Edição 324 | 12 Abril 2010

A biodiversidade usada como modelo

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Graziela Wolfart

Carlos Alfredo Joly explica o processo de sintetizar, em laboratório, moléculas extraídas da natureza, com potencial interesse econômico, buscando utilizar a biodiversidade de forma sustentável

Na entrevista que concedeu, por telefone, para a IHU On-Line, o professor Carlos Joly considera que “o fato de termos um levantamento de identificação e classificação das espécies que ocorrem em uma região tem uma importância tanto do ponto de vista acadêmico (...) como do ponto de vista do potencial econômico que essas espécies possam vir a ter, seja para a indústria de fármacos, de cosméticos, ou para a indústria alimentícia, na qual a correta identificação das espécies é fundamental”. Ele explica que, quando falamos em conservação, não se objetiva uma simples conservação das espécies como elas se encontram hoje, mas o que se quer conservar “é a manutenção do processo de evolução que resultou no que temos hoje, e que continua se desenrolando, produzindo as espécies que temos ou novas espécies, que vão aparecer nos próximos séculos e milênios. Se não conseguirmos preservar o processo, passaremos, na melhor das hipóteses, a conseguir manter as espécies que temos hoje”. Para Joly, “os processos antrópicos estão provocando uma seleção e uma redução, uma perda acelerada de espécies, que não é compensada pelo processo de aparecimento de novas espécies”, principalmente se pensarmos em grupos maiores de vertebrados e plantas superiores. E continua: “vemos que certamente a seleção de novas características continua acontecendo, só que agora ela está sendo influenciada por um ambiente que nós criamos, muito mais do que pelo ambiente natural”.

Carlos Alfredo Joly possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo, mestrado em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas, PhD em Ecofisiologia Vegetal pelo Botany Department - University of Saint Andrews, Escócia/GB, e Pós-Doc pela Universität Bern, Suíça. Atua nas áreas de Ecofisiologia Vegetal e Conservação da Biodiversidade. Editou 9 livros, com destaque para a série Biodiversidade do Estado de São Paulo: síntese do conhecimento ao final do século XX, o Inventário florestal da vegetação nativa do Estado de São Paulo e o livro Diretrizes para a Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São Paulo (São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente & Programa BIOTA, 2008). Principal mentor e atual coordenador do Programa BIOTA/FAPESP (http://www.biota.org.br), coordenou o planejamento, a montagem e a implantação do Programa de 1996 a 2004. Na Unicamp, atualmente, é professor em Ecologia Vegetal, chefe do Departamento de Biologia Vegetal do Instituto de Biologia e membro da Coordenação do Programa de Doutorado em Ambiente e Sociedade. Em 2008, foi eleito Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a importância em classificar a diversidade biológica? Por que é importante conhecer a biodiversidade de uma região?

Carlos Joly – Sem dúvida, o fato de termos um levantamento de identificação e classificação das espécies que ocorrem em uma região tem uma importância tanto do ponto de vista acadêmico (para que possamos testar hipóteses de velocidade, biogeografia, filogeografia, distribuição presente e potencial futura de espécies) como do ponto de vista do potencial econômico que essas espécies possam vir a ter, seja para a indústria de fármacos, de cosméticos ou para a indústria alimentícia, na qual a correta identificação das espécies é fundamental.    

IHU On-Line - O que podemos entender pelo uso sustentável da biodiversidade?

Carlos Joly – Temos trabalhado no sentido de mostrar que a biodiversidade, além do valor ético que tem em termos de que a vida, não importa sob que forma se apresente, deve ser respeitada como tal, e do valor natural de beleza que possa ter, ela também tem a possibilidade de ser utilizada de forma sustentável. Essa forma é quando conseguimos usar a biodiversidade como um modelo, portanto, estaríamos usando o produto final de todo um processo de evolução que resultou nas espécies que temos hoje, para ter os modelos de novas moléculas que, a partir da identificação de alguma atividade biológica, possam ser sintetizadas. Passa-se a usar essa informação e a produzir o componente de valor econômico identificado sem destruir a biodiversidade. Portanto, usa-se de forma sustentável, gerando recursos que podem se reverter para a conservação, para programas de pesquisa de ampliação e conhecimento da biodiversidade.

