Edição 338 | 11 Agosto 2010

As controvérsias da política econômica brasileira

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Patricia Fachin

Para o economista Fernando Cardim de Carvalho, a maior decepção brasileira foi não ter estabelecido, nos últimos dezesseis anos, um projeto nacional de desenvolvimento

"Apoiar empresas nacionais é o que todo país com uma liderança minimamente inteligente faz”, enfatiza Fernando Cardim de Carvalho, à IHU On-Line, por e-mail. Na entrevista que segue, ele explica que países como o Brasil, que ainda estão “construindo uma estrutura produtiva mais completa e madura, necessitam” do apoio ativo do Estado “para evitar o desperdício de recursos em atividades que exerçam impacto relativamente reduzido em termos de dinamização e transformação da economia”. Para ele, o fortalecimento de “campeões nacionais tem o objetivo de torná-los mais resistentes à competição externa, onde as empresas crescem continuamente através de fusões e aquisições, permitindo que elas aproveitem economias de escala e de escopo, ao mesmo tempo em que sua presença em outros países pode também permitir que se beneficiem com incentivos locais”. O economista ressaltou ainda, na entrevista concedida por e-mail, que embora a política econômica seja “um tanto esquizofrênica”, a política industrial “formulada e implementada pelo BNDES, é certamente pró-industrialização e crescimento da economia brasileira e tem sido, no fundamental, muito bem sucedida em neutralizar os efeitos nefastos do período FHC”.

Fernando Cardim de Carvalho é mestre em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Economia pela Rutgers, The State University of New Jersey. Atualmente, é consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O Estado financiador (a partir das políticas de incentivo do BNDES) se justifica na conjuntura atual?

Fernando Cardim de Carvalho - Na verdade, a participação ativa do Estado no financiamento do investimento produtivo se justifica por razões estruturais, derivadas da natureza ainda subdesenvolvida da economia brasileira. Países que ainda estão construindo uma estrutura produtiva mais completa e madura necessitam desse apoio para evitar o desperdício de recursos em atividades que exerçam impacto relativamente reduzido em termos de dinamização e transformação da economia. Esta é a razão pela qual uma instituição como o BNDES é tão importante, não muito diferente da razão pela qual a nacionalização do sistema bancário francês foi importante, no imediato pós-Segunda Guerra, para reconstrução daquele país. No caso de uma crise financeira, e uma crise, diga-se, de grandes proporções como esta que ainda estamos vivendo, agrega-se ainda uma justificativa de curto prazo. Instituições financeiras privadas tendem a se retrair quando as incertezas aumentam, como ocorreu em todo o mundo. São instituições públicas, que não têm razões para temer uma falência, que podem ser ousadas e avançar na sustentação da oferta de crédito. A crise ainda não acabou, nem os mecanismos de sustentação do investimento devem ser desativados.

IHU On-Line - A atual política econômica favorece ou não a industrialização e a economia brasileira?

Fernando Cardim de Carvalho - A política econômica atual é um tanto esquizofrênica. A política industrial, largamente formulada e implementada pelo BNDES, é certamente pró-industrialização e crescimento da economia brasileira e tem sido, no fundamental, muito bem sucedida em neutralizar os efeitos nefastos do período FHC. Já a política monetária, elemento essencial da estratégia macroeconômica, ao manter juros excessivamente elevados e alimentar tendências à sobrevalorização cambial, contribui para a fragilização da economia no curto prazo, aumentando os riscos de uma crise cambial, como está ocorrendo agora, ao desestimular exportações e o investimento. É como um avião onde uma turbina está com plena força para a frente, e outra está no reverso. A turbina insistentemente levando para trás é a política monetária do Banco Central.

IHU On-Line - O que se pode entender como estratégia política econômica do governo a partir da política do BNDES de apoiar o fortalecimento de gigantes nacionais? O que essa prática significa e sinaliza para o país no futuro?

Fernando Cardim de Carvalho - Entendo que o fortalecimento de alguns campeões nacionais tem o objetivo de torná-los mais resistentes à competição externa, onde as empresas crescem continuamente através de fusões e aquisições, permitindo que elas aproveitem economias de escala e de escopo, ao mesmo tempo em que sua presença em outros países pode também permitir que se beneficiem com incentivos locais. Esta não é uma meta que se aplique a qualquer setor. Onde houver economias de escala e integração a serem aproveitadas, elas podem se justificar, em outros casos não. É preciso ver caso a caso para se ter uma adequada avaliação da política.

IHU On-Line - Alguns economistas dizem que as privatizações foram um erro no Brasil, mas que o país está tentando “ficar esperto novamente”, ao apoiar suas empresas nacionais. Como avalia os casos de privatizações e fusões no país?

Fernando Cardim de Carvalho - Eu tendo a evitar a polarização ideológica que cerca o tema das privatizações. Para mim, é uma questão de eficácia e disponibilidade de recursos. Eu posso concordar, por exemplo, com o ex-ministro Bresser-Pereira  que o setor de telecomunicações, em tese, não devesse ter sido privatizado. Concretamente, porém, telecomunicações neste país eram um completo desastre.
Empresas como a Telerj, no Rio de Janeiro, eram a publicidade mais eficaz que uma campanha pró-privatizações poderia ter. Hoje em dia uma empresa como a Infraero joga o mesmo papel: é impossível não viajar com frequência e não observar que o serviço oferecido pela empresa nos aeroportos não tem qualquer qualidade e que uma empresa como aquela, com a idade que tem, não tem mais direito a pleitear apoio. A privatização não poderia piorar o serviço que oferecem. Já no setor de energia elétrica, especialmente de geração, a privatização parece ter sido um desastre, como ilustrado pelo ocorrido no estado da Califórnia. O que importa é que o serviço seja oferecido adequadamente, a custo apropriado. Se a empresa é privada ou estatal não é o essencial. Por outro lado, apoiar empresas nacionais é mesmo o que todo país com uma liderança minimamente inteligente faz. Novamente, a questão mais importante é definir por que métodos esse apoio é dado e quais são as contrapartidas que têm de ser exigidas dos empresários beneficiados. Uma visão mais nacionalista não pode ser desculpa para favorecimento de empresários incompetentes.

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