bons meninos trabalham. Os falantes de inglês, que dizem the good boys work são preguiçosos? São incapazes de fazer concordância? O que se espera dele? Espera-se que eles falem de acordo com a gramática de sua língua. Com relação ao português, alguém que diz os bom menino trabalha, fala assim porque segue a gramática de sua variedade de português: há regras muito precisas para essa construção gramatical. Para essa gramática, dizer os bons meninos trabalham ou o bom meninos trabalha está errado, é contra as regras de uso daquela variedade. Esses falantes não falam assim porque são burros ou preguiçosos. Nem os que falam os bons meninos trabalham revelam grau superior de inteligência, de dedicação e de atenção à gramática: eles falam assim, porque aprenderam e o esforço e a inteligência não têm nada a ver com a construção gramatical.
As considerações acima já deixam clara a resposta à segunda questão formulada: como “os livros didáticos devem lidar/estudar/considerar a norma popular?”. O exposto acima já caracterizou o certo, o errado, o diferente, a língua falada e a língua escrita. Falta, agora, falar de como esses conceitos e fatos entram na programação escolar ou nos livros didáticos. No currículo escolar, temos nove anos de ensino fundamental, três de ensino médio e três ou quatro de ensino superior (por exemplo, em Cursos de Letras) – uns 15 anos de estudo. Como dividir o conhecimento que a escola precisa passar aos alunos em 15 anos? Com relação à Língua Portuguesa, será somente gramática normativa e literatura (com conteúdo indefinido)? Quando vejo alguns tipos de comentários sobre linguagem, percebo que os 12 ou 15 anos não foram suficientes para que certas pessoas demonstrem que conhecem, de fato, como funciona a linguagem oral e a linguagem escrita. As ignorâncias e os preconceitos emergem com facilidade e em todos os lugares. Isso na mídia é uma praga. Para que isso não aconteça, seria preciso rever os conteúdos ensinados. Seria preciso que os professores de português fossem cientistas da linguagem, assim como um médico o é da medicina, um engenheiro elétrico o é da engenharia elétrica, etc. Se não fizermos assim, estaremos ainda na concepção de ciência da Antiguidade. Um químico não quer ser um alquimista, mas uma cientista. Um linguista não quer mais ser um gramático à moda antiga, mas um cientista da linguagem. Definido a partir da linguística moderna o conteúdo programático de ensino de português, em bases científicas, passa-se a ter o problema da implementação desse conteúdo. Aqui, a questão passa a ser pedagógica e não mais linguística.

Em 12 anos, dá perfeitamente para cobrir de modo adequado todas as áreas da linguística: fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica (e suas variantes), pragmática, análise do discurso, psicolinguística, sociolinguística, etc. Além disto, conteúdos como: história das línguas, história do português, sistemas de escrita, ortografia (teoria e prática), línguas indígenas brasileiras, etc... também deveriam entrar na grade curricular. Onde está a “norma popular” e a norma culta? As variedades da língua e suas interpretações socioculturais e históricas estão em todos esses conteúdos. Então, temos que discutir como esses conteúdos se encaixam nas diferentes séries, por exemplo, no processo de alfabetização (ou ensino fundamental).

