Edição 357 | 11 Abril 2011

O FSM e a radicalização da democracia

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Márcia Junges e Patricia Fachin

Revalorização da política como ação fundamental humana é um dos objetivos do evento que percorre o mundo, aponta Francisco Whitaker. As pessoas são seres sociais e corresponsáveis pelo conjunto, ideia que orienta as ações do FSM

Um espaço não apenas de protesto, mas de resistência ao avanço e dominação do liberalismo. Além disso, trata-se de “uma nova cultura política, em que se experimentaram novas maneiras organizativas baseadas fundamentalmente na horizontalidade das redes”. A explicação é do arquiteto Francisco Whitaker na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. “Ainda existem pessoas que defendem que o Fórum seja um movimento, mas está caracterizado que este é um espaço que deve continuar a existir, e que não deve se transformar em outra coisa que não seja esse espaço democrático e horizontal que possui”, assinala. Whitaker explica que a radicalização da democracia “não se trata somente da democracia representativa e política, mas da democracia econômica, cultural e social em geral. Radicalização, para nós, é elevar em todos os níveis a possibilidade dos cidadãos serem sujeitos dos seus destinos, de forma organizada e corresponsável”. A política precisa ser revalorizada como “ação absolutamente essencial ao ser humano”.

Francisco Whitaker é arquiteto por formação e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Atualmente, é socio-fundador da organização não governamental Transparência Brasil e cofundador do Fórum Social Mundial. Ele estará na Unisinos no dia 14 de abril para falar sobre o Fórum Social Mundial – trajetória, perspectivas e limites.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz da trajetória do Fórum Social Mundial - FSM? Que aspectos citaria como avanços e limites desta trajetória? O Fórum se transformou, mudou de estratégias ao longo do tempo?


Francisco Whitaker - O FSM é um processo que vai se concretizando à medida em que a sociedade e a conjuntura vão mudando. O Fórum, em si, não muda de estratégia, porque não é uma organização ou movimento, mas um espaço criado pelas organizações que acham que é importante se encontrarem com outras, se articularem e promoverem trocas com vistas ao objetivo final. Nesse processo, as próprias organizações vão encontrando novas pistas e a realidade vai mudando. Claro que, do primeiro fórum até agora, “muita água passou embaixo da ponte, e a realidade do mundo mudou. Entraram na discussão problemáticas novas, como a resistência do neoliberlismo, o protesto daqueles que se insurgem contra sua dominação.

O sistema capitalista como um todo continuou o seu avanço na dominação do mundo de forma total. Aqueles que o defendem e pretendem definir as estratégias das empresas e organizações governamentais que tocam o sistema, estão tendo que se abrir para outras realidades. Um indicador disso são os temas que o Fórum de Davos, que determinou a criação do Fórum Social Mundial, começou a abordar. Existe um mundo que está mudando. Temos que superar essa colocação segundo a qual o mercado resolve tudo. O Fórum de Davos transparece o que eles estão descobrindo. Davos incorporou várias questões que são levantadas no FSM. Uma delas, muito nova, é a questão ecológica. O Fórum em 2009 foi realizado num local simbólico, a Amazônia. Tudo isso são transformações que o processo vai incorporando, e o espaço Fórum vai se adaptando a essas transformações.

Limites

Não há limites na trajetória do FSM. Quanto mais claros e articulados vejamos e estejamos, mais poderemos avançar. O último Fórum, em Dakar, foi do ponto de vista organizativo um verdadeiro problema. Houve uma situação imprevisível, porque a universidade não pode ceder os espaços que havia se proposto. Assim, foi enfrentada uma grande confusão no primeiro dia. Contudo, a força de articulação foi tamanha que quase reconstruiu tudo “debaixo para cima”. Assim, há uma articulação crescente na sociedade daqueles que lutam para superar o neoliberalismo.
O Fórum não é somente um protesto, uma resistência ao avanço do neoliberalismo. Também é uma proposta por uma nova cultura política, em que se experimentaram novas maneiras organizativas baseadas fundamentalmente na horizontalidade das redes que constitui atualmente a dimensão do Fórum. O fato de se fazer atividades auto-organizadas além das outras que podem ser mais ou menos orientadas é um diferencial do FSM.

