Edição 362 | 23 Maio 2011

América Latina, um novo destino de refugiados

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Anelise Zanoni, Márcia Junges e Patricia Fachin

Segundo Petter Balleis, a Colômbia é o país da América Latina que concentra o maior número de refugiados

A realidade que acompanha levas de refugiados que percorrem países em busca de abrigo está cada vez mais viva na América Latina. Devido a conflitos internos, principalmente na Colômbia, pessoas deixam a terra natal em busca de proteção em locais como o Brasil.

Em entrevista por telefone à IHU On-Line, Peter Balleis, diretor do Serviço Jesuíta a Refugiados, compara o exemplo latino com o africano e revela que, na África, “o deslocamento das pessoas ocorre por causa de conflitos, os quais são evidentes: alguns rebeldes não se contentam com o governo e com o controle das terras”.

Entre as dificuldades que ligam o mundo em volta dos refugiados, a maior delas descrita pelo especialista é “que algo mudou no mundo e muitos países não querem mais receber refugiados”. Como explica Balleis, os países com mais condições financeiras fecham as portas para eles.

“A Europa não permite a entrada daqueles oriundos da África, por exemplo. A própria África do Sul, EUA, Austrália fecham as portas para essas pessoas”, afirma.
Diretor do Serviço Jesuíta a Refugiados - SJR, Peter Balleis é padre jesuíta, alemão, que, durante décadas, trabalhou na África, especialmente no Zimbábue. Também viveu alguns anos no Brasil, tendo trabalhado na periferia de Belo Horizonte, no final da década de 1980. É mestre em Teologia pelas Faculdades Jesuítas – FAJE, de Belo Horizonte. Atualmente, é diretor do SJR, cuja sede é em Roma, junto à Cúria Geral da Companhia de Jesus.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual o impacto da situação atual dos refugiados nas Américas?

Peter Balleis –
Em geral, dizem que o número de imigrantes nas Américas é certamente maior que o de refugiados, e isso é o que percebe a Companhia de Jesus, que realiza um trabalho com imigrantes e refugiados. Há movimentações internas pelo Cone Sul, e pessoas que migram para o Caribe, EUA, norte da Europa e também para as Américas. Na América Latina, temos quatro zonas importantes, com o local com maior número de refugiados na Colômbia. Há muitos casos, já verificados pelo Acnur, de pessoas que são forçadas a saírem de seus países por causa dos conflitos, os refugiados de fato, ou até mesmo refugiados internos. Nas Américas, os jesuítas se preocupam com quatro zonas importantes: os refugiados da Colômbia, do Panamá, da Venezuela e do Equador.

No Haiti, estamos trabalhando com refugiados que são forçados a se deslocarem devido ao terremoto. De modo geral, na América Latina, a maior preocupação é com a Colômbia, porque o país tem um dos maiores números de desabrigados/desalojados internos: fala-se em mais de três milhões de pessoas.

A situação é um pouco diferente na África, em comparação com o resto do mundo. Lá, o deslocamento das pessoas ocorre por causa de conflitos, os quais são evidentes: alguns rebeldes não se contentam com o governo e com o controle das terras. Na África, cerca de 60% dos refugiados vivem em campos específicos e contam com a ajuda de organizações humanitárias, além do Acnur, que atendem pessoas que precisam de ajuda. Outros indivíduos estão refugiados em diversos países do mundo.


Ameaças

A dinâmica de conflitos e violência na América Latina, especialmente na Colômbia, é diferente. As famílias sofrem ameaças e perdem suas terras. Dizem que próximo a Bogotá cresce o número de refugiados na América Latina. É cada vez mais complicado trabalhar nesta região, porque a urbanização é forçada e as famílias sofrem situações hostis de trabalho. Na Colômbia, o conflito está se desenvolvendo com a guerrilha e precisamos cuidar de nossas equipes também.

Em função disso, os refugiados estão se deslocando para o norte da Colômbia por conta das atividades de diferentes grupos armados. Há duas semanas estive na fronteira da Venezuela visitando algumas famílias que vieram da Colômbia e percebi que elas sentem medo. Além disso, os afrocolombianos e os indígenas representam também uma situação muito séria.

