Edição 340 | 23 Agosto 2010

O desafio de retomar os mitos e reencantar o mundo a partir do Sumak Kawsay

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Moisés Sbardelotto | Tradução de Moisés Sbardelotto



IHU On-Line – Você defende o Sumak Kawsay como expressão da descolonização do poder. Em que sentido?

Tatiana Roa Avendaño – Para falar do Bem-Viver como processo de descolonização do poder, devemos refletir sobre o papel desempenhado pelos movimentos sociais indígenas, negros, campesinos, de mulheres, de ambientalistas e de operários, para que esse conceito – assim como outros que o integram: o direito da natureza, o direito à água, à soberania alimentar, o estado palurinacional – seja realidade. Devemos reconhecer que são elas e eles os verdadeiros protagonistas dessas lutas contra-hegemônicas, aqueles que trabalham na construção de alternativas frente à homogeneização das culturas e da vida.

A força das reivindicações de participação política dos povos da América tem sido determinante para que as sociedades americanas incorporem elementos de “um pensamento não ocidental” e “deseuropeizante”, não só em algumas cartas constitucionais, mas também dentro das reivindicações do movimento social continental, chegando inclusive a permear outros movimentos sociais do planeta. Assuntos como a administração de justiça comunitária, a interculturalidade e a plurinacionalidade, as novas relações entre os seres humanos e a natureza, os direitos da natureza, os territórios coletivos, os outros sistemas de crenças são expressões da ruptura que, a partir dos setores tradicionalmente subalternizados, têm desocidentalizado e descolonizado o pensamento, o ser e o saber.

IHU On-Line – Na América Latina, vivemos em regiões com uma natureza muito rica e abundante. Como o Bem-Viver se coloca diante das noções de abundância e acumulação?

Tatiana Roa Avendaño –
O Sumak Kawsay é um esforço para reconhecer as contribuições e os conhecimentos milenares dos povos de Abya-Ayla para enfrentar o maior desafio que a humanidade tem: a crise ambiental que ameaça a própria existência da humanidade, e cuja máxima expressão são as mudanças climáticas. Por isso, a necessidade de propor novamente as relações entre os seres humanos com a natureza leva necessariamente a uma ruptura com a imposição neoliberal de desenvolvimento e de crescimento econômico, implica e, “superar o capitalismo como sistema social e histórico”, como bem expressa Evo Morales, presidente da Bolívia.

As mudanças climáticas – que nada mais são do que a expressão de uma crise de uma sociedade que se sustentou em um modelo de civilização no uso de combustíveis fósseis e que provocaram o maior desastre ambiental da história da humanidade – não podem continuar sendo enfrentadas a partir de soluções de mercado, como propõe a Convenção de Mudanças Climáticas e o Protocolo de Kyoto . Para enfrentar os problemas modernos, requerem-se soluções não modernas, diz Boaventura dos Santos.

Por essa razão, enfrentar a crise climática a partir de novas relações com a natureza leva-nos a escutar o chamado dos povos indígenas, que se opõem à exploração petroleira, como o povo u'wa, que, por mais de uma década, manifestou sua oposição aos projetos petroleiros no seu território. As propostas que são construídas no Equador com o [parque nacional] Yasuní  de deixar o petróleo debaixo da terra representam soluções reais para as mudanças climáticas.

Os u'wa dizem que o petróleo é ruiría. Para esse povo andino, ruiría é o sangue da Terra, da Mãe, da Pachamama; ruiría é sagrado, até porque, sem o sangue, o planeta morrerá. Seguir extraindo petróleo, como atualmente a sociedade ocidental faz, é caminhar inexoravelmente para a morte.

Reduzir os níveis de consumo de hidrocarboneto a zero implicará em transformações totais e concretas na atual civilização. O Bem-Viver não é simplesmente um discurso bonito: é um desafio para assumir profundas transformações em nossas sociedades; é assumir um novo paradigma civilizatório; implica no desafio de harmonizar na realidade nossas relações com a natureza; implica em pôr em prática o reconhecimento dos direitos da natureza; desafia-nos a ouvir as sabedorias de nossos ancestrais; abre-nos a possibilidade para uma descolonização profunda, para um diálogo com a natureza e para reconhecer a sua dimensão espiritual.

IHU On-Line – Há alguma relação entre o Sumak Kawsay e o conceito de Yvy marã ei (terra sem males) dos guarani? É possível incorporar esses princípios filosóficos e espirituais dos povos indígenas originários na cultura atual?

Tatiana Roa Avendaño –
Claro, cada povo indígena que construiu a sua própria visão de mundo mais estreitamente ligada à terra se aproxima de outros em seu sentido espiritual, em suas relações harmoniosas com a natureza e no trabalho comunitário.

Trata-se então de ouvir as propostas surgidas a partir da periferia de nossas sociedades, a dos negros e das negras das nossas costas do Pacífico, do Atlântico e do Caribe, a dos índios andinos e amazônicos, a dos agricultores e agricultoras protetores de sementes e cuidadores da água, a dos índios mesoamericanos, a das mulheres, a dos xamãs, a dos taitas, a dos werjayas e de todos nossos avôs e nossas avós que nos ensinaram suas sabedorias e as de tantas outros seres anônimos que, apesar do avassalamento a partir da chamada conquista, garantiram que, ainda hoje, existam diversidade de línguas, de culturas, de espiritualidades, de conhecimentos e de saberes, e de tantas outras formas de nos aproximar e entender o mundo.

Investigar as sabedorias do pensamento indígena, africano, mestiço talvez nos leve a não exigir a construção de nada “novo”, como bem disse o colombiano Adolfo Albán, mas sim a “reconhecer e revitalizar e, certamente, traduzir tudo aquilo que ainda existe como barbárie, exotismos, saberes, fazeres e folclore”.

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