Edição 351 | 22 Novembro 2010

O anúncio do Reino de Deus e a ética. Ratzinger e Jon Sobrino, duas visões

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Moisés Sbardelotto

IHU On-Line – A senhora estabelece uma relação entre a teologia de Joseph Ratzinger e a de Jon Sobrino para analisar a ética do reino de Deus. Quais são suas principais semelhanças e diferenças?

Lisa Sowle Cahill – Ambos os autores escrevem sobre Jesus e o reino de Deus e destacam que Jesus torna o Reino presente na história e nas nossas vidas. No entanto, enquanto Sobrino sublinha a realidade do reino e da ressurreição na vida dos pobres e exorta os cristãos privilegiados a “tirar os pobres da cruz”, Ratzinger sublinha o reino de Deus como uma relação transcendental e espiritual com Deus por meio de Cristo como a Palavra. Um perigo da teologia de Ratzinger é que ela pode incentivar os cristãos a ter uma visão transcendental da espiritualidade cristã e negligenciar as suas responsabilidades e possibilidades de fazer mudanças no mundo como o conhecemos, especialmente mudanças para curar a injustiça e aumentar o bem comum. Eu realmente penso que Sobrino é mais bem sucedido ao enfatizar a necessidade da graça de Deus para realizar a mudança social, do que Ratzinger ao enfatizar que, se amamos verdadeiramente a Deus, vamos dar passos concretos para ajudar o nosso próximo, incluindo mudanças estruturais.
Ao mesmo tempo, na verdade, Sobrino e Ratzinger estão se dirigindo a públicos e necessidades diferentes. Sobrino vê o sofrimento dos pobres em El Salvador e em todo o mundo. Ratzinger vê a alienação de muitos diante da religião na Europa “secular” e quer assegurar às pessoas que uma relação com Deus é realmente possível.

IHU On-Line – A senhora afirma que os cristãos “aprendem” a ética cristã especialmente por meio da Igreja, “apesar de suas fraquezas”. Como a senhora vê esse aprendizado ético?

Lisa Sowle Cahill – Idealmente, a Igreja é uma comunidade da ressurreição, onde Cristo está presente no Espírito Santo. Infeliz e escandalosamente, a Igreja Católica e as comunidades eclesiais específicas muitas vezes violam esse chamado e falham em revelar Cristo ou em nos ensinar como viver a partir da ressurreição. Muitos exemplos são óbvios, do antigo patriarcado, racismo e riqueza ostentatória, às recentes crises de abusos sexuais. No entanto, por meio do exemplo de Cristo, dos sacramentos, das organizações cristãs de justiça social e da educação católica, como as universidades jesuítas, nós continuamos realmente aprendendo o que significa ser cristão e como viver eticamente como cristãos.

IHU On-Line – A ética hoje, segundo a senhora, deve nos ajudar combater o “consumismo, a cobiça e o militarismo”, assim como o sexismo e a exploração das mulheres. Quais são os principais desafios que esses fenômenos apresentam para a fé cristã hoje?

Lisa Sowle Cahill – O principal desafio é o desafio da esperança. Esses males sempre fizeram parte do mundo e nunca serão totalmente erradicados. Mas os cristãos devem lutar contra o cinismo e o desespero. Uma das principais fontes da nossa esperança é a graça que encontramos em solidariedade e em compromisso com e pelos outros – quando pelo menos tentamos viver no reino de Deus, por meio da vida de ressurreição, e descobrimos que podemos começar a mudar a nossa realidade.

IHU On-Line – Como a senhora analisa a relação entre a teologia das religiões e o debate ético? Que ética surge a partir do diálogo inter-religioso?

Lisa Sowle Cahill –
Os problemas globais que enfrentamos exigem um processo de responsabilização, análise e trabalho pela mudança global, intercultural e inter-religiosa. As pessoas de todas as culturas podem reconhecer as necessidades e bens humanos básicos. O maior desafio é o desafio do acesso justo aos bens que todos valorizamos. Ninguém quer ser pobre ou viver no meio da guerra e da violência. No entanto, poucas pessoas estão dispostas a reconhecer que todas as pessoas têm igual direito a usufruir das condições de uma vida boa e a se comprometer a remover os obstáculos. Todas as grandes religiões do mundo trazem uma mensagem de compaixão, e o cristianismo, o judaísmo e o islamismo partilham a mesma narrativa bíblica de um criador bom que fez todas as pessoas à imagem divina.

IHU On-Line – A senhora afirma que “a ética é a prática do reino de Deus”, e este, por sua vez, é “muito concreto”. Que feições essa prática ética assume nas sociedades contemporâneas?

Lisa Sowle Cahill – Aqui, eu gostaria apenas de enfatizar novamente que o reino de Deus não é apenas um relacionamento pessoal e espiritual com Deus, uma esperança de vida após a morte ou uma vaga intenção de querer o bem às outras pessoas. Todos nós temos a responsabilidade de nos comprometer de alguma forma a fazer a diferença na vida daqueles que sofrem, e isso inclui a responsabilidade por estruturas sociais que podemos afetar por meio da participação política. E, em termos mais tradicionais, devemos nos esforçar para viver com honestidade, integridade e compaixão em nossas vidas e relacionamentos pessoais, incluindo o sexo, o casamento e a família, o trabalho e os negócios, os bairros e as comunidades, e o nosso impacto sobre o ambiente natural.

IHU On-Line – Como mulher, como a senhora vê o fazer teologia (e teologia moral) na Igreja hoje?

Lisa Sowle Cahill – Por um lado, a Igreja Católica ainda é marcada pelo patriarcado, disfarçada sob uma ideologia de “complementaridade entre gêneros”, que serve como uma justificação para confinar as mulheres a papéis domésticos e esperando mais sacrifícios pessoais das mulheres do que dos homens. Um “padrão duplo” sexual ainda existe em todo o mundo, inclusive dentro da Igreja. Esses estereótipos de gênero são prejudiciais para os homens e os meninos, assim como para as mulheres e as meninas. Alguns representantes da Igreja, assim chamados, condenam violentamente as mulheres que buscam acabar com a gravidez em circunstâncias desesperadoras, por exemplo, enquanto são muito mais compreensíveis ou matizados em seus pontos de vista sobre políticas econômicas e militares que matam muitos, ou a destruição do meio ambiente que também resulta em sofrimento humano e morte. Ao mesmo tempo, é importante não esquecer o imenso progresso que foi feito pela Igreja Católica, ao longo das duas últimas gerações, com relação às mulheres. Em 1930, Pio XI ainda dizia às mulheres que fossem submissas à autoridade dos seus maridos e nem sequer lhes permitia controlar suas próprias questões financeiras. A infame encíclica de 1968 sobre o controle de natalidade (Humanae vitae) condenou o controle de natalidade artificial, que também era uma forma de controlar a fertilidade das mulheres e de assegurar que as mulheres não tivessem muita liberdade com relação às responsabilidades familiares. No entanto, essa mesma encíclica também apresentou os esposos como teoricamente iguais no sexo e no casamento, e partiu de uma definição da procriação como o principal objetivo do sexo a uma visão do sexo igualmente como amor e compromisso.


João Paulo II propôs uma teoria da complementaridade de gênero entre homens e mulheres que sugere que a maternidade é o papel mais importante das mulheres. No entanto, ele também defendeu o acesso das mulheres a todas as funções públicas e disse que as mulheres devem receber um salário igual para um trabalho igual, comparável ao dos homens. Talvez o que mais impressionante é a sua Carta às Mulheres, de 1995 (escrita para a Conferência da ONU sobre as mulheres de Pequim). Lá, ele elogia “o grande processo de libertação das mulheres”, condena a violência contra as mulheres (principalmente a violência sexual) e até pede desculpas pelo papel que representantes da Igreja tiveram na opressão das mulheres e na negação da sua dignidade. (Claro, precisamos dar um passo a mais e admitir que isso não tem a ver apenas com alguns representantes, mas sim com pontos de vista e políticas da Igreja Católica como um todo, que, ao longo dos séculos, tiveram efeitos negativos sobre as mulheres.)
O sinal mais importante de esperança para as mulheres na igreja e na teologia moral, no entanto, não são os escritos dos papas e de outros mestres oficiais, mas sim o papel que as próprias mulheres estão desempenhando na teologia e na Igreja. O Brasil é o lar de muitas importantes teólogas feministas. As mulheres não estão à espera de aprovação oficial. Elas estão fazendo ouvir as suas vozes na Igreja e na teologia, e já estão mudando o mundo para nós mesmos, para nossos filhos e alunos. Nos EUA, estamos muito felizes por ter uma grande rede de universidades católicas, muitas delas jesuítas, em que a teologia criativa e crítico é estimulada e valorizada, e em que as mulheres e os homens trabalham em conjunto para mudar a disciplina da teologia moral (ética cristã), de modo que seja mais igual em gênero e mais sensível às preocupações de justiça global. Em nível internacional, eu tive a sorte de trabalhar com colegas maravilhosas, incluindo as brasileiras Maria Clara Bingemer e Ivone Gebara, na produção da revista Concilium.

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