Edição 347 | 18 Outubro 2010

Quem foi Matteo Ricci?

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Padre Matteo Ricci (Macerata, Itália, 6-10-1552 — Pequim, 11-5-1610) foi um sacerdote jesuíta, missionário, cientista, geógrafo e cartógrafo renascentista italiano. É conhecido pela sua atividade missionária na China da dinastia Ming. É considerado o fundador das modernas missões católicas na China, contribuindo, de modo fulcral, para a introdução do catolicismo na neste país.

É igualmente tido um modelo de proveitoso encontro entre as civilizações europeia e chinesa e ainda como um singular modelo de evangelização e de diálogo com as várias realidades culturais e religiosas. Mais especificamente, Ricci é considerado o símbolo do primeiro contacto da China com as ciências e a tecnologia europeias, do encontro pioneiro do Evangelho com os intelectuais da etnia Han, assim como um dos primeiros intercâmbios entre a cultura chinesa e a ocidental.

Era classificado pelos chineses como “um dos mais notáveis e brilhantes homens da História” e como o “Mestre do grande Ocidente”, isso porque Ricci fascinou os chineses pelo seu grande interesse, admiração e respeito pela cultura chinesa e também pelo seu vasto saber ocidental em diversas áreas do conhecimento, como a teologia, a apologética, a catequese popular, a matemática, a astronomia, a literatura, a poesia, a arte e a música.

Em 2010, quando das celebrações do quarto centenário da morte de Ricci, o Papa Bento XVI afirmou que o “Padre Ricci constitui um caso singular de feliz síntese entre o anúncio do Evangelho e o diálogo com a cultura do povo ao qual Ele é levado, um exemplo de equilíbrio entre clareza doutrinal e obra pastoral prudente”.

Ricci na China
Em Macau, Matteo Ricci e Miguel Ruggieri (que já estudava a língua chinesa em Macau desde 1579) começaram a compilar o primeiro dicionário português-chinês. Esta obra, terminada somente em Zhaoqing, foi concebida essencialmente para o benefício dos missionários ou outros estrangeiros, que queriam aprender chinês. O dicionário apresentava, pela primeira vez, a romanização (criado por Matteo Ricci) da língua chinesa falada nos anos finais da dinastia Ming e constituiu, assim, um marco cultural na documentação histórica do desenvolvimento dos estudos chineses.

Em Zhaoqing e em Shaoguan
No Verão de 1583, juntamente com o padre Ruggieri, adentrou finalmente no Império Chinês, mais precisamente na província de Guangdong. Dirigiram-se a Zhaoqing, à residência do vice-rei de Guangdong e Guangxi, onde o padre Ruggieri já havia estado em 1581 e 1582. No dia 14 de setembro de 1583, recebe as devidas autorizações para permanecer naquele território. 14 meses mais tarde, inauguraram em Zhaoqing a primeira casa da missão católica jesuíta na China, com a assistência do padre Francisco Cabral, reitor de um colégio jesuíta em Macau.

Em 1589, Ricci introduziu o calendário gregoriano na China, adaptando-o ao calendário lunar chinês, para que os chineses pudessem saber a data exata das festividades católicas. Mas Ricci recusou publicar esta adaptação chinesa do calendário gregoriano, porque era necessário a autorização prévia do Imperador para efetuar qualquer alteração ou publicação de calendários. Em 1594, Ricci traduziu para latim os Quatro Livros do Cânone confuciano, dando assim aos europeus a possibilidade de conhecerem o confucionismo.

