Edição 325 | 19 Abril 2010

Malthus e Ricardo: economia política e capitalismo

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Graziela Wolfart

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove um ciclo de estudos, ministrado na modalidade de ensino à distância, sobre os grandes clássicos da Economia

Com a crise financeira internacional que abalou o mundo, é comum ouvirmos falar na crise do capitalismo, pelo menos na forma como o conhecemos até então. E para nos ajudar a entender os movimentos que esse sistema produz em nossos dias, uma alternativa é ouvir a voz dos grandes clássicos da Economia, que nos inspiram a pensar em rumos futuros a partir da trajetória já construída. Afinal, clássicos são sempre contemporâneos.

Nesse sentido, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove um ciclo de estudos, ministrado na modalidade de ensino à distância, sobre os grandes clássicos da Economia. O segundo módulo tem início na próxima segunda-feira, dia 26 de abril, onde se estudará sobre os economistas Thomas Malthus e David Ricardo, a partir do tema “duas visões de Economia Política e de Capitalismo”. Aos que desejam uma base sobre os autores em estudo, o texto de referência sugerido é de Gentil Corazza, publicado nos Cadernos IHU ideias, nº 39, de 2005. 

Outros autores estudados no ciclo são Adam Smith, Karl Marx, Max Weber, Thorstein Veblen, John Keynes, Joseph Schumpeter e Michael Aglietta, permitindo ao participante conhecer e refletir sobre a viabilidade de suas aplicações na solução de problemas de nossa época.

Questionado pela IHU On-Line a refletir sobre as principais contribuições de Malthus e Ricardo para o pensamento econômico, o professor da Unisinos Achyles Barcelos da Costa afirma que “David Ricardo , assim como Smith , estava preocupado com o crescimento econômico. Mas o seu objeto principal de estudo era saber como a riqueza produzida na sociedade se distribuía entre o que ele considerava ser suas classes sociais: proprietários fundiários, capitalistas e trabalhadores. Para Ricardo, os proprietários de terra assumiriam fatias crescentes da renda nacional devido aos diferenciais de fertilidade do solo, os trabalhadores viveriam ao nível de subsistência, e os capitalistas veriam minguar os seus lucros”. Achyles lembra que, na obra Princípios de Economia Política e Tributação, que apareceu inicialmente em 1817 e com publicação definitiva em 1821, Ricardo, por conta de sua análise da distribuição da riqueza, “apresenta uma visão sombria da sociedade, a qual tenderia, segundo ele, a um estado estacionário. Ricardo foi um dos primeiros economistas a se preocupar com os efeitos do progresso técnico sobre o emprego da força de trabalho. No seu livro, dedicou ao assunto um capítulo intitulado: ‘Sobre a maquinaria’”. Segundo o professor Achyles, “outra contribuição importante de Ricardo é sua teoria das vantagens comparativas, em que cada país deveria se especializar no comércio internacional na produção daqueles produtos em que tivesse vantagem relativa”.

A IHU On-Line ouviu também a opinião do professor Fernando Lara, da Unisinos, sobre o mesmo autor. Para ele, David Ricardo, dentre os economistas políticos clássicos, “pode ser considerado como aquele que exerceu mais forte influência sobre a teoria econômica posterior. Autores situados em extremos opostos no que diz respeito ao desenvolvimento da teoria econômica (como Marshall  e Marx , por exemplo), apontam Ricardo como seu predecessor, ainda que de formas diversas. A lei dos rendimentos decrescentes na agricultura, a teoria do valor-trabalho e as hipóteses sobre os ganhos mútuos do comércio internacional são exemplos de ideias formuladas por Ricardo que seguem exercendo influência sobre diferentes escolas de pensamento”. As obras completas de Ricardo, organizadas por Sraffa  e publicadas em 1950, continua Lara, “trouxeram novas luzes ao trabalho deste economista político, por esclarecerem a importância do princípio do excedente na tradição da economia política clássica”.

Achyles Barcelos comenta também a importância de Thomas Robert Malthus  que foi contemporâneo de Ricardo e manteve com ele troca de ideias. “Malthus é conhecido principalmente por sua polêmica obra intitulada um Ensaio sobre a População, publicada em 1798. Nesse escrito, o autor chama a atenção para o destino pobre e cruel a que estaria destinada a sociedade devido à ação de duas leis. Uma delas seria a tendência que ele considerava inerente ao ser humano – particularmente das camadas mais pobres da sociedade – de se reproduzir incontrolavelmente, fazendo com que a população crescesse a taxas geométricas. A outra lei atuaria sobre a produção de alimentos, que estaria sujeita a rendimentos decrescentes, aumentando apenas aritmeticamente. Esses dois ritmos diferentes teriam como resultado uma quantidade de alimentos incapaz de prover a todos na sociedade. Embora seus argumentos viessem a sofrer questionamentos, inegavelmente, esse ensaio marcou o debate na sociedade sobre o controle populacional”. Para o professor Achyles, Malthus, em outra obra, Princípios de Economia Política, “preconizava gastos, que poderiam ser considerados supérfluos, para complementar a chamada ‘demanda efetiva’, o que viria a influenciar um economista famoso no século 20: John Maynard Keynes”.

Já na visão do professor Fernando Lara, “o estudos de Malthus acerca da relação entre a dinâmica de crescimento da população e as possibilidades limitadas de produção de alimentos levaram este pensador a uma visão um tanto pessimista a respeito do futuro da sociedade humana, bem como a recomendações um tanto polêmicas sobre o controle do crescimento populacional”. No contexto da teoria econômica, entretanto, o ‘princípio da população’ de Malthus, continua Lara, “torna-se fundamental ao ser adotado por David Ricardo em sua argumentação acerca da gravitação dos salários reais dos trabalhadores em torno de um nível de ‘subsistência’”. E o professor conclui: “Malthus é também considerado por muitos como precursor do princípio da demanda efetiva, desenvolvido e amplamente difundido posteriormente por Keynes, devido aos seus questionamentos a respeito da validade da ‘lei dos mercados de Say’”.

Obtenha mais informações sobre o Ciclo de Estudos Repensando os Clássicos da Economia.

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