O outro componente que tem sido bastante enfocado, principalmente nos últimos dois ou três anos, é os serviços ambientais que a biodiversidade proporciona, que têm algum significado econômico para a sociedade e para os seres humanos de maneira geral. Esses serviços são, por exemplo, a manutenção da população de polinizadores, que naturalmente polinizam espécies nativas em áreas de cerrado ou dos pampas, e que podem atuar como polinizadores de culturas economicamente importantes para nós, como a soja ou outras culturas que exigem um vetor para a transferência de pólen de um indivíduo para o outro. Outro tipo de serviço ambiental é dado pela estabilidade das margens de rios e encostas de morros, diminuindo a erosão superficial, o assoreamento dos rios, e consequentemente preservando rios que produzem água para o consumo humano. E, ao reduzir o assoreamento, pode-se reduzir a frequência ou o impacto de grandes inundações. Essas são três vertentes bastante distintas de formas de se utilizar a biodiversidade de uma maneira sustentável. Ou seja, estamos usufruindo desses recursos sem impedir que as gerações futuras usufruam dele na mesma situação que temos hoje.

IHU On-Line - O que representa saber que nossa biodiversidade é tão rica? Quais as implicações da abundância da biodiversidade?

Carlos Joly – Esse é um exercício que estamos aprendendo a fazer. No momento em que discutimos se sentamos em uma mesa para negociação com diversos setores da sociedade, é quase que inevitável que precisamos atribuir valores econômicos para o ponto de vista que se está defendendo em uma discussão deste tipo. Estamos aprendendo a valorizar a biodiversidade, não só do ponto de vista ético e acadêmico, do nosso interesse particular em conhecer e levantar espécies, ter ideia da riqueza e diversidade, mas também dos serviços que ela pode prestar e do valor econômico e potencial no que os químicos de produtos naturais chamam hoje de quimiodiversidade. Temos uma diversidade enorme de espécies; essas espécies por sua vez vão ter uma diversidade muito grande de moléculas, de compostos, que potencialmente podem ter algum interesse presente ou futuro.  

IHU On-Line - Como o senhor analisa os indicadores de biodiversidades estipulados como meta em 2002 e que não foram atingidos?

Carlos Joly – Os indicadores que foram colocados não são mensuráveis. Não temos conhecimento suficiente para poder usá-los como efetivos no sentido de poder avaliar o quanto cada país, individualmente, e o quanto o conjunto de países da Convenção da Biodiversidade conseguiram atingir das suas metas. Espero que o fracasso inevitável na reunião em Nagoya, a COP 10 de Biodiversidade , sirva não para entrarmos num processo de depressão porque não conseguimos avaliar, mas como um grande momento para se definir parâmetros efetivamente mensuráveis, fiscalizáveis, para o futuro de médio e longo prazo para os próximos 5, 25, 50 anos, que possam ter algum significado do ponto de vista biológico. A minha leitura é que os parâmetros foram definidos numa reunião onde predominavam negociadores, diplomatas e pessoas que não tinham o conhecimento técnico, científico para estabelecer essas metas. O que a comunidade científica tem feito nos últimos dois anos, e por isso acredito que em Nagoya comecemos de fato a concluir encima dessas discussões, é a identificação e definição de parâmetros que tenham um significado biológico e que sejam mensuráveis e fiscalizáveis.  

IHU On-Line - Que exemplos de políticas de conservação da biodiversidade poderiam ser citados? Quais as mais necessárias?

Carlos Joly – Normalmente, nosso objetivo, quando falamos em conservação, não é uma simples conservação das espécies como elas se encontram hoje, mas o que queremos conservar, na verdade, é a manutenção do processo de evolução que resultou nas espécies que temos hoje, e que continua se desenrolando, produzindo as espécies que temos ou novas espécies, que vão aparecer nos próximos séculos e milênios. Se não conseguirmos preservar o processo, passaremos, na melhor das hipóteses, a conseguir manter as espécies que temos hoje. E isso invariavelmente não é verdadeiro, porque se não mantivermos o processo, mesmo essas espécies que temos hoje tendem a desaparecer, porque é inerente à evolução das espécies que você consiga manter esse processo de seleção e de evolução. As políticas mais adequadas são aquelas que permitem preservar efetivamente estes processos. Unidades de conservação são uma forma de se preservar, desde que elas sejam efetivamente implantadas, representativas do bioma ou da situação que quer ser preservada, e que isso dê condições para que elas continuem no seu desenvolvimento, na sua evolução. Temos aqui em Campinas uma belíssima área de 250 hectares de floresta, que fica a três quilômetros daqui do campus da Unicamp, e que hoje está praticamente cercada pela cidade. Nós, os antigos docentes dos Departamentos de Botânica e Zoologia que já trabalhamos naquela região, temos alguns dados que remontam ao início da década de 70, já vemos uma substituição de espécies. As espécies mais exigentes, de hábitos mais restritos, já desapareceram, e apareceram outras, que são mais típicas de áreas urbanizadas e que usam a periferia da mata. O mesmo acontece com as borboletas. E agora estamos constatando que, para algumas espécies arbóreas, não encontramos mais indivíduos jovens. Ou seja, quando os adultos que ali estão morrerem, essa espécie vai deixar de existir localmente. Temos uma unidade de conservação, mas não conseguimos proteger e manter o processo que poderia ter sido mantido se tivéssemos conexão dessa mata, através, por exemplo, de matas ciliares, com outros fragmentos que temos aqui na região. O isolamento acabou resultando num processo gradativo de empobrecimento da floresta.

IHU On-Line - A biodiversidade tende a se alterar mais pela influência do homem ou pelo curso normal da natureza?

Carlos Joly – Isso vai depender de quais organismos estamos falando. Se estivermos falando de microorganismos, possivelmente a evolução deles se dá mais por razões naturais do que por razões antrópicas, apesar de já haver uma influência bastante grande do homem. Se pensarmos em grupos maiores de vertebrados e plantas superiores, por exemplo, com certeza, os processos antrópicos estão provocando uma seleção e uma redução, uma perda acelerada de espécies, que não é compensada pelo processo de aparecimento de novas espécies. Enquanto no processo evolutivo, de maneira geral, pensamos em milhões de anos para a formação dos continentes como são hoje, milhares de anos para a distribuição dos biomas como temos hoje no Brasil, e a evolução dessas espécies acompanhando essas alterações todas, estamos falando em mudanças de temperatura em décadas. Esse é um período muito curto se pensarmos em plantas longevas, que vivam mais de cem anos, como várias espécies arbóreas das nossas florestas, ou mesmo para animais silvestres que tenham ciclos de vida de 40, 50 anos. Não há tempo evolutivo para que possam aparecer ou se modificar em tempo de responder a essas mudanças que estão acontecendo. Portanto, vemos que certamente a seleção de novas características continua acontecendo, só que agora ela está sendo influenciada por um ambiente que nós criamos, muito mais do que pelo ambiente natural.

IHU On-Line - Em que medida a biodiversidade é afetada por ser fonte de novos fármacos, cosméticos, defensivos agrícolas e alimentos?

Carlos Joly – É preciso fazer uma separação muito importante. Uma linha é de fazer extratos de plantas e animais marinhos ou terrestres para tentar identificar atividade biológica contra uma série de testes padrões que são utilizados para selecionar extratos que tenham atividade, e disso vai refinando, até chegar às moléculas que eventualmente interessam. Nesse ponto, essas moléculas vão passar pela mão de químicos que vão identificar a estrutura delas. Uma vez identificada a estrutura, se é capaz de sintetizá-las em laboratório. Não é preciso estar continuamente buscando aquela molécula na natureza, ou seja, coletando mais plantas e animais para fazer extrato para obter aquela molécula. Sintetizando-a em laboratório, é possível inclusive modificá-la se for o caso. Por exemplo, o que o Laboratório Aché tem feito com o Acheflan. Eles identificaram uma molécula que tem um potencial e uma atividade anti-inflamatória, isolaram, identificaram a estrutura e passaram a sintetizá-la para produzir o fármaco e colocá-lo no mercado. Essa é praticamente a única experiência de sucesso desenvolvida no Brasil nos últimos 30 ou 40 anos. Este tipo de trabalho não leva à destruição da biodiversidade. Ele usa a biodiversidade como modelo e, a partir disso, faz uma síntese em laboratório, em grande escala, se necessário, para utilizar aquela molécula. O que é diferente de usar partes de uma planta para a produção de um chá ou de uma infusão ou de um extrato alcoólico, que então será utilizado para o tratamento de alguma doença. Nesse segundo caso, dependemos de continuamente coletar aquela planta. Então, ou se consegue cultivá-la e produzir em quantidade suficiente para seu uso, ou se vai destruir, coletar excessivamente aquela espécie, pondo-a em risco de extinção porque se está interessado no retorno que o mercado dará. São duas coisas distintas. O que temos trabalhado bastante no programa Biota,  em São Paulo, é com a parte de bioprospecção, que é essa parte de identificação de moléculas de potencial interesse econômico.  

IHU On-Line - O senhor conhece bem a biodiversidade de São Paulo. O que mais altera a biodiversidade de grandes metrópoles, como é o caso?

Carlos Joly – No caso das grandes metrópoles, temos uma conjunção de problemas muito grandes. O primeiro deles é que as nossas metrópoles não respeitaram a preservação de áreas verdes. Então, temos uma metragem, uma área muito pequena ocupada por remanescentes de vegetação nativa no meio das nossas cidades. A maioria é de áreas pequenas, isoladas, que passam pelo processo de empobrecimento de espécies. Junto com esses problemas de isolamento, temos uma matriz urbana de baixíssima permeabilidade das espécies nativas. Não há atrativos, recursos, para que as espécies, mesmo aquelas que têm maior mobilidade, como as aves, permaneçam nessas regiões. As espécies mais exigentes tendem a desaparecer, e a maior parte é substituída por uma fauna mais empobrecida, mas ainda assim rica se compararmos à diversidade de pássaros no campus da USP, por exemplo. Nosso processo de urbanização precisa ser revisto. Um dos grandes problemas da alteração de ambientes é que normalmente as respostas a essas alterações levam um tempo grande. O cidadão comum não consegue conectar aquela remoção de florestas que aconteceu há 15 anos com os problemas de enchente que está tendo hoje. Esse tempo entre a causa e as consequências que têm algum impacto maior na vida da cidade na metrópole faz com que as pessoas tenham dificuldade em fazer essas conexões.   
  
IHU On-Line – Como o senhor define a posição do Brasil em relação à forma como lida com sua biodiversidade?

Carlos Joly - Vivemos no Brasil uma situação muito particular em relação às exigências e aos compromissos internacionais que assumimos ao assinarmos a Convenção da Biodiversidade e a Convenção de Mudanças Climáticas. Nossa principal fonte de emissão de gases de efeito estufa é a mudança de uso da terra, principalmente a queima de florestas da região amazônica, que é também nosso principal impacto em termos de destruição de espécies, muitas delas ainda nem conhecidas e que estão sendo destruídas nessas áreas. Então, o Brasil em vez de usar de maneira positiva a sinergia entre essas convenções para angariar recursos internacionais, de apoio internacional, para conseguir manter áreas, fazer conservação, ampliar efetivamente as garantias e a segurança, a integridade de nossas unidades de conservação, vive a sinergia negativa, que é o fato de estarmos em quinto lugar como campeões de emissão em gases estufa porque destruímos nossa biodiversidade em vez de preservamos e darmos condições a nossas gerações futuras de eventualmente usarem de maneira sustentável esse recurso.

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