Edição 332 | 07 Junho 2010

A República Guarani de Clovis Lugon

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Antonio Cechin

Antonio Chechin comenta a obra de Lugon, publicada originalmente como La Republique des Guarani - Les jésuites au pouvoir, traduzida para o português por Alcy Cheuíche

LUGON, Clovis. A república comunista cristã dos guaranis (Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1968)

Antonio Cechin comenta, no artigo a seguir, a obra A república comunista cristã dos guaranis (Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1968), de Clovis Lugon, padre suíço, já falecido, que se dedicou ao estudo das Missões Jesuíticas da América Latina. A experiência jesuítica-guarani é narrada em quatro partes, é abordada a história dos guarani antes da chegada dos jesuítas; a situação e o aspecto das reduções “no que se refere à população, à organização política, às forças armadas e às relações com a Coroa Espanhola; o trabalho agrícola, “onde predomina o tupãbaê (trabalho para Deus)”; e os ataques do mundo colonial, “os méritos dos jesuítas, o Tratado de limites e a guerra guaranítica onde avulta a figura do índio Sepé Tiaraju”.

Antonio Cechin formou-se em Letras Clássicas e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, onde também foi professor. Fez sua pós-graduação no Centro de Economia e Humanismo, em Paris. Iniciou, na Instituição Católica de Paris, a especialização em catequese, quando foi chamado para o Vaticano, na Sagrada Congregação dos Ritos, no início da década de 1960. Depois, retornou ao Brasil e iniciou a luta junto aos movimentos sociais. Cechin participará de uma mesa redonda no XII Simpósio Internacional IHU – A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade, onde abordará o tema Sepé Tiaraju. Mito Gaúcho? A programação completa está disponível no sítio do IHU. Confira.

A República Guarani de Clovis Lugon

Já são passados quatrocentos anos que, no cone sul da América Latina e adjacências, tendo como epicentro nosso Estado do Rio Grande do Sul, desenvolveu-se uma experiência de nação tão diferente, tão inusitada, tão fantástica, tão única na história do mundo que causou um terremoto de tamanha grandeza que as duas maiores potências militares de então – Espanha e Portugal – juntaram seus dois exércitos a fim de destruir a obra-prima, que aqui se construía pedra em cima de pedra, com grande amor e devoção, durante decênios. Era a República ao mesmo tempo Comunista e Cristã. Aliás, em vez do título acima, o primeiro título do livro que serviu de base a este que nos cabe apresentar, era: A República “Comunista” Cristã dos Guarani.

A assim denominada “grande experiência” pelos intelectuais europeus, não podia vingar de jeito nenhum, porque o povo guarani seria hoje com certeza a nação mais feliz e próspera do continente americano, com uma economia solidária modelar.  Bartomeu Meliá , grande antropólogo, especialista em Povo Guarani, afirma que se produzem a cada ano, nas universidades do mundo, em torno de 15 a 20 teses de pós-graduação sobre a famosa República. Durante 150 anos, Profecia e Utopia se entrecruzaram aqui nestas terras, por muitos, ainda consideradas selvagens. Clovis Lugon , um padre jesuíta suíço, para não continuar escandalizando gente fraca, depois de corrigir alguns detalhes e enxugar a obra, decidiu também simplificar o título para “A República Guarani”. Na edição original francesa, acrescentou agora como subtítulo “Os Jesuítas no poder”.

Em nossa apresentação, queremos enfatizar a candente atualidade da histórica República. Por isso mesmo, iniciamos nossa apresentação da obra com o título “Os oito povos das Missões do Rio Grande do Sul”. Os Sete Povos do Rio Grande do passado em Processo de ressurreição hoje no seu Oitavo Povo que são as Comunidades Eclesiais de Base, que deram origem à Teologia da Libertação.

