Edição 346 | 04 Outubro 2010

''O mundo começa a partir da casa da gente''

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Graziela Wolfart e Moisés Sbardelotto

André Trigueiro defende as campanhas ambientais locais, mas lembra que a humanidade não dá saltos. “As campanhas adubam a mente, fertilizam as ideias à espera da colheita, que é o que interessa: novas atitudes”

Mesmo sem ter ouvido falar da campanha 10:10:10, o jornalista ambiental André Trigueiro reconhece a importância de iniciativas como esta, que têm um apelo ecológico global, mas que estimulam ações locais. Na entrevista que segue, concedida por telefone à IHU On-Line, ele explica que “o Brasil é um país muito amplo, desigual, diferenciado, com culturas distintas, visões de administração e sensibilidade para as questões ambientais muito difusas, singularizadas”. No entanto, ele identifica que “avança no poder público a consciência de que é preciso qualificar o planejamento, e que esse planejamento precisa incorporar a variável da sustentabilidade”. Para Trigueiro, “precisamos que na explanada dos ministérios o meio ambiente não seja assunto de um ministro só. O Ministério do Meio Ambiente não pode ser uma ONG ambientalista na explanada. Deve ser assunto de todo o governo. Não tem produção, riqueza, exportação, turismo, comércio e desenvolvimento sem um meio ambiente sadio”.

André Trigueiro é jornalista, pós-graduado em Gestão Ambiental pela COOPE/UFRJ e professor do curso de Jornalismo Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio. Na Globo News, apresenta o programa “Cidades e soluções”, tratando da questão do meio ambiente. É autor de Mundo sustentável (São Paulo: Globo, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a situação do Brasil com relação às mudanças climáticas? Quais são os nossos pontos mais fracos com relação à crise ambiental?

André Trigueiro – O Brasil ainda não resolveu o problema do desmatamento da Amazônia, que é o principal vetor de emissões de gases estufa. É um país de dimensões continentais que deverá sofrer impactos importantes por conta das mudanças dos biomas, principalmente o amazônico e a caatinga. A mudança do ciclo da chuva deverá também determinar problemas em relação à forma como planejamos o uso do solo e a agricultura. Certas culturas não poderão mais existir em áreas hoje consagradas, como no caso da soja, do milho, da maçã. Haverá a necessidade de reprogramar a forma de planejar a agricultura no Brasil em função da mudança climática. O Brasil é um país produtor, portanto existe um impacto. Lembremos especialmente do litoral de Santa Catarina, que é uma porta de entrada de ventos extremos. Não por acaso se deu ali o aparecimento do primeiro furacão do qual se tem notícia no hemisfério sul, o furacão Catarina . Temos oito mil quilômetros de litoral com áreas mais ou menos vulneráveis à elevação do nível do mar, o que depende da configuração do leito marinho e da forma como se modificou a vegetação no continente, bem como áreas de baixada, áreas densamente povoadas. Tudo isso vai determinar maior ou menor impacto em função da elevação do nível do mar. Esse seria o conjunto mais importante de fatores que justificam a enorme preocupação e atenção de nossa parte.

IHU On-Line - Os órgãos públicos estão fazendo o que lhes cabe para evitar que essas mudanças se aprofundem? Como o senhor avalia os projetos governamentais em torno da ecologia?

André Trigueiro – O Brasil não é homogêneo, não se resolve por igual. Não se pode comparar a situação no interior do Piauí com a situação do Vale dos Sinos. Se falarmos em formas de proteger áreas verdes em cidades, não podemos esquecer que existem municípios do Brasil que já institucionalizaram o IPTU verde . É uma sinalização muito clara da administração pública destas cidades, onde já se tem uma visão de que é importante criar estímulos fiscais para que o proprietário de uma determinada área seja recompensado se mantiver essa área verde, protegida. Mas o Brasil tem 5.600 municípios e apenas alguns fazem isso, que merecem aplausos, nota 10. Outros sequer cobram IPTU. O Brasil é um país muito amplo, desigual, diferenciado, com culturas distintas, visões de administração e sensibilidade para as questões ambientais muito difusas, singularizadas. Mas posso dizer que avança no poder público a consciência de que é preciso qualificar o planejamento, e que esse planejamento precisa incorporar a variável da sustentabilidade. Isso estará presente na forma como pensamos a coleta, o transporte e a destinação final de lixo, a forma como estivermos mais atentos à falta de saneamento, às valas negras, à forma como se pretenda organizar o transporte público, a forma como se planeja a habitação, o uso do solo, a forma como se licenciam novos empreendimentos. Isso é um processo. Todos nós estamos percebendo e testemunhando em diferentes setores da sociedade que há um avanço. Como isso se desdobra em diferentes lugares e diferentes setores da economia, é algo que exige mais tempo para identificar caso a caso.

IHU On-Line - Em um período eleitoral, quais seriam as medidas centrais dos próximos governos para encontrar formas mais sustentáveis para o país? Como conciliar a necessidade de desenvolvimento e de energia com as questões ecológicas?

André Trigueiro – O Brasil precisa regulamentar a política nacional de mudanças climáticas (a lei foi aprovada, mas não foi regulamentada); o governo precisa estar atento à proposta de revisão do Código Florestal , há muita controvérsia e muita polêmica em torno dos reais efeitos da aprovação desse código nos termos do relator Aldo Rebelo ; o Brasil precisa ter um planejamento melhor delineado da sua matriz energética, percebendo qual seria a melhor escolha para que não falte energia, sem deixar de considerar o enorme potencial de fontes limpas e renováveis, incrementando pesquisa, principalmente nas áreas solar, eólica e biomassa; precisamos prestar atenção na evolução da política nacional de resíduos sólidos, que já foi aprovada e sancionada, mas falta ser regulamentada. Isso é muito importante, porque o passivo ambiental do lixo é enorme no Brasil. E necessitamos também de uma política para cumprir o que está na Constituição, que é o zoneamento econômico e ecológico da Amazônia. A Amazônia pode ter pecuária, mineração, extração de madeira. Não tem problema nenhum. O problema é onde se vai fazer isso e de que jeito. E essa equação não foi resolvida. Precisamos que na explanada dos ministérios o meio ambiente não seja assunto de um ministro só. O Ministério do Meio Ambiente não pode ser uma ONG ambientalista na explanada. Deve ser assunto de todo o governo. Não tem produção, riqueza, exportação, turismo, comércio e desenvolvimento sem um meio ambiente sadio. O ministro da agricultura tem que ser o primeiro a falar de sustentabilidade.

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