Edição 331 | 31 Maio 2010

Guarani: um povo em constante transformação

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

As aldeias indígenas atuais não oferecem mais a possibilidade de os guarani viverem de acordo com seus costumes, destaca Maurício da Silva Gonçalves, ex-cacique e atual coordenador do Conselho de Articulação do Povo Guarani

A convivência com o homem branco transformou o modo de vida das populações indígenas e tem alterado também a estrutura política e social das tribos. O cacique, autoridade máxima nas aldeias, não é mais representado por homens sábios e conhecedores profundos da cultura guarani. Hoje, eles são jovens de aproximadamente 20 anos de idade, entendem de leis e lutam para assegurar os direitos dos seus povos. Essa mudança, segundo Maurício da Silva Gonçalves, índio guarani, vem da necessidade do povo “ter mais conhecimento do mundo dos juruá (homem branco)”. Mas isso, assegura, não tira a autoridade dos integrantes mais experientes. “Os nossos karaís ainda são as pessoas mais importantes da aldeia e nos orientam”.

Apesar de as políticas de ocupação terem dizimado as populações indígenas, os guarani conseguiram preservar, além do idioma, alguns aspectos de sua cultura como as crenças e a relação de respeito com o meio ambiente. Na entrevista que segue, concedida, por telefone, à IHU On-Line, Gonçalves descreve algumas peculiaridades do jeito de ser guarani.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como é o cotidiano dos guarani na Aldeia da Estiva, em Viamão, onde você vive?

Maurício da Silva Gonçalves – As pessoas mais velhas acordam cedo e, por volta das 5 horas da manhã, já preparam o chimarrão. A partir das 7 horas, quando começa a clarear o dia, inicia a rotina de trabalho. A maioria das famílias vive da agricultura. Nós plantamos batata, aipim, melancia, milho guarani. Muitos também se dedicam ao artesanato, e os jovens aprendem, desde cedo, a confeccionar cestos. Na aldeia, o lazer se manifesta nas reuniões familiares.

IHU On-Line - Quais são os valores do povo guarani? O que difere seu povo de outras etnias? 

Maurício da Silva Gonçalves – Apesar de mantermos contato com os brancos há muito anos, conseguimos preservar a nossa cultura, o nosso jeito de ser guarani e, principalmente, a nossa língua. Os pais contam histórias antigas para os filhos, relembram fatos, falam como eram as casas. O nosso maior valor hoje é a nossa língua. Nossos antepassados conseguiram fazer com que não perdêssemos esse jeito de ser guarani.

IHU On-Line - Dos costumes e tradições ensinados pelos antepassados, o que os guarani ainda mantêm?

Maurício da Silva Gonçalves – Conseguimos conservar a religião. Esse é um dos pontos fundamentais para que a gente consiga viver como povo guarani. Em todas as aldeias, tem o Opy, um local parecido com uma igreja, onde os nossos velhos buscam a força de Deus Tupã, o Ñhanderu. Nossa religião continua intacta.

No mundo guarani, realizamos uma celebração de final de ano e festejamos a colheita dos plantios.

Além do nome português, todos os índios também têm um nome guarani, o qual só pode ser dado pelos karaís, pessoas que têm o dom de Ñhanderu. A partir do momento em que a criança começa a andar, ela recebe o nome guarani. Essa cerimônia é chamada de nheemongarai. Esse é um momento de festa e de socialização entre as famílias.

IHU On-Line – Como são formadas as lideranças do povo guarani atualmente?  

Maurício da Silva Gonçalves – Hoje em dia, a escolha das lideranças não ocorre mais como antigamente. Os nossos chefes ou caciques eram mais velhos e tinham bastante conhecimento da nossa cultura. Isso mudou bastante devido à necessidade de o nosso povo ter mais conhecimento do mundo dos juruá (homem branco). A demarcação de terras indígenas, por exemplo, é baseada nas leis da Constituição de 88, por isso, o cacique guarani precisa ter conhecimento das leis brancas. Se um líder não compreende essas leis, como ele irá defender o seu povo? Hoje, os caciques são jovens, têm 20, 22 anos. Os nossos karaís ainda são as pessoas mais importantes da aldeia e nos orientam. Mas, para falar com os juruá, precisamos ter conhecimento do mundo deles.

IHU On-Line - Qual é o significado da busca da terra sem males para vocês? Nesse sentido, qual é importância do meio ambiente e dos recursos naturais na sua tradição?

Maurício da Silva Gonçalves – Para o povo guarani, a busca da terra sem males é muito importante. Nossos karaís, que buscam o poder e o conhecimento de Ñhanderu, acreditam que a terra sem males está em algum lugar do mundo, e que todo o guarani já nasce buscando essa terra. Um dia, alguém a encontrará, mas nem todos estarão prontos para habitá-la; somente aqueles que têm amor e um coração bom encontrarão a terra sem males. Nós temos certeza disso!

Os recursos naturais são essenciais porque é da natureza que retiramos nosso alimento, a matéria-prima para o artesanato, as ervas para fazer chá. A mata também oferece bastante energia para viver bem. Nossos velhos estão sempre dizendo que não podemos derrubar a mata porque ela é muito importante para a vida. Além disso, nas florestas vivem os animais nativos, e devemos respeitá-los. Nós caçamos apenas os animais que vamos comer e procuramos consumir alimentos naturais como as frutas. Para nós, todos os seres têm um espírito. A mata, os rios, o ar, ou seja, toda a natureza criada por Ñhanderu tem um espírito.
   
IHU On-Line - Há um intercâmbio entre os guarani e outras etnias indígenas? Como vocês se relacionam com outros povos indígenas? Nesse sentido, estão acompanhando as lutas pela demarcação de terras indígenas em outros estados, como Mato Grosso do Sul?

Maurício da Silva Gonçalves – Hoje não existem mais aldeias que tenham mata, recursos naturais e que ofereçam a possibilidade de vivermos do nosso jeito. Para que nossos direitos sejam reconhecidos, precisamos nos unir a outros povos indígenas. Temos uma organização nacional que se chama Comissão de Terra Guarani e Yvyrupá. Periodicamente, realizamos encontros do povo guarani e, ao mesmo tempo, nos relacionamos com outros povos, lutando para que as leis existentes sejam cumpridas. Precisamos, naturalmente, do apoio de várias etnias para fortalecer a luta indígena no Brasil.

IHU On-Line – Como está a luta dos guarani no Rio Grande do Sul?

Maurício da Silva Gonçalves – A luta guarani no estado é muito difícil porque não temos mais matas que ofereçam condições para que os índios guarani vivam de acordo com seus costumes. Estamos lutando hoje para recuperar as matas que ainda existem. O problema é que essas terras estão na mão de fazendeiros e grandes empresas, o que dificulta a demarcação das terras para o povo guarani. Teoricamente, o governo fala que os índios sempre foram os donos das terras, mas, na prática, existem poucas terras demarcadas. No estado, temos em torno de 32 terras guarani reconhecidas pela FUNAI, e dessas, apenas 7 áreas estão regularizadas pelo governo. Em consequência disso, muitas famílias guarani passam a viver à beira das estradas, sofrendo com o frio e o calor.

Recentemente, o prefeito de Guaíba se manifestou contra a demarcação das terras que estão próximas ao Arroio do Conde, no município. Nós temos estudos que comprovam que essas terras são nossas, mas isso não garante que elas sejam demarcadas.

IHU On-Line - Como avalia a política praticada pelo homem branco, em especial as atuais políticas públicas em relação ao povo guarani? Como se constituem as lideranças entre o povo guarani?

Maurício da Silva Gonçalves – A política do branco poderia ser melhorada, principalmente com relação à saúde, educação e a práticas produtivas para que as comunidades sejam sustentáveis. Na FUNAI, não existe uma política definida para os povos indígenas, por isso é difícil reconhecer os nossos direitos e tratar as questões em torno das demarcações de terras indígenas.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Maurício da Silva Gonçalves – Acho que a escola e a universidade são importantes para conscientizar a sociedade em relação aos povos indígenas. Alguns professores ainda acham que os índios vivem apenas na Amazônia, e isso não é verdade. Não sei se é possível realizar esse trabalho de conscientização, mas como a universidade educa os jovens juruá, ela poderia esclarecer que a luta indígena no Brasil é de direito porque os índios sempre viveram no país. A discriminação e falta de reconhecimento com as populações indígenas agrava a situação do povo guarani. Nós temos riquezas culturais, as quais nem sempre são valorizadas pelo governo e pela sociedade. 

Últimas edições

  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição
  • Edição 536

    Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

    Ver edição
  • Edição 535

    No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

    Ver edição