Edição 335 | 28 Junho 2010

Sexualidade, poder político e técnicas disciplinares

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Márcia Junges

Marcos César Alvarez, sociólogo, examina a conjunção entre soberania, disciplina e governamentabilidade e debate as ideias de Michel Foucault

“A sexualidade hoje é alvo tanto de técnicas disciplinares, voltadas para a normalização da sexualidade – definição do que é normal ou não – como também na questão da gestão de populações, preocupação com a reprodução etc”. A afirmação é do sociólogo Marcos César Alvarez, em entrevista exclusiva que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, o sexo é um poder político “porque as tecnologias de poder transformaram o exercício da sexualidade numa questão política. Por isso, comportamentos que antes estavam restritos à vida privada são hoje publicamente discutidos e politizados”.

Professor no departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, Alvarez é graduado em Ciências Sociais por essa instituição, onde também cursou mestrado e doutorado em Sociologia. Sua tese intitulou-se Bacharéis, criminologistas e juristas: saber jurídico e nova escola penal no Brasil - 1889-1930 (São Paulo: IBCCRIM, 2003). É pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), na França. É um dos organizadores da obras O legado de Foucault (São Paulo: Editora da UNESP, 2006). Em 16 de junho, apresentou a conferência Soberania, disciplina e governamentabilidade como tecnologias de poder, dentro da programação do Seminário Michel Foucault – Corpo, sexualidade e direito, promovido pela UNESP/Marília. Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a relação entre soberania, disciplina e governamentabilidade como tecnologias de poder?
Marcos César Alvarez - Para Foucault, soberania, disciplina e governamentabilidade são diferentes tecnologias de poder. É preciso, no entanto, perceber que o poder para Foucault é uma forma de ação que é produtiva, e não apenas negativa. Quando alguns homens agem sobre a ação de outros, existe poder, por isso o poder está presente em qualquer convivência social. Se o poder soberano é aquele que pode levar à morte ou deixar o súdito viver, o poder disciplinar está voltado para o adestramento dos corpos, buscando objetivos produtivos. A governamentabilidade, por outro lado, tem como alvo o governo de populações.

IHU On-Line - Quais são as principais tecnologias de poder aplicadas à sexualidade hoje?
Marcos César Alvarez - Seguindo as discussões de Foucault, podemos considerar que a sexualidade hoje é alvo tanto de técnicas disciplinares, voltadas para a normalização da sexualidade – definição do que é normal ou não – como também na questão da gestão de populações, preocupação com a reprodução etc.

IHU On-Line - Como essas tecnologias redefinem a questão de gênero?
Marcos César Alvarez - A discussão em torno do gênero só foi possível devido ao seu investimento por essas tecnologias de poder na modernidade. A partir das lutas de mulheres e minorias, transformadas em objetos e sujeitos por essas tecnologias de poder, é que emergem as questões de gênero.

IHU On-Line - A sociedade patriarcal está ameaçada a partir da revolução queer? Por quê?
Marcos César Alvarez - Não sou especialista nas questões de gênero, mas creio que seria ingênuo afirmar que a sociedade patriarcal ou outras formas de dominação estão superadas. Pelo contrário, trata-se de lutas permanentes, que, por vezes, permitem afirmar novos direitos e ampliar a cidadania, mas, em outras, ocorrem retrocessos. 

IHU On-Line - Como a homofobia e o sexismo influenciam na aplicação das tecnologias de poder à sexualidade?
Marcos César Alvarez - Aqui acho preciso retomar a distinção feita por Foucault entre violência e poder. A violência é aquilo que destrói os corpos, enquanto que o poder é sempre uma forma de agir sobre os corpos. A homofobia e o sexismo podem se revelar em pura violência – no assassinato, por exemplo, de mulheres e homossexuais – ou em tecnologias de poder que recolocam formas assimétricas, desiguais de convivência social.

IHU On-Line - Em que medida o sexo é um poder político?
Marcos César Alvarez - O sexo é um poder político porque as tecnologias de poder transformaram o exercício da sexualidade numa questão política. Por isso, comportamentos que antes estavam restritos à vida privada são hoje publicamente discutidos e politizados.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Marcos César Alvarez - O importante é perceber, considerando as discussões de Foucault, que a vida social implica na existência de formas de poder. A questão é como construir formas de convivência social democráticas, a partir das quais as tecnologias de poder possam ser permanentemente criticadas.

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