IHU On-Line - Como o senhor avalia o surgimento do Fórum em Porto Alegre e as proporções que ele tomou durante esses 11 anos de existência, tornando-se um evento global contínuo?

Francisco Whitaker - A escolha de Porto Alegre foi feita pelas organizações que propuseram o Fórum porque esse era um local onde ocorria um bom exemplo de um outro tipo de democracia, vivido em função do orçamento participativo. A partir daí é que houve um grande interesse mundial das pessoas virem a Porto Alegre para conhecer esse processo participativo. Dali para frente, no segundo fórum, foram abertas outras perspectivas. A vocação de Porto Alegre é continuar sendo a grande referência do FSM. Uma das ideias que surge entre os organizadores a nível mundial é que o Fórum ocorra a cada dois anos em diferentes lugares do mundo. No ano intermediário Porto Alegre pode sediar um grande evento. Essa é uma indicação que Porto Alegre tem o seu papel fundamental ligado ao Fórum.

Memorial

Há uma ideia de criar um grande memorial que não seja local apenas de passado, mas referência de futuro. Porto Alegre é quase um sinônimo de FSM. Então, por que não existir nessa cidade esse centro de referência? Trata-se de um evento global contínuo, porque o FSM é o momento forte do encontro, mas ele se dá em inúmeros eventos esparsos. Em Dakar, identificamos mais de 50 eventos, no ano de 2010, realizados mundo a fora, que vão na linha do FSM. Na verdade, então, esse processo só tende a se ampliar, pois está longe o dia em que essas loucuras do capitalismo irão parar.

IHU On-Line - Como o senhor vê a participação de políticos no Fórum Social Mundial?

Francisco Whitaker - A participação de políticos, desde o início, é bem-vinda. O que estabelecemos como limitação foi a participação de partidos políticos enquanto tais na organização de atividades no FSM. O mesmo se dá quanto às empresas, por melhor intencionadas que sejam. Governos e políticos não podem fazer atividades no fórum porque não queremos introduzir a competição que existe entre os partidos, pois esta existe em função da luta pelo poder. Se permitíssemos isso, estaríamos prejudicando o sentido de horizontalidade e igualdade de oportunidades, de não ter chefias nas direções. Todos são livres para optar pelo que quiserem. Outra orientação que temos é que os políticos podem vir, mas não devem falar na abertura ou fechamento dos fóruns, já que estes não são deles, mas da sociedade civil. Isso nem sempre acontece. Em Dakar, os organizadores convidaram tanto Evo Morales  quanto Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, para falar na abertura, o que considero um engano. Em Dakar, Evo disse que era filho do FSM, como quem diz que deve ao processo do Fórum a sua própria eleição. O FSM mobilizou as pessoas nessa esperança nova que ele quer trazer. Em Belém, montamos um evento no meio do Fórum, fora do evento, do qual puderam participar milhares de pessoas. Isso não atrapalhou nada. Pelo contrário, enriqueceu e trouxe a visão dos governantes daquilo que eles podem fazer. No fundo, obviamente, temos consciência de que o governo, pelo peso que tem, é essencial para superar as mazelas do próprio sistema capitalista. Precisamos contar com eles, mas não no FSM, mas da sociedade civil, novo ator que surgiu porque os partidos não deram conta da superação do capitalismo.

IHU On-Line - Entre um dos itens da Carta de Princípios do FSM, diz o seguinte: “As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de governos nacionais”. O Fórum é capaz de não submeter-se à institucionalização das estruturas governamentais?

Francisco Whitaker - O Fórum não é uma entidade, uma organização, não tem um corpo ou direção. Tem um conselho que sugere aqueles que irão organizar eventos. Esses, não devem se submeter a nenhuma diretiva governamental. Isso já foi uma condição para o primeiro Fórum, em Porto Alegre. Quando surgiu a ideia, os organizadores conversaram com o então governador Olívio Dutra e com o prefeito, trocando ideias para a realização do evento mundial; pediram ajuda mas solicitaram que não houvesse intervenção. Obviamente, os governos são sempre muito sedentos de tirar proveito dessas coisas para sua própria imagem. Mas essa sempre foi uma tensão que existiu e só pode resultar em não se submeter a nenhuma injunção governamental.