O Prefácio da edição francesa é de Henri-Charles Desroches, escritor parisiense. Lugon, depois de renovar a obra, deixando-a mais enxuta e corrigida em alguns detalhes, manteve o mesmo prefaciador, a fim de reiterar o propósito de não recuar uma letra de sua intuição inicial: a República foi ao mesmo tempo comunista e cristã. Desroches logo de cara explicita as definições clássicas de uma sociedade socialista e que se encontram todas no começo do livro “A República Guarani”:

* os utensílios e meios de produção, em lugar de pertencerem a particulares, serão propriedade coletiva social;
* abolidas as classes sociais, os trabalhadores da indústria e da agricultura formarão uma associação livre para se administrar economicamente;
* organizada de acordo com um plano, a economia nacional será baseada na tecnologia industrial e agrícola;
* não deverá haver confrontos entre cidade e campo e entre indústria e agricultura;
* os produtos serão repartidos segundo a regra dos comunistas franceses: “De cada um, segundo sua capacidade; a cada um, segundo sua necessidade”.
* as ciências e as artes terão apoio para seu pleno desenvolvimento;
* a personalidade humana, isenta das preocupações da existência cotidiana e da necessidade de agradar aos poderosos, será realmente livre.

A grande experiência jesuítico-guarani é narrada em quatro partes. A primeira fala do povo guarani antes da chegada dos jesuítas, da origem das reduções, e das devastadoras destruições dos paulistas, terríveis inimigos das cidades missioneiras. Sequestraram nada menos que 300.000 índios missioneiros a fim de levá-los para trabalho escravo junto às lavouras de São Paulo. Em vez de aprisionar índios “selvagens” para trabalho agrícola no centro do país, armados de rifles e espingardas atacavam-nos nas cidades missioneiras porque aqui os encontravam prontos e treinados para a agricultura de tipo europeu que buscavam.

Na segunda parte, o autor se detém sobre a situação e o aspecto das reduções no que se refere à sua população, à organização política, às forças armadas e às relações com a Coroa Espanhola.

Na terceira parte, o destaque é para a agricultura onde predomina o tupãbaê (trabalho para Deus) que é a lavoura comunitária, ao lado do abãbaê (trabalho para si ou para a família). Por determinação da monarquia espanhola, deviam treinar os índios para a propriedade particular, modalidade de trabalho que nunca funcionou porque os guarani partiam sempre para o mutirão em que vizinhos se juntavam com vizinhos a fim de atacar juntos o primeiro lote, depois o segundo, até o último.

Na quarta parte, são narrados os ataques do mundo colonial, os méritos dos jesuítas, o Tratado de limites e a guerra guaranítica onde avulta a figura do índio Sepé Tiaraju, “o facho de luz” que além de herói acabou sendo canonizado popularmente por índios e movimentos populares. Culmina com a expulsão dos jesuítas, o fim trágico das cidades guarani pilhadas, saqueadas e arrasadas.

Na conclusão, Lugon levanta os grandes aspectos positivos ao lado também de alguns negativos. Reforça com dados concretos que a república é eminentemente comunista e finaliza com um “para além da Utopia e da República Guarani.”

O livro finaliza com uma vastíssima bibliografia em que aparecem os mais eruditos autores do mundo que escreveram obras excelentes sobre o que a Europa consagrou para a história com o nome de “a grande experiência”.

Uma palavra sobre o autor

Clovis Lugon é um padre suíço hoje falecido que pesquisou tudo o que encontrou pela frente, em termos de obras escritas ou documentos em bibliotecas da Companhia de Jesus, sobre as Missões Jesuíticas da América Latina. Aos 72 anos de idade, conseguiu realizar a peregrinação tão sonhada, de visitar os lugares históricos. No dia 27 de outubro de 1979, pisou pela primeira vez em nosso continente, precisamente no aeroporto de Porto Alegre, a fim de conhecer os herdeiros da república dos guarani, para ele, a sociedade mais perfeita que existiu até hoje. Vinha de sua casa religiosa localizada em Syon, a 100 quilômetros de Genebra. Os amigos o conheciam pelo apelido de “o Apóstolo da Utopia” pelo simples fato de ele se recusar a passar recibo da falência do mito da igualdade e da liberdade. Desembarcou em nossa capital com apenas uma maleta, porém, sua bagagem principal era a certeza de que o homem, algum dia, conseguirá construir uma sociedade justa, fraterna, sem opressão. Quando chegar esse dia, certamente os guarani dos Sete Povos serão reconhecidos como pioneiros do socialismo cristão.

