Edição 360 | 09 Maio 2011

O salto qualitativo de João XXIII: uma síntese da ética social

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Moisés Sbardelotto

Segundo o frei dominicano Carlos Josaphat, na encíclica Mater et Magistra, João XXIII oferece aos fiéis e a todos os cidadãos uma mensagem grandemente original e com rara felicidade: uma síntese de ética social, essencialmente humana, elevada e movida por um notável elã evangélico

Em sua atitude de uma “fidelidade dinâmica”, João XXIII dá um salto qualitativo na encíclica Mater et Magistra, publicada há 50 anos. Para o frei dominicano Carlos Josaphat, lúcida e corajosamente, o então pontífice mostra que “o verdadeiro progresso do pensamento e da ação se manifesta no estudo cuidadoso do passado, na análise das aspirações e dos desafios do presente, no empenho de renovar o que se afirmou como válido e de inovar criando novas formas autênticas de vida pessoal e social”. Por isso, afirma, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, a Mater et Magistra “propõe uma rede bem tecida de valores de uma ética social em toda a sua universalidade”.

Mineiro de Abaeté, o dominicano Frei Carlos Josaphat, jornalista, teólogo, professor, escritor, entre outras atividades, tornou-se conhecido por suas posições no campo social, em São Paulo, nos anos 1960. Em 1962, fundou o jornal Brasil Urgente. Escreveu então um livro-manifesto: Evangelho e Revolução Social (Ed. Loyola, 1962). Por ocasião do golpe militar de 1964, foi “convidado” a deixar o Brasil. Doutorou-se em Teologia, com uma tese sobre Ética da Comunicação Social, orientada pelo Pe. Chenu e prefaciada por Hubert Beuve-Mery, diretor do Jornal Le Monde. Foi professor na Universidade de Friburgo, Suíça, durante 27 anos, da qual hoje é professor emérito. Nessa mesma universidade, fundou e dirigiu a coleção Estudos de Ética Cristã, com mais de 60 volumes publicados desde 1977.

É professor da Escola Dominicana de Teologia - EDT, de São Paulo, desde 1994, do Instituto Teológico de São Paulo - Itesp, da Pontifícia Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade de Minas Gerais, dentre outras. Além de diversas obras publicadas na Europa, é autor de inúmeras obras no Brasil, das quais destacamos as mais recentes, como Evangelho e Revolução Social (Ed. Loyola, 2002, reedição de aniversário dos 40 anos da obra), Evangelho e Diálogo Inter-religioso (Ed. Loyola, 2003), Falar de Deus e com Deus hoje (Ed. Paulus, 2004), Ética e Mídia: Liberdade, Responsabilidade e Sistema (Ed. Paulinas, 2006), Frei Bartolomeu de Las Casas, Espiritualidade contemplativa e militante (Ed. Paulinas, 2008) e Ética Mundial: Esperança da Humanidade Globalizada (Ed. Vozes, 2010).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Aos 50 anos da publicação da encíclica de João XXIII sobre a questão social, Mater et Magistra, que aspectos o senhor destacaria do documento e a quais fatos históricos daquele período eles se dirigem?

Carlos Josaphat –
A encíclica Mater et Magistra visa assumir, valorizar e atualizar a doutrina social da Igreja, comemorando o 70º aniversário da Rerum novarum e evocando as comemorações dessa encíclica de Leão XIII efetuadas por Pio XI e Pio XII. Toda uma primeira parte insiste em mostrar a continuidade e o caráter progressivo desse ensinamento social de inspiração evangélica e sempre atento à evolução histórica, social e cultural da humanidade.

Dentro dessa atitude de uma fidelidade dinâmica, João XXIII dá um salto qualitativo, oferecendo aos fiéis e mesmo a todos os cidadãos uma mensagem grandemente original. Ele mesmo insinua essa atitude lúcida e corajosa. O verdadeiro progresso do pensamento e da ação se manifesta no estudo cuidadoso do passado, na análise das aspirações e dos desafios do presente, no empenho de renovar o que se afirmou como válido e de inovar criando novas formas autênticas de vida pessoal e social. A Mater et Magistra pretende oferecer e com rara felicidade oferece uma síntese de ética social, essencialmente humana, elevada e movida por um notável elã evangélico. Ela aborda o conjunto das questões sociais, sob o ângulo da realidade do mundo moderno, analisando essa realidade de maneira mais precisa do que os documentos eclesiásticos anteriores. E, por outro lado, elabora os valores éticos, condensados, em sua última parte, na trilogia da “verdade, da justiça e do amor”, em contraste com as “ideologias truncadas e errôneas” que tentam estorvá-las ou pervertê-las.


IHU On-Line – O texto da Mater et Magistra é pontilhado por expressões como subsidiariedade, justiça, equidade, bem comum, convivência. Que moral política, econômica e social é proposta por João XXIII? Como suas ideias podem nos inspirar diante das desigualdades sociais do contexto contemporâneo?

Carlos Josaphat –
A mensagem da Mater et Magistra propõe uma rede bem tecida de valores de uma ética social em toda a sua universalidade, abrangendo as instâncias, as camadas e os setores da vida econômica, política, cultural, visando a exatidão e a prática operacional, eficaz desses valores. Os grandes princípios fundadores da dignidade da pessoa humana e do primado do bem comum se desdobram nas atitudes de uma convivência regulada pela justiça, pela solidariedade e pela responsabilidade. A equidade vem como coroamento da justiça, impelindo-a a não se contentar com os direitos estritos a dar a cada um, mas ajuntando a delicada atenção a ir mais longe do que o estritamente devido, mas que é conveniente para valorizar as pessoas e aprimorar a sociedade. O que dará à convivência um suplemento de tranquilidade e de paz. Igualmente, o apelo à subsidiariedade visa bem esclarecer a noção e o exercício do poder. Assim se traduz o empenho de evitar a concentração de poder, inserir a partilha responsável da autoridade e da responsabilidade, de maneira todos os cidadãos e todos os patamares da sociedade sejam bem integrados na prática da responsabilidade, o que desperta maior interesse pelo bem comum para o bem de cada um e de toda a coletividade, Essa é uma das características da mensagem social cristão, objeto de uma constante insistência da Igreja.

A globalização econômica e comunicacional dos últimos anos vem acentuar a oportunidade desse ensinamento social. A globalização não pode acarretar a concentração do poderio econômico e comunicacional. Ela é uma triste monstruosidade de uma tirania tecnológica. A Mater et Magistra aponta para esse fenômeno da globalização, que João XXIII descortinava como creste já nos anos 1960 (cf. n.47s). Daí as indicações insistentes sobre a necessidade de conciliar a iniciativa pessoal em sintonia com o desenvolvimento de um governo eficaz e razoavelmente planificado (n. 53s).


IHU On-Line – Chegando ao Brasil, quais foram as repercussões da encíclica nos contextos político, econômico, eclesial e social de então?

Carlos Josaphat –
Nem sempre se faz atenção à boa repercussão da Doutrina Social da Igreja na vida social e mesmo nas instituições políticas de nosso país. Assim, todo o belo tecido de nossas Constituições remonta ao trabalho dos católicos que, sob a liderança de Alceu Amoroso Lima, por movimento democrático, levaram o Congresso a adotar o essencial da mensagem da encíclica Quadragesimo Anno da nossa Constituição de 1934. A Mater et Magistra teve uma repercussão e influência enorme em nosso país. Foi acolhida com entusiasmo, foi estudada com carinho e de maneira profunda. Inspirou ou incentivou movimentos de trabalhadores no campo da indústria e da agricultura. De modo especial, comemoramos esse facho de luz e de energia que foi a Mater et Magistra, suscitando uma ampla militância democrática e social. Pessoalmente senti-me apaixonado por essa encíclica tão bem elaborada e realista em sua visão e nos programas que sugeria. Ela foi a grande inspiradora do movimento social de operários, estudantes e boa parte de nosso povo, clamando a necessidade de promover “todos os direitos para todos”, de que o jornal alternativo Brasil Urgente foi a voz calorosa antes do golpe de 1964.


IHU On-Line – Diz o papa que o ser humano é “o fim e o sujeito de todas as instituições” da vida social e por isso possui uma “dignidade sagrada”. É nesse princípio, segundo João XXIII, que se baseia a “doutrina social” da Igreja (n.218-219). Como esse princípio dialoga com a sociedade contemporânea? É possível sustentá-lo hoje, moralmente, diante dos desafios ecológicos?

Carlos Josaphat –
O papa evoca e põe em destaque este princípio: o ser humano é o fim e o sujeito de todas as instituições, sendo dotado de uma dignidade sagrada, isto é, inviolável. De fato, esse personalismo integral e solidário é o fundamento de toda ética social, e de maneira muito especial, da doutrina social da Igreja. Está aí o princípio da maior oportunidade, quando se considera a sociedade contemporânea, marcada e orientada por um utilitarismo individual e coletivo. Ela é dominada pelo primado das coisas, das mercadorias e da satisfação em possuir cada vez mais. É o famoso e danoso primado do ter, do aparecer, do dominar, sobre o ser, particularmente sobre o ser humano, que não tem preço, mas é o valor e o critério para apreciar todas as utilidades.

