Edição 340 | 23 Agosto 2010

O bem-viver como perspectiva ecobiótica e cosmogônica

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Moisés Sbardelotto | Tradução de Moisés Sbardelotto

Para o índio aymara qullana Simón Yampara, precisamos de complementaridade para entender o percurso da convivência das energias dos diversos mundos em harmonia integral

Ecobiótica, cosmogonia, cosmocimento versus monopensamento, monologia. São tantos os neologismos empregados por Simón Yampara, índio aymara qullana, que percebemos que realmente ele está falando de outra coisa, de uma nova realidade, que chega a causar surpresa para o “monopensamento ocidental”.

Nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Yampara emprega analogias concretas para uma civilização que carrega a técnica como valor central: é preciso impedir que o chip ocidental formate os conhecimentos milenares. Por isso, é preciso pensar a vida com um novo “software, que supere uma visão e uma lógica linear da vida.”

Os conceitos do Sumak Kawsay e do Suma Qamaña, segundo ele, nos permitem olhar para a história ciclicamente, para o processo da vida em espiral. “Aqui, o passado está à frente e tem importância substancial, pois ali está a acumulação de experiências e saberes. O futuro está atrás, por vir. E o futuro deve ser projetado em função da experiência milenar”, afirma.

Por isso, segundo ele, o bem-viver é uma apjhata (contribuição) da civilização indígena à vida. Afirma-se que, nos Andes, “tudo tem vida”. E é o ayni, o sistema de trabalho e convivência dos índios andinos, que movimenta as energias material-espirituais da vida. Um ayni, segundo Yampara, “ecobiótico, cosmogônico, convivial”.

Simón Yampara é índio aymara qullana, nascido no Ayllu (tribo) dentro dos limites do departamento de La Paz, na fronteira com Oruro, na Bolívia. Fez seus estudos primários em Oruro, mudando-se depois para La Paz, onde se formou em sociologia. Nos anos universitários, começou a debater assuntos como a luta de classes e o Suma Qamaña (Bem-viver), sentindo-se duplamente influenciado pelo ayllu e pela universidade. É assessor principal da Fundação Qullana Suma Qamaña, professor do programa de mestrado da Agroecología Universidad Cochabamba – Agruco, da Universidad Mayor de San Simón – UMSS, em Cochabamba, e da Universidad Andina Simón Bolívar, em Quito, no Equador. Já trabalhou no Ministério de Assuntos Agropecuários da Bolívia e atualmente trabalha na Secretaria de Turismo da Prefeitura de La Paz.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Quais são os aspectos centrais do paradigma de vida do Suma Qamaña ou Sumak Kawsay?

Simón Yampara Huarachi –
Na década de 1980, essa não era uma boa palavra; o mundo acadêmico suspeitava de sua existência, e menos ainda o mundo político. Muitas pessoas, quando falavam e tentavam explicá-la, zombavam com termos pejorativos, mas depois de 30 anos de persistência, hoje tentam entendê-la, com o perigo de tergiversar, simplificar, traduzir mal, subordinar às lógicas do pensamento ocidental e a paradigmas de vida da tendência do desenvolvimento-progresso. Mas isso tem a ver com a linearidade do monopensamento, da monologia ocidental.

Hoje, é traduzida como viver-bem, mas não sabemos de quem ou do quê. Implicitamente, está se falando do mundo das pessoas, isso que chamam de desenvolvimento humano, mas separado ou isolado da coexistência dos diversos mundos da comunidade ecobiótica natural. Aqui surge aquilo que, a partir das teorias ocidentais, vem-se afirmando: que o homem é o único ser racional e inteligente que se diferencia dos outros seres. Implicitamente, por isso, ele pode usar e abusar à vontade dos outros mundos e dos seres que habitam a casa do mundo cosmobiótico.

Aqui, já há problemas de lógica, compreensão e intenções de assimilar, resgatar, incorporar como um valor indígena os valores da matriz ocidental. Isto é, dar o chip ocidental a um paradigma de vida e valores do mundo andino. E mais: uma coisa é olhar para a história e ver a lógica da linearidade da vida, em que o futuro ganha importância, e o passado é algo superado e, portanto, sem importância; e, a partir do presente, deve-se olhar e adivinhar o futuro. Outra coisa é olhar para a história ciclicamente, o processo da vida em espiral. Aqui, o passado está à frente e tem importância substancial, pois ali está a acumulação de experiências e saberes. O futuro está atrás, por vir. E o futuro deve ser projetado em função da experiência milenar.

Isso corresponde a sistemas e maneiras de cultivar o conhecimento, valores, modelos de organização e paradigmas de vidas diferentes, que, por efeito da tradição colonial do monopensamento ocidental, não se quer diferenciar ou considerar. Isso tem muito a ver com a prevalência dos valores do sistema ocidental centenário nesta parte do globo terrestre.