IHU On-Line - No último Fórum, o politólogo Eric Toussaint  alertou para a possível criação de uma “indústria do FSM”, em função da projeção do evento ao longo dos anos e destacou que ONGs “poderosas” estruturam grandes projetos em torno do FMS. Como o senhor vê essa manifestação? O Fórum pode perder seu caráter inicial?

Francisco Whitaker - Esse politólogo tem muita presença na África, e por isso foi muito importante em relação ao último FSM. Apesar dessas críticas, ele continua participando intensamente da organização do evento. Essa indústria do FSM mencionada é uma maneira de ver as coisas de forma equivocada. Muitas pessoas veem um “fantasma” das grandes ONGs, como foi o caso de Nairóbi. Lá se montaram estandes muito visíveis mostrando seu poderio. Isso foi criticado e denunciado. Na edição seguinte, tal fato não ocorreu mais. Todos os estandes, dali para diante, deveriam ter as mesmas condições. Mas dizer que as ONGs mandam é algo diferente. Um processo como o FSM pela enorme inovação que traz do ponto de vista da cultura política, cria tensões de todo tipo. Uma delas é aquela de que as pessoas acham que as mudanças serão feitas por movimentos sociais e as ONGs estão a serviço do sistema. Isso é equivocado. Os organizadores, assim como devem cercear a ação dos governos, devem fazê-lo junto às ONGs. A observação de Toussaint é equivocada.

Potencialidade

Quando iniciamos o FSM não tínhamos ideia sobre a potencialidade do processo. Sabíamos, mais ou menos, que era uma alternativa de resistência à dominação global e neoliberal. Como fazer isso fomos descobrindo aos poucos. A própria metodologia foi definida no processo. No primeiro, fizemos uma porção de mesas que nós mesmos convocamos. Na edição seguinte, não convocamos nenhuma mesa organizada por nós. Tudo que ocorria era auto-organizado, inclusive as oficinas, ateliês, etc. Na verdade, esse é um processo que fomos descobrindo e discutindo. Ainda existem pessoas que defendem que o Fórum seja um movimento, mas está caracterizado que este é um espaço que deve continuar a existir, e que não deve se transformar em outra coisa que não seja esse espaço democrático e horizontal que possui. Par nós isso ficou mais claro à medida que o tempo ia passando.

IHU On-Line - Militantes e intelectuais são os principais participantes do FSM. Nesse sentido, como o senhor vê a participação e a atenção que a sociedade civil tem dado ao evento?

Francisco Whitaker - Quando se fala em militantes nos referimos à sociedade civil. Não podemos pensar que o FSM traz todos os movimentos que existem. Virão a ele alguns poucos de fora do país, dirigentes daquele movimento ou organização. O pessoal do país pode vir mais em massa. Na África fiquei impressionado com a presença dos movimentos sociais em Dakar. Em Belém, foi notável a presença dos movimentos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Na Índia, houve uma participação de 120 mil pessoas, dos quais 20 mil eram os intocáveis, os dalits. Grande parte dos seus movimentos fez congressos dentro do FSM. Os movimentos aproveitam essa oportunidade para fazer seus grandes encontros. Foi um salto qualitativo que deram a partir do Fórum. Dali para frente as coisas se incrementaram. Dizer que intelectuais são os principais participantes do Fórum é um engano. A sociedade civil dá atenção ao evento enviando os seus militantes. Atividades auto-organizadas nas periferias constituem outro aspecto importante do Fórum, como o que houve em Dakar. As pessoas estavam conectadas, na periferia, com participantes do Fórum dentro da universidade. Fizeram encontros dessa natureza. Quem não é governo ou partido faz parte de organizações da sociedade. Essa sociedade se organiza de diferentes maneiras.

IHU On-Line - O fórum se propõe o debate democrático, aprofundamento de reflexões. Até que ponto o Fórum deveria também se comprometer com ações concretas? Como vê o comprometimento intelectual nesse sentido?

Francisco Whitaker - Essa discussão recai no problema se o FSM é um movimento ou um espaço. O FSM enquanto fórum, não tem que se comprometer, lançar um documento final. Isso foi um dos princípios discutido no início, e contestado, até. Tensões em torno desse assunto foram superadas. Se o Fórum quiser tomar uma posição de todos que nele estão presentes, obviamente isso será como sempre: haverá um grupo de “iluminados” que escreverá o documento, e que vão submetê-lo a 150 mil pessoas. Claro que isso não leva ao engajamento de ninguém. Não há um método para fazer com que 150 mil pessoas se pronunciem a respeito dum documento assim. Não temos documento final por essa razão.

IHU On-Line - Em que medida o Fórum implica em uma redescoberta da política e da democracia? O debate sobre a democracia radical é um tema em pauta nas discussões?

Francisco Whitaker - O problema da democracia é o problema da participação dos sujeitos. Para nós a radicalização da democracia não se trata somente da democracia representativa e política, mas da democracia econômica, cultural e social em geral. Radicalização, para nós, é elevar em todos os níveis a possibilidade dos cidadãos serem sujeitos dos seus destinos, de forma organizada e corresponsável. Todos assumem seu papel num processo que é de conjunto, mas todos como sujeitos, nunca como objetos. Essa discussão é subjacente a tudo que se faz no FSM. A metodologia do Fórum é uma metodologia de democratização.

A redescoberta da política é um grande desafio. Com o que acontece na nossa política, tanta gente acha que não adianta mais nada, que só os aproveitadores galgam os postos de representantes do povo. Temos que revalorizar a ação política como ação absolutamente essencial ao ser humano. Não fazer política é a mesma coisa que dizer que tudo fique como está. Isso significa que as pessoas não se interessam pela coletividade, mas apenas em suas vidinhas. Do ponto de vista de evolução humana, isso representa um retrocesso. O ser humano é um ser social, que não se relaciona, apenas, mas se corresponsabiliza pelo conjunto. Essa é a grande proposta que é subjacente ao método de ação política que propomos dentro do FSM.

IHU On-Line - Que futuro vislumbra para o FSM? Quais os limites e perspectivas para as próximas edições?

Francisco Whitaker - Após a desorganização do FSM em Dakar, fiquei com a sensação de que o Fórum tinha acabado. Depois daquela confusão e caos do primeiro dia, imaginei que ninguém mais voltaria. Após o esforço de tantas pessoas que viajaram para participar das atividades, encontrar aquela situação foi algo extremamente difícil. Acontece que a capacidade que as pessoas tiveram em reorganizar e refazer tudo foi impressionante. Então, as perspectivas futuras são amplas. O próximo Fórum, em 2013, está cogitado para ser feito na Europa. A Europa se direitiza de uma maneira incrível hoje. Os movimentos sociais europeus estão bastante perplexos em relação ao que fazer para que essa direitização não prossiga. Fazer um Fórum nesse continente é uma sacudida que se dará em tal realidade. Eu saúdo isso como uma jogada muito arriscada, em função da perplexidade que vivem os movimentos sociais frente ao cenário político do continente. Mas é o grande momento de revisão. Os fóruns temáticos, nacionais ou regionais, são instrumento novo para aprofundarmos teses e propostas que vêm num crescendo. O ano de 2011 iniciou com inúmeros eventos desse tipo.

Leia mais...
Francisco Whitaker já concedeu entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br)

•    As mudanças da geografia política atual. Entrevista especial com Francisco Whitaker, publicada nas Notícias do Dia 30-11-2010. Acesse no link http://migre.me/4cUPw.

•    O PT é o menos pior.Entrevista especial com Francisco Whitaker, publicada nas Notícias do Dia de 06-10-2006. Disponível em http://migre.me/4dRGm

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