Edição 361 | 16 Maio 2011

Internacionalização industrial e responsabilidade social. Uma equação difícil

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Patricia Fachin

A procura por mão de obra intensiva se dá em função da realocação da riqueza mundial e, por isso, as empresas estão sempre em busca de novos mercados, “até que o sistema se esgote”, constata Astor Hexsel

A demissão de mais de 800 funcionários e o fechamento da planta industrial da Azaleia em Parobé, na semana passada, trouxe à tona o debate sobre a responsabilidade social de empresas nacionais que investem cada vez mais na internacionalização, realocando a produção em países ou estados onde a mão de obra é mais barata. Segundo Astor Hexsel, ex-professor da Unisinos e da UFRGS, a internacionalização tende a ser uma tendência mundial porque “as empresas vão atrás de lucros, mercados e embutida a isso está a ideia de ter relações diversificadas de produção e não depender politicamente da economia de uma única região ou país”.

Para ele, os empresários têm consciência social. No entanto, a dinâmica do mercado e a concorrência acirrada dificultam o custeio de benefícios sociais aos trabalhadores. “Tenho visto que, quando as empresas estão faturando, oferecem benefícios sociais a seus funcionários (...) Entretanto, quando o mercado fica mais competitivo e outras empresas do setor não oferecem essas vantagens, os custos da empresa ficam mais caros”. Segundo ele, esse é um dos motivos que levam empresas nacionais a procurarem novos mercados e fechar plantas tradicionais como aconteceu com a Azaleia.
Em entrevista à IHU On-Line por telefone, o professor enfatiza que manter o padrão de vida e a segurança social é um desafio mundial. “Anos atrás, quando a economia era fechada, a França podia barrar a entrada de alguns produtos e manter os benefícios da produtividade interna, que eram distribuídos no estado de bem-estar social. Hoje, isso não é possível em função da expansão das vendas no mercado global (...) Então, para os países pobres e emergentes, essa ideia de produtos de mão de obra intensiva é uma realocação da riqueza do mundo. As empresas investem em outros países até o que sistema se esgote”.
Astor Hexsel é formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre pela Michigan State University e doutor pela Universidade de São Paulo - USP.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual o impacto do fechamento da Azaleia para a realidade socioeconômica da região do Vale do Paranhana?

Astor Hexsel –
O impacto do fechamento da Azaleia é forte dado o grande número de operários contratados pela empresa. Entretanto, para compreender este fato é preciso considerar que, certamente, o impacto é menor do que teria sido há anos atrás, porque a economia está crescendo. Então, ainda há a possibilidade desses desempregados serem absorvidos por outras empresas em expansão. O real impacto do fechamento da empresa vai depender da capacidade de receptação desses operários para novas funções.


IHU On-Line - Como vê o processo de internacionalização das empresas brasileiras como a Azaleia, por exemplo, que já comprou uma unidade na Índia? Quais as vantagens, desvantagens e consequências desse fenômeno para a economia nacional e local?

Astor Hexsel –
A mão de obra é diferente em vários lugares do mundo. Que bom se no Brasil tivéssemos os mesmos salários pagos na Europa. Se observarmos o contexto asiático e chinês, especialmente, veremos que a mão de obra é muito mais barata não só porque é abundante, mas porque o sistema governamental pressiona para que os salários sejam baixos e as jornadas sejam elevadas.
Dentro desse contexto, a saída para o Brasil é melhorar a produtividade e a capacitação, ou seja, pensar em novos produtos e processos de fabricação. A Alemanha, por exemplo, com exportações em 2010 quase iguais às da China, consegue crescer porque tem habilidade no desenvolvimento de produtos de custo menor e também de maior qualidade.


IHU On-Line - Como as empresas brasileiras podem alcançar esse estágio?

Astor Hexsel –
Só treinando, melhorando o desempenho. Um operário italiano que trabalha na fabricação de sapatos ganha muito bem. As empresas produzem calçados de maior qualidade e preço, por isso, permanecem no país. Entretanto, veja que os sistemas de aposentadoria na Europa estão sendo questionados não só porque a população está ficando mais velha, mas porque os chineses, por exemplo, trabalham com custos e preços menores. Como um país vai sustentar um sistema de bem-estar social se outros países, por diversas razões, pagam salários menores, o que viabiliza a entrada nos diversos mercados nacionais.


IHU On-Line – Mas quem deve assumir a responsabilidade social quando uma empresa resolve fechar uma planta nacional? A Azaleia recebeu incentivo público para se instalar no município e hoje o presidente da empresa argumenta que a indústria é vista como um processo migratório. Como analisa essa declaração?

Astor Hexsel –
No Brasil existem algumas redes de segurança e os trabalhadores recebem o salário-desemprego quando são demitidos, apesar de esses benefícios não serem suficientes. Essas questões de bem-estar social não devem ser tratadas como branco e preto. Por isso, o Estado deveria ter contas superavitárias para enfrentar essas situações de demissões. Mas, como não se dispõe desse planejamento, a questão social fica cada vez mais difícil.

A assistência social nas empresas é uma opção de cada empresário. Entretanto, tenho visto que, quando as empresas estão faturando, crescendo, oferecem benefícios sociais a seus funcionários. Um exemplo disso no Brasil é a A. J. Renner,  que ofereceu creche, saúde e inúmeros benefícios aos funcionários. Entretanto, quando o mercado ficou mais competitivo e outras empresas do setor não ofereciam essas vantagens, os custos da empresa ficaram mais caros e foi impossível manter determinadas garantias aos empregados.

Para garantir assistência social aos funcionários, deve-se ter uma ação coletiva e todas as empresas devem ter esse objetivo. Enquanto uma empresa está ganhando bastante dinheiro, ela sustenta a assistência social aos funcionários; do contrário, não é possível. Não quero excluir a empresa da responsabilidade social, mas o que acontece é um jogo de mercado.
 

IHU On-Line – Então as empresas estão perdendo condições de garantir benefícios sociais em função da competitividade? Como isso é possível, ao passo que elas produzem cada vez mais em regiões onde a mão de obra é mais barata e onde recebem mais incentivo fiscal?

Astor Hexsel –
Hoje os mercados ficaram mais competitivos e as inovações duram menos tempo. A empresa A. J. Renner iniciou suas atividades vendendo capas e depois avançou para o setor de trajes. Ocorre que mais tarde surgiram outras empresas concorrentes e, também, houve uma decadência no mercado de trajes. Resumo da história: os custos aumentaram e a empresa não conseguiu repassá-los adiante. Neste contexto, é difícil manter uma situação de bem-estar social.

Manter o padrão de vida é um desafio mundial atrelado à economia global. Anos atrás, quando a economia era fechada, a França, por exemplo, podia barrar a entrada de alguns produtos e manter os benefícios da produtividade interna, que eram distribuídos no estado de bem-estar social. Hoje, isso não é possível em função da expansão das vendas internacionais de países emergentes com mão de obra de custo menor. Por outro lado, há um paradoxo quando se observa o operariado chinês: sob certos aspectos, a mudança na China foi positiva para os trabalhadores porque antes eles não ganhavam nada e agora recebem um salário por mês. Então, para os países pobres e emergentes, essa ideia de produtos de mão de obra intensiva é uma realocação da riqueza do mundo. As empresas investem em outros países até que o sistema se esgote. Prevê-se que a África seja o próximo espaço para instalação de plantas industriais.

O governo autoritário chinês obriga as pessoas a trabalharem cerca de 10 horas por dia e em maior número de dias semanais. Então, como os países que dispõem de uma jornada de trabalho menor e pagam melhores salários vão concorrer com a economia asiática, que além de tudo está investindo em tecnologia? Na medida em que a China enriquecer, a sociedade começará a se democratizar e aí aparecerão sindicatos que pressionarão por salários melhores e o custo da mão de obra irá aumentar. Quem consegue exportar quando a mão de obra fica cara?

Os alemães, por exemplo, fabricam máquinas de polir talheres e, de dois em dois anos, lançam uma máquina nova que fará um trabalho ainda melhor ou com um custo mais baixo. A Tramontina, para manter a qualidade dos seus produtos, importa esse maquinário. Então, esse benefício da tecnologia fica dividido entre o cliente e a empresa. Fico impressionado com os alemães porque eles têm a jornada de trabalho mais reduzida, muitos feriados e, ainda assim, são o segundo maior exportador, um pouco abaixo da China, e o primeiro em exportação per capita.


IHU On-Line - As empresas têm consciência de sua responsabilidade para o desenvolvimento econômico e de bem-estar social?

Astor Hexsel –
Acho que a maioria das empresas tem consciência e preocupação social, sim. O empreendedor é uma pessoa de visão horizontal, mas nem sempre ele consegue resolver essas questões.
Do ponto de vista marxista, pode-se entender que os benefícios oferecidos pelas empresas são instrumentos de manipulação para “amaciar” os funcionários – e é isso mesmo.
Os empresários são movidos pela questão da concorrência e tratam de fazer a mão de obra trabalhar mais e melhor, objetivando aumentar a produtividade. Dentro desse ponto de vista, há uma tentativa de controle.


IHU On-Line - O que o fenômeno da internacionalização revela sobre as empresas nacionais?

Astor Hexsel –
As empresas, hoje, estão descompromissadas e argumentam, às vezes de forma extrema, que se não receberem incentivos irão à falência. No caso específico da Azaleia, a melhor solução é o Estado tentar receber os investimentos oferecidos à empresa na época. Se a empresa tem a responsabilidade de reembolsar o governo em um ou dois anos, acredito que esta seria uma solução razoável. Imagino que no contrato estabelecido entre as partes deve ter tido uma clausula de ressarcimento.


Novo conceito

Parece que a Azaleia, aos moldes da Nike, da Adidas e de muitas griffes está investindo mais em marcas, design e marketing, delegando a produção a terceiros. Sem dúvida é uma nova forma de fazer negócios, que possibilita uma maior expansão. O problema é que ainda estamos acostumados a pensar empresas como meios de produção. Entretanto, algumas empresas não produzem calçados, apenas investem milhões em design, em marcas, em propagandas no mundo inteiro e dominam os meios de comunicação. Neste contexto, como as empresas produtoras de calçados irão enfrentar esse mercado?


IHU On-Line – Pode-se dizer, então, que a indústria passa por uma nova fase no sentido de realocar os investimentos conforme a rentabilidade presente nas diversas posições da cadeia de valor?

Astor Hexsel –
Sim, mas não é sempre nas etapas de design e marketing. Veja por exemplo a Acer Computadores, que era especialista em montar PCs até o momento em que se deu conta de que a margem de lucros estava no desenvolvimento de chips, nas primeiras partes da cadeia de valor. Então, a empresa começou a produzir chips. Talvez a Azaleia esteja em um processo dessa natureza.


Baú da IHU On-Line

A IHU On-Line publicou outras entrevistas referentes à crise da indústria calçadista. Confira:

* Azaleia-Vulcabras-Grendene. Os custos, as perdas, as cobranças. Entrevista especial com Celso Tres, publicada nas Notícias do Dia, em 16-05-2011

* Azaleia, um 'case' frustrante. Entrevista especial com Achyles Barcelos e com João Nadir Pires, publicada nas Notícias do Dia, em 12-05-2011 

* Vale do Sinos em crise. Diagnóstico e perspectivas. Edição 225 da IHU On-Line, de 25-06-2007

* “O Vale do Sinos só não é um cluster sofisticado porque se subestima”. Entrevista especial com Carlos Paiva, publicada nas Notícias do Dia, em 05-05-2011

* Crise no setor calçadista brasileiro. Entrevista especial com Ênio Erni Klein, publicada nas Notícias do Dia, em 12-04-2007

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