Os pentecostais e a democracia da cultura religiosa brasileira

Inácio Spohr considera que foi o advento do pentecostalismo que proporciona as condições necessárias para um efetivo diálogo entre religiões no Brasil

Por: Graziela Wolfart

“Hoje, africanistas, católicos, evangélicos históricos, pentecostais, neopentecostais, espíritas, entre outros grupos, formam uma complexa rede de religiões que, de certa forma, democratiza a cultura religiosa brasileira”. A opinião é de Inácio Spohr, professor na Unisinos. Na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, ele explica o conceito de Teologia da Prosperidade, pregado nas religiões pentecostais, afirmando que pode ser entendido como “um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral durante a sua vida presente sobre a Terra. Mais: tem o direito de exigi-la diante de Deus”. Para Spohr, o pentecostalismo “vem a ser um fato novo e decisivo em um país também em uma situação sócio-cultural-econômica nova, que não tem medo de usar a mídia e os recursos econômicos para manter-se no ar”. E completa: “o avanço do pentecostalismo está intimamente vinculado à relação entre religião e sucesso na vida presente neste mundo. Vivemos em tempos em que religião e mercado se encontram. Desde logo, pentecostais, bem como alguns setores de outras religiões (até mesmo da igreja católica), buscam adequar práticas pastorais especificamente a um mundo globalizado e consumista”. 
 
Inácio José Spohr possui graduação em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, e mestrado em Ciências Sociais pelo Instituto Latinoamericano de Estudios Sociales, de Santiago do Chile. Atualmente, é professor na Unidade de Ciências Humanas da Unisinos. Inácio Spohr, jesuíta, coordena o Programa Gestando o Diálogo Inter-Religioso e o Ecumenismo - GDIREC, que integra a Ação Social na área do pluralismo cultural e das relações étnico-raciais da Unisinos.
 
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a principal contribuição do pentecostalismo para a sociologia das religiões no Brasil?

Inácio Spohr - Creio que podemos situar esta questão na área da “democracia religiosa cultural”. A história de nosso país remete a uma longa experiência de religiosidade oficial católica (sob a fórmula do padroado), que inicia com o período da colonização portuguesa e se estende até o fim do reinado de Dom Pedro II, em 1889. A instalação do regime republicano rompe a união Igreja/Estado: o Estado brasileiro se torna laico. No entanto, a predominância e a visibilidade católicas no imaginário religioso brasileiro seguem informalmente por muitas décadas mais. De certo modo, alcança até os nossos dias. Nem mesmo a chegada do protestantismo de migração, entre os quais está a Igreja Luterana, consegue desfazer a imagem de que somos um “país católico”. A possibilidade de um Brasil multirreligioso se consolida tão somente a partir de 1910, com o advento das religiões pentecostais e, sobretudo, desde o período pós II Guerra Mundial, mediante a instalação e rápido crescimento do neopentecostalismo em nosso país. Considero, portanto, que foi o advento do pentecostalismo que proporciona as condições necessárias para um efetivo diálogo entre religiões no Brasil. Hoje, africanistas, católicos, evangélicos históricos, pentecostais, neopentecostais, espíritas, entre outros grupos, formam uma complexa rede de religiões que, de certa forma, democratiza a cultura religiosa brasileira.

IHU On-Line - Em que consiste a teologia da prosperidade pregada pelas religiões pentecostais e quais as possíveis consequências sociais que ela pode provocar?

Inácio Spohr - Nenhuma resposta no tocante à Teologia da Prosperidade é fácil de ser dada. Há muita controvérsia nesta área, tanto entre analistas quanto entre as lideranças das igrejas pentecostais e neopentecostais. No entanto, penso que a teologia da prosperidade pode ser entendida como um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral durante a sua vida presente sobre a Terra. Mais: tem o direito de exigi-la diante de Deus. O caminho que o fiel deve seguir para alcançar a graça da felicidade plena na vida presente consiste, em primeiro lugar, em depositar sua confiança incondicional em Jesus (mediante a confissão pública da fé) e, em segundo lugar, deve se dispor a pagar o dízimo, bem como de ser extremamente generoso nas ofertas à igreja. Em suma, ao fiel compete pagar dízimos e ser generoso nas ofertas. A Deus cabe abençoar e conceder as graças necessárias para que o fiel seja feliz, tanto no tocante a sua vida familiar e social quanto a posse de bens econômicos. Os pastores neopentecostais garantem: Deus cumprirá sua parte! Ele ficará na obrigação de cumprir Sua Palavra (MACEDO, Edir. Mensagens. Rio de Janeiro: Gráfica Universal, 1995, p. 23). 

IHU On-Line - Como entender o poder de conversão do pentecostalismo e seu crescimento no Brasil?

Inácio Spohr - Também aqui cabe um olhar sobre “que passou” ou “passa” no Brasil. A segunda metade do século XX coincide, em nosso país, com uma profunda transformação social e cultural: deixamos de ser um país eminentemente agrário para sermos um país maciçamente urbano. Dito desse modo, a mutação rural-urbana pode ser entendida como algo normal e até necessária: faz parte do processo modernizante do país. No entanto, as condições sócio-econômicas e culturais deixaram grande parte da população brasileira diante de situações absolutamente distintas das de sua origem. De algum modo, o meio urbano possibilita a ampliação dos contatos, gera novos contextos de práticas religiosas, bem como oferece a possibilidade de passar de uma religiosidade de “família” para uma religiosidade por “opção”. No meio urbano, os controles sociais são menores do que no meio rural. A tudo isto se somam outros fatores. Cito, de forma breve, o peso da influência e maciça utilização da mídia (sobretudo do rádio e da televisão) e a competente administração empresarial dessas igrejas pentecostais e neopentecostais, em oposição à prática religiosa tradicional das igrejas cristãs mais antigas. O pentecostalismo, desde logo, vem a ser um fato novo e decisivo em um país também em uma situação sócio-cultural-econômica nova, que não tem medo de usar a mídia e os recursos econômicos para manter-se no ar.

IHU On-Line - Qual o diferencial do pentecostalismo em relação ao catolicismo e ao protestantismo?

Inácio Spohr - Creio que fundamentalmente condições sociais, administração empresarial e uso intenso da mídia (como referi acima), por si só, não explicam o sucesso das religiões ditas pentecostais, em detrimentos das religiões cristãs tradicionais, entre estas, a Igreja Católica. São importantes, mas não são suficientes para o tamanho do sucesso. Acredito que o diferencial mais relevante entre catolicismo e pentecostalismo se vincula mesmo à Teologia da Prosperidade. Por outra, noto que o avanço do pentecostalismo está intimamente vinculado à relação entre religião e sucesso na vida presente neste mundo. Vivemos em tempos em que religião e mercado se encontram. Desde logo, pentecostais, bem como alguns setores de outras religiões (até mesmo da Igreja Católica), buscam adequar práticas pastorais especificamente a um mundo globalizado e consumista.  

IHU On-Line - O que é ser evangélico pentecostal/neopentecostal no Brasil de hoje?

Inácio Spohr - Em termos gerais, diria que o pentecostalismo (sobretudo o neopentecostalismo), põe o fiel diante de uma série de aspectos que exigem dele um compromisso permanente e totalizante, que reorganiza toda a vida do crente. O evangelismo pentecostal:
- Estimula os membros das igrejas a serem participativos ativos e efetivos nos cultos, no pagamento do dízimo e ofertas;
- Exige do fiel elevado nível de autoconfiança: deve crer e confiar na sua capacidade individual;
- Remete a uma postura exigente ante Deus: o fiel pede aquilo que lhe pertence por direito (o próprio indivíduo decide seu destino. Não é Deus nem o Diabo...);
- Deve saber mostrar inconformidade com a própria situação: doença, desemprego, ser assalariado e/ou mal remunerado etc., não fazem parte da vida do fiel. É Deus quem tem que assumir sua posição diante do fiel e lhe conceder os bens que Ele, por Jesus, prometeu nas Escrituras.

IHU On-Line - Qual a contribuição do pentecostalismo para o trânsito religioso brasileiro e para o diálogo inter-religioso? 

Inácio Spohr - Em linhas gerais, o pentecostalismo se insere em um contexto religioso e cultural que o leva a contribuir, de maneira decisiva, com o quadro numérico e qualitativo dos fiéis que aderem a esta ou aquela igreja. A evolução desse contexto, sobretudo face ao avanço das igrejas fundadas nas décadas finais do século XX, obriga as religiões, quer queiram ou não, a dialogarem entre si. As cartas estão sobre a mesa, os fiéis escolhem de acordo com as suas necessidades espirituais e, quiçá, necessidades sociais e econômicas. As religiões se veem obrigadas a “conversar” com esta realidade. Já a atualidade de um diálogo inter-religioso “ao redor de uma mesa”, penso ser deveras difícil. O quadro religioso brasileiro, por ora, está eivado de ideias e argumentos um tanto fundamentalistas (e, talvez, racistas), que não permitem certas aproximações. A demonização dos orixás, por exemplo, traz à tona o tamanho da dificuldade. Mas, como membro de grupo inter-religioso (em São Leopoldo), sinto-me em condições de acreditar na continuidade e profundidade do diálogo com as religiões. 

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