Edição 344 | 21 Setembro 2010

Commonwealth e o horizonte de uma alternativa pós-capitalista

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Cássio Pereira, Cesar Sanson e Graziela Wolfart

Giuseppe Cocco reflete sobre a terceira obra da trilogia de Negri e Hardt, precedida por Império e Multidão NEGRI, Antonio; HARDT, Michael; Commonwealth (Harvard University Press, 2009) Em italiano: Comune (Milão: Rizzoli, 2010)

Acaba de ser publicado na Itália o mais recente livro de Antonio Negri e Michael Hardt, Comune. O título original da obra, lançada nos Estados Unidos no ano passado, é Commonwealth, e pode ser traduzido como bem-estar comum, segundo o professor Giuseppe Cocco, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. A IHU On-Line aproveitou a presença do professor Cocco na Unisinos, na última semana, enquanto participava do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, para entrevistá-lo sobre esta importante obra. A partir do livro, Cocco entende que “é preciso pensar em outra forma de propriedade que seria comum. Não mais nem a propriedade individual, nem absoluta, nem a propriedade que é de todos porque não é de ninguém, mas a propriedade de todos, porque é de todos”.

Giuseppe Cocco possui graduação em Ciências Políticas pela Universidade de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova. É mestre em Ciências Tecnológicas e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Pantheon-Sorbonne). Doutor em História Social pela Université de Paris I (Pantheon-Sorbonne), atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Publicou com Antonio Negri o livro Global: Biopoder e lutas em uma América Latina globalizada (Ed. Record, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a principal novidade do livro de Negri e Hardt, Commonwealth?

Giuseppe Cocco – A principal novidade está logo no título, que é a discussão sobre o conceito de commonwealth, de bem-estar comum. O fato é que esta novidade, ao mesmo tempo, é o terceiro momento de uma trilogia: Império (Rio de Janeiro: Record, 2001), uma reflexão política sobre a forma da soberania na pós-modernidade; Multidão (Rio de Janeiro: Record, 2005), uma análise material das formas de trabalho e dos processos de subjetivação no capitalismo contemporâneo; e Commonwealth , que é o horizonte do possível, a definição de um horizonte de alternativa pós-capitalista, e a relação entre os movimentos anticapitalistas e um horizonte pós-capitalista. Então, podemos definir a trilogia assim: a soberania, o sujeito e a alternativa.

IHU On-Line - Qual a importância desta obra no atual cenário econômico e político mundial?

Giuseppe Cocco – Não é uma importância objetiva, mas subjetiva. Depende se ela consegue dialogar de maneira efetiva com os movimentos atuais, com dificuldade ou não, e se consegue atravessar e lutar dentro da crise do capitalismo global, do capitalismo cognitivo, globalizado. E é preciso ver como ela pode dialogar com esses movimentos, como ela pode ser um conceito adequado aos movimentos de resistência hoje, na medida em que ela propõe um terreno político que, primeiro, define um horizonte pós-capitalista, e, segundo, uma alternativa radical ao binarismo composto fundamentalmente pela oposição entre esfera pública e privada, entre mercado e estado. O comum é algo que não é nem público, nem privado.

IHU On-Line – O comum é disputado pelo capital e pelo trabalho? Como ele se manifesta?

Giuseppe Cocco – Para o capitalismo existir, é preciso propriedade privada. A proposta do comum é exatamente atacar e reatualizar o debate sobre a crítica do capitalismo a partir da questão da propriedade privada. E, desse ponto de vista, dizer que a alternativa à propriedade privada não é a propriedade estatal, porque esta é especular à propriedade privada. É preciso pensar em outra forma de propriedade que seria comum. Não mais nem a propriedade individual, nem absoluta, nem a propriedade que é de todos porque não é de ninguém, mas a propriedade de todos, porque é de todos.

IHU On-Line - Como entender a relação que se estabelece entre a obra Comune e o Manifesto do Partido Comunista, numa versão atualizada?

Giuseppe Cocco – Não sei se Negri tem a pretensão disso, mas é uma contribuição não no sentido de ser o manifesto, mas de revisar e adequar o marxismo no novo contexto. Então ele participa de um manifesto que hoje, por definição, tem uma dinâmica pós-autoral, em rede.

IHU On-Line – Então a obra pode discutir um “marxismo para o século XXI”?

Giuseppe Cocco – No caso do Negri, é um marxismo para o século XXI, um marxismo bem diferente do tradicional.

Leia mais...

>> Giuseppe Cocco já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br).
* ''MundoBraz'': a brasilianização do mundo. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada nas Notícias do Dia, em 21-01-2010;
* O Império e a Multidão no contexto da crise atual. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada nas Notícias do Dia de 18-05-2009;
* Uma renda universal. Trabalho e vida tendem a coincidir. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada em 10-01-2007, nas Notícias do Dia;
* O devir-Brasil do mundo e o biopoder. Entrevista publicada na IHU On-Line número 343, de 13-09-2010.

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