Edição 325 | 19 Abril 2010

Os movimentos sociais na conjuntura social e política

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Graziela Wolfart e Patricia Fachin

Segundo a socióloga Maria da Glória Gohn, impera, nos dias atuais, “um certo modismo, que tenta se desvencilhar de imagens movimentalistas dos anos 80 e construir novas representações sobre ações civis”.

Os movimentos sociais do século XXI são distintos dos das décadas de 70 e 80, embora alguns “quadros de suas assessorias sejam herdeiros daquelas”, constata Maria da Glória Gohn. Nos anos de ascensão, “lutavam para ter ‘direito a ter direitos’ (...), eles não eram voltados apenas para si próprios, olhavam para o outro”, enfatiza a socióloga em entrevista concedida, por e-mail.

Dividida entre diversos compromissos, Maria da Glória Gohn aceitou responder algumas questões enviadas pela IHU On-Line. Na entrevista que segue, ela menciona que “o novo milênio apresenta uma conjuntura social e política extremamente contraditória. O Estado alterou sua forma de relação com o setor social”. A partir disso, explica, é possível perceber duas mudanças significativas: “De um lado, significa reconhecimento social, especialmente de identidades culturais reivindicadas pelos movimentos; de outro, passou a haver um maior controle social - de cima para baixo, pois as identidades têm sido formatadas em ‘políticas de identidades’, e não em processos de assegurar ‘identidades políticas’ construídas pelos próprios sujeitos participantes. A mudança na ordem dos termos muda o sentido da ação social”. E evidencia: “Ao mesmo tempo em que vários movimentos sociais tiveram mais condições de organização, tanto interna como externa, dado o ambiente político reinante, eles perderam muito sua autonomia e, consequentemente, sua força política, por diferentes razões”. Na avaliação da professora da Unicamp, “as divergências demarcadas por diferenças político-ideológicas” dividem os movimentos sociais e também dificultam suas ações.

Maria da Glória Gohn é mestre em Sociologia, doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP, com a tese intitulada Participação Popular e Estado – O movimento de luta por creches em São Paulo, e pós-doutora em Sociologia pela New School University, em Nova York. É autora de vários livros, entre os quais citamos: Movimentos sociais e educação (São Paulo: Cortez Editora, 6ª edição, 2002); História dos movimentos e lutas sociais (São Paulo: Loyola, 2001); Movimentos sociais no início do século XXI. Antigos e novos atores sociais (Petrópolis: Vozes, 2003). Neste ano, lançou, pela Editora Vozes, o livro Movimentos Sociais e Redes de Mobilizações no Brasil Contemporâneo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A senhora percebe um novo movimento que indique possíveis mudanças nos movimentos sociais brasileiros? Que novidade seria essa?

Maria da Glória Gohn - Na atualidade, os movimentos sociais são distintos dos ocorridos do final da década de 1970 e parte dos anos 1980 (movimentos populares reivindicatórios de melhorias urbanas articulados com pastorais, grupos políticos de oposição ao regime militar etc.), embora alguns dos atuais movimentos ou quadros de suas assessorias sejam herdeiros daqueles dos anos de 1980. Naquelas décadas, os movimentos lutavam para ter “direito a ter direitos”. Como só podemos falar em direitos se contemplarmos o universal, observamos que aqueles movimentos não estavam autocentrados. Embora não tivessem ainda a circulação em espaço nacionais e transnacionais que têm hoje, eles não eram voltados apenas para si próprios, olhavam para o outro -, até para poder construírem a própria identidade, segundo o efeito do espelho, como diria Lacan , miravam-se no outro (os).

O novo milênio apresenta uma conjuntura social e política extremamente contraditória. O Estado alterou sua forma de relação com o setor social. De um lado, significa reconhecimento social, especialmente de identidades culturais reivindicadas pelos movimentos; de outro, passou a haver um maior controle social - de cima para baixo, pois as identidades têm sido formatadas em “políticas de identidades”, e não em processos de assegurar “identidades políticas” construídas pelos próprios sujeitos participantes. A mudança na ordem dos termos muda o sentido da ação social. As políticas públicas passaram a ser eixo estruturante das ações coletivas, organizadas sob um leque de temáticas com formas variadas. Ao mesmo tempo em que vários movimentos sociais tiveram mais condições de organização, tanto interna como externa, dado o ambiente político reinante, eles perderam muito sua autonomia e consequentemente, sua força política, por diferentes razões. Alguns se transformaram em ONGs ou estruturas de gestão das políticas públicas. Outros ficaram na resistência, meio que congelados, produzindo esporadicamente eventos de efeitos midiáticos, efeitos que ocupam as pautas das manchetes da mídia e morrem com o fim do evento, sem repercussão no atendimento de suas demandas, ou alteração em suas práticas, ou nas ações e diretrizes de seus opositores.

IHU On-Line - Se a senhora escrevesse hoje a obra Teoria dos movimentos sociais, escrita em 1997, o que mudaria?

Maria da Glória Gohn - Nada. Apenas faria uma de novas teorias - que já foi feita em 2008 quando publiquei o livro Novas Teorias dos Movimentos Sociais (São Paulo: Loyola, 2008); já saiu a 2ª Ed. em 2009. Em 2010, sairá a 8ª edição do livro Teorias dos Movimentos Sociais e a novidade é a atualização de seu anexo, incorporando nova listagem das lutas e movimentos sociais de 1997 até 2010. A análise e desenvolvimento dos movimentos lá listados, entre 2000-2010, estão em outro livro meu, recém lançado em 2010, pela Editora Vozes, denominado Movimentos Sociais e Redes de Mobilizações no Brasil Contemporâneo. Nele apresento um mapeamento dos principais eixos temáticos que têm aglutinado as ações coletivas, em movimentos sociais, redes, fóruns, conselhos, colegiados, conferências etc. na atualidade. Faço também reflexões sobre a relação dos movimentos sociais com as políticas de parceria com o Estado - ou com os governos constituídos.

IHU On-Line - Quais os riscos da homogeneização dos movimentos sociais? É hora de a sociedade civil pensar em alternativas de luta que não sejam mais movimentos em grupo?

Maria da Glória Gohn - Um dos grandes problemas dos movimentos sociais (movimentos mesmo, não ações coletivas estruturadas em organizações, associações etc.), são as divergências. Eles sempre foram heterogêneos, isto é bom e democrático. Mas as divergências demarcadas por diferenças político-ideológicas os dividem segundo o espectro político do país. Isto dificulta ações coletivas com maior densidade. Portanto, não vejo a homogeneização citada na pergunta acima. Vejo que os atuais movimentos são extremamente diferenciados entre si, segundo o tipo e grau de organização, demandas, articulações, projeto político, trajetória histórica, experiências vivenciadas - principalmente no plano político-organizativo, assim como quanto sua abrangência territorial.

Enquanto houver injustiças sociais e desigualdades socioeconômicas, haverá movimentos sociais. Certamente que há analistas que preconizam seu fim ou desenham em sonhos, modelos alternativos. Alternativas sempre são bem-vindas, desde que as ações coletivas provenham de setores da sociedade civil organizada que busquem soluções para problemas coletivos, e não de grupos de interesses específicos. Os Fóruns usualmente são uma destas inovações. As Conferências nacionais já são de outra matriz estruturante, institucionalizadas. Nos últimos anos, impera um certo modismo que tenta se desvencilhar de imagens movimentalistas dos anos 80 e construir novas representações sobre as ações civis, agora tidas como ativas e propositivas, atuando segundo formas modernas de ação coletiva, expressas em discursos como “articular-se em redes como exigência para sobrevivência”. Muitas vezes, são outras ações coletivas institucionalizadas, não movimentos sociais. Seus participantes são ativistas recrutados para a participação em projetos e programas sociais ou usuários de políticas públicas - sob certas condicionalidades. O que tem diminuído são movimentos sociais compostos por militantes motivados por causas e projetos coletivos de vida, e não apenas por interesses individuais.

Leia mais...

>> Maria da Glória Gohn já concedeu entrevista à IHU On-Line. Acesse o material na página eletrônica www.ihu.unisinos.br.

• “Não são apenas os ‘sem’ que protestam, os ‘com’ estão ameaçados”. Entrevista publicada na edição Os movimentos sociais no Brasil: novos atores sociais?, número 70, de 11-8-2003.

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