Edição 340 | 23 Agosto 2010

Bem-Viver: um aprendizado para a humanidade

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Patricia Fachin

O líder indígena Davi Kopenawa defende a ideia de que o mundo precisa “ter um xamanismo, um curandeiro para curar a doença das florestas, as epidemias que pegam a nossa alma”

Davi Kopenawa Yanomami, líder indígena dos yanomami, se define como o “vigia” de seu povo e tem a função de defender a comunidade, a natureza e a floresta. Nascido na tribo Yanomami Tootobi, próxima à fronteira com a Venezuela, ele se dedica a lutar pelos direitos dos povos indígenas e já viajou ao Reino Unido e a Suécia, em função da causa que defende. Ele vive no Brasil, na fronteira com a Venezuela.
Ao conversar por telefone com a IHU On-Line, ele lamenta que o homem branco não entenda o modo vida do seu povo e relata que o desrespeito com a cultura indígena faz com que muitos índios não queiram mais viver de acordo com sua tradição. “A alimentação da cidade é muito forte, trai o nosso costume e acaba com a coragem de trabalho nas comunidades”.

Para o líder yanomami, o mundo está doente e isso afeta todos os seres vivos da Terra. Ele enfatiza ainda que o caos urbano e a poluição “são como uma doença para as comunidades indígenas do Brasil”. Por isso, ele aconselha: “O homem da cidade também precisa aprender a respeitar a vida da natureza porque ela faz o bem, traz a saúde, alegria e tudo que precisamos para viver bem, sem brigas e sem doença”.

Confira o depoimento.

“Hoje os povos indígenas estão preocupados e revoltados porque o homem branco destrói a natureza e as terras indígenas sem conversar com ninguém. Nossa vida e nossos costumes são diferentes dos do homem branco. Estamos lutando para poder viver, defender nossos direitos, nossa saúde, língua e comunidade.

A cultura dos brancos é muito forte nas comunidades indígenas. O movimento nas cidades, os carros e aviões são como uma doença para as comunidades indígenas do Brasil. Nós, que moramos na floresta, tentamos explicar para nossos filhos que os políticos estão tentando acabar com nossa língua e nossos costumes. Por isso, queremos que nossas terras sejam demarcadas e homologadas. O homem da cidade também precisa aprender a respeitar a vida da natureza porque ela faz o bem, traz a saúde, alegria e tudo que precisamos para viver bem, sem brigas e sem doença. Mas a doença está muito grande para todos os povos da Terra e não somente para os índios. Outros povos indígenas já não falam mais a própria língua e não querem viver como viviam antes: caçar, pescar, trabalhar na roça, plantar mandioca, banana. A alimentação da cidade é muito forte, trai o nosso costume e acaba com a coragem de trabalho nas comunidades. Tem de ter um xamanismo, um curandeiro para curar a doença das florestas, as epidemias que pegam a nossa alma. Por isso é importante ter pajés nas aldeias para controlarem a onda do mundo; pajés que manejem o mundo para não chover e esquentar muito. O planeta é grande, mas os homens ricos ficam invadindo e mexendo nas nossas terras e na natureza.

O meu povo yanomami está mantendo a cultura viva. É um povo diferente dos outros, que estão morando na beira da estrada, perto dos municípios. Esses estão encontrando dificuldades para viver: onde vão caçar como caçavam antes? O lugar dos índios está destruído. Por isso, nós, yanomami, continuamos defendendo os nossos direitos.

Vocês falam em resgate: cortaram a floresta e, agora, para resgatar é difícil e já está tarde. Tem de resgatar antes de destruir. O homem da cidade não gosta da natureza, dos animais, das árvores. Ele só gosta de derrubar e fazer plantação de capim. Quem come capim? O boi. O homem branco é capitalista, pensa só no dinheiro e em derrubar as árvores, matar animais. O remédio medicinal que a gente usa está na floresta. E os brancos também usam esses mesmos remédios para ficar com saúde.

Os índios do Equador estão lutando para salvar um pedaço da floresta que sobrou. Por isso é importante que os índios lutem por seus direitos porque o branco não quer respeitar os direitos indígenas.

Sou vigia do meu povo e tento defender minha comunidade, a natureza e a floresta, que é a casa do povo. Para vocês, floresta é meio ambiente; para nós, ela é uma casa onde se guarda a alimentação e onde vivem outros povos indígenas com seus costumes tradicionais.

Nós estamos sendo invadidos, querem casar com as índias, estão perturbando a gente. Nós temos outros costumes, moramos em malocas e elas ficam longe uma da outra e não amontoadas como as dos brancos. Nós gostamos da natureza, dos pássaros cantando, do vento, da chuva. A natureza traz ar limpo e saúde.

O povo yanomami não fala português, não conhece políticos, nem comunidades de outras cidades. Como estragaram nossa saúde, o governo precisa dar um apoio para cuidar da saúde dos índios que estão na floresta.
Nós podemos ensinar o homem branco a pensar antes de destruir, ensinar a comer bem, dormir bem. Os yanomami ensinam os homens a não derrubarem árvores porque elas têm vida e saúde como nós. Podemos ensinar a não poluir nossos rios, peixes, a não garimpar, não deixar entrar mineração e rodovias federais em terras indígenas. Podemos mostrar a luz da sabedoria para sobrevivermos na Terra. Sei que alguns homens não acreditam, mas outros, sim, e estão nos ajudando. O homem branco fala de mudanças climáticas e dizem que e elas são uma doença para os municípios. Os homens da cidade são loucos, cada vez querem ganhar mais dinheiro. Por isso, nós indígenas falamos para preservar a vida da natureza porque ela é uma vida. Se derrubar tudo, fica quente demais, não tem água, não chove mais. Então, quando vou à Brasília, falo que o papel das lideranças e do povo indígena é ensinar os filhos e os netos preservar o pequeno pedaço da floresta que sobrou.”

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