Edição 355 | 28 Março 2011

A trama da vida: ensinamentos dos indígenas sobre a democracia

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Cleusa Andreatta e Patricia Fachin

Para compreender a verdadeira ecologia e viver em um mundo mais justo, temos de perceber que “somos parte de uma trama enorme da vida” e não os senhores do universo, alerta o teólogo Eleazar López Hernández

Descendente de uma família indígena zapoteca, o teólogo Eleazar López Hernández une seus estudos teológicos à prática indígena. Em tempo de crise civilizacional, ele diz que os povos indígenas podem contribuir para pensar um novo modelo social, baseado nos pilares de respeito à natureza e convívio comunitário, superando até mesmo a ideia de democracia. “Essa maneira de entender a relação a partir a oposição e ver quem ganha não ajuda. Afinal, sempre há vencidos. Na lógica indígena, tem de se construir o que se chama de consenso. (...) Quando conseguimos pensar assim, superaremos inclusive a lógica da democracia. A democracia é a maioria sobre as minorias. Mas há tais manipulações da democracia atualmente que uma minoria pode impor-se sobre a maioria. O que faz com que outros se obriguem à decisão de uma pequena minoria, aquela que os governa”.

Em Dacar, Senegal, Eleazar Hernández conversou com a IHU On-Line, ao participar da última edição do Fórum Social Mundial – FSM e do Fórum Mundial de Teologia e Libertação - FTML, em fevereiro. Ao recordar a história de seu povo, diz que o lema do FSM já está incorporado à luta de seu povo há milênios, mas agora, acrescenta, novas palavras ressoam de maneira especial, “porque há condições novas”.
Na entrevista que segue, concedida pessoalmente, o teólogo reitera a necessidade de a humanidade estabelecer outra relação com a terra e com os próprios seres humanos. “A ideia da Madre Tierra é fundamental para superar esta crise que vivemos atualmente. A terra é nossa mãe, é a casa comum onde podemos nos encontrar, onde podemos viver”. No mesmo sentido, argumenta, os homens não devem se olhar como opositores, mas como irmãos. “Isto nos levará necessariamente a pensar no bem do conjunto não no bem individual”.

Hernández nasceu em Juchitán, Oaxaca, no México, ingressou no seminário em 1961 e formou-se em Filosofia e Teologia. Também participou do primeiro curso de pastoral indigenista em Caracas, da primeira Conferência dos Povos Indígenas, em 1975, em Vancouver, da contribuição indígena para o Encontro de Puebla e de Santo Domingo, como conselheiro. Atualmente, trabalha no Centro de Auxílio às Missões Indígenas, no México, participa da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo e da equipe teológica Ameríndia.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você participou da oficina sabedoria dos povos indígenas e ética mundial. Como os povos indígenas se integram na proposta do Fórum Social Mundial - FSM de outro mundo possível?
Eleazar López Hernández - Nós, povos indígenas, viemos de uma longa luta. Nosso projeto de vida foi truncado no passado, no encontro com o mundo ocidental, porque destruíram nossa base econômica, destruíram nossa estrutura política, agrediram nossa cultura e nos impuseram outras formas de expressão religiosa. No entanto, como foi muito bem expresso na memória dos 500 anos, nossas raízes não acabaram. Elas estão aí. E dessas raízes está brotando, ao longo do tempo, nossa nova palavra que agora ressoa de uma maneira especial, porque há condições novas. As lutas indígenas são anteriores ao movimento do FSM e à Teologia da Libertação. Nesse sentido, quando nós encontramos conjunturas favoráveis, condições para que nossa palavra tenha eco, então, nesse momento, manifestamos e expressamos que o FSM tem sido um espaço de encontro com companheiras e companheiros de outros tipos de lutas. Cada um contribuiu com ideias e propostas. Então, nós dos povos indígenas dizemos: este é o momento de dar esta palavra e mostrar o que nós desejamos pode ser também uma palavra iluminadora com a qual se possa construir esse outro mundo possível.

IHU On-Line - Quais são as principais contribuições dos povos indígenas para um outro mundo possível, em sua compreensão?

Eleazar López Hernández - Justamente o tema que expus na oficina contém isto que chamamos de os pilares da proposta indígena, ou os eixos principais da proposta indígena. Um pilar fundamental é a relação com a terra. A sociedade ocidental coisificou a terra e a tornou um meio de produção. Portanto, o homem tem, segundo isto, o direito de fazê-la produzir, de forçá-la, de agredi-la com o propósito de retirar lucro, dinheiro. Esta é a base do capitalismo. Os povos indígenas, em seus mitos originais, sobretudo os do norte, da Mesoamérica pensam que a terra é a fonte originária de vida, portanto é um ser vivo. Ela nos transmite a vida, nos dá de comer diariamente e, portanto, não merece um tratamento como coisa, mas como pessoa. Ela tem direitos. Isto é sabido desde a origem de nossos povos. Na medida em que nós temos vivido ou tentado viver esta harmonia com a terra, temos atingido altas civilizações e desenvolvimentos.

A civilização maia, a civilização tolteca, a civilização zapoteca, de mais de mil anos, mostra que isso é possível. Quando nós não respeitamos esta relação harmônica com a terra, depredando-a, produz-se o caos. A ideia da Madre Tierra é fundamental para superar esta crise que vivemos atualmente. A terra é nossa mãe, é a casa comum onde podemos nos encontrar, onde podemos viver.
Há outros pilares que vão além de conceber-nos não como indivíduos soltos, mas como parte de um conjunto. E este conjunto é a família, a comunidade, o povo, que faz nos sentirmos irmãos. Este é um dos pontos esquecidos também na sociedade ocidental, na qual um olha para o outro como aquele que pode tirar-lhe algo: tirar meu espaço, meu trabalho, meu dinheiro, pode me agredir. O homem é para o homem um lobo.

Então tem de atacar. Este é um princípio posto na filosofia da ilustração. Mas, para os povos indígenas um ser humano é irmão de outro ser humano. Mas essa irmandade que nos rodeia nos faz ver que não somos estranhos, ninguém é estranho num povo. Aquele que chega é recebido como irmão. Pelo menos esta era a relação ideal que tínhamos. Por isso, recebemos assim aos conquistadores, porque para nós eram irmãos que chegavam, irmãos distantes, que não conhecíamos. Eram, portanto, presença de Deus. A palavra estrangeiro na língua naua é Teotl. E Teotl quer dizer: que vem de Deus. Então, se recuperarmos esta ideia de nos olharmos não como inimigos, não como opositores, não como adversários, mas como irmãos, isto nos levará necessariamente a pensar no bem do conjunto - não no bem individual. Mas se ainda incluirmos esta fraternidade com todo o ser vivo, as plantas, os animais, então estamos pensando em uma fraternidade com o conjunto da criação. Tudo o que façamos com a criação se favorece a vida, nos beneficiará. Se destruirmos a vida, vamos nos matar. Estas ideias que agora defende Leonardo Boff – e é bom que as defenda, porque ele é mais escutado que uma voz indígena – são antigas nos povos indígenas. Esta é a verdadeira ecologia: perceber que somos parte de uma trama enorme da vida e que somos uma partezinha, nós, seres humanos. Não estamos em cima, não somos donos, não somos os senhores do universo. Somos uma parte do universo e temos uma tarefa a cumprir.

Pilar comunitário

Outro pilar é o viver como assembleia, como comunidade. Isto implica, primeiramente, poder elaborar palavras de todos, não a palavra individual que choca com outra palavra individual. O diálogo no ocidente normalmente não é diálogo, porque não se passa através da palavra do outro, não se constrói com a palavra do outro. Mas no diálogo tenho de esperar que o outro termine para que eu diga minha palavra e tratar de vencê-lo com minha palavra, para ver qual palavra prevalece ao final. Essa maneira de entender a relação a partir a oposição e ver quem ganha não ajuda. Afinal, sempre há vencidos. Na lógica indígena, tem de se construir o que se chama de consenso. O consenso é a soma das palavras. Tua palavra e minha palavra mais a palavra de quem está ao lado e do outro fazem a palavra de conjunto, o consenso comunitário. Ninguém fica relegado. Quando conseguimos pensar assim; superaremos, inclusive, a lógica da democracia. A democracia é a maioria sobre as minorias. Mas há tais manipulações da democracia atualmente que uma minoria pode impor-se sobre a maioria. O que faz com que outros se obriguem à decisão de uma pequena minoria, aquela que os governa, que governa nossos países.

À medida que incorporo o outro, minha palavra é muito mais forte, minha proposta é mais sólida, porque ele contribuirá para que se realize. Do contrário, ele atacará minha proposta porque não está de acordo com a dele. Esta maneira de atuar por consenso pode ser muito difícil no momento atual, porque a sociedade é muito grande. Mas deve haver alguma maneira de pensar inclusivamente, e não exclusivamente.

Novas relações

Outro elemento que forma parte dessa mudança é o serviço. Nós estamos acostumados, na sociedade ocidental, a fazer coisas por um pagamento, um salário. Não estamos acostumados à gratuidade ou à reciprocidade.

Quando aprendemos a dar sem a pretensão de cobrar por isto, contribuímos para que os outros cresçam e, com isso, cresço também. Assim, mudaremos as relações, estabelecendo uma relação de fraternidade com os demais e também com o resto da natureza.

O outro elemento tem a ver com a festa, com o sentido festivo. A festa para os povos revelam sua expressão de vida e de esperança. Quando podemos celebrar algo ou chorar juntos uma situação, nós saímos fortalecidos. Com a festa, trazemos os mitos originais e originantes dos povos, das utopias, dos sonhos de nossos povos, e em um pequeno momento e em um espaço vivemos esta realidade com a comida, com a dança, com a música. Podemos cultuar um morto, podemos celebrar a vida. Sobre a tumba de nossos antepassados se pode celebrar o futuro que queremos. A festa tem um valor importante. Um povo sem festa é um povo com um espírito apagado. E isso se deve resgatar. Estes elementos que formam parte da proposta indígena podem também aportar-se ao resto da humanidade.

IHU On-Line - Com tudo isso que você falou, entendo que a experiência da fé cristã tem muitos desses elementos incluídos em sua tradição. Num diálogo entre as experiências cristãs e as indígenas, como você vê esse diálogo da teologia com estes elementos indígenas, você que trabalha especificamente com teologia índia?

Eleazar López Hernández - Nós, desde o princípio, há 500 anos, em que alguns missionários tentaram esse diálogo inter-religioso, afirmamos que não há oposição irreconciliável entre a proposta cristã e a proposta dos ideais indígenas. Mas os missionários não estavam preparados para isso. Não podiam aceitar que os indígenas tivessem muitos elementos que eles predicavam. Então, não puderam construir nada com este diálogo. Cortaram-no e afirmaram que o único Deus verdadeiro vinha de fora, o Deus cristão e que o Deus indígena devia desaparecer. Mas nossos povos não entraram nesta lógica. E estou falando dos povos que têm 500 anos de relação com as igrejas, sobretudo com a Igreja Católica. No âmbito do que agora chamamos de religiosidade popular, reconstruímos nosso mundo religioso em união com o cristão. Os santos cristãos inseridos no mundo indígena são, ao mesmo tempo, os deuses indígenas do passado. Aí está, a Virgem Maria assume o papel da Madre Tierra, a mãe que nos dá a vida. A reformulação do cristianismo e a chave indígena estão na religiosidade atual, que não é apenas indígena, mas também dos mestiços. Por quê? Porque nossa mentalidade é mais inclusiva e o pensamento ocidental é de exclusão.

Passado indígena


O novo anula o anterior. E neste caso o novo vem unido a ter vencido a guerra, pois o vencedor crê que tem direito a inserir sua religião. No passado indígena não era assim. Os indígenas não impunham sua religião, mas frequentemente uniam a proposta religiosa do que ganhava uma guerra com a proposta do vencido e, juntos, elaboravam uma proposta em que estavam incluídos todos. Isto, no momento atual, está renovando-se porque agora há, não apenas indígenas de base que vivem sua religiosidade popular, mas indígenas com cargos diretivo dentro da igreja. Temos sacerdotes, religiosas, diáconos. Inclusive alguns indígenas são bispos e desempenham este rol pastoral dentro da igreja.

Nós, agora, estamos impulsionando a renovação deste diálogo que iniciou no passado e voltamos a dizer que é possível encontrar-se no essencial a proposta cristã com a proposta indígena. Mas não tem sido fácil, porque a proposta cristã vem em uma bagagem cultural de uma racionalidade que é ocidental. No entanto, não se pode retirar desse recipiente o essencial para colocá-lo nos recipientes indígenas. O diálogo está se mostrando muito difícil. E é aí que nossos dirigentes em Roma, nas academias têm dificuldade para isso. Inclusive a Teologia da Libertação em sua origem não sabia o que fazer com as colocações indígenas, porque não temos a formação acadêmica para isso.

IHU On-Line – Vejo que se apresentam no Fórum vários teólogos e teólogas de origem indígena. Este vir de dentro da experiência indígena certamente contribui para avançar nesta perspectiva que você assinala?

Eleazar López Hernández - Sim. Acredito que é um kairós neste momento em que podemos contar com teólogos – e agora teólogas – indígenas que nós temos capacitado para dizer a nossos irmãos e irmãs por que nós cremos que não há oposição radical entre teologia dos povos indígenas e teologia cristã. Vários dos que estão aqui, participam dos diálogos formais dentro de nossas igrejas. Podemos dizer que estamos ganhando a partida, a luta, porque cada vez há um pouco mais de consciência de que é preciso pedir perdão pelas agressões e de olhar de outra maneira as construções teológicas de nossas igrejas para poder dizer: isto é da estrutura ocidental e isto é a essência do evangelho.

IHU On-Line - O problema é que não há uma essência do evangelho sem suas expressões culturalizadas.

Eleazar López Hernández - Em motivo dos cem anos de um famoso encontro de missionologia em Edimburgo, fez-se a avaliação de que é certo que os cristãos não levaram Cristo aos povos indígenas. Levamos nossos cristianismos, nossos “ismos”, ou seja, nossas diversidades teológicas pastorais ou litúrgicas, nossas estruturas e não levamos Cristo. Isto dividiu as comunidades. Então, temos uma cristandade dividida e este é o pior testemunho do que Jesus dizia: ser uno. Necessitamos superar estes “ismos”, estas particularidades de um cristianismo que é cultural para levar à essência e, assim, unirmos novamente as propostas dos povos.

Leia Mais...

Eleazar Lopez Hernandez já concedeu entrevista à IHU On-Line.

•    “Não basta salvar a nós, indígenas; é preciso salvar toda a humanidade e toda a criação”.

•    “Sumak Kawsay, Suma Qamana, Teko Pora. O Bem-Viver”. Edição número 340, de 23-08-2010.

•    “Os Guarani. Palavra e Caminho”. Edição número 331, de 31-05-2010.


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