Edição 325 | 19 Abril 2010

Foucault, a sociedade panóptica e o sujeito histórico

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Márcia Junges

Impossibilidade de escaparmos da normatização e normalização era um dos paradoxos apontados pelo filósofo francês. Sujeito é histórico e não tem uma essência primeira, debate José Ternes. A liberdade é ilusória: nossas escolhas não são nossas.

O filósofo francês Michel Foucault se interessava pelo “solo epistemológico moderno”, e pertencia à epistemologia histórica que interroga o pensamento. Suas ideias continuam atuais, e podem nos ajudar a compreender os paradoxos que vivemos enquanto sociedade panóptica e submetida a um poder subliminar, invisível. E é a partir da obra foucaultiana que o filósofo José Ternes acentua o paradoxo entre o sujeito singular e o sujeito de determinado momento histórico, submetido à padronização e à normalização. Que espaço sobra para a liberdade?, questiona. Foucault apontava para a fabricação de uma consciência e padrões únicos. Em sua filosofia, o sujeito não tem substância essência, mas é desnudado em sua fabricação histórica. Por outro lado, pondera Ternes, “há uma tremenda preocupação de Foucault com a quase impossibilidade de se escapar uma normatização e normalização cada vez mais fortes”. As reflexões fazem parte da entrevista a seguir, realizada pessoalmente pela IHU On-Line, na vinda de Ternes à Unisinos, em 15-04-2010, quando proferiu a palestra Foucault e a natureza epistemológica da modernidade. O corpo mensurável, objeto de saber, foi outro tópico da conversa. O poder antes domesticador do corpo, agora é imperceptível, e domestica a alma, produzindo sujeitos dóceis, formatados e inofensivos politicamente. O tema liberdade foi recorrente em diversos momentos: “Na verdade, é uma grande mentira a liberdade que supostamente temos. Foucault não foi o primeiro a mostrar isso. Ele insiste que nossas escolhas não são autenticamente nossas, mas de outros. O controle é muito mais subjetivo e imediato do que supomos. Não se trata de um ‘grande não’ ao qual estamos submetidos. Se houve um ‘grande não’, seria melhor, porque aí ele poderia ser identificado”.

Professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, José Ternes é graduado em Filosofia pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, e em Letras Vernáculas pela Universidade Católica de Goiás - UCG. Cursou mestrado e doutorado em Filosofia. O mestrado foi realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, e o doutorado, na Universidade de São Paulo - USP. É autor de Michel Foucault e a Idade do Homem (2ª ed. Goiânia: UCG/CEGRAF, 2009) e Pensamento Educacional Brasileiro (Goiânia: Ed. da UCG, 2006).

De 13 a 16 de setembro, acontece o XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os elementos que Foucault nos oferece para compreender a epistemologia da modernidade?

José Ternes – Em As palavras e as coisas, Foucault fala em solo epistemológico e em revolução epistemológica. Mas, ao mesmo tempo, como bem observa o seu orientador Canguilhem , Foucault não é um epistemólogo no sentido que os franceses como Bachelard  e ele próprio entendem a epistemologia. A arqueologia de Foucault significou justamente um deslocamento em relação à epistemologia. Essa distinção que Foucault faz entre ciência e saber é fundamental. O objeto de Foucault é o saber, e não apenas a ciência. O saber é um tema de acepção mais ampla, que inclui ciências, artes e outros saberes. No entanto, há um interesse de Foucault em relação ao solo epistemológico moderno. Esse moderno, para ele, significa a nossa época, a estruturação epistêmica que vem do século XIX em diante.

A história arqueológica de Foucault não visa explicar, mas descrever, daí o uso de termos como diagnosticar. Suas histórias são diagnósticos do nosso tempo. São muito mais histórias sobre como acontece o saber, as suas reestruturações epistemológicas e quais condições foram abertas para o nascimento de certo saber e objetos científicos como as ciências humanas, que, segundo Foucault, só teriam lugar no interior dessas grandes modificações no campo das empiricidades e da filosofia crítica. Foucault leu muito, foi “aos documentos”, aos acontecimentos na ordem do saber e constatou as mudanças em curso. Tais mudanças são, antes de tudo, conceptuais, de pensamento. Isso é fundamental para ele. Foucault pertence à vertente da epistemologia histórica em que interroga o pensamento, o conceito, as questões.

IHU On-Line - Por que o senhor afirma que a Arqueologia de Foucault nos aproxima da tradição epistemológica francesa?

José Ternes - Foucault foi educado no ensino médio por professores como Canguilhem e Merleau Ponty , filósofos importantes do século XX. Seu modo de trabalhar é o da história do pensamento, dos saberes. Em um prefácio feito para a obra O normal e o patológico, de Canguilhem, Foucault deixa muito claras as duas perspectivas mais importantes na França que são tributárias à fenomenologia husserliana. Foucault diz que, na França, Husserl teve uma certa recepção resultante na filosofia da existência, do sentido, do sujeito. Outra recepção trabalha a questão do conceito, da crítica da racionalidade, e da tentativa de compreender o saber. Eu me arriscaria a colocar o próprio Foucault nessa vertente. Nisso, está muito próximo da epistemologia. Também sabemos que a epistemologia é um trabalho muito restrito que investiga a ciência em sua atualidade. Foucault tinha, contudo, interesses muito além da ciência, quais sejam, as ciências humanas. A própria medicina era por ele compreendida não apenas como uma ciência, mas como uma investigação do espaço onde ela era possível. Não é a cientificidade que é a questão primeira da medicina: há questões políticas e ideológicas que o próprio Canguilhem já havia colocado. O direito e as formas jurídicas também não são, apenas, uma questão de ciência, mas uma trama política. Foucault se ocupa muito mais disso. Ao mesmo tempo, está em questão como o saber é possível, qual é a configuração moderna dele. Por isso, há um parentesco entre Foucault e a epistemologia muito maior do que com outras filosofias. Há, concomitantemente, um deslocamento, que Roberto Machado  mostra muito bem em sua tese Ciência e saber.

IHU On-Line - Como podemos compreender a concepção de Foucault de que o sujeito não é mais universal, se cada vez mais há uma padronização ou mesmo uma pasteurização de consciências promovidas pela nova economia psíquica do Ocidente?

José Ternes - O fato de haver essa padronização ou globalização ainda não configura a ideia de uma universalidade como se entendia no passado, pensando o universal como absoluto. A filosofia de Foucault é uma filosofia do circunstancial. Seu trabalho como historiador e arqueólogo se dá sobre o acontecimento. Para ele, é necessário interrogar os acontecimentos, mesmo que estes estejam aparentemente tão distantes da realidade como a ciência, a filosofia e a teoria. De toda sorte, esses são acontecimentos da ordem do saber, portanto têm uma materialidade e uma existência concreta. É fundamental compreender o pensamento como um acontecimento tão material quanto o trabalho de um pedreiro, por exemplo. Com certeza, há um paradoxo em como situar a questão de um sujeito singular e de um sujeito que deve ser entendido em determinado momento da história face a uma padronização e normalização, tema importante em Foucault, sobretudo, a partir de Vigiar e Punir. Há uma fabricação de uma consciência única, de um padrão único, aponta. Ele é um filósofo duríssimo contra essa tendência lamentável da sociedade moderna de submeter todos a uma igualdade técnica. Por outro lado, ele tem consciência de que um certo sujeito, o sujeito da História, do conhecimento do passado, é uma ficção. Ele não tem uma natureza. Não há uma substância, uma essência de um sujeito – ele é fabricado e feito historicamente. Por outro lado, há uma tremenda preocupação sua com a quase impossibilidade de se escapar uma normatização e normalização cada vez mais fortes. Quais são os espaços possíveis para uma vida livre? Retomando Deleuze , quais são os espaços de fuga que ainda se encontram? Foucault é muito pessimista em relação a isso.

IHU On-Line - Nesse sentido, como a obra de Foucault nos ajuda a compreender as ramificações do biopoder, que mais do que nunca parecem se inscrever não apenas no corpo do indivíduo, mas em sua mente, em sua subjetividade?

José Ternes – Gostaria de lembrar o nascimento de um tipo de ciências, na virada para o século XIX, como a biologia e outras ciências da vida, fatos que interessavam Foucault enormemente. Embora ele não tenha dado pistas muito claras sobre esses saberes, na época, penso que é possível voltarmos às Palavras e as coisas e ver que o nascimento da biologia não é um acontecimento politicamente neutro e inocente. É claro que as análises foucaultianas dizem respeito às condições internas do próprio pensamento. No meu entender, o nascimento da biologia é contemporâneo a algo que diz respeito à norma, que Canguilhem mostrou muito bem, assim como Foucault, a partir da ideia de exame. São ciências que não apenas explicam o corpo, mas o nascimento do corpo como objeto de saber. É um corpo mensurável, mas, principalmente, tornando-se objeto, é mais do que objeto. Há algo novo na história do saber que não existia antes.

IHU On-Line - Vivemos numa sociedade que, a cada dia, dá mais liberdades e possibilidades de escolha. Por outro lado, se exacerba o controle, a vigilância, a interdição. Como podemos compreender esse paradoxo partindo do pensamento foucaultiano?

José Ternes - Muitos dos textos de Foucault apontam isso. As reflexões sobre a prisão, o hospital, a fábrica, o hospício e a educação demonstram esse paradoxo. Ele se vale de muita ironia para dizer que essa é a democracia moderna. Na verdade, é uma grande mentira a liberdade que supostamente temos. Foucault não foi o primeiro a mostrar isso. Ele insiste que nossas escolhas não são autenticamente nossas, mas de outros. O controle é muito mais subjetivo e imediato do que supomos. Não se trata de um “grande não” ao qual estamos submetidos. Se houve um “grande não”, seria melhor, porque aí ele poderia ser identificado. A noção de poder de Foucault é muito precisa e interessante nesse aspecto. Por outro lado, Foucault insiste na necessidade de um espaço de pensamento livre. O poder, para Foucault, é o lugar do embate, da guerra. Submetidos a ele, há toda uma produção de sujeitos dóceis, formatados, inofensivos politicamente, conformistas. Não se trata de domesticar apenas o corpo, mas a alma, a subjetividade. A transformação do poder é atingir, cada vez mais, a alma, e não o corpo. Isso está no começo de Vigiar e punir, quando o suplício deixa de ser um espetáculo público e é introjetado na subjetividade do condenado. Na humanidade panóptica na qual vivemos, isso é um paradoxo. Há uma visibilidade exacerbada que convive com a invisibilidade do poder.

IHU On-Line – Qual é a atualidade desse pensador?

José Ternes - O efeito do discurso é algo interessante. Como medir a força de um texto, de uma obra? Qual é, ainda hoje, a força e importância de se ler Foucault? Ele se prestou muito, em certo tempo, a um modismo, algo que é natural até certo ponto com determinados filósofos. Primeiro, Vigiar e punir caiu nas graças dos leitores. Agora é a Hermenêutica do sujeito. Particularmente, gosto de insistir na Arqueologia, penso que ali há questões fundamentais, bem como em As palavras e as coisas. Em sua obra, fica clara a importância da filosofia, a sua preocupação com o pensamento, e uma ética da vida intelectual.

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