O deslocamento dessas pessoas não ocorre por causa de um conflito ideológico entre rebeldes e governo, mas, em função de disputas territoriais, por causa de recursos econômicos, em função do modelo de crescimento vigente. A droga e o narcotráfico também são aspectos a serem considerados. Esse não é um problema exclusivo da América Latina. Essa situação se repete na Índia, onde há grandes interesses econômicos em recursos minerais e, em função disso, as populações locais e indígenas são obrigadas a se deslocarem de suas terras. Na África, grupos armados negociam diamantes e ouro para se sustentarem e manterem o conflito.


IHU On-Line – Qual a principal origem dos refugiados no mundo? Por que as pessoas saem dos seus países de origem? Em função da exploração da terra, dos interesses econômicos, como o senhor explicava?

Peter Balleis –
Os motivos são diversos. É importante dizer que existem refugiados na América Latina, principalmente na Colômbia, nos países vizinhos e também desalojados/desabrigados internos. No mundo, de modo geral, a maioria dos refugiados é da África, mas muitos vivem no Oriente, na Ásia Central, e no Iraque e Afeganistão, especialmente. Esses povos vivem em conflitos por diversos motivos: interesses religiosos, políticos, interesses energéticos em função do petróleo, que é abundante nestas regiões do mundo. Os interesses comerciais e políticos alimentam o deslocamento dessas pessoas.


IHU On-Line - Qual a maior dificuldade de integração dos refugiados no cenário mundial? Que dilemas eles enfrentam?

Peter Balleis –
A maior dificuldade é que algo mudou no mundo e muitos países não querem mais receber refugiados. Fecham as portas para eles. A Europa não permite a entrada daqueles oriundos da África, por exemplo. A própria África do Sul, EUA, Austrália fecham as portas para essas pessoas.

Há trinta anos, essa situação era diferente, porque havia interesse de muitos países em receber refugiados. Naquela época, muitos refugiados de Camboja fugiam do comunismo e imigravam para outros países. Cada refugiado que fugia do comunismo imaginava que a situação no Ocidente seria melhor e muitos deles foram integrados em outras nações. Hoje em dia não existe mais essa divisão ideológica e, por isso, os refugiados não são mais provenientes apenas de perseguições políticas.

Pode-se dizer que o mundo era melhor e, com a queda dos muros, parece que não há necessidade de protegê-los. Economicamente, essas pessoas têm de buscar outra solução e sair dos seus países de origem, porque não há chance para todos e eles não encontram trabalho. Pode-se dizer que esta é uma visão capitalista, mas todo o capital se concentra no norte do planeta ou em alguns países maiores da América Latina, como Brasil. A imigração, por exemplo, sempre buscou onde estava o capital, e o fluxo de imigrantes e refugiados ainda é econômico. Além de se preocupar com o capital, as autoridades deveriam se preocupar com a proteção a estas pessoas.

No caso específico dos refugiados, as pessoas se movem para sobreviver, para ter uma vida melhor ou porque não têm mais segurança social para viver onde viviam. A proteção aos refugiados é necessária.


IHU On-Line - De acordo com seus estudos e experiência, como o refugiado define a própria identidade?

Peter Balleis -
Não sei se isso trata de uma identidade, mas os refugiados percebem que não são queridos ou bem-vindos, e que precisam de proteção. Eles não são integrados, são os estrangeiros. Essa é uma identidade dada aos refugiados pelos outros. Não é uma identidade que dão a si mesmos. Sua vida é marcada por esses elementos, que dependem dos outros pela proteção e muitos serviços. Os refugiados não têm a possibilidade de sustentar-se, mesmo porque seus parentes não trabalham e nos campos não se podem ter atividades econômicas. Para nós, que trabalhamos com esse serviço na Companhia de Jesus, esse serviço é algo muito importante no campo da educação. A educação traz uma perspectiva importante para os jovens não perderem tempo de escola; é uma chave para trazer-lhes esperança. Assim, temos um mundo com 250 mil a 300 mil jovens adultos refugiados em escolas, em programas de educação formal e informal em todo o mundo, desde o jardim de infância à universidade. Para dar esperança a esses jovens, iniciamos, recentemente, um programa de educação universitária online em campos de refugiados.


IHU On-Line - Tendo em vista os grandes movimentos migratórios na América Latina, como a sociedade deveria perceber o fenômeno da imigração e dos refugiados?

