Edição 344 | 21 Setembro 2010

A literatura de testemunho e a afirmação da vida

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Márcia Junges

Local de resistência e rearticulação das identidades, a literatura de testemunho tem caráter político e luta contra o reducionismo da vida à mera vida, considera Márcio Seligmann-Silva. Desde o romantismo, a literatura vem apresentando os recalques da humanidade

É somente no século XX que a literatura de testemunho aparece “como um elemento importante no sistema literário e cultural”, revela o historiador e crítico literário Márcio Seligmann-Silva, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. O testemunho, afirma, “é um local de resistência e de rearticulação das identidades”. Segundo ele, “a literatura de testemunho expressa o processo de esmagamento daquilo que é expelido pela sociedade como se fosse um resto. Ela é afirmação da vida, contra a redução desta à mera vida, ou à simples sobrevida. Ela é, portanto, eminentemente política”. E completa: “A literatura, sobretudo desde o romantismo e do romance gótico, tem se especializado em apresentar o recalcado e aquilo que a cultura resiste em olhar de frente: a violência onipresente e sobretudo seus resultados terríveis, como a própria noção de vida nua”. O tema foi objeto do minicurso O testemunho na era biopolítica: reflexões sobre violência e a vida nua, ministrado em 13-09-2010, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana.

Seligmann-Silva é graduado em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, mestre em Letras, pela Universidade de São Paulo - USP, e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, pela Freie Universität Berlin. É pós-doutor pelas seguintes instituições: PUCSP, Zentrum Für Literaturforschung Berlin e Yale University. Também é professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas e coordena o projeto temático Fapesp Escritas da Violência. Entre as obras que publicou, estão Ler o livro do mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (São Paulo: Iluminuras/FAPESP, 1999), Adorno (São Paulo: PubliFolha, 2003) e O local da diferença. Ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução (São Paulo: 34, 2005). Organizou também os livros História, Memória, Literatura. O testemunho na era das catástrofes (Campinas: Editora da Unicamp, 2003) e Palavra e imagem, memória e escritura (Chapecó: Argos, 2006).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Em que aspectos a literatura de testemunho reflete a era biopolítica em que vivemos?

Márcio Seligmann-Silva -
Antes de mais nada, é importante fazer algumas precisões conceituais. Hoje em dia utiliza-se o conceito de “biopolítica” como se ele fosse idêntico em Foucault e Agamben. Mas isto não é verdade. Foucault pensa a era biopolítica como uma virada de paradigma político que teria ocorrido na Modernidade, sobretudo a partir do século XVIII, com a entronização da gestão da vida como núcleo da política. A biopolítica, para Foucault, não necessariamente tem um valor negativo. Agamben, por sua vez, foi influenciado pela noção de Foucault de biopolítica, mas também por Hanna Arendt e sua teoria política que defende um modelo clássico da política em oposição à política como administração da vida e das necessidades. Para Arendt, esta preocupação era parte da gestão do lar, da esfera privada, e essa noção de política reduzida às necessidades e à sobrevivência passou, sobretudo desde a revolução francesa, a dominar nossa ideia da política.


Literatura de testemunha como afirmação da vida


Além disso, Agamben também bebeu fartamente na fonte benjaminiana. Walter Benjamin, em seu conhecido ensaio de 1921 sobre a crítica da violência e do poder (Zur Kritik der Gewalt), detectara que o direito seria apenas um tentáculo do poder e no direito podemos ver uma continuidade da força do mito (que, supostamente, a esfera jurídica deveria superar). Para Benjamin, o direito se alimenta e se fortalece do poder decisório sobre a vida e a morte. Aqui Benjamin detectou “um elemento de podridão dentro do direito”. Nesse mesmo texto, o filósofo especula sobre a origem do ser sagrado da vida e afirma que o poder mítico é poder sangrento sobre a “vida nua”. Agamben toma como sua missão o estudo da construção desta noção de sacralidade da vida. Ele vai estudar em que medida, na era biopolítica, a vida nua torna-se um dos núcleos que ordenam toda a ação política. Sua visão da biopolítica e totalmente condenatória.

Pois bem, agora respondendo à sua pergunta, apenas no século XX a literatura de testemunho surge como um elemento importante no sistema literário e cultural. Este desenvolvimento do testemunho em um século pontuado por terríveis e enormes guerras, por genocídios, campos de concentração e de extermínio e ditaduras sangrentas não é casual. A literatura de testemunho expressa esse processo de esmagamento daquilo que é expelido pela sociedade como se fosse um resto. Ela é afirmação da vida, contra a redução desta à mera vida, ou à simples sobrevida. Ela é, portanto, eminentemente política. Prefiro utilizar o conceito de “teor testemunhal” ao de literatura de testemunho, conceito que gera mal-entendidos, pois não existe um gênero “literatura de testemunho”, mas, antes, o século XX revelou que todo documento de cultura tem seu teor de testemunho. Aprendemos a ler a cultura como inscrição testemunhal. Por outro lado, é claro, existem obras que são programaticamente compostas como testemunho. A estas podemos denominar de “literatura de testemunho”, mas levando-se em conta que não se trata de um conceito rigoroso de gênero literário.


