Edição 355 | 28 Março 2011

Energia atômica, um grotesco mal-entendido

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Tecnologia capaz de gerar catástrofes que podem afetar a humanidade, a energia atômica deve ser deixada de lado, assegura o filósofo alemão Marc Jongen. Confiança ilimitada na capacidade humana de domar a técnica está com os dias contados

A humanidade deveria renunciar à hybris, à “presunção grotesca” da tecnologia nuclear, capaz de gerar catástrofes cujos resultados podem durar milhões de anos. “Já houve propriamente suficientes catástrofes para que cada contemporâneo pensante possa saber: a verdadeira lição consiste na renúncia a essas tecnologias”. As ideias são do filósofo alemão Marc Jongen, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “A energia atômica é um caso extremo daquilo que Peter Sloterdijk chamou de ‘alotécnica’: espoliação de matérias-primas por sujeitos rudes e brutais. Características essenciais da alotécnica são a rudeza de seus meios e a tendência destruidora de seus efeitos”, ponderou. Jongen analisa que os dias de confiança humana ilimitada na técnica estão chegando ao fim: “Também me parece que a ilimitada confiança na técnica entre as populações dos países desenvolvidos já tenha ultrapassado há tempo o seu zênite. O que não exclui a obstinada sobrevivência de restos incorrigíveis da velha mentalidade – precisamente entre as elites do poder”. Em seu ponto de vista, a “salvação” da humanidade passa pela reconstrução radical nossas tecnologias básicas. A respeito da sociedade do medo na qual vivemos, Jongen diz que esse sentimento indesejado é um mau conselheiro, mas seria interessante por fazer temer ante a energia atômica.

Marc Jongen é filósofo, professor na Staatliche Hochschule für Gestaltung, em Karlsruhe, na Alemanha. Seu principal interesse de pesquisa se refere à ação continuada dos mundos de pensamento e das programações culturais - religiosas e espirituais pré-modernas  - no imaginário e na realidade da civilização tecnológica. É organizador da obra Philosophie des Raumes. Standortbestimmungen ästhetischer und politischer Theorie (München, 2008) e Der göttliche Kapitalismus. Ein Gespräch über Geld, Konsum, Kunst und Zerstörung mit Boris Groys, Jochen Hörisch, Thomas Macho, Peter Sloterdijk und Peter Weibel (München: Fink, 2007).


Confira a entrevista.


IHU On-Line - Graças à técnica, o homem conquistou enormes progressos. Como mostra o exemplo da energia atômica, parece, todavia, que ele não possui controle absoluto sobre suas criações. Como o senhor avalia a construção pelo mundo afora de centrais atômicas, bem como os perigos e riscos de tais projetos e o medo global agora instalado?

Marc Jongen -
Nenhuma tecnologia é dominada por tão grotesco mal-entendido entre a gravidade e longevidade de seus efeitos, de um lado, e o equipamento psicomental de seu criador humano, de outro lado, como a energia atômica. Enquanto já quase fomos capazes de reprimir o acidente de Chernobyl após 25 anos, não só os setores infectados, mas também todo o lixo atômico das quase 400 centrais nucleares permanece por milhões de anos como risco mortal. Para tais dimensões, os horizontes de planejamento e ação humana, que foram tentados e realizados numa época de ampla impotência do homem em face da natureza, realmente não são adequados. A restrita capacidade das decisões políticas nas modernas democracias midiáticas e a tendência ao esquecimento da sociedade, induzida digitalmente, são fatores que ainda aguçam ulteriormente essa péssima situação. Considere-se o quadro dos Tepco-Manager  fazendo mesuras corteses na TV japonesa, os quais atuavam como moleques citados ante um professor, contra a força e duração da transposição continental de mídias e se tem todo o contraste ou contraposição.