Logo ao desembarcar, ao repórter que o interrogou, declarou que “a sociedade ideal que os filósofos procuram em todo o mundo não está na Ásia nem na Europa. Ela existiu durante 150 anos no meio da selva, em torno dos rios Paraná e Uruguai, e, apesar de arrasada, ainda serve de modelo para a sociedade do futuro. Não tivesse falecido antes da invenção do Fórum Social Mundial, com certeza teria advertido com vigor as esquerdas mundiais a colocarem como referencial do eslógão “um mundo novo é possível se a gente quiser”, nada mais nada menos que a sua República “Comunista” Cristã dos Guarani. “Desde Cristo, não houve, no mundo, nenhuma outra sociedade tão fiel aos preceitos cristãos de fraternidade” afirmou ele.

O livro dele foi lançado em Paris, no ano de 1949. Anos depois, houve uma edição em português. Virou obra rara e, por temor da ditadura imperante no Brasil, nunca foi reeditada.
Antes de abandonar o aeroporto Salgado Filho, acompanhado do escritor e historiador Guilhermino César , Lugon à pergunta do repórter “no que teria dado esse socialismo primitivo, devocional, cercado de ícones de todos os lados?” responde: “Se a República Guarani tivesse dado certo, possivelmente, a história da América Latina seria a de um continente a salvo da colonização, de uma sociedade crioula com um modelo próprio de convivência, com uma economia eminentemente solidária.”

Realizado o sonho de sentar diante dos remanescentes do povo guarani, ao fitá-los olhos nos olhos, com toda a certeza, matou para sempre a infinita saudade daquela República erigida com tanta dedicação pelos seus irmãos de ordem religiosa que haviam tomado como base as Comunidades primitivas dos cristãos, narradas nos Atos dos Apóstolos, e também na Utopia da Terra Sem Males, projeto histórico-cultural dos nativos.

A CAMINHADA das Missões Jesuíticas, passados quatrocentos anos, iluminada pela arte                                          

Esther Bianco – artista plástica, esposa do engenheiro Darcy Bianco, ambos nossos assessores – nos presenteou com uma série de seis quadros artísticos. Ao fixá-los na parede, quisemos tê-los permanentemente sob nosso olhar. Depois de algum tempo, nos surpreendemos a nós mesmos como videntes do sonho dos missioneiros do passado se concretizando no presente. Os Sete Povos das Missões em sua Caminhada de quatro séculos, parindo, nos dias de hoje, o Oitavo Povo das Missões que, segundo o escritor Alcy Cheuíche, são as Comunidades Eclesiais de Base, também designadas pelos teólogos da libertação como “jeito novo de Ser Igreja”. VIDENTES nós?... Ou simples VISIONÁRIOS?...

O leitor que nos acompanhe e nos julgue, através de nossa vontade de andar nas pegadas do Nazareno que não cessava de alertar: “Quem tem olhos para ver, que veja! E quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”

1° quadro: Nossa Senhora da Conceição.

Esther retrata a estátua de Maria, a mãe de Jesus, com traços nitidamente indígenas, que se encontra no museu Júlio de Castilhos, Rua Duque de Caxias, POA. Esculpida em madeira por índios missioneiros, nos transporta para o céu, morada de Maria, invocada pelos missioneiros como “A Conquistadora”.

Construir o céu na Terra havia sido a meta dos jesuítas enviados pelo fundador Santo Inácio para o continente americano recém descoberto, com a ordem: “Ide e incendiai o mundo!” Igual a Jesus Cristo, o enviado do Pai, que dizia “Fui enviado para incendiar o mundo!”

Replicando Santo Agostinho , o sonho missioneiro era a construção da “Cidade de Deus” entre os índios. Indo ao encontro do projeto do Povo guarani, com eles, concretizaram uma Terra Sem Males em tudo diferentes às cidades capitalistas do entorno, que se transformaram em terra de todos os males.

2° quadro: A Cruz Missioneira

Assim como a Cruz no Calvário significa morte, a cruz Missioneira significa a destruição dos florescentes Sete Povos. No entanto, o divino ressuscitado advertira também: “Se o grão de trigo não morrer, não haverá vida possível nem ressurreição à vista”. Se as cidades missioneiras viraram ruínas, o caos em que viraram pela sanha dos imperialistas, na linha de pensamento da linguagem dos ecologistas, transformou-se em caos generativo.