Pode-se reconhecer, nesse enunciado simples, uma das originalidades da doutrina social da Igreja, bem como a maior dificuldade que ela encontra para ser viável no mundo de hoje. O que significa que a sociedade se vê desviada não tanto por umas práticas de imoralidade, mas por uma falta absoluta de sentido ético. A missão da Igreja será não de pretender impor de qualquer forma um código de preceitos ou interditos, mas, sim, de empenhar-se primeiramente em despertar e educar o sentido ético, sobretudo, no campo social.


IHU On-Line – Para a concretização dos “princípios e as diretrizes sociais”, João XXIII propõe um “método”: ver, julgar e agir (n.235). Como se desdobra esse método? Ele ainda mantém sua atualidade na sociedade de hoje?

Carlos Josaphat –
De fato, nesta síntese tão simples e sucinta “ver, julgar e agir”, o papa condensou essa dupla dimensão da ética: de formular a escala de valores e de propor um método que torne eficazes esses valores. A trilogia do ver, julgar e agir faz a junção do princípio do ideal e do princípio da realidade. Justamente, um dos riscos da Doutrina Social da Igreja é de permanecer em uma universalidade abstrata, em um enunciado de princípios gerais, intemporais, fora de qualquer contexto. Assim se privilegia o julgar, multiplicando-se as condenações lançadas sobre a sociedade, sem analisá-la e sem discernir a estratégia adequada para orientá-la para o bem comum. Portanto, não se trata apenas de um método útil, mas necessário e urgente, dada a complexidade do mundo moderno.
Esse método foi em boa hora utilizado pelas Conferências Gerais do Conselho Episcopal Latino-Americano – Celam, desde Medellín, em 1968. É curioso que um dos grandes missionários da América Latina, Frei Bartolomeu de las Casas , já tinha encontrado e praticado um método semelhante, sintetizado em duas atitudes ou dois pontos: juntar “El hecho con el Derecho”. O que significa associar a análise da realidade (el hecho) e o discernimento dos valores para aplicá-los com justiça e justeza na situação bem apreciada (el Derecho). Sem dúvida, nessa busca da autenticidade, da qualidade do agir, e de uma estratégia verdadeiramente eficaz, está a essência da ética, particularmente da ética de inspiração evangélica.


IHU On-Line – A Mater et Magistra fundamenta-se em encíclicas anteriores (Rerum Novarum e Quadragesimo Anno) e também serve de fundamento para textos posteriores (Pacem in Terris e Gaudium et Spes). Como o senhor analisa, em traços gerais, as questões levantadas por esses documentos oficiais da Igreja e suas interconexões sobre a questão social?

Carlos Josaphat –
Verifica-se, primeiramente, que há uma intenção constante e profunda, nesse ensinamento. Ele visa apresentar a doutrina em seus princípios e suas normas, para, depois, inseri-la, na história e o relacioná-la com as situações e condições da humanidade, nas diferentes etapas de seu desenvolvimento. Diríamos: cumpre proclamar o Evangelho em toda sua força hoje, sabendo distinguir o que é primordial na mensagem cristã e o que é mais necessário nos tempos atuais. Por isso, pode-se afirmar: o grande valor, a força renovadora da Doutrina Social da Igreja está nesta aliança das exigências do amor evangélico, mais a inteligência bem aplicada em compreender a humanidade em marcha. Uma atenção especial merecem as grandes viradas históricas, os períodos de aceleração das mudanças nos costumes, nas mentalidades, na cultura, na ciência e na técnica.


IHU On-Line – Aproveitando o aniversário da Mater et Magistra e os 130 anos de nascimento de João XXIII, que avaliação o senhor faz da sua figura na história da Igreja? Qual o significado do seu papado e que legado ele nos deixou?

Carlos Josaphat –
As encíclicas citadas mostram logo de início um grande empenho de manter essa lei básica da sabedoria ética: bem sintetizar o que já foi ensinado até hoje, para bem escolher o que deve ser ensinado agora. A publicação recente de um Compêndio da Doutrina Social da Igreja (pelo Pontifício Conselho de Justiça e Paz) coloca em plena luz as raízes evangélicas dessa doutrina, sua plena conexão com as verdades fundadoras da Criação e da Redenção, bem como o empenho de realizar, de maneira constante e concreta, o Reino de Deus, anunciado e inaugurado por Cristo. Em uma fórmula muito feliz se introduz esse ensinamento como “um humanismo integral e solidário”. Este enunciado que faz a conjunção de Jacques Maritain e Emanuel Mounier manifesta o empenho de salvaguardar o que há de positivo nos valores e nas aspirações da modernidade, colocando-os em sintonia com o espírito e os valores evangélicos. Esse empenho torna cada vez mais atual a posição da Igreja sobre a questão social, tão complexa, tão movediça e à primeira vista tão enigmática.