IHU On-Line - Como a literatura na era da biopolítica pode nos ajudar a compreender a relação entre os campos estético e político?

Márcio Seligmann-Silva -
A literatura com forte teor testemunhal se opõe ao processo de aniquilação da vida nua, que parece estar no cerne da nossa cultura política. O testemunho é um local de resistência e de rearticulação das identidades. Ele põe em movimento o dispositivo trágico para tentar reverter o eterno espetáculo sacrificial da vida nua. É importante ter em conta que a literatura de um modo geral é um espaço de representação e de reflexão. Ela permite uma tomada e um distanciamento. Com isso, evidentemente, não se trata de reduzir a literatura a uma tarefa edificante. Antes, trata-se de explicitar sua capacidade de abrir nossos olhos para os conflitos sociais, políticos e psicológicos de cada presente. O fascinante do espaço literário é a sua liberdade, que não pode ser reduzida a nenhum tipo de doutrina moralizante. Assim, através dela podemos perceber não apenas de que modo a biopolítica atua, mas também ver como não podemos separar de modo estrito o campo político do estético. Benjamin já detectara o movimento fascista de estetização da política. Hoje este processo aprofundou-se muito, sendo que não podemos distinguir a política da representação midiática e da publicidade.


IHU On-Line - Quais são as principais reflexões surgidas dessa literatura a respeito da violência e da vida nua?

Márcio Seligmann-Silva -
Ao longo do século XX, sobretudo a partir da antropologia e dos estudos de Freud , a violência passou a ser reconhecida como um traço central da cultura e, portanto, da literatura também. Podemos ler todo o sistema psicanalítico como uma das mais profundas investigações sobre a violência e o fenômeno da vida nua. Não por acaso acima falava do testemunho como resistência, um conceito-chave (e ambíguo) dentro da psicanálise. Freud foi talhar um dos conceitos basilares de sua teoria, o de Unheimlich (sinistro, estranho), a partir de obras de literatos do romantismo alemão, sobretudo de E.T.A. Hoffmann . A literatura, sobretudo desde o romantismo e do romance gótico, tem se especializado em apresentar o recalcado e aquilo que a cultura resiste em olhar de frente: a violência onipresente e sobretudo seus resultados terríveis, como a própria noção de vida nua. A literatura e as artes funcionam como um escudo de Perseu, no qual miramos a face da violência e de suas consequências. Figuras como o Fausto , Frankenstein , Drácula , Mr. Hyde, Charles Marlow (da novela de Conrad, Heart of Darkness), o K dos romances de Kafka , Riobaldo e Diadorim , enfim, trata-se de uma vasta galeria de personagens, representam de modo concentrado vários aspectos dessa era biopolítica. Tudo é uma questão de aprender a ler a literatura como uma máquina de inscrições de traços mnemônicos da barbárie. Na literatura e nas artes, podemos ler esta ambígua escritura de traços, na qual esquecimento e memória se misturam.


IHU On-Line - E como a literatura, a teoria literária e a literatura comparada apreendem essas ideias em seus campos de saber?

Márcio Seligmann-Silva -
A literatura não existe, ainda bem, como uma figura abstrata: ela é constituída da infinidade de obras do passado e do presente. Nela simplesmente, como indiquei, o biopolítico e a vida nua se expressam, inscrevem-se e manifestam-se e permitem um olhar em distância e um olhar crítico. Já na teoria literária e na literatura comparada também percebemos a mencionada resistência a mirar esse aspecto eminentemente político do campo artístico-literário. Existe até hoje uma tendência a tentar-se resguardar a literatura e as artes como parte de um campo descolado do real e da história. Atua aí a ideologia (do século XIX!) da arte pela arte e da autonomia da esfera estética. Outras vezes a literatura é vista de modo mecânico como reflexo do histórico, mas aplica-se aí tanto um conceito positivista de representação como a noção de histórico, que é simplista e justamente não leva em conta esta teoria da violência e a perspectiva aberta pelo conceito de biopolítica. Trata-se de um discurso conservador que reflete a mente conservadora de onde emana. Por outro lado, já há umas duas décadas, existe também toda uma linhagem da teoria literária e da literatura comparada que atua dentro dos estudos culturais e dá muito valor ao testemunho. Mas aí o risco é o de se adotar um tom paternalista e meramente autocomplacente. Atua aí um politicamente correto perigoso que, na verdade, apenas reproduz as hierarquias que aparentemente quer desconstruir.

Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Márcio Seligmann-Silva à IHU On-Line.
 
* A fragmentação do discurso como estética literária do Pós-Guerra. Edição número 265, revista IHU On-Line, de 21-07-2008

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