O impacto das Pequenas Centrais Hidrelétricas

Segundo a bióloga Lisiane Hahn, diversas Pequenas Centrais Hidrelétricas num mesmo rio podem provocar impacto maior do que uma grande usina

Por: Graziela Wolfart

Na entrevista que aceitou conceder por e-mail à IHU On-Line, a bióloga e pesquisadora Lisiane Hahn confessa que não acredita que tenha no Rio Grande do Sul um modelo de usina hidrelétrica ambientalmente sustentável. Mas as usinas mais novas, explica ela, “por demandas dos órgãos ambientais competentes, estão investindo mais em pesquisa e em medidas de mitigação de impactos do que as construídas antes da década de 1990”. Como consultora da Itaipu Binacional, Lisiane Hahn reconhece que “a hidrelétrica de Itaipu, devido a sua magnitude, provocou profundos impactos sociais e ambientais na bacia do Rio Paraná”.
Lisiane Hahn possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de Passo Fundo, mestrado em Biociências (Zoologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutorado em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais pela Universidade Estadual de Maringá. Atualmente é pesquisadora e sócia da Neotropical Consultoria Ambiental e consultora da Itaipu Binacional.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - De que maneira as hidrelétricas afetam a ecologia dos ambientes aquáticos?

Lisiane Hahn -
A formação de um reservatório provoca mudanças na estrutura dos ambientes aquáticos ao transformar um rio de águas rápidas (lóticas) em um sistema de águas paradas (lêntico) e também ao inundar ambientes terrestres e/ou várzeas e lagoas marginais. Esta mudança causa alterações nas estruturas das comunidades aquáticas, principalmente através da substituição ou extinção local de espécies. Espécies de peixes reofílicos (aqueles que necessitam de águas rápidas para sua sobrevivência) se tornam mais raras, enquanto espécies de águas lênticas se tornam mais abundantes. Além da formação do reservatório, uma hidrelétrica causa alterações nos ambientes situados abaixo dela, uma vez que a vazão do rio passa a ser regulada de acordo com a demanda de energia elétrica.


IHU On-Line - Como se dá o processo da migração de peixes a partir da construção de hidrelétricas? Isso ocorre aqui no Rio Grande do Sul?a

Lisiane Hahn -
O padrão de migração geral inclui o deslocamento das espécies entre diferentes áreas do ciclo de vida (desova, alimentação, crescimento). Esse deslocamento pode variar em distância, desde alguns quilômetros até 3.500 km (sistema amazônico). No Rio Grande do Sul, em rios da bacia do Rio Uruguai, deslocamentos de espécies migradoras (dourado, por exemplo) superiores a 1.000 km já foram registrados. Com a interrupção desta rota por uma hidrelétrica, os peixes passam a não ter acesso ou ter acesso limitado às diferentes áreas do ciclo de vida. A plasticidade (capacidade de se adaptar a novos ambientes e/ou condições ambientais) dos peixes migradores ainda é pouco conhecida, mas alguns casos de “escolha” de rotas alternativas de migração já são conhecidos.

IHU On-Line - A criação de peixes em tanques e reservatórios d’água, como substituição dos rios onde foram construídas barragens para hidrelétricas, é uma alternativa ecologicamente viável?

Lisiane Hahn -
Na minha opinião, não. A maioria dos peixes migradores não se adapta a ambientes de águas paradas, o que, somado a outros fatores acaba não justificando o popular “povoamento” dos reservatórios. Em relação aos tanques-rede, eles podem ser uma alternativa de fonte de renda a produtores, mas não uma alternativa ecológica ou de conservação de espécies. Além disso, a criação de peixes confinados não mantém as comunidades tradicionais de pescadores na sua função original, uma vez que eles passam de pescadores a aquicultores ou empresários de produção e venda do pescado, para cujo sistema não foram preparados.

IHU On-Line - Como você avalia a Usina Hidrelétrica de Passo Fundo em relação aos impactos sociais e ambientais?

Lisiane Hahn -
A hidrelétrica de Passo Fundo é uma das mais antigas do estado (em operação há mais de 30 anos). Foi construída em uma época em que a exigência de avaliação e mitigação de impacto social e ambiental era praticamente nula. Comparativamente a outras usinas no Brasil, o número de famílias realocadas foi pequeno e, se utilizarmos apenas este critério, poderia dizer que o impacto social também foi menor. Em relação aos impactos ambientais, o reservatório (com área relativamente grande em relação à potência gerada) inundou ambientes lóticos e áreas de várzea, alterando consideravelmente a composição da ictiofauna. Entretanto, como os dados anteriores à formação do reservatório são escassos, fica difícil estabelecermos um parâmetro do “antes e depois”. Acredito que um dos principais impactos da usina de Passo Fundo foi que ela desviou as águas do rio de mesmo nome para o rio Erechim, criando um trecho de aproximadamente 10 km de vazão extremamente reduzida, onde as condições ambientais são críticas.

IHU On-Line - Temos hoje no Rio Grande do Sul um modelo de usina hidrelétrica ambientalmente sustentável?

Lisiane Hahn -
Não acredito que tenhamos um “modelo”, mas as usinas mais novas, por demandas dos órgãos ambientais competentes, estão investindo mais em pesquisa e medidas de mitigação de impactos do que as construídas antes da década de 1990.

IHU On-Line - Quais os cuidados básicos que devem ser tomados em relação aos reservatórios das usinas hidrelétricas? Como está a situação no Rio Grande do Sul?

Lisiane Hahn -
Os cuidados são divididos basicamente em duas categorias: monitoramento e medidas de mitigação e manejo. Quanto mais criterioso o monitoramento, melhor será a visão do sistema e mais eficazes serão as medidas de mitigação e manejo. Portanto, qualquer interferência no sistema depende diretamente da qualidade do monitoramento realizado. No Rio Grande do Sul, algumas empresas investem mais pesado em monitoramento, enquanto outras realizam apenas o básico. A qualidade da equipe técnica e das técnicas empregadas eleva os custos dos programas, levando muitas vezes a contratação de pessoal não capacitado e escolha de metodologias que trazem muito pouca informação do sistema.

IHU On-Line - Em que medida as experiências com a hidrelétrica de Itaipu podem servir de exemplo (bom ou mau) para as hidrelétricas no Rio Grande do Sul?

Lisiane Hahn -
A hidrelétrica de Itaipu, devido a sua magnitude, provocou profundos impactos sociais e ambientais na bacia do Rio Paraná. Entretanto, entre as usinas hidrelétricas brasileiras é uma das que mais investe em pesquisa. A maior série histórica de dados sobre a pesca foi e é gerada pelo reservatório de Itaipu. Este conhecimento acima da média do sistema se deve em grande parte à participação, nos estudos, da Universidade Estadual de Maringá, através do Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura - Nupélia. Este núcleo de excelência, reconhecido internacionalmente, pesquisa há mais de 20 anos os ecossistemas aquáticos da bacia do Rio Paraná.

IHU On-Line - Quais as vantagens e desvantagens das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) em comparação às grandes usinas hidrelétricas?

Lisiane Hahn -
Teoricamente, por possuírem uma área inundada proporcionalmente menor em relação às grandes usinas, o impacto das PCHs é menor. Porém, a localização destas, muitas vezes em tributários ou em porções superiores das bacias, pode afetar profundamente espécies endêmicas de peixes ou áreas de desova de espécies migradoras. O número de PCHs também é importante: ao se instalar diversas Pequenas Centrais Hidrelétricas num mesmo rio, o impacto pode ser proporcionalmente maior à instalação de uma grande usina.

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