Edição 353 | 06 Dezembro 2010

“O ubuntu é ‘liberdade indivisível’”

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Por Moisés Sbardelotto | Tradução Luís Marcos Sander

Para me envolver com o Outro como sujeito, como indivíduo livre como eu mesmo, como outro ser humano, eu também tenho de me tornar sujeito, reconhecendo nossa sujeição comum à história, à contingência e ao destino, explica o teólogo norte-americano Charles Haws

A partir da ótica do ubuntu, a liberdade e a autonomia do indivíduo andam de mãos dadas com a responsabilidade pelos outros. É por isso que “ubuntu significa principalmente a interconexidade dos seres humanos”, ou seja, seres fundamentalmente livres em relação – uma liberdade indivisível.

Para o teólogo norte-americano Charles Graham Haws, essa relação entre sujeitos livres ocorre a partir do momento em que eles reconhecem sua “sujeição comum à história, à contingência e ao destino”. “Não existe um eu singular que preexista a nossas relações com os outros. Sempre existimos tanto no singular quanto no plural”, sintetiza.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Haws também aborda as relações entre o ubuntu e o cristianismo. Para ele, “o ubuntu nos ajuda a compreender a noção de ‘comunidade cristã’, lembrando-nos de um tipo de kenosis na busca da justiça”, explica.

Além disso, o ubuntu nos ajuda também a compreender nossas relações com outros “sujeitos” não humanos. Segundo Haws, “para que o ubuntu não se associe ao mito da predominância da humanidade sobre a natureza ou l’animot (como escreve Derrida), ele não pode se limitar a dizer que o humano só pode se sentir plenamente humano em relação com a humanidade apenas”.

Charles Graham Haws é formado em filosofia e ciências religiosas pelo Carson-Newman College, no Tennessee, dos EUA. Também é mestre em teologia pela McAfee School of Theology, da Mercer University, de Atlanta, nos EUA, com a dissertação Re/writing Tradition and the Tradition of Re/writing: The Crucified God as the Foundation and Criticism of Christian Theology. É membro da American Academy of Religion e da Society of Biblical Literature. Dentre outros, é autor do artigo Suffering, Hope, and Forgiveness: The Ubuntu Theology of Desmond Tutu, publicado no Scottish Journal of Theology.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as noções centrais para se compreender o ethos do ubuntu?

Charles Haws –
Ubuntu significa principalmente a interconexidade dos seres humanos, que é uma determinação da compreensão dos seres humanos como seres fundamentalmente livres – livres, por exemplo, de qualquer limitação fora da pessoa individual. Como o traduz a proverbial expressão xhosa, ubuntu ungamntu ngabanye abantu, “a humanidade de cada indivíduo está idealmente expressa na relação com outros” ou, se me é permitido parafrasear Tutu, o ubuntu é “liberdade indivisível”. É justamente essa tensão que me intriga em relação ao ubuntu e que chama a minha atenção, algo que também Robert Orsi  comunica no último Harvard Divinity Bulletin. Para me envolver com o outro como sujeito, como um indivíduo livre como eu mesmo, como outros seres humanos, eu “também tenho de me tornar sujeito” através do “reconhecimento de nossa sujeição comum à história, à contingência e ao destino” . Eu tenho de reconhecer minha própria liberdade indivisível, de que eu sou quem eu sou em relação com outros. Envolvemo-nos com o mundo, continua Orsi, através das circunstâncias dentro das quais nos encontramos junto com eles – é assim que eu compreendo o ubuntu.
Também é importante reconhecer que o ubuntu é um termo sul-africano que representa um ethos africano polissêmico humanista e religioso. Variações do conceito proliferam nas línguas banto, que se multiplicam na África central, oriental e meridional. Elas geralmente expressam comunitariedade, respeito, dignidade e generosidade.


IHU On-Line – Qual a contribuição da teologia do reverendo Tutu  para a compreensão do ubuntu?

Charles Haws –
Uma compreensão popular do ubuntu em evidência hoje deriva do uso do conceito como nome de um sistema operacional de código-fonte aberto desenvolvido pela Linux  . O sistema é movido por uma filosofia de software livre. De fato, como visa a difundir e a levar os benefícios do software para todas as partes do mundo, a filosofia ubuntu expressa pela Linux enfoca a liberdade, a liberdade de “baixar, rodar, copiar, distribuir, estudar, compartilhar, mudar e melhorar seu software para qualquer propósito, sem pagar taxas de licenciamento”; de “usar seu software na língua de sua escolha”; e de “usar softwares mesmo que trabalhem sob uma deficiência” .