O curto pontificado de João XXIII, um pouco menos de um quinquênio, resplandece como um dos grandes momentos da história da Igreja e da Humanidade. O lema desse papa sempre foi obedientia et pax (“obediência e paz”). O que significa a busca da maior perfeição e felicidade para todos – “A paz; em aliança com o esvaziamento de si, a conformidade do próprio querer com os planos da vontade divina – “obediência”. Na prática, daí resulta uma vida humilde, escondida, mas voltada para o que há de mais alto, de mais digno e de mais proveitoso para a Igreja e a Humanidade. João XXIII nada teve de autoritário. Sua preocupação foi, antes, ouvir, dar a palavra à Igreja. Tinha a convicção de que a verdadeira sabedoria de um pontífice não está tanto em falar, mas em fazer falar a Igreja. Foi audacioso, foi inovador, mas precisamente levando a Igreja a progredir, aceitando em um primeiro tempo, uma pluralidade de posições e atitudes. Pois confiava na eficácia do encontro, do diálogo, do conhecimento mútuo, o que leva os seres humanos, principalmente os cristãos, a se conhecer, a descobrir que somos uma caravana que há de marchar rumo à Verdade e ao Bem na força do Amor. Ele teve fé em Deus, em Cristo, no Evangelho, e também acreditou no ser humano. O pontificado de João XXIII evoca para nós aqueles papas que mereceram o nome de grandes, Leão Magno , Gregório Magno . E ousaria dizer que ele não perece no confronto com esses eminentes servidores de Cristo e da Igreja.


IHU On-Line – O último documento pontifício que aborda as questões sociais é a recente encíclica Caritas in Veritate (2009), de Bento XVI. Ao longo do tempo, que pontos foram corrigidos, aprofundados e ultrapassados? Que outras questões ainda merecem ser analisadas pela Igreja?

Carlos Josaphat –
A Doutrina Social da Igreja vai emergindo e resplandecendo no decorrer da história como um grande fato cultural, como uma contribuição da Igreja à marcha da humanidade em busca de autenticidade e de convivência harmoniosa. A própria Igreja reconhece que há um progresso em suas posições doutrinais e opções práticas no campo da política e da vida social em geral. A Doutrina Social só se tornou possível quando a Igreja foi libertada do poder temporal, que quase a identificava com os outros poderios do mundo. O Sumo Pontífice se irmanava aos chefes temporais quando se tratava de preservar ou defender os Estados pontifícios. Leão XIII pôde inaugurar uma apreciação positiva do mundo moderno, quando a Igreja conseguiu se desfazer de seus interesses temporais e, assim, julgar com serenidade as questões intrincadas do mundo moderno. O ponto essencial dessa libertação da Igreja está na compreensão do poder, não como dominação, mas como serviço. Tal é, sem dúvida, a maior insistência de Cristo no Evangelho, quando funda a Igreja e lhe confia a missão de levar a toda terra a mensagem e a graça da salvação.
Essa libertação inaugurada no pontificado de Leão XIII atinge o seu apogeu no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Gaudium et Spes. Acreditamos hoje que o futuro da Igreja e a eficácia na sua missão de evangelizar e de promover uma civilização do amor, tudo isso depende da sua opção eficaz por uma verdadeira colegialidade, em todas as instâncias da vida e da organização eclesiástica. Aquela atitude de João XXIII, de ser humilde no exercício do supremo pontificado e de acreditar no valor da Igreja como comunidade de fiéis, de bispos, de diferentes ministérios, particularmente dos teólogos, está aí o caminho da esperança para a Comunidade de Cristo, e para a humanidade à qual ela é enviada.


IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Carlos Josaphat –
Ajuntarei uma simples confidência. Ao ser revestido da missão e da graça do ministério sacerdotal, há 66 anos, tomei como lema: “Amou a Igreja e por ela se entregou”. Entendia eu que o sujeito do amar e de se entregar vem a ser, primeiro, o Senhor, e depois o servo envolvido por Ele. Amar a Igreja tal qual ela aí está e tudo fazer para que ela seja “a esposa sem ruga nem mancha”, “o sacramento da reconciliação universal”. É o jeito certo de contemplar a Misericórdia divina no Evangelho e na Comunidade evangélica, ontem, hoje a manhã, empenhada em anunciar o Reino dos céus e ajudar a construir a civilização do amor.

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