Em Nanchang e em Nanquim
Depois de assegurar a eficácia do seu apostolado, em 1594 Ricci abandonou a florescente missão de Shaoguan e decidiu ir a Pequim. Dada a dificuldade da viagem, não conseguiu chegar a esta localidade, tendo atingido somente Nanquim e Nanchang. Nesta última cidade, Ricci, já com uma reputação de letrado e erudito vindo do Ocidente, foi por isso recebido cordialmente pelas autoridades governamentais, por letrados e até por dois príncipes imperiais. Em Nanchang, ele adotou totalmente o vestuário e a terminologia confucianas e passou a estudar com maior profundidade o confucionismo: ele viu na descrição, baseada na razão e na intuição, de Confúcio e de alguns filósofos confucianos sobre o Céu a imagem do único e verdadeiro Deus adorado pelos cristãos. Segundo Ricci, isto constituiu uma ligação formidável entre o cristianismo e o confucionismo, e também uma prova de que, já desde os tempos remotos, os chineses adoravam, sem saber, o Deus cristão, sob o nome de Tiān ou Shàngdì ou ainda de Tīanzhǔ. Ao mesmo tempo, Ricci distanciava-se do budismo, a ponto de contestar o conceito budista da reencarnação e de acusar o budismo de ser idólatra.

É também em Nanchang que, em 1595, Ricci escreveu o seu célebre Tratado sobre a Amizade, para que os leitores chineses não cristãos pudessem conhecer melhor os “santos antigos e sábios” do Ocidente, através de passagens e aforismos traduzidos ou parafraseados dos clássicos europeus. O livro, cujo formato era semelhante aos livros de tradição confuciana, era muito curto e continha apenas 100 máximas sobre a amizade. O livro foi tão bem aceito pelos letrados chineses que seria reeditado várias vezes e incluído em coleções, com muitas introduções e comentários escritos por famosos eruditos chineses.

Ricci acreditava que os missionários católicos só iriam conseguir pregar com sucesso o Evangelho na China se os letrados chineses abrissem as suas mentes à cultura ocidental. Por isso, Ricci achou necessário uma preparação prévia (uma espécie de pré-evangelização) das mentes chinesas, para que se acostumassem aos conceitos religiosos e filosóficos ocidentais. Para isso, e também para responder à crescente curiosidade dos intelectuais chineses sobre o Deus cristão, Ricci escreveu o célebre catecismo Verdadeira Noção de Deus (ou Tianzhu shiyi; em latim: De Deo Verax Disputatio). Este catecismo, escrito entre 1593 a 1596, “é a primeira tentativa por um estudioso católico de usar um modo chinês de pensar para introduzir o cristianismo para os intelectuais chineses”. Segundo Ricci, o catecismo é um esforço dele de “expor o pensamento católico, com a ajuda do patrimônio cultural existente na China”. Esta obra é constituída por dois livros, oito volumes e 174 itens em forma de diálogo entre um letrado chinês e um intelectual europeu. O letrado chinês explicava confucionismo, budismo e taoísmo, enquanto que o intelectual europeu usava a Escolástica e citava as obras clássicas e iniciais do confucionismo para explicar as doutrinas do catolicismo, como a Encarnação (nascimento de Jesus) e a Salvação.

Em 1596 e 1597, durante a sua estada em Nanchang, Ricci foi nomeado pelo padre Alexandre Valignano de “superior de todos os jesuítas e de todas as atividades dos jesuítas na China”, cargo que ele exerceu até morrer. Em 1598, Ricci decidiu ir a Pequim com o padre Lazzaro Cattaneo e com Wang Honghui, um ministro chinês e amigo de Ricci que tencionava mostrar à corte imperial os conhecimentos matemáticos, mecânicos e astronômicos dos jesuítas, que eram vitais para a iminente reforma do calendário chinês. Depois de uma longa viagem, eles chegaram à capital imperial no dia 7 de setembro de 1598. Mas, os jesuítas não conseguiram entrar na corte imperial porque os japoneses, comandados por Toyotomi Hideyoshi, invadiram a Coreia, um vassalo tradicional da China. Devido à guerra, todos os não chineses passaram a ser suspeitos como possíveis espiões.

Por isso, no dia 5 de novembro do mesmo ano, deixaram Pequim e chegaram a Nanquim, no dia 6 de fevereiro de 1599. Durante a sua curta estada em Pequim e durante a sua viagem marítima de Pequim a Nanquim, Ricci e Cattaneo (um músico) escreveram um dicionário chinês-português, no qual os vários tons das sílabas chinesas romanizadas foram indicados com sinais diacríticos. Este trabalho foi perdido e, ao contrário do primeiro dicionário escrito por Ricci e Ruggieri, nunca mais foi encontrado.

Finalmente em Pequim
O Mapa–múndi foi impresso e publicado em Pequim, em 1602, a pedido do Imperador Wanli . Neste mapa, Matteo Ricci anotava notícias históricas. Em 1600, Ricci deixou Nanquim e partiu para Pequim, com o padre Diogo de Pantoja. Deram entrada na corte imperial chinesa a 24 de Janeiro de 1601. O Imperador Wanli, que já ouvira falar da reputação e da fama de Ricci, ficou maravilhado com os presentes que os missionários levaram. De entre estes presentes, o Imperador ficou cativado e fascinado pelo mapa-múndi, porque representava as novas nações europeias, locais desconhecidos pelos chineses (como a América), várias notícias históricas, a nova situação política mundial e também porque representava a China com dimensões menores do que os mapas chineses tradicionais.

O Imperador, apesar de nunca ter visto e conhecido pessoalmente os jesuítas, concedeu permissão para eles ficarem em Pequim, para construírem uma residência com capela. Na capital chinesa, os jesuítas conseguiram formar uma comunidade católica dinâmica e conseguiram obter a amizade e o apoio de vários mandarins e letrados ilustres. As conversões mais importantes foram as de Paulo Xu Guangqi  (um mandarim que “conseguiu fazer com que o Imperador chinês confiasse aos astrônomos jesuítas a reforma do calendário chinês”), de Yang Tingyun e de Li Zhizao. Estes  três chineses são considerados os “três grandes pilares do catolicismo chinês”.

Em Pequim, Matteo Ricci, com a ajuda de Xu Guangqi, traduziu para o chinês a obra Os Elementos de Euclides, que é um livro fundamental da geometria. Os termos geométricos traduzidos são utilizados pelos chineses até hoje. Os intelectuais chineses ficaram maravilhados pelo método da construção lógica e dedutiva presente n’Os Elementos, que era muito diferente do método tradicional chinês de indução, presente em todas as áreas do conhecimento chinês. Por isso, com esta tradução, Ricci introduziu o método de “pensamento lógico” e de dedução na China. Além de desta obra, Ricci e Xu Guangqi traduziram e publicaram várias outras na área de astronomia.

Além de livros científicos, Ricci escreveu ainda vários livros e tratados para atacar o budismo, a idolatria e o politeísmo chinês e também para explicar melhor a doutrina e a moral católicas. Neste conjunto de livros, salienta-se a obra Vinte e cinco sentenças que contêm a essência moral cristã. Destaca-se também a obra Dez sentenças paradoxais, escrita em 1608 sob a forma de uma colecção de máximas práticas, úteis para uma vida moral e já conhecidas pelos cristãos ocidentais, mas desconhecidos pelos chineses. Estas máximas foram retiradas e/ou baseadas em vários excertos e histórias da Bíblia e dos escritos dos filósofos cristãos. Ricci ainda publicou, em março de 1605, o livro Tianzhu jiaoyao, que é uma nova tradução das principais orações católicas, dos Dez Mandamentos, das obras de misericórdia corporais e espirituais, das Bem-Aventuranças, dos sete pecados capitais e das três virtudes teologais. O livro, que obteve a aprovação da Inquisição em Goa, contém também uma breve explicação dos sete sacramentos.
 
Ricci morreu com 57 anos, no dia 11 de maio de 1610. Foi muito admirado e respeitado pelos intelectuais chineses, porque ele, “enquanto confessava uma admiração sincera pela China, levava os chineses a vislumbrarem que ainda existia algo que eles não conheciam, e que ele era capaz de lhes ensinar”. Além da sua sabedoria, foi também admirado por ser “um homem singular, porque vive no celibato, não disputa por cargos, fala pouco, tem uma conduta regulada, e isto todos os dias, e cultiva a virtude ocultamente e serve a Deus de modo contínuo”. Por isso, ele foi sepultado em solo chinês, perto de Pequim, após autorização do Imperador chinês. Isto era um raro privilégio, visto que os estrangeiros que morressem na China tinham que ser sepultados em Macau.

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