Agora vamos explicar brevemente o que é o Suma Qamaña. Como dissemos, tem a ver com a interação harmonizada das dimensões de:

a. Qulqa-yanaka (materialidade) e Japhalla ajayu (espiritualidade), em que o mundo das pessoas deve ser usado e aproveitado, interagindo simultaneamente interesses sayana (privados) e Saraqa (comunitários), ou seja, quatro elementos interativos convivenciais e harmonizados.

b. Por outro lado, ele harmoniza, processa forças e energias de alx-pacha (de cima, altura), com as de manqhapacha (de dentro, da profundidade), ambos com as energias do tata-inti (astro sol), do dia, da luz, da claridade, com as energias da phaxsi mama (lua), da escuridão da noite.

c. Um terceiro elemento é que ele se move em uma escala de taypi (centro, encontro) entre jaka (vida) e jiwa (morte). Esta é qama (vivência, convivência), em que, com o sufixo ña, teríamos a qamaña. Isso, por sua vez, tem a ver com a vivência com wali aski suma qamaña (a excelência da vida em bem-estar e harmonia) e jan wali, kunaymanas jakjañaki (sofrimento e mal-estar em pobreza e opressão). O taypi (aproximação, centro) de ambos é o suma qamaña.

d. Quarto elemento axiomático é a convivência dos diferentes mundos em bem-estar harmônico, em que Uywa (mundo animal), Yapu (mundo vegetal), Japhalla (mundo das divindades naturais), Uraq-pacha (mundo da terra) e Jaqi (naka) (mundo das pessoas) são partes integrantes da comunidade ecobiótica natural da vida cosmoconvivial.

IHU On-Line – O senhor fala de dois diferentes "softwares das matrizes civilizatório-culturais": o andino e o ocidental. Quais são esses softwares e como eles se diferenciam?

Simón Yampara Huarachi –
São as duas lógicas, duas visões históricas e dois programas de paradigmas de vida no espaço territorial andino. A civilização Tiwanakuta – ancestral milenar – e a ocidental capitalista – centenária nesta parte do mundo. A primeira parte da paridade, transita pela trialidade, passa à tetralidade, em que está implícita a pentalidade. Além disso, a visão da história é cíclica e em espirais, em que o nayrax-pacha (espaço-tempo de antes) e o nayrax-suyu (espaço territorial de antes) são mais importantes do que o jutir pacha (futuro). Isto é, o passado é muito importante para ver o devir e a projeção do futuro.

Por outro lado, a segunda – ocidental – parte da unidade solta, da unidimensionalidade, do monopensamento, para transitar ao materialismo dialético marxista, em que se cultiva a dicotomia de anulação de um pelo outro. Assim, conseguem o sucesso e a competitividade apregoados. Aqui, a visão da história é linear, em que o passado é passado, e o futuro é mais importante, porque o passado é passado e pisado.

Eu chamo esses formatos de programas de vida de "software das matrizes civilizatórias culturais", pois cada civilização faz e cultiva os valores de forma diferente. Uma, de forma mais cosmoconvivial, com os diversos mundos em harmonia, uma cultura convivial como a andina. E a outra, privilegiando o direito e a propriedade privada, uma cultura da iniciativa e da acumulação privada.

IHU On-Line – Em uma sociedade globalizada e mundializada, como o bem viver nos ajuda a nos situar diante daquilo que você chama de "superposição/imposição de valores e paradigmas exógenos"?

Simón Yampara Huarachi –
A invasão colonial abriu precisamente espaços de globalização e de mundialização do sistema capitalista. Entendemos isso como superposição/imposição de valores e paradigmas de vida exógenos, como a tendência ao "desenvolvimento/progresso" para alguns, e à fome, pobreza material e miséria para outros. A descolonização é a identificação e a diferenciação dos sistemas e o cultivo de valores diferenciados a partir das civilizações. Assim, a partir desses espaços, antes de excluir ou incluir – que é negar ou formatar em um ou outro como política de exclusão ou incorporação –, precisamos complementar para entender o percurso da convivência em harmonia integral das energias dos diversos mundos. Isso faz parte do suma qamaña, mais reconhecido como bem-viver. Por isso, é preciso ver como uma apjhata (contribuição) de uma civilização à vida.

IHU On-Line – Passamos por uma crise ambiental e climática. Nesse sentido, que outro tipo de relacionamento com a natureza nos é proposta a partir do bem viver?

Simón Yampara Huarachi –
O ayni, o processo da convivialidade dos diversos mundos do ecossistema andino, desempenha um papel de emulação e complementação das dimensões da materialidade e da espiritualidade. Ali, a cerimônia ritual assume a função articuladora e interativa de modo complementar a ambas as dimensões, os espaços, em que waxta (convidar, convocar, oferecer), phuqhacha (dar, outorgar, cumprir radicalmente), ch'alla (orvalhar, compartilhar, intercomunicar), as energias, são instâncias de comunicação, entretenimento, partilha por intermédio das folhas de coca e da q'uwa (mesa ritual), cerimoniosa e consagrada, com a comunidade das deidades naturais. 

Nesse sentido, afirma-se que, nos Andes, tudo tem vida e tudo na vida é um ayni. Aqui, diferentemente dos valores da sociedade ocidental, em que a materialidade e a luta de classes movimentam a máquina da sociedade, é o ayni, nos Andes, que movimenta as energias material e espirituais da vida. Ayni ecobiótico, cosmogônico, convivial.

Outro elemento que diferencia a forma de cultivar valores entre os Andes e o Ocidente é que, nos Andes, convive-se em interação com os diversos mundos, como o animal, o vegetal, o da terra, o das deidades naturais, com o mundo das pessoas, em que ninguém é mais nem menos importante. Todos são importantes para o bem-estar e a harmonia da comunidade. No Ocidente, afirmam que o mundo das pessoas, de forma isolada, é mais importante, e, por isso, fala-se de desenvolvimento humano, como observamos anteriormente.

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