No início da alfabetização, salvo raríssimas exceções, o professor vai encontrar uma classe linguisticamente heterogênea, ou seja, com alunos que usam a língua portuguesa com diferenças entre eles. Não raramente, um alfabetizador precisará enfrentar classes que, mesmo não sendo tão heterogênea, reúnem alunos que falam variedades bem diferentes da norma culta. Em certas comunidades do interior paulista, por exemplo, dizem, nóis fumu comprá os livro i num incontremu. Em certas comunidades de Sergipe dizem o prefeitxu é muitxu doidju. Coisas semelhantes vamos encontrar pelo país afora. Hoje, o mais comum são classes “urbanas” de alunos que já aprenderam muita coisa da fala culta, por causa da pressão da sociedade urbana e por influência dos meios de comunicação (tv, etc.). Portanto, o problema tem graus diferentes de dificuldade para o professor levar todos os alunos a se tornarem usuários da norma culta. Ninguém aprende uma língua nova da noite para o dia, sobretudo, no ambiente escolar. Para quem não é falante da norma culta, chegar a ela é como aprender uma língua nova. Por outro lado, como o processo é demorado e a escola precisa fazer algumas coisas, como aprender a ler e a escrever, como instrumentos básicos para os estudos da linguagem e de outras matérias, o professor precisa necessariamente explicar aos alunos o que acontece na sociedade, quando algumas pessoas falam de um jeito e outras pessoas falam de outro jeito, assim como um país fala de um jeito e outros países falam de outros jeitos. Por essa razão, explicar a variação linguística é uma das primeiras atividades de um professor alfabetizador. Ao mostrar a variação, o professor mostra as diferenças. Diferenças não são erros, são apenas diferenças. Um erro linguístico, por exemplo, seria chamar o animal cachorro de estátua ou dizer murdilcopa para formiga, ou dizer o livros... nóis fumos, etc. São erros porque ninguém fala assim, em nenhuma variedade linguística da língua portuguesa. Explicando a variação, o professor pode contar a história da língua, deixando claro como a língua portuguesa evoluiu desde seu começo até hoje, passando por muitas transformações, por muitas normas cultas. Antigamente, se dizia a despois, hoje, preferimos dizer depois; antigamente se dizia vossa mercê, hoje, dizemos você, e tem gente que diz ocê e até cê. Antigamente, se falava diga-me seu nome, hoje, falamos me diga seu nome; antigamente, se dizia cadeira, ouro, rapaz, dia; hoje, dizemos cadera, oro, rapaiz, djia. Tiramos o I de algumas palavras e colocamos em outras... A mudança é fruto da diferenciação no uso da linguagem e não de qualquer déficit mental ou psicológico dos falantes. Por outro lado, algumas mudanças não incomodam, como falar djia ou dia, dizer cadera ou cadeira. Outras mudanças incomodam, não porque são erros linguísticos, mas porque quem usa essas variedades é visto pela sociedade como pessoa pobre, ignorante, sem cultura (tradicionalmente aceita pelos intelectuais), ocupando um lugar inferior nos níveis socioculturais da sociedade. O preconceito visa à pessoa em primeiro lugar e, depois, arranja motivos para se justificar.
Explicando coisas desse tipo, o professor pode deixar seus alunos alfabetizandos usar a linguagem que trazem de casa para a escola, escrever com “erros de ortografia”, ler em seus dialetos, como forma de respeito por eles. Ao mesmo tempo, vai conscientizando-os de que, vieram à escola para aprender o que não sabem, ou seja, a norma culta falada e escrita. Portanto, quanto antes aprenderem a falar a norma culta e a escrever com correção gramatical e ortográfica, melhor para todos. Compreendendo essas colocações, o professor e os alunos podem trabalhar tranquilamente, conscientemente dos objetivos e com rapidez. Por outro lado, sem essas explicações e atitudes, o ensino fica deformado, complicado, não progride e causa grandes frustrações nos alunos, nos professores, nos pais e até naquelas pessoas que nunca entenderam como devem ser as coisas.

Obviamente, a história da língua irá ser tratada em séries mais adiantadas, assim como outros conteúdos, incluindo aí uma discussão mais ampla da variação linguística, podendo mesmo se servir da grande história de nossa literatura para ver como a variação de fala e de escrita aparece nessas obras. Apesar de complexa, essa questão permite inúmeras atividades interessantes, cientificamente apoiadas, no ensino da língua. Além disso, permite discussões necessárias de respeito às pessoas, de combate ao preconceito, da necessidade de se levar mais ciência para a escola, deixando de lado superstições pedagógicas.


Não considero os PCNs uma boa solução, porque deixou de lado muita coisa que não podia. No entanto, no que trazem, apoiados por alguns linguistas que o redigiram, o texto é bom. Os PCNs falam do estudo “da língua” e não apenas “da escrita” (nem exclusivamente da norma culta). Se a recomendação é estudar a “língua”, o estudo da variação linguística se encaixa aí necessariamente. Os estudos da variação alavancam os estudos das preferências linguísticas no tempo, no espaço e na sociedade. As preferências linguísticas vão em direção à norma culta falada e escrita, acrescida de um todo estilístico, exigido ou desejado de acordo com diferentes gêneros discursivos. Assim, selecionam-se e se expandem os usos da linguagem oral e escrita através das atividades escolares, graduando-as desde as primeiras séries até a pós-graduação.

A questão da inserção da variação linguística em livros didáticos, obviamente, deve prever um programa que abranja todas as séries, cada qual com seus conteúdos específicos e com a dosagem correta do que se ensina e do que se espera que os alunos assimilem. Como muitos autores de livros didáticos não têm uma boa formação linguística e vivem com seus equívocos e falta de conhecimento científico a respeito da linguagem oral e escrita, o que colocam em seus livros pode trazer mais dano do que benefício para os estudos da linguagem. A desculpa de que a linguística é muito difícil, confusa ou até mesmo irresponsável no ensino (porque equivocamente acham e dizem que para a linguística não existe erro de linguagem e que vale tudo...) traz de volta a velha discussão: vamos ensinar que é o Sol que gira ao redor da Terra, porque isso nos parece mais óbvio e cômodo, olhando o universo, ou vamos ensinar astronomia moderna? O ensino não precisa deturpar a verdade científica para facilitar a tarefa do professor, nem complicá-la excessivamente. Cabe ao professor, como profissional competente e bem preparado saber como ensinar coisas fáceis, difíceis, não óbvias, etc. Pode-se ensinar a estrutura atômica a uma criança, sem fórmulas e gráficos científicos, como fazem alguns museus de ciências pelo mundo, simplesmente, através de figuras, de documentários e de uma boa conversa, porque as crianças gostam de uma boa conversa na escola e fora dela.



Comentários

Miraci Dias de Souza
comentou em 11/07/2013
Excelente!

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