“Presunção grotesca”

Se tentarmos imaginar-nos um ser que teria um direito de utilizar a energia atômica, então aparece, ante o olhar interior, um verdadeiro monstro em termos de consciência de responsabilidade e memória, e juntamente ainda com uma precisão técnica verdadeiramente sobre-humana e aparelhada contra uma exposição ao erro tendente a zero – de certa forma, portanto, o oposto do homem moderno. Ainda bem antes do que a este, seria possível confiar a uma cultura como à antiga egípcia um relacionamento adequado com a energia atômica – ela pelo menos ainda construiu suas pirâmides para milênios. Após o acidente dos reatores, condicionado por tremores de terra, de Fukushima, deveria vislumbrar também ao mais empedernido lobbista atômico, que se trata não só de uma impossibilidade ética – para não dizer, uma hybris, uma presunção grotesca – assumir por uma duração de milhões de anos a responsabilidade de uma radiação, mas que também uma avaliação bem sensata dos riscos deveria conduzir à total renúncia a essa tecnologia.


IHU On-Line - Em passagens anteriores o senhor escreveu que o homem é seu próprio experimento. O que manifesta, então, o experimento com a energia atômica sobre a existência e os desejos do ser humano? Será que ele deveria adaptar-se a tal ser pós-humano, do qual o senhor fala, a fim de adequar-se a essa tecnologia?

Marc Jongen -
De fato, algumas coisas prenunciam que a aventura humana, se ela não chegasse prematuramente a um fim catastrófico, assumirá futuramente formas pós-humanas. Um indicador para isso são tecnologias que agora cresceram acima da cabeça do homem e que ele só poderá conduzir a controle por uma metamorfose de sua estatura historicamente transmitida. Se precisamente a energia atômica pertence a tais tecnologias, pode, em todo o caso, ser posto em dúvida com boas razões. A energia atômica é um caso extremo daquilo que Peter Sloterdijk  chamou de “alotécnica”: espoliação de matérias-primas por sujeitos rudes e brutais. Características essenciais da alotécnica são a rudeza de seus meios e a tendência destruidora de seus efeitos. Isso já transparece de seu conceito, porque alo significa que “algo diverso” atua aqui sobre “algo diverso”; a energia atômica é tão radicalmente dessemelhante do ecossistema, no qual ela é inserida, que ela – sob pena de uma total radiação do meio ambiente – deve hermeticamente ser blindada contra isso.
O conceito contraposto a isso é a “homeotécnica”, na qual incursões humanas inteligentes podem de tal forma vir ao encontro de ocorrências da natureza, que se pode falar de uma relação cocriativa entre a técnica e a natureza. Sloterdijk considera a técnica genética como um procedimento homeotécnico – ver-se-á se isso é sustentável. Decisivo é: embora a alotécnica tenha desencadeado um processo de aprendizagem tão antigo como o mundo, no futuro somente a homeotécnica inteligente garantirá efeitos reais de aprendizagem. Aprendizagem alotécnica significa aprender de catástrofes – e agora já houve propriamente suficientes catástrofes para que cada contemporâneo pensante possa saber: a verdadeira lição consiste na renúncia a essas tecnologias. Para retornar ao postulado “super-homem” que teria amadurecido para a energia atômica, precisamente ele haveria de renunciar paradoxalmente à sua utilização. Isso evidentemente não significa que deveríamos primeiro tornar-nos super-homens para fazê-lo. Já seria suficiente adequar os cálculos econômico-financeiros dos riscos às situações reais e impor aos seus causadores os custos reais subsequentes a possíveis acidentes de reatores nucleares. Isso por si só já levaria imediatamente à sucumbência a ulterior exploração da energia atômica e mais ainda: ao espontâneo desmonte das centrais existentes pelos seus próprios promotores.


IHU On-Line - O homem desenvolveu uma confiança ilimitada na técnica, como se por ela fosse possível submeter absolutamente tudo no universo. Poderíamos, a partir disso, falar de uma ontologização da técnica?

Marc Jongen -
O fantasma da sujeição da natureza pertence ao mencionado paradigma alotécnico que, no início da chamada modernidade – com René Descartes , Francis Bacon  e outros – chegou ao poder e que hoje se encontra em seus últimos fôlegos. Ao lado de uma irrestrita destruição da natureza em andamento já podemos, hoje, observar de múltiplas formas como se passa de uma submissão a uma cooperação ou a um “diálogo” com a natureza. Também me parece que a ilimitada confiança na técnica entre as populações dos países desenvolvidos já tenha ultrapassado há tempo o seu zênite. O que não exclui a obstinada sobrevivência de restos incorrigíveis da velha mentalidade – precisamente entre as elites do poder.