A compreensão popular apresentada pelo software da Linux dificilmente constitui a concepção robusta que Tutu tem do ubuntu. Sua teologia se concentra não na liberdade de indivíduos, mas na interconexidade desses indivíduos ou, como eu disse acima, na “liberdade indivisível”. É isso que me atrai tanto no conceito, no seu potencial: o fato de compreender a liberdade em relação a certo tipo de unidade, um tipo de unidade cuja possibilidade não reside na mesmidade, mas na justiça. É isso que Tutu diz em Hope and Suffering (p. 23): “Para que haja unidade, ela deve se basear, em última análise, no valor da justiça”.
Agora, o ubuntu avança rumo à justiça, não à vingança; ele se dirige rumo à restauração, não à retaliação. A teologia de Tutu entrelaça o ubuntu no tecido da história cristã, afirmando que Deus criou a humanidade indissoluvelmente interconectada. A declaração do ubuntu é a declaração de uma esperança transformadora, uma esperança por reconciliação e sua concretização em meio à vida humana, que está fragmentada e repleta de injustiça.


IHU On-Line – Para o senhor, “a teologia do ubuntu de Tutu é desafiadora para a compreensão dominante da teologia ocidental”. Por quê?

Charles Haws –
O ubuntu se distingue tanto do individualismo cartesiano quanto do coletivismo homogêneo da submissão à “vontade geral” de Rousseau . Em A democracia na América, De Tocqueville  compara o pai da filosofia moderna, Descartes , com o pai do protestantismo, Lutero , satirizando: “Quem não percebe que Lutero, Descartes e Voltaire  empregaram o mesmo método?”. Seu método comum de dependência de si mesmo, expresso em uma desconsideração geral pela comunidade e tradição, passou a ser uma parte central não só da ideologia americana, na qual De Tocqueville se concentrou, mas também da teologia ocidental. A esse individualismo do Ocidente, contrapõe-se a ideia da “vontade geral” de Rousseau: o indivíduo se submete à república aderindo ao contrato social, e o contrato social representa a conformação ou homogeneização dos interesses individuais em interesses coletivos. O indivíduo transfere seus direitos à comunidade para suprimir a anarquia e alcançar segurança da vida e da propriedade; seu propósito é formar uma sociedade a que ele se submeteria completamente.

De acordo com o ubuntu, nenhuma dessas opções combina satisfatoriamente a liberdade e a autonomia do indivíduo com sua responsabilidade pelos outros; nenhuma das opções o chama a assumir o fato de ser livre somente na medida em que está interconectado, e que sua liberdade é inseparável de sua busca por justiça. De fato, a compreensão teológica do ubuntu por parte de Tutu afirma que Deus criou a humanidade indissoluvelmente interconectada. Mas o individualismo prolifera em muitas teologias ocidentais, tanto acadêmicas quanto eclesiais: elas tendem a centralizar o indivíduo em termos de experiência religiosa – o indivíduo tem uma revelação pessoal, muitas vezes inexplicável – ou em termos de autoridade religiosa – o crente individual é responsável diante de Deus por sua aceitação ou rejeição do evangelho. O ubuntu enfoca não só a divisão de indivíduos, mas também a divisão de grupos, a confrontação de grupo contra grupo.
Tutu acreditava que esse era o caso da Igreja sul-africana branca na questão do apartheid, cuja cumplicidade se refletiu fortemente nas convicções teológicas da Igreja. Se a Igreja sul-africana branca não se considerava responsável por intervir, por condenar a sistemática segregação do apartheid, então ela não tinha qualquer percepção de sua conexidade com os negros.


IHU On-Line – A partir da ética do mundo, como é possível compreender a importância e o sentido da reconciliação e da justiça?

Charles Haws –
Citando Derrida , poderíamos dizer que a afirmação da conexidade em meio ao apartheid por parte de Tutu – que os africânderes  não estavam livres dos povos xhosa ou zulu (ou vice-versa) – era efetivamente desobediência civil, “não desafio da lei, mas desobediência com relação a alguma disposição legislativa em nome de uma lei melhor ou superior” . A lei superior do ubuntu é a justiça em um sentido total e restaurador, não parcial ou retributivo. A “ética” ubuntu pressupõe a reconciliação na medida em que define justiça em termos de socialidade, de relação com o Outro; para alcançar a justiça, especialmente em contextos repletos de divisões, é necessário restaurar as relações entre o meu próprio “eu” e o meu próprio Outro. A justiça definida dessa maneira equivale à lei superior que o ubuntu quer continuamente nos trazer à lembrança.
Assim, em uma era de terrorismo globalizado, da exploração de sociedades abertas e da tentativa de afirmar (embora de maneiras calculadas) as regras da lei democrática e dos direitos humanos, o que o ubuntu busca? Como professor visitante do programa “Semester at Sea”, durante a primavera de 2007, Tutu discutiu o clima de medo existente nos EUA depois do 11 de setembro – uma terrível atmosfera de insegurança. Mas Tutu tinha a esperança de que os norte-americanos veriam sua segurança vinculada com a segurança de todos os demais. Lembro de assistir aos acontecimentos do dia 11 de setembro na televisão da sala de aula, estupefato e atônito, junto com todos os meus colegas, praticamente sem entender o que estava acontecendo. Qualquer que tenha sido a justificativa para começar a Guerra no Iraque, a presença norte-americana no Oriente Médio se concentra agora no “terrorismo”, em desmantelar suas raízes para que seus ramos não alcancem as praias norte-americanas de novo.
Não faço parte da geração de norte-americanos que seguiu Bush para o Iraque. Mas faço parte da geração de norte-americanos que precisam lidar com suas consequências, a herança do 11 de setembro e de um clima internacional de radicalização e antecipação. Se o ubuntu realmente é um conceito robusto, devo perguntar qual é seu papel nesse contexto. Como os “interesses nacionais” do “meu” país se relacionam com o ubuntu? Com que Outro os EUA estão relacionados e por quem são responsáveis? O que significaria se, olhando pela ótica do ubuntu, os EUA “não se sentissem ameaçados pelo fato de outros serem capazes e bons” e “se situassem em um todo maior e fossem diminuídos quando outros são humilhados ou diminuídos, quando outros são torturados ou oprimidos” ?


A autonomia luterano-cartesiana mencionada anteriormente impregna o sujeito humanista, pois, como “o ser humano é a medida de todas as coisas”, ele é o autor de todos os sentidos e tem o domínio sobre si mesmo e seu mundo. Heidegger  questiona essa tradição no Ocidente: “Pelo fato de estarmos falando contra o ‘humanismo’, as pessoas temem uma defesa do desumano e uma glorificação da brutalidade bárbara. Pois, o que é mais ‘lógico’ do que isto: quem nega o humanismo, não lhe resta senão afirmar a desumanidade? (...) Deveria estar mais claro agora que a oposição ao ‘humanismo’ de forma alguma implica na defesa do desumano, mas, ao contrário, abre outras perspectivas”.

De fato, o apartheid seria a brutalidade desumana e bárbara a ser denunciada, e o ubuntu ofereceria um “humanismo” alternativo ao sabor do apartheid, de gosto amargo. O ubuntu criticaria o sujeito humanista como dominador e autônomo – no caso do apartheid sul-africano, o africânder como superior – definindo o “sujeito”, pelo contrário, como relacional... Junto com a obra de Lévinas , Derrida, Nancy  e outros, o que eu encontro no ubuntu é um tipo de movimento duplo que “não converte a relação anárquica e assimétrica com o Outro na visão sinótica da totalidade social, nem institui um novo princípio de justiça baseado no ideal comunitário dos valores morais compartilhados” .

Voltando a Heidegger, uma das percepções mais importantes e temáticas centrais de Jean-Luc Nancy é que os indivíduos de forma alguma estão fundamentalmente separados um do outro, o que é muitíssimo semelhante à concepção de Heidegger a respeito de Mitsein [“ser-com”] em Ser e tempo (1929). Apesar da radical dissolução da comunidade na era pós-moderna, Nancy amplia sua perspicácia filosófica para nos lembrar de nossa existência singular-plural – que sempre-já existimos em relação uns com os outros. Não existe um eu singular que preexista a nossas relações com os outros; sempre existimos tanto no singular quanto no plural; seres singulares existem apenas em uma “socialidade” original. Essa é a ideia do conceito de compearance – que considero muito semelhante ao ubuntu em sua acepção mais básica – que aparece em The Inoperative Community (1991) de Nancy, no ensaio em Political Theory intitulado La Comparution/The Compearance (1992) e em Being Singular Plural. Ou, nas palavras de Derrida, já estamos envolvidos na “relação com o Outro antes de qualquer socius organizado” . E, no entanto, embora existamos em uma “socialidade” original, não devemos conceber “o ‘comum’ [commun]” como “o como-um [comme-un]” , pois a própria “respiração de toda ‘comunidade’”, explica Derrida, é “um certo desenredamento interruptor (...) do ‘vínculo social’” .

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