Peter Balleis -
A imigração é um mal em toda a história, inclusive na da América Latina, marcada pela imigração europeia e africana, com pessoas enviadas para realizar trabalhos forçados para esse continente. Às vezes esses movimentos não são sempre voluntários, livres de conflito. Vemos na história da Europa, da imigração da América Latina e do Norte que a imigração é normal na história da humanidade. A questão é saber como vamos dirigir, guiar esse processo para que não seja tão conflituoso entre a população local e os refugiados ou saber como podemos dirigir econômica e politicamente esses processos e não criar mais conflitos com minorias ou relações com racismo e xenofobia. Se o Brasil crescer muito economicamente, por exemplo, haverá paraguaios, bolivianos e pessoas de outras nacionalidades vindo se instalar no país para fazer parte desse processo, trabalhar. Como os brasileiros irão reagir a isso? Temos de entender que são fluxos de pessoas que se movem e não podemos evitá-los, dirigir e regular. Essa é a nossa realidade.


Mão de obra barata

O fluxo de migração é sempre sinal de um decrescimento e, como no caso da Alemanha depois da guerra, os 12-14 milhões de refugiados eram um grupo-chave da reconstrução desse país. Trabalharam motivados. Um estudo de um colega jesuíta na Alemanha mostrou que eles são os melhores, porque não querem criar nenhum problema. Aprendem rapidamente a língua para integrar-se, para trabalhar. Entretanto, o sistema capitalista sempre quer pagar salários mais baixos para eles e outros trabalhadores em situações semelhantes. Os europeus dificilmente aceitam trabalhos simples, mas os imigrantes aceitam os salários mais baixos, numa troca do mercado internacional, que cria formas de diferentes classes de empregados com condições normais, leais, sociais, e um grupo que não tem documentos ou permissão que trabalha por menos.
Nos Estados Unidos, por que o país não integra seus 12 milhões de trabalhadores migrantes? Porque a economia necessita deles. Os Estados Unidos e Europa falam que não querem refugiados, mas por outro lado necessitam de sua mão de obra mais barata. A Europa, com sua população mais velha, necessita de importação de população de jovens, com famílias. Ocorre que isso é difícil de aceitar porque exige uma integração cultural. Algo de que sempre gostei no Brasil, fascinante, é que com toda sua mistura de povos, foi criada uma população brasileira autenticamente, que é uma mistura. São pessoas inteligentes e criativas, que aprenderam que o Brasil tem algo que pode torná-lo o futuro do mundo. Isso é um processo, não podemos parar. O Brasil tem elementos muito mais dinâmicos do que países que têm elementos monoculturais.


IHU On-Line - Qual é a melhor solução para resolver o problema dos refugiados? Os países devem aceitá-los? Os países deveriam ter políticas para recebê-los?

Peter Balleis -
Os problemas dos refugiados não serão resolvidos sem antes resolver o problema da violência, com ideologias e sistemas econômicos agressivos. Isso vai criar novamente e sempre refugiados. O Ir. Paulo Welter,  jesuíta gaúcho, trabalhou em Angola por cinco anos, compreendeu o sistema de Luanda e dos países ali perto. Hoje Angola tem paz e relativa estabilidade e ajudamos a construir escolas. O importante para mim é o que vamos fazer agora por esses jovens que são do campo ou outras pessoas que podemos servir, fazendo algo importante nessa situação difícil de refúgio. Isso é importante e pode mudar a vida dessas pessoas, inclusive a realidade do país de onde vêm. Esperamos que regressem pacificamente e que não haja mais guerras. Na África do Norte há grande mudança, e não sabemos aonde isto vai parar.


IHU On-Line - Como o serviço jesuíta consegue mobilizar a ajuda humanitária para os refugiados?

Peter Balleis -
Isso não é tão difícil. Temos uma identidade de Igreja e da Companhia de Jesus, levando o Evangelho através do acompanhamento de pessoas, servindo-as e defendendo os direitos e as filosofias. Nosso trabalho é de ajuda humanitária para qualquer pessoa que tem necessidade e que podemos ajudar, independentemente de sua religião. Muitos de nossos assistidos não são cristãos, e muitos de nossos colaboradores são, também, de outras religiões. Podemos integrar isso, porque entendemos a base real da vida humana, das necessidades humanitárias – comer, estudar e viver dignamente. O que é importante é o respeito mútuo, inclusive entre religiões diferentes. Na realidade, somos preparados para isso. Há uma minoria que tem uma igreja, pessoas que valorizam valores e religião. Essa compreensão é importante no encontro que ocorre entre diferentes culturas e religiões.

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