A questão decisiva é se o velho paradigma no caso específico ainda arrastará o mundo consigo para o abismo - esta seria a saída pensável mais trágica -, ou se ainda temos tempo para implementar, mesmo técnico-praticamente em ampla frente, as melhores perspectivas que teoricamente já estão disponíveis a tempo. Assim, ou assado, vale o seguinte: a técnica é o destino. História da técnica e história do ser – para usar uma expressão de Heidegger  – estão há muito tempo inextricavelmente interconectadas. De modo diverso do que Heidegger ensinava, nós não deveríamos esperar num “Deus salvador” que nos conduziria a uma era sem técnica. Porém, reconhecer que “a salvação” só pode emergir de uma radical reconstrução de nossas tecnologias básicas. A convivência harmônica de técnica e natureza que, em época pré-moderna repousava em parte sobre uma sabedoria intuitiva e em arte simplesmente sobre a falta de capacidades, deve, na pós-modernidade, ser novamente estruturada segundo o grau de explicação da mais avançada e precisa ciência. Os rápidos progressos que fazem atualmente as tecnologias desenvolvidas para obtenção de energia a partir de recursos renováveis fornecem, nesse contexto, motivos para esperança.


IHU On-Line - Como o senhor entende o contemporâneo medo ou temor humano no contexto do acidente nuclear do Japão? A sociedade atual pode ser caracterizada como uma sociedade do medo?

Marc Jongen -
Como disse de início, a dimensão temporal atual da energia atômica colide de maneira mais crassa com a volátil inconstância e constante aceleração da vida moderna. O performativo filósofo alemão Bazon Brock  chega a ponto de dizer que o irradiante lixo atômico é o único, após a morte de Deus, que ainda nos intermedia um conceito realista de eternidade. Para tornar isso manifestamente consciente, Brock planeja uma procissão em homenagem ao lixo atômico e uma refuncionalização dos depósitos atômicos finais para templos da eternidade que ele preferiria instalar no centro das cidades. Esta ação amargamente irônica, motivada pela ira esclarecedora sobre a loucura das atuais situações, lembra o recentemente falecido artista alemão Christoph Schlingensief , que há alguns anos causou sensação com o projeto “Igreja do pavor”. Juntando ambos os projetos – portanto, um culto ao irradiante lixo atômico com base no temor – tornam explícita, num refinamento caricatural, algo como a secreta religião civil da “era atômica”. Aí vão bem longe as analogias com as religiões tradicionais: Deus era aquele que pode ameaçar de modo crível; logo que essa ameaça não produz mais medo, uma religião está condenada ao naufrágio.
Também se o temor é um sentimento indesejado e, acima de tudo, em sua forma de pânico, um mau conselheiro, dever-se-ia, assim o creio, desejar à igreja atômica do temor o maior número de adeptos em todo o globo terrestre. Trata-se, pois, do primeiro culto que tem como objetivo a remoção de seu patrão coagente. Acontece que no momento atual o problema consiste em que ainda conseguimos demasiadamente bem abafar e reprimir os temores bastante fundamentados ante a energia nuclear. Enquanto ainda está em andamento a catástrofe no Japão, observa-se como já se passa nova e apressadamente à ordem do dia. Se a Alemanha fosse capaz de exportar ao Japão e a outras regiões do globo algo de sua famosa Angst (medo), então ela teria reparado novamente pelo menos uma parte do dano que ela provoca por suas exportações atômicas. Eu pressuponho, nesse contexto, que essa Angst (essa angústia ou temor) não nos paralisará, mas nos motivará à mais rápida e plena adequação ao uso de energias renováveis. A sociedade a elas adequada substituirá o sentimento básico de Angst por cautela e serenidade.


Leia mais...

>> Marc Jongen já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

A novidade da nossa época: temos um poder criador semelhante a Deus. Entrevista publicada na IHU On-Line número 200, de 16-10-2006

Últimas edições

  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição
  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição