Edição 319 | 14 Dezembro 2009

Fernand Braudel e o Brasil: vivência e brasilianismo

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Graziela Wolfart

Luís Corrêa Lima fala sobre seu livro recém lançado e sobre o historiador Fernand Braudel, que era fascinado pelo Brasil por vários motivos, segundo o professor da PUC-Rio

Autor do livro recém lançado Fernand Braudel e o Brasil: Vivência e Brasilianismo (1935-1945), o professor Luís Corrêa Lima mencionou que a característica principal de Braudel “é a busca da longa duração, ou seja, das permanências e das realidades duradouras nos processos históricos, tanto nas relações do ser humano com o meio quanto nas formas de vida coletiva e nas civilizações”. Luís Corrêa Lima considera que foi no Brasil que Fernand Braudel “vestiu a camisa” da nova história, “preconizada pelos Annales, com um conjunto de intuições que irão configurar o seu Mediterrâneo e farão dele um grande historiador”. Corrêa Lima explica, na entrevista que concedeu, por e-mail, para a IHU On-Line, que “Braudel escolheu uma perspectiva bem definida para focalizar o Brasil: uma Europa americana, a única Europa tropical e subtropical em todo o mundo com certa envergadura. Esta perspectiva lançou luzes sobre o passado brasileiro e captou a riqueza da história atlântica, imprescindível para a compreensão do país, porém cedeu em parte a um etnocentrismo inaceitável. Mas ele teve a humildade e a grandeza de reconhecer que a história brasileira, como toda a história, é vida e não se deixa aprisionar em uma fórmula”.

Graduado em Administração pela FGV-SP, e em Filosofia e Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, ele fez mestrado em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, e doutorado em História na Universidade de Brasília - UnB. Padre jesuíta, atualmente é professor no Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, e membro do seu programa de pós-graduação. Leciona também no Departamento de Teologia da mesma universidade, além de desenvolver pesquisas sobre diversidade sexual, cidadania e religião. É autor de Teologia de Mercado - uma visão da economia mundial no tempo em que os economistas eram teólogos (Bauru: EDUSC, 2001). 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que caracteriza a transformação humana e intelectual do historiador Fernand Braudel  quando esteve no Brasil entre 1935 e 1937?

Luís Corrêa Lima - Convém começar pelo seu próprio perfil como historiador. Ele é bastante conhecido por sua obra sobre o Mediterrâneo do século XVI  e por sua história mundial da vida material e do capitalismo. Braudel pertenceu ao grupo da revista Annales, que renovou a historiografia, aproximando-a das ciências sociais. E acabou se tornando um dos mais importantes historiadores do século XX. A sua característica principal é a busca da longa duração, ou seja, das permanências e das realidades duradouras nos processos históricos, tanto nas relações do ser humano com o meio quanto nas formas de vida coletiva e nas civilizações. Braudel lecionou na Universidade de São Paulo nos primeiros anos de sua fundação. Ele viveu um tempo de grande descoberta e transformação: um país novo de dimensões continentais e natureza tropical, uma sociedade em formação, contrastando com o Velho Continente, uma paisagem e uma história que o faziam imaginar o passado distante da Europa, a amizade calorosa e efusiva dos brasileiros e um público bastante interessado e estimulante. Tudo isso impulsionou sua criatividade, reflexão, crescimento humano e intelectual, a tal ponto que, no final da vida, ele declarou: “eu me tornei inteligente indo ao Brasil”. Esta declaração um tanto intrigante foi minha porta de entrada para esta pesquisa, que trata de um aspecto pouco explorado de sua biografia.

IHU On-Line - O que de mais marcante o senhor destaca da passagem de Braudel pelo Brasil?

Luís Corrêa Lima - A estada de Braudel no Brasil e as transformações ocorridas podem ser vistas em seu próprio depoimento, no de seus alunos e em diversas conferências e artigos publicados na época. Apesar de menos conhecido, este material revela o encantamento com o Novo Mundo, várias descobertas pessoais e uma progressiva aproximação com as novas correntes da historiografia. Aqueles anos abrem para ele um novo campo de interesse: o próprio Brasil. Viagens pelo país, conversas, pesquisas e leituras alimentam a sua reflexão. Ele passa a conhecer as obras de Gilberto Freyre,  Euclides da Cunha,  Capistrano de Abreu,  Sérgio Buarque de Holanda,  Caio Prado Jr.,  Monteiro Lobato  e Paulo Prado,  entre outros.

IHU On-Line - Qual o real significado do Brasil na vida e no pensamento de Braudel?

Luís Corrêa Lima - Foi no Brasil que ele “vestiu a camisa” da nova história, preconizada pelos Annales,  com um conjunto de intuições que irão configurar o seu Mediterrâneo e farão dele um grande historiador, ao mesmo tempo original e herdeiro de Lucien Febvre.

IHU On-Line - Como entender o interesse de Braudel pela nossa história?

Luís Corrêa Lima - Ele elaborava sua tese de doutorado sobre o Mediterrâneo no tempo de Felipe II, um trabalho que levou cerca de 20 anos. A universidade francesa exigia também uma tese secundária, onde o material pesquisado na tese principal poderia ser reutilizado. Braudel escolhe então o Brasil do século XVI, que chegou a fazer parte do Reino de Felipe II com a união das coroas ibéricas. Era uma extensão do Império Espanhol. O Brasil por vários motivos o fascinava.

IHU On-Line - Em que sentido a vivência no Brasil marcou o historiador, que deixou inacabado um livro sobre o Brasil do século XVI? Quais os principais temas dos trechos do manuscrito inacabado sobre a história do Brasil no século XVI?

Luís Corrêa Lima - Na historiografia de Braudel, certas realidades coletivas ou inanimadas atuam de modo coerente como se fossem um sujeito. Elas se tornam “personagens”. Isto se dá com o povo alemão, mais importante do que Bismarck,  com o Mar Mediterrâneo e com o Brasil, na sua imensidão esmagadora e nos seus fatores geográficos. Braudel escolheu uma perspectiva bem definida para focalizar o Brasil: uma Europa americana, a única Europa tropical e subtropical em todo o mundo com certa envergadura. Esta perspectiva lançou luzes sobre o passado brasileiro e captou a riqueza da história atlântica, imprescindível para a compreensão do país, porém cedeu em parte a um etnocentrismo inaceitável. Mas ele teve a humildade e a grandeza de reconhecer que a história brasileira, como toda a história, é vida e não se deixa aprisionar em uma fórmula.

IHU On-Line - Qual a principal contribuição intelectual de Braudel ao Brasil? Qual foi seu papel na montagem da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP?

Luís Corrêa Lima - Ele ajudou a formar a segunda geração de professores da USP. Tinha um grande apreço por seus discípulos brasileiros, entre os quais Alice Canabrava, Eurípedes Simões de Paula (que, por muitos anos, dirigiu a Faculdade) e Eduardo d’Oliveira França. Mas a sua principal contribuição intelectual foi o Mediterrâneo, como testemunha o historiador Evaldo Cabral de Mello  no ano 2000: “O jovem leitor de hoje, que dispõe de uma escolha muito mais variada e rica de livros de história, inclusive no Brasil, mal pode avaliar o impacto sentido por quem, há 40 anos, leu o livro de Braudel sobre o Mediterrâneo no tempo de Felipe II. Para quem se via acuado entre a historiografia convencional, a vulgata marxista e o sociologismo, a leitura de Braudel foi uma autêntica libertação. Ali estava finalmente um historiador que nem tinha o ranço de uma nem o reducionismo da outra nem o doutrinarismo da terceira; e que, munido dos instrumentos da erudição mais recente, era capaz, como os grandes historiadores do século XIX, de dar corpo, alma e vida a largas fatias do passado. Ainda saudoso da minha primeira leitura de ‘O Mediterrâneo’, tendo a conceber uma profunda inveja de quem ainda não o leu, sem me lembrar, porém, que, após decênios de historiografia dos ‘Annales’, quem for fazê-lo agora não perceberá tanta novidade assim nem terá a mesma experiência inesquecível com aquela grande obra” .

IHU On-Line - O que fez com que o período vivido por Braudel no Brasil tenha sido feliz, como ele mesmo definiu?

Luís Corrêa Lima - Foi um espetáculo de história e de gentileza social, conforme suas próprias palavras. Um país diferente, imenso, complexo e fascinante, a amizade calorosa dos brasileiros e um público bastante motivado, tudo isto estimulou suas melhores energias. A geração de jovens professores franceses que veio com Braudel, incluindo Lévi-Strauss,  teve aqui uma oportunidade profissional e uma liberdade que não tinha em Paris. A universidade francesa levaria muitos anos para lhes dar voz. Na USP, tinham a docência e um público muito interessado. Puderam dar o melhor de si.

IHU On-Line - Qual a contribuição de Braudel para a questão do tempo na História?

Luís Corrêa Lima - Em sua obra principal, O Mediterrâneo, Braudel elabora uma engenhosa divisão dos processos históricos segundo suas diferentes velocidades. O livro está dividido em três partes, onde cada uma pretende ser uma tentativa de explicação do conjunto. A primeira trata de uma história lenta, quase imóvel, que é a do homem nas suas relações com o meio que o rodeia, uma história de lentas transformações, longas permanências, muitas vezes, feita de retrocessos, de ciclos sempre recomeçados. Acima dessa história, desenvolve-se uma outra com um ritmo menos lento, a dos grupos e agrupamentos sociais. Aí entram as economias, os Estados, as sociedades e as civilizações. A terceira parte, por fim, é a da história tradicional, do indivíduo, uma história de acontecimentos, da “agitação da superfície”, das ondas levantadas pelo poderoso movimento das marés, uma história com oscilações breves, rápidas e nervosas. Para Braudel, no centro da realidade social há oposição viva, íntima, repetida incessantemente entre instante e o tempo lento a escoar-se, entre o que muda e o que “teima” em permanecer. É a “dialética da duração”.

IHU On-Line - O que caracteriza a análise da obra de Gilberto Freyre feita por Braudel?

Luís Corrêa Lima - Braudel fez uma ampla resenha da obra de Gilberto Freyre no tempo em que foi prisioneiro de guerra, por cinco anos, na Segunda Guerra Mundial. Um conjunto de circunstâncias favoráveis permitiu que ele continuasse o seu trabalho intelectual. Ele fez uma viagem mental pelo passado brasileiro, guiada por grandes autores que, para ele, eram capazes de captar a realidade, a cor e o perfume dos seres e das coisas. Nos diferentes brasis, há uma mesma vida, um passado profundo, configurando a sociedade colonial. Braudel se encantou com a obra de Freyre, onde o Recife lhe ensinou algo do país inteiro. O caminho da nova história dos Annales era a apreensão do todo: os movimentos profundos da vida dos homens, as formas amplas da vida coletiva, as “arquiteturas sociais” e as civilizações, bem como as conexões entre as diversas regiões. A obra de Freyre ensinou muito a Braudel sobre a vida material, algo que depois ele desenvolve amplamente.

IHU On-Line - A obra é fruto da sua tese de doutorado em História. Como foi realizada a pesquisa? O que de mais significativo o senhor poderia destacar?

Luís Corrêa Lima - O doutorado foi feito no Brasil, com parte da pesquisa realizada na França, onde se encontram os arquivos de Braudel. Para mim foi uma oportunidade muito boa de conhecer melhor a vida e a obra deste grande historiador. A pesquisa me conduziu aos laços históricos e culturais entre o Brasil e a França, que, nos anos 30, resultaram na vinda das missões universitárias francesas para a criação da universidade brasileira. A França era considerada a líder da latinidade, e a sua cultura, o caminho seguro da modernidade e do progresso verdadeiro. Ela oferecia tecnologia e humanismo, laicidade e religião. Por isso poderia nos salvar da “barbárie” de uma civilização meramente industrial. Os conflitos ideológicos naquela época eram bastante fortes, e a presença francesa correspondia ao projeto de algumas elites (intelectuais e dirigentes) de educar a juventude paulista nos ideais democráticos, longe do fascismo. Neste trabalho, eu pude também sentir a força da imersão no passado. Certo dia, passei a tarde na residência de madame Braudel, uma senhora viúva, então com 87 anos, em seu apartamento, em Paris. Nós conversamos por quatro horas sobre o Brasil dos anos 30 e sobre a estada do casal Braudel no país. Quando terminei, me despedi e saí na rua. Vi uma paisagem absolutamente normal, um dia de primavera, com jovens, crianças e idosos circulando pelas calçadas. Nada de especial. Entretanto, eu tive a sensação de estar vindo de outro planeta, de um mundo que não tinha nada a ver com o que os meus olhos viam. Nunca tive esta sensação antes. O que me aconteceu foi estar tão absorvido em um passado distante no tempo e no espaço, que o presente me causou um enorme estranhamento. Era como se eu retornasse de um arrebatamento. Quando estudei a época em que Braudel viveu na prisão nazista - suportando o peso da derrota, com fortes privações, decepções e incertezas - tive a sensação de visualizar aquele mundo e de compartilhar aquelas angústias. É claro que tudo isso é recriação do historiador a partir dos vestígios de que dispõe. Mas pode acreditar, a história tem uma força e um poder envolvente de nos transportar para mundos distantes, ainda que apenas através da imaginação. 

Leia mais...

>> Luís Corrêa Lima já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* O direito homoafetivo, que contempla os segmentos GLBTs, é uma conquista, publicada na IHU On-Line número 253, de 07-04-2008;

* A Igreja e os homossexuais, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 05-08-2009.

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