3° quadro: Acampamento dos Sem-Terra

No ano de 1979, na cidade de São Gabriel, no próprio lugar em que morreram os mártires São Sepé Tiaraju e os 1.500 companheiros guarani, as Comunidades Eclesiais de Base do RS realizaram seu primeiro Encontro Estadual a fim de preparar suas lutas pela terra. Não faltou nem a paródia do Grito de Sepé “esta terra tem dono!” pois, os do Oitavo Povo em formação não cessavam de cantar o refrão “queremos terra na terra, já temos terra no céu!” Para os da roça, terra para plantar; para os urbanos, terra para morar. O sangue de Sepé e dos milhares de companheiros mártires “que embebera todo aquele chão sãogabrielense tornou-se semente do oitavo povo missioneiro: as Comunidades Eclesiais de Base, que se tornaram a base do jeito novo de ser Igreja e a base da nova sociedade que queremos para o Brasil.

4° quadro: A Cruz dos Sem-Terra

Em lugar da Cruz Missioneira do Povo Guarani, neste quadro, a Cruz dos Sem-Terra, símbolo dos mártires, crianças e adultos acampados em beira de estradas por esse Brasil a fora. Cada criança que morria na Encruzilhada Natalino  era um pano a mais dependurado à Cruz que funcionava também como um rochedo caminhando à frente, e, nos embates, investindo contra o exército do Coronel Curió  e contra a polícia criminalizadora.

A Cruz de Ronda Alta, à frente da mulher-mártir Roseli, qual outra Maria carregando o filho Jesus em seus braços, abria caminho para um grupo significativo de participantes do Movimento, que veio a pé, fazendo um trajeto de 500 quilômetros desde Ronda Alta até Porto Alegre. Por todas as cidades e vilas intermediárias aonde os Sem-Terra acampavam, aos pobres das periferias os caminhantes solicitavam apoio e compreensão, profetizando: “Quando tivermos conquistado nossa terra, forneceremos alimentos da melhor qualidade a todos vocês que sofrem nas periferias urbanas.”

5° quadro:  o carrinho da catadora com criança ou a feminização da pobreza

“A nossa luta é na roça e na cidade / Pra construir uma nova sociedade”, cantam sempre os pobres das Comunidades. Pois, aquilo que parecia um sonho para os missioneiros do passado e também um sonho para o pobrerio de hoje está se concretizando com propriedade. A surpresa é generalizada. Os cidadãos de Porto Alegre na semana passada não podiam acreditar no que viam.
Os carroceiros e carrinheiros das Ilhas, que só carregavam lixo indo e vindo por cima das pontes do Guaíba, causam agora a maior surpresa ao carregarem, em vez de lixo, alimentos da melhor qualidade rumo às suas choupanas de ilhéus. Lixo substituído por alimentos ecologicamente produzidos pelos pequenos agricultores do interior, hoje assentados e cooperativados, aproveitando a regulamentação de política pública criada pelo operário-presidente Luis Inácio da Silva. A promessa de ontem dos Sem-Terra realizando a Caminhada desde Ronda Alta até Porto Alegre, inteiramente concretizada.
 
Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Antonio Cechin à IHU On-Line.

• São Sepé Tiaraju: exemplo heróico guarani. Entrevista publicada na edição 331 da revista IHU On-Line, intitulada Os guarani. Palavra e caminho, publicada em 31-5-2010;
• A Páscoa cristã e a Pessach judaica: origens, relação e atualidade. Entrevista com Guershon Kwasniewski, Cleide Schneider e Antonio Cechin, publicada em 1-4-2010, nas Notícias do Dia;
• “A partir do Natal do Menino Jesus, a Esperança não morre nunca mais, porque seremos imortais”, publicada em 5-1-2009, nas Notícias do Dia;
• Encruzilhada Natalino, 30 anos. O nascimento de um acampamento, publicada nas Notícias do Dia, em 5-8-2008;
• A tragédia da silvicultura em terra Guarani. Entrevista especial com José Bassegio e Irmão Antonio Cechin, publicada nas Notícias do Dia, em 13-5-2008;
• 'Querência amada ofende a sensibilidade religiosa dos cristãos sul-riograndenses e brasileiros', publicada em 2-11-2007, nas Notícias do Dia;
• 'Os pobres me evangelizaram', publicada em 10-6-2007, nas Notícias do Dia;
• A utopia da terra sem males, publicada em 23-2-2007, nas Notícias do Dia.

Últimas edições

  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição
  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição