Edição 329 | 17 Mai 2010

IURD: teatro, templo e mercado

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

Para Leonildo Silveira Campos, a Igreja Universal do Reino de Deus escapa às tentativas tradicionais de enquadramento e compreensão de fenômenos culturais e religiosos em geral

“O sucesso nacional e internacional da IURD é inegável. É uma instituição com pouco mais de 30 anos (fundada em 1977), que atrai, para seus cultos, cerca de três milhões de pessoas, em uma estimativa considerada bastante baixa, e movimenta por volta de um bilhão de reais por ano em arrecadação. O sucesso da IURD dentro do campo religioso se deve a sua facilidade em atrair pessoas que percebem os seus lugares de culto como espaços de teatralização, de ritualização e de troca de dinheiro por bens simbólicos”. A explicação é do professor Leonildo Silveira Campos. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ele explica por que usa três metáforas para definir a Igreja Universal do Reino de Deus: “A partir da ideia de metáforas, pudemos imaginar a IURD, em primeiro lugar, como um ‘teatro’, pois, nela, há um processo de dramatização da religião, do qual as cenas de cura e de exorcismo são excelentes exemplos. Em segundo lugar, esse espaço foi visto como um ‘templo’, pois, ao contrário do que pensam os seus críticos, o espaço de culto da IURD é um cenário próprio para ritos religiosos, que geram emoções e práticas, as quais ultrapassam as relações entre mágico e clientela. Finalmente, usamos a metáfora do ‘mercado’ (...) para designar o espaço de culto iurdiano como um espaço em que trocas estão acontecendo, onde o monopólio católico, protestante tradicional e pentecostal, está sendo objeto de novas regras oriundas do pluralismo religioso”.

Na visão de Leonildo, “o fenômeno Igreja Universal do Reino de Deus seria impossível sem o surgimento do moderno mercado, do círculo de consumidores, do estabelecimento de uma perfeita ligação entre produtores e consumidores ao redor de uma linguagem exteriorizada pelos meios de comunicação de massa. Nessa Igreja, a velha fórmula catolicismo-protestantismo-pentecostalismo, de séculos de sucesso, é ultrapassada por um empreendimento dinâmico e, ao mesmo tempo, flexível, tal como o capitalismo liberal espera para os operadores no grande mercado dos bens religiosos”.

Leonildo Silveira Campos é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mogi das Cruzes, e em Teologia pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Seu mestrado e doutorado foram realizados na Universidade Metodista de São Paulo - Umesp, com a tese Teatro, templo e mercado: uma análise da organização, rituais, marketing e eficácia comunicativa de um empreendimento neopentecostal - a Igreja Universal do Reino de Deus (Petrópolis: Vozes, 1997). Atualmente, é professor da Umesp e da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a Igreja Universal é, ao mesmo tempo, “teatro”, “templo” e “mercado”?

Leonildo Silveira Campos - Ao preparar a minha tese de doutoramento sobre a Igreja Universal do Reino de Deus (1996), que se transformou em livro (publicado em coedição da Editora Vozes, Simpósio e Editora da Umesp) no ano seguinte, senti a necessidade de trabalhar com algumas metáforas para falar de algo que eu ainda considero ser de difícil classificação. Isto porque a IURD escapa às tentativas tradicionais de enquadramento e compreensão de fenômenos culturais e religiosos em geral. Por exemplo, se usarmos o critério de Weber-Troeltsch , que separa os fenômenos em “igreja” e “seita”, a rigor, a IURD tanto é uma coisa como outra. Se fôssemos manter a separação tradicional entre religião e comércio, fé e negócio, ou organização religiosa e empresa produtora e distribuidora de bens, também a IURD poderia se encaixar em todas elas. Optei em minhas pesquisas pelo termo “empreendimento religioso”, evitando-se assim os enquadramentos tradicionalmente aplicados às organizações religiosas-comerciais.

Quando do preparo de minha tese, o Prof. Antonio Gouvêa Mendonça (1922-2007), meu orientador, tinha enormes resistências em considerar tais agrupamentos de pessoas em busca de milagres, sinais, prodígios ou atos mágicos (segundo ele) como “igrejas” ou “comunidades cristãs”. Para Mendonça, os movimentos religiosos que ofereciam tais artefatos culturais, poderiam ser enquadrados com sucesso por meio da expressão “sindicato de mágicos”, até porque a relação entre as pessoas e as lideranças passava pelas relações utilitaristas e monetaristas. Para ele, a IURD não estava conseguindo criar comunidades de fé.

Quando terminei as pesquisas que resultaram no livro Teatro, templo e mercado (1996), até onde eu sei somente duas dissertações de mestrado tinham sido apresentadas sobre a IURD: a de Christina de Rezende Rubim, “A teologia da opressão” (Unicamp, 1991) e a dissertação de Ricardo Mariano, “Neopentecostais: o pentecostalismo está mudando”, (USP, 1995). A minha tese de doutorado foi a primeira a respeito da IURD. Hoje, entre dissertações e teses, temos cerca de 100 trabalhos acadêmicos, dezenas de livros e centenas de artigos. Mesmo assim, a IURD continua despertando interesse dos pesquisadores situados ou não na academia.

Porém, a minha hipótese, diferente de meu orientador e interlocutor, era que a IURD exigia do analista um passo adiante e que, em momentos como esses, em que se espera avanço de conhecimento sobre um objeto ainda pouco pesquisado na academia, somente podem ser palmilhados caminhos sinalizados por metáforas. A inspiração veio de Gareth Morgan (Imagens da organização, Atlas) que propôs a “utilização das metáforas para ler e compreender as organizações”. Apostei nessa linha e percebo hoje que tais metáforas conseguiram concretizar o que pensávamos a respeito dessa nova Igreja.

A partir da ideia de metáforas, pudemos imaginar a IURD, em primeiro lugar, como um “teatro”, pois, nela, há um processo de dramatização da religião, do qual as cenas de cura e de exorcismo são excelentes exemplos. Em segundo lugar, esse espaço foi visto como um “templo”, pois, ao contrário do que pensam os seus críticos, o espaço de culto da IURD é um cenário próprio para ritos religiosos, que geram emoções e práticas, as quais ultrapassam as relações entre mágico e clientela. Finalmente, usamos a metáfora do “mercado”. Esta última precisou de explicações, dado o caráter preconceituoso que esse termo pode assumir ao se aplicar a um espaço religioso. Contudo, ao analisá-la como um mercado, quisemos designar o espaço de culto iurdiano como um espaço em que trocas estão acontecendo, onde o monopólio católico, protestante tradicional e pentecostal, está sendo objeto de novas regras oriundas do pluralismo religioso.

A IURD assumiu com clareza que, em um ambiente competitivo, onde há defasagem entre a demanda e os produtores tradicionais, a melhor resposta seria assumir de uma vez por todas as chamadas “leis do mercado”. Edir Macedo colocou em prática, dentro de uma teoria muito próxima da “escolha racional” proposta por Rodney Stark e W.S.Bainbridge (Teoria da religião), que a religião no sistema capitalista pode operar com sucesso, e o faz muito bem, usando, para isso, os mecanismos propostos pela lei da oferta e da procura.

IHU On-Line - Que razões fazem dessa religião um fenômeno sociológico importante?

Leonildo Silveira Campos - O sucesso nacional e internacional da IURD é inegável. É uma instituição com pouco mais de 30 anos (fundada em 1977), que atrai, para seus cultos, cerca de três milhões de pessoas, em uma estimativa considerada bastante baixa, e movimenta por volta de um bilhão de reais por ano em arrecadação. O sucesso da IURD dentro do campo religioso se deve a sua facilidade em atrair pessoas que percebem os seus lugares de culto como espaços de teatralização, de ritualização e de troca de dinheiro por bens simbólicos. A sua ação é tida por milhares deles como eficiente e eficaz para resolver os problemas práticos da vida cotidiana que afeta uma boa parte da população brasileira, tais como: doença, desemprego, conflitos pessoais e grupais, e assim por diante. Sociologicamente, a IURD oferece uma filosofia da prosperidade com um forte lastro religioso. Como instituição, ela é percebida, pelo menos nos depoimentos midiáticos dos que tiveram sucesso, como uma Igreja que oferece bons resultados e que justificam aos olhos deles a relação entre custo-e-benefício. A sua presença na mídia levou a uma estratégia de se tornar um império de comunicação social. Dezenas de estações de rádio e de televisão são de sua propriedade. Um eficiente esquema de eleição de deputados estaduais, federais e até de senador, conseguiu uma visibilidade tão significativa que até mesmo o atual vice-presidente da República é um de seus simpatizantes. Milhares de pessoas atestam que a sua autoestima e esperança de vida melhoraram ao manterem contato com o “teatro”, “templo” e “mercado”.

IHU On-Line - Em termos religiosos, qual é a expressão da IURD no neopentecostalismo brasileiro?

Leonildo Silveira Campos - O termo “neopentecostalismo” ainda se refere a uma realidade sociológica não tão bem definida como os cientistas sociais da religião gostariam. Isto porque, até que ponto a IURD é uma expressão novidadeira da religião cristã (católica, protestante e pentecostal)? Se analisada do ponto de vista da ruptura com tradições religiosas anteriores, a IURD possui vários traços que sugerem ser ela uma nova expressão do pentecostalismo “clássico” (surgido nos EUA, no início do século XX). Porém, ela também apresenta uma notável continuidade com formas mágicas e de religiosidades populares presentes no catolicismo popular, nos cultos afro-brasileiros, no kardecismo, e até em certas expressões do protestantismo tradicional. Essa face da IURD levou alguns a pensar que se trata de uma manifestação religiosa pós-protestante e pós-pentecostal.

Todavia, não se pode negar que, após o surgimento da IURD, outros grupos, chamados muito apropriadamente de “igrejas clones” pela pesquisadora francesa Marion Aubree, operam com a mesma fórmula e ingredientes que deram fama para a Igreja Universal do Reino de Deus. Entre elas temos a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, a Igreja Internacional da Graça de Deus e, mais recentemente, uma que concorre com a IURD diretamente na área dos milagres – a Igreja Mundial do Poder de Deus. Pelo menos as duas últimas resultaram de propostas religiosas nascidas no interior da IURD, cujos empreendedores simplesmente modificaram a fórmula em alguns pontos e continuaram pregando sinais miraculosos e prodígios, sempre por meio da televisão. A IURD trouxe, para o espaço do pentecostalismo, a competição acirrada, portanto, uma nova dinâmica na disputa por fiéis, competitividade essa dinamizada pelo emprego maciço da mídia, alavancada pelo sucesso do caixa único de contribuições.

IHU On-Line - Quais motivos fazem a IURD ser, também, um fenômeno empresarial?

Leonildo Silveira Campos - Tenho trabalhado com a hipótese de que Edir Macedo é um gênio empreendedor. Há especialistas nos estudos organizacionais, como Thomas Wood Jr., professor na Fundação Getúlio Vargas, que, em diálogo conosco, e que aparece em um de seus livros, chamou o Bispo Edir Macedo de “fundador de uma escola macediana de gestão”. Ele conseguiu, ao optar por um caixa único, em que os recursos estão à disposição de uma autoridade única, em um sistema episcopal e vertical de poder. Dessa maneira, Macedo criou um corpo administrativo capilar, uma rede de subordinados, que reúne bispos, pastores, obreiros e obreiras, que, a partir de templos espalhados por todo o Brasil e em dezenas de países, fazem fluir as contribuições em dinheiro diretamente para um único controle. Com isso, Macedo consegue o que nem a Rede Globo de Televisão consegue, que é investir recursos em seus empreendimentos que não custam um centavo sequer de juros, pois, não há financiamento. Os recursos do templo (arrecadados sem impostos) fluem para os demais empreendimentos, especialmente, os investimentos na área de comunicação social. Somente um dos empreendimentos, cujas ações estão em nome de Macedo e de sua mulher, a Rede Record de Televisão, é avaliada em três bilhões de reais.

IHU On-Line - A que tipo de estratégias de marketing a IURD recorre? Qual é o seu sucesso nessa iniciativa?

Leonildo Silveira Campos - Aqui estamos, novamente, abordando um tema capaz de explicar parcialmente o sucesso da IURD na atração de adeptos nos últimos 30 anos. Podemos começar com a sua forma peculiar de fazer propaganda ou, como alguns preferem falar, fazer publicidade de seus “produtos religiosos”. Nas estratégias dessa Igreja/Empreendimento, sua ação é racionalmente calculada e planejada. Raramente Macedo agiu na história de sua Igreja por ensaio-erro. Gostem ou não seus inimigos, adversários ou concorrentes, Macedo parte de uma espécie de pesquisa de mercado. Sua organização tem um faro voltado para os anseios, sonhos e desejos de um público ávido por soluções práticas para seus problemas. Porém, Macedo superou a fase dos empreendedores religiosos que colocavam à disposição dos “consumidores” produtos simbólicos (curas, milagres, prodígios e soluções religiosas) já “fabricados”, empilhados em prateleiras cobertas de poeira da tradição. Muito pelo contrário, o Bispo carioca acompanha a evolução dos desejos, a trajetória dos sonhos, e rapidamente adapta a sua linha de produtos, ou produz novos produtos, para um rápido atendimento da demanda. Suas decisões são rápidas, e a um produto religioso “genérico”, ele produz uma nova roupagem, de modo que os fiéis oriundos do catolicismo, dos cultos africanos, kardecistas ou mesmo do meio protestante, sentem-se cativados e identificam nos “novos” antigos “produtos” que, em outros centros religiosos, não eram adequadamente distribuídos ou gerenciados.

Portanto, graças a uma maior sintonia entre produtor e consumidor, a demanda é satisfeita. A propaganda de sua Igreja se fundamenta na antiga fórmula: “o freguês sempre em primeiro lugar”. Em outras palavras, toda a autoridade é dada ao cliente e às suas exigências, e não mais ao que tradicionalmente as hierarquias e tradições religiosas ofertaram ao longo de dois mil anos de história do cristianismo. Sem dúvida, o fenômeno Igreja Universal do Reino de Deus seria impossível sem o surgimento do moderno mercado, do círculo de consumidores, do estabelecimento de uma perfeita ligação entre produtores e consumidores ao redor de uma linguagem exteriorizada pelos meios de comunicação de massa. Nessa Igreja, a velha fórmula catolicismo-protestantismo-pentecostalismo, de séculos de sucesso, é ultrapassada por um empreendimento dinâmico e, ao mesmo tempo, flexível, tal como o capitalismo liberal espera para os operadores no grande mercado dos bens religiosos.

IHU On-Line - Por que a mídia normalmente se refere com preconceito à IURD?

Leonildo Silveira Campos - É curioso que o movimento pentecostal, quando surgiu publicamente nos EUA, recebeu uma forte dose de críticas por parte dos jornais da época. Os fenômenos que aconteciam no velho templo da Rua Azuza, em Los Angeles, eram descritos com muita ironia, como se estivessem falando de velhas e ridículas práticas religiosas. Neste sentido, o pentecostalismo sempre foi notícia por parte da mídia sensacionalista. Por outro lado, o seu rápido crescimento entre a população negra, pobre e imigrante nos EUA, em oposição a outras religiões encasteladas nas camadas sociais mais altas, reforçou os mecanismos formadores de preconceitos antipentecostais. No Brasil, no entanto, o neopentecostalismo iurdiano, 12 anos depois de sua fundação no Rio de Janeiro, era descrito em órgãos da imprensa paulista como se fosse uma desconhecida seita carioca. Todavia, já no ano seguinte, após a compra da quase-falida Rede Record de Televisão, a IURD começa a afetar os interesses hegemônicos dos donos da mídia televisiva no país. Imaginemos o risco: um “fanático” (nem tanto assim) religioso, de posse do mais moderno modelador do imaginário coletivo brasileiro e fabricante de mitos – a televisão – com um notável apetite político. Além do mais, como ficou comprovado, um competidor com acesso a recursos gratuitos, quando seus concorrentes precisam pagar juros a bancos, mesmo que sejam subsidiados para o BNDE, por exemplo.

Trabalho com a suspeita de que a origem do preconceito contra a IURD se deve às disputas pelo controle dessa fábrica de mitos, de sonhos e de ilusões, e pelo controle do imaginário coletivo. Os riscos políticos, não somente do Rio de Janeiro, são enormes, especialmente quando a IURD, por meio de Edir Macedo, amplia suas conquistas na televisão, na Internet e na mídia impressa. Por outro lado, antigos agentes religiosos, em especial a Igreja Católica, é afetada diretamente pela concorrência da IURD. Talvez, somente o crescimento do Movimento de Renovação Carismática e a sua presença já significativa na mídia poderão afastar o risco do Brasil deixar de ser o maior País católico do mundo para ser o que já é, o maior país pentecostal do mundo.

Leia mais...

>> Leonildo Silveira Campos já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* Mídia e religião no Brasil, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU, em 16-12-2009; 

* A Reforma. 500 anos depois de Calvino, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU, em 22-11-2009.

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