Edição 357 | 11 Abril 2011

FMTL: uma comunidade teológica mundial

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

Na avaliação do teólogo Roberto Zwetsch, a continuidade do Fórum Mundial de Teologia e Libertação – FMTL abrirá novos espaços de reflexão e criará uma comunidade teológica mundialmente aberta

“O FSM precisa ouvir a palavra da teologia se, de fato, almeja um outro mundo possível”, afirma Roberto Zwetsch, lembrando as palavras do sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, mencionadas em discurso no encontro que ocorreu em 2005, na capital gaúcha. Segundo Zwetsch, a participação teológica por meio do FMTL se justifica porque ela “empenha-se e se compromete a tratar de temais vitais que dizem respeito à realidade dos povos e ao futuro da humanidade”.

Zwetsch vê como positiva a inserção do FMTL no FSM e assinala que a interação entre os eventos é um indicativo “de que a relação está em processo de afirmação e construção de canais de diálogo mais consistentes”.
Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, o teólogo faz um balanço do último FMTL, ocorrido em Dacar, Senegal e fala das expectativas em relação ao encontro e às propostas elencadas pelos participantes, como a possibilidade de percebemos e adotarmos, de alguma maneira, o estilo de vida dos índios aymara. “Temos que mudar muito nossa maneira de pensar e de viver para compreender o que significa bem viver na ótica dos aymara. Caso contrário, será um debate sem repercussão na nossa maneira de viver e ver o mundo”, assegura.

Juntamente com a professora Dra. Cleusa Andreatta, da Unisinos, e com o professor Dr. Erico Hammes, da PUCRS, Zwetsch participará, nesta quinta-feira, 14-04-2011, do IHU ideias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. No encontro marcado para as 17h30min, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU, eles contarão as experiências vivenciadas em Senegal.

Roberto Zwetsch é professor de Teologia Prática e Missiologia das Faculdades EST, professor do Programa de Pós-Graduação e do Programa de Formação do Conselho de Missão entre Indígenas da IECLB. Participa do Conselho Permanente do Fórum Mundial de Teologia e Libertação representando a Comunidade de Educação Teológica Ecumênica Latino-Americana e Caribenha – Cetela e Faculdades EST. Possui muitos artigos publicados em revistas especializadas. Seu livro mais recente é Missão como com-paixão. Por uma teologia da missão em perspectiva latino-americana (São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2008).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como avalia a trajetória dos Fóruns Mundiais de Teologia e Libertação - FMTL ao longo dos anos? Como os objetivos e ideais do FMTL se transformaram?

Roberto Zwetsch –
Participei de três edições do FMTL, a primeira em 2005, em Porto Alegre, a terceira, realizada em Belém do Pará, em 2009 e, neste ano, em Dacar, Senegal. Em 2007, a Cetela - Comunidad de Educacion Teologica Ecumenica Latinoamericana y Caribe enviou um representante da Bolívia, o professor Ismael León, pentecostal e docente do Instituto Superior Ecumênico Andino de Teologia - Iseat. O surgimento do FMTL deve-se a uma necessidade concreta, sentida principalmente por teólogos da América Latina, mas também de alguns centros teológicos do primeiro mundo, de se criar um espaço de debate teológico que fizesse a interlocução com o Fórum Social Mundial. Lembro aqui principalmente os nomes do padre Sérgio Torres, do Chile, de Leonardo Boff e dos companheiros e companheiras de Amerindia. Cada edição tem suas ênfases e particularidades. Pela experiência realizada, diria que está cada dia mais difícil estabelecer as conexões, as pontes para um debate internacional, embora as novas mídias da informação facilitem a troca e o intercâmbio praticamente ininterrupto entre as pessoas e instituições que se colocam as questões que mobilizam o FMTL. Talvez isto se deva ao novo momento histórico que estamos vivendo e a novas exigências que emergem tanto da sociedade quanto do âmbito das igrejas. Entendo que, no processo dos diferentes fóruns, esta dificuldade sentida está sendo assumida e trabalhada na direção de fortalecermos as conexões entre os continentes por meio de redes de contato e ação. Ao mesmo tempo, estamos sempre mais conscientes de que libertação é um conceito plural que exige a formulação de distintas teologias de libertação. Isto em si não é novidade, mas traz consigo novos conceitos e novas abordagens que irão incidir fortemente nos debates e na busca por uma forma sempre mais contextualizada de fazer teologia no século XXI, sem perder a capacidade de dialogar com outros saberes e contextos.


IHU On-Line - Qual é o sentido do FMTL? Em que medida as discussões realizadas causam efeito para repensarmos, por exemplo, a relação da Igreja com os pobres, temas candentes como a fome, a miséria, e também aquilo que os índios aymara da Bolívia chamam de bem-viver?

Roberto Zwetsch –
Entendo que o FMTL é uma plataforma de encontro, debate, articulação e proposição da reflexão teológica internacional. Ele não é um fórum de igrejas ou de instituições acadêmicas, mas de pessoas e organizações que se articulam em função de caminhadas históricas com setores empobrecidos e discriminados das sociedades e países em que vivem. O FMTL tem procurado ser o mais amplo, aberto e ecumênico possível. Também tem sido uma característica não se deixar envolver pelas agendas das igrejas ou de instituições religiosas específicas. Por isto, por vezes, podem ocorrer tensões com setores das hierarquias ou outras instituições eclesiais. Por exemplo, quando o FMTL abre espaço para o debate de uma teologia para as pessoas homossexuais ou para debater as consequências do racismo na vida das igrejas. Também a causa ecumênica precisa ser mais debatida, pois o FMTL entende que, na conjuntura atual, é urgente abrir espaços qualificados para o debate com representantes de outras religiões que não o cristianismo. E aqui se pensa não apenas nas grandes religiões mundiais, mas também nos povos indígenas da América Latina e nas experiências religiosas dos afro-americanos ou dos povos africanos. Esta dimensão do debate inter-religioso e intercultural vem se firmando nos últimos tempos e será um campo para aprofundamento das pesquisas e das discussões nos próximos anos. Sua pergunta menciona temas candentes da atualidade. Eu acrescentaria como prioritário também a questão ecológica e as relações interculturais. Para compreender e dialogar com os aymara sobre o seu conceito de bem-viver , por exemplo, e incluí-los nos debates teológicos e filosóficos contemporâneos há um bom caminho pela frente, para o qual nem sempre estamos preparados. Quem consegue dialogar com os aymara na sua língua? Ora, conceitos não são meras abstrações, mas refletem experiências culturais e religiosas de vida que não são facilmente traduzíveis. Temos que mudar muito nossa maneira de pensar e de viver para compreender o que significa bem-viver na ótica dos aymara. Caso contrário, será um debate sem repercussão na nossa maneira de viver e ver o mundo.


IHU On-Line - Como vê a relação do FMTL com o FSM e sua contribuição para pensar outro mundo possível?

Roberto Zwetsch –
Trata-se de uma relação que vem acontecendo desde o primeiro FMTL realizado em 2005, em Porto Alegre. Não sou a pessoa mais indicada para responder à pergunta. O que sinto, porém, é que, da parte do Comitê Internacional do FSM, há um crescente respeito pela Teologia e pelas possibilidades que o debate teológico traz para aprofundar as dimensões sociais e políticas do lema que anuncia outro mundo possível. O fato de que em Dacar, pela primeira vez, conseguimos espaço e realizamos durante dois dias onze oficinas temáticas no Fórum Social Mundial já é um indicativo de que a relação está em processo de afirmação e construção de canais de diálogo mais consistentes. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Lembro aqui as palavras do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos,  em 2005, em Porto Alegre, ao falar na abertura do FMTL. Ele dizia que o FSM precisa ouvir a palavra da teologia se, de fato, almeja um outro mundo possível. Isto porque a teologia - na perspectiva da libertação – empenha-se e se compromete a tratar de temais vitais que dizem respeito à realidade dos povos e ao futuro da humanidade. No âmbito do FMTL não se trata de resolver questões dogmáticas ou confessionais. Antes, sua proposta diz respeito ao cânone da “vida” como escreveu Luiz Carlos Susin.  Diante da complexidade dos tempos atuais, em perspectiva mundial, um dos desafios é equilibrar os desafios do cotidiano da vida nos lugares de existência particular com a variedade típica dos contextos, e as questões globais que afetam toda a humanidade. Há fatos que, desencadeados num local, hoje rapidamente interferem na vida de todos e isto exige uma elaboração política, filosófica, social e também teológica. O FMTL não dará conta por si só desta tarefa, mas quer ser um espaço privilegiado para esta tomada de consciência e um momento de articulação teológica prospectiva. Com isto já respondo também sua questão sobe as perspectivas futuras do FMTL.


IHU On-Line - Que temas pertinentes o FMTL ainda não conseguiu abordar nesta década?

Roberto Zwetsch –
Um deles, sem dúvida, é e será o diálogo inter-religioso. Embora o IV FMTL tenha acontecido no Senegal, num país com mais de 95% de população muçulmana, não conseguimos, por diversas razões, realizar o diálogo pensado e imaginado com teólogos muçulmanos. Foi uma lástima, pois teríamos tido uma oportunidade rara para nos situarmos num debate respeitoso e propositivo na casa do outro, que nos acolheu com tanta generosidade, se lembramos como lá fomos recebidos. Além disso, teríamos tido a oportunidade de refletirmos juntos a presença de elementos das religiões africanas que hoje continuam a incidir no cotidiano da vida das pessoas daquele país. Uma experiência que nos marcou profundamente foi, em certos momentos de refeição, preparada por uma associação de mulheres de Dacar, comermos todos de uma mesma panela que nos era servida e da qual cada pessoa da mesa retirava a sua porção. Esta prática muito antiga dos povos africanos nos sensibilizou e nos desafia a buscarmos novas formas de relação entre as pessoas e as sociedades. Não por último questiona a forma cristã de nossas igrejas celebrarem a ceia do Senhor, que em sua origem era, de fato, uma refeição que saciava a fome de pão e de Palavra, e na qual, por meio de pão e vinho, o Senhor se fazia presente corporalmente.


IHU On-Line – Que aspectos apontaria como limites do FMTL?

Roberto Zwetsch –
Eles são evidentes se olharmos a composição da lista de pessoas presentes, que procurou reunir teólogas e teólogos dos cinco continentes, mas que ainda carece de maior representatividade. O FMTL é, na verdade, um modesto esforço de inserir a teologia no contexto do FSM, assumindo o compromisso de repensar o projeto histórico que deu origem à Teologia da Libertação , abrindo o debate para os novos desafios que continuamente batem às portas das igrejas e das instituições teológicas e que devem não apenas gerar pesquisa e publicações, mas se constituir como permanentes questionamentos para o nosso modo de fazer teologia. Se antes a opção pelos pobres orientou muito dos desdobramentos da reflexão teológica libertadora, hoje esta mesma opção precisa abarcar também outros desafios, sem abandonar aquela. Trata-se de incorporar no debate teológico as novas formas de luta política que surgem em diferentes lugares do mundo, a relação entre teologia e gênero, teologia e interculturalidade, teologia e pessoas com deficiência, teologia e racismo, temas e dimensões da reflexão teológica para os quais recém começamos a elaborar ferramentas e perspectivas adequadas de trabalho. O fato de em Dacar não termos conseguido fazer uma análise precisa do que estava e está acontecendo nos países árabes, de não sabermos como avaliar a revolução árabe e suas consequências para a nova conjuntura internacional nos próximos anos, demonstra que precisamos - com urgência - reelaborar nossos instrumentos de análise para que a reflexão teológica subsequente tenha os pés na realidade e – a partir do legado evangélico e da profecia bíblica – consiga lançar às comunidades de fé e à comunidade teológica internacional um desafio oportuno (kairós) e não apenas a reafirmação das próprias posições, o que, no final das contas, não nos levaria a lugar algum, muito menos a outro mundo possível.


IHU On-Line - De que maneira o FMTL repercute na teologia latino-americana e que avaliação se pode fazer do fórum de Dacar?

Roberto Zwetsch –
A repercussão, a meu ver, acontecerá à medida que os participantes latinoamericanos e as informações veiculadas nos diversos países de onde as pessoas presentes em Dacar procedem sejam incorporadas no afazer teológico e nas discussões locais. Evidentemente, temos de convir que a teologia latinoamericana conta atualmente com uma grande diversidade de sujeitos e temas em discussão. Um deles é a relação entre teologia e interculturalidade. Outros temas candentes são a relação entre teologia e economia (política), e teologia e ecologia, só para citar três neste momento (eu poderia mencionar as questões de gênero, o desafio das migrações mundiais, as questões da bioética e biodiversidade, e assim por diante). O que se debateu em Dacar – quem sabe – pode servir de estímulo para as pessoas no sentido de aprofundarem aspectos do seu afazer teológico que, até o momento, não receberam a devida atenção.

O fórum de Dacar serviu como um grande questionamento para nós todos que lá participamos. Como escreveu o colega frei L. C. Susin, por ser um processo em andamento, a continuidade do FMTL deverá considerar compromissos institucionais, eclesiais, contextuais, mas ao mesmo tempo, cruzar fronteiras, abrindo espaços de reflexão e articulação para questões novas e urgentes, criando uma comunidade teológica mundialmente aberta. Isto significa intensificar nos próximos anos a interação em rede, de forma sempre mais ecumênica e com grande abertura para o diálogo intercultural e inter-religioso. Nesse contexto desafiador, novos instrumentos deverão ser mais explorados, como a internet e as formas de relação propostas pelas redes sociais. A teologia do futuro, sem dúvida, trará desafios surpreendentes que neste momento apenas intuímos, e que ainda não conseguimos definir com mais precisão. Em suma, a teologia - em perspectiva libertadora - precisa assumir seu papel como interlocutora do sentido da vida, onde quer que se faça presente e onde a vida se encontra ameaçada. Uma teologia que reflita sobre a experiência religiosa a partir de processos de libertação e de luta pela vida, provavelmente, é a única possibilidade de que a teologia como tal tenha incidência nos processos históricos. E tal teologia não será jamais obra de pessoas iluminadas, mas antes o resultado de uma longa caminhada conjunta, comunitária, ecumênica e espiritual, lado a lado com outras pensadoras e pensadores, e as pessoas mais pobres e injustiçadas deste mundo. O agora saudoso padre Comblin , pouco antes de falecer, já nos alertava colocando uma incômoda pergunta que nos haverá de acompanhar por muito tempo: Onde estarão os profetas da igreja atualmente? Ainda há profetas? Onde estão? Saberemos acolher sua palavra crítica que chama à conversão?

Leia mais...

Ainda sobre o FMTL, que aconteceu este ano, em Dacar, confira a entrevista com a teóloga Cleusa Andreatta, no link http://migre.me/4cV2c.

Últimas edições

  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição
  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição