Edição 348 | 25 Outubro 2010

Claude Lefort e a invenção democrática

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Márcia Junges

Olgária Matos analisa o legado do filósofo Claude Lefort, falecido em 03-10-2010, aos 86 anos. Críticas à democracia, burocracia e totalitarismo estão entre suas grandes contribuições

“Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição”. A afirmação é da filósofa Olgária Matos, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. De acordo com ela, “é invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto ‘solucioná-lo’ pelo totalitarismo”.

Pioneiro na denúncia dos totalitarismos, Claude Lefort faleceu no dia 3 de outubro, aos 86 anos, conforme nota publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 20-10-2010 (a nota pode ser lida em http://bit.ly/bAFKMZ. Colaborador da revista Les Temps Modernes até entrar em choque com Sartre  pelo compromisso deste último com os comunistas e cofundador, junto com Henri Lefebvre  e Cornelius Castoriadis, do Socialismo ou Barbárie, desde jovem esteve próximo ao marxismo, influenciado por seu mestre Maurice Merleau-Ponty . Equilibrou em sua carreira a pesquisa e o ensino: foi professor no Liceu de Nîmes e depois no de Reims (1949-1951); foi professor da Universidade de São Paulo, no Brasil (1952- 1953); assistente na Sorbonne (1953-1955); diretor do departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade de Caen (1965- 1971); e diretor de estudos na École des Hautes Études et Sciences Sociales – EHESS (1975- 1989). Nascido em Paris em 1924, apesar de suas origens marxistas, envolveu-se, no final dos anos 1940, na criação do grupo Socialismo ou Barbárie, que posteriormente lançou uma revista homônima, que surgiu na ruptura com o movimento trotskista. Esse afastamento se tornou definitivo quando descobriu O Arquipélago Gulag de Alexandr Solzhenitsin, sobre o qual escreveu o artigo Un homme un trop.

Graduada e especialista em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP, Olgária Matos é mestre em Filosofia pela Universidade de Paris e doutora em Filosofia pela USP com a tese Os arcanos do inteiramente outro: a Escola de Frankfurt, a Melancolia, a Revolução (São Paulo: Brasiliense, 1984). É pós-doutora pela EHESS, na França, e livre-docente pela USP, onde leciona no Departamento de Filosofia. De sua extensa produção bibliográfica, citamos Discretas Esperanças: reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo (São Paulo: Nova Alexandria, 2006), Vestígios: escritos de filosofia e crítica social (São Paulo: Palas Athenas, 1998) e 1968: As barricadas do desejo (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual é o maior legado do filósofo Claude Lefort?

Olgária Matos -
O maior legado de Claude Lefort para os tempos que estão aí e virão é a questão da democracia. Sua noção de “democracia selvagem” evoca, ampliando-a, a experiência originária do governo, não do povo, mas da assembleia do povo, ou seja, todas as forças sociais em presença, enfatizando sempre o elemento de indeterminação do presente que é o espaço de criação política e de liberdade radical. Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição. Outra maneira de dizer que, em política, não existem soluções definitivas.


IHU On-Line - Qual é a atualidade sobre suas análises a respeito da burocracia e do totalitarismo?

Olgária Matos -
Nosso tempo assistiu a duas figuras do totalitarismo, o nazismo e o estalinismo, o primeiro com sua utopia da raça pura, e o segundo com a utopia do “homem novo”. O pensamento totalitário é o que busca soluções definitivas no sentido de controlar a pluralidade que constitui o mundo social e a heterogeneidade das forças, interesses e paixões políticas. A burocracia é um fenômeno que se aprofunda todas as vezes em que há crise política e de valores, uma vez que ela se funda no segredo da informação e em diversas formas de controle, desde os micropoderes de funcionários médios até o macropoder em que a noção de competência política se baseia na de função técnica. A despersonalização e a formalização de que se vale a burocracia se alia ao que hoje se denomina estado de exceção que tem nela sua face “benigna”. A natureza do fenômeno totalitário foi trabalhada de maneira inédita por Lefort, uma vez que ele o analisou na figura do “um”, encontrando em uma questão epistemológica sua dimensão política, a sociedade sem classes ou a sociedade com uma única raça homogênea.

É invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto “solucioná-lo” pelo totalitarismo. Por isso, é central em seu pensamento da democracia a sociedade de massa, cujo complicador se encontra justamente em ela ser, ao um só tempo, sociedade de classe e de massa, quer dizer, nela há formas institucionais de funcionamento e também tendência à dispersão do mundo do trabalho e das diversas formas de acúmulo do capital baseadas na intensificação da produção através das novas tecnologias além de a sociedade de massa se basear na “comunicação” e na “informação”, com os núcleos “invisíveis” da produção da consciência social.


IHU On-Line - E no que tange ao totalitarismo, como seu pensamento pode fomentar a autocrítica da esquerda?

Olgária Matos -
Como pensador da liberdade radical, Lefort cedo identificou mesmo nas formas de crítica da burocracia uma variante “liberal” do totalitarismo, como Trotski. A esquerda tradicional - aquela que herda do século XIX a prática da clandestinidade e governos absolutistas e cujas leis se baseavam em privilégios de classe - por vezes mantém práticas cuja eficácia se supunha existir, no limite, na guerra social, apostando muito das rupturas definitivas e na violência revolucionária tomada como produtora de consciência e do novo. Lefort, ao afirmar a legitimidade do conflito, não elide a questão dos interesses antagônicos, mas realça o que pode haver de entendimento no conflito. Autor do monumental Maquiavel, o trabalho da obra, Claude Lefort enuncia que a política como as obras de pensamento é trabalho imanente que produz democracia, o exercício de direitos e de invenção de novos direitos, sempre no sentido de que privilégios e carências, não podem se universalizar. Por isso também a economia não pode ser a medida do político, mas a autonomia com respeito à barbárie do mercado.


IHU On-Line - Quais são os principais limites e possibilidades da democracia apontados por Lefort?

Olgária Matos -
As análises de Lefort sobre maio de 1968  contêm já a crítica das formas tradicionais de produção de “consenso”, pois em A Brecha, Lefort mostra que ele foi o momento la boétienao da política francesa, momento disruptivo em que a palavra se liberou e com ela a criatividade social em que a rua tomou a palavra, quer dizer, o pensamento se fez público e o direito de discordar é a base da vida social em suas tensões e distensões. Mostra também que a política democrática não necessita da ideia de líder, de guia, de “partido consciência de classe”, porque a invenção democrática não depende nem das virtudes, nem dos vícios dos governantes, mas da qualidade de suas instituições.


IHU On-Line - Como podemos transpor para nosso momento político brasileiro a crítica do filósofo ao nivelamento “por baixo” promovido pela democracia? De que forma as falhas apontadas por Lefort à democracia podem contribuir no fortalecimento deste sistema?

Olgária Matos -
A democracia que foi-se instituindo a partir da Revolução Francesa se baseou na educação humanista, formadora do laço social, tanto que o professor era chamado instituteur porque ele “instituía” a sociedade; e estudante é eleve porque a educação eleva a criança e sublima o povo. Esta educação dita republicana garantia que todo cidadão era portador de “sabedoria política” porque seria o agente em exercício da crítica que vinha do mundo “letrado”, quer dizer, que passava pela qualidade de sua escolarização. Assim o repertório da discussão política e a livre faculdade de julgar estariam garantidos não só pelas condições materiais de existência, mas sobretudo pela “vida do espírito”. Na sociedade de massa, ou da comunicação, ou da informação, altamente tecnologizada e despolitizada, só conserva da politização as formas de convencer por “ideologias” e pelas formas de militância que possuem por sua natureza fórmulas prontas, quer dizer, formas de “doutrinamento”. Por isto é que Lefort dizia que a sociedade de massa pode tanto resultar em democracia (exercícios de criatividade social, política, ética, estética, científica) quanto em ditaduras, pois se o presente é contingente e o futuro é incerto, essa brecha de nossa indeterminação necessita de “sabedoria prática”, “presença de espírito” para que escolhas sejam feitas no sentido de ampliação do espaço público e do bem-estar material, moral, cultural, e possam ser compartilhadas.


>> Olgária Matos já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

• Uma discussão sobre progresso, laços afetivos e política. Entrevista especial com Olgária Matos, concedida em 05-7-2006 e publicada nas Notícias do Dia

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