Edição 317 | 30 Novembro 2009

Euclides da Cunha, um verdadeiro ser político

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Gilda Carvalho e Patrícia Fachin

Na visão de José Mauro Rosso, pesquisador de literatura brasileira, os textos de Euclides da Cunha expressam a realidade social e política de seu tempo, numa espécie de realismo impregnado de historicidade

“Euclides da Cunha foi efetivamente um verdadeiro ser político – por natureza, geração, formação e opção”. A opinião é de José Mauro Rosso, pesquisador da vida e obra de grandes escritores brasileiros. Neste artigo, concedido com exclusividade para a IHU On-Line, Rosso traça uma biografia política do escritor, percorrendo a trajetória de sua atuação social sempre atrelada ao conhecimento científico, à participação política e à escrita literária. Também enfatiza que embora a existência política de Euclides da Cunha tenha origem no binômio positivismo-cientificismo, em Os Sertões, o escritor aponta “a existência de um ‘feudalismo bronco’ no sertão, e torna-se, a partir de então, o primeiro a propor uma conceituação sociológica precisa sobre o problema da propriedade e uma pioneira definição do estágio econômico-social do campo”.

Mauro Rosso é ensaísta e, em agosto deste ano, publicou Escritos políticos de Euclides da Cunha, pela edPUC-RioEdições Loyola. Em 2008, publicou também pela edPUC-RioEdições Loyola, Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés. Entre sua produção bibliográfica, citamos ainda Cinco minutos e A Viuvinha, de José de Alencar: edição comentada (2005); São Paulo, a cidade literária (2004); Uma proposta para a prática pedagógica (2002). Rosso escreve no blog Caixa de Pandora [http://pandorawiki.blogspot.com] e assina a coluna lettera brasilis in GerminaLiteratura [www.germinaliteratura.com.br].

Confira o artigo.

Sem medo de errar, ou exagerar, pode-se dizer que Euclides da Cunha foi efetivamente um verdadeiro ser político – por natureza, geração, formação e opção. Uma ‘existência’ política que tem sua origem e base no binômio positivismo-cientificismo cultuado a partir da Escola Militar e praticado na sua crença devota na República e que detém seus corolário e conclusão no socialismo, ao qual aderiu em um processo de geração de outros níveis de consciência a partir de Canudos e em seguida de São José do Rio Pardo. Em sua trajetória, encontramos um Euclides ardoroso, doutrinário, propagandista, devotado à República e crente no futuro; e outro, desiludido, desalentado, cético com o regime e os políticos. Porém, a rigor, temos não dois, mas três Euclides: um antes de Canudos, outro depois de Canudos e antes de São José do Rio Pardo, o terceiro depois de São José do Rio Pardo.

A política, desde cedo, exerceu irresistível atração em Euclides da Cunha. Sua biografia e sua bibliografia se confundem com a própria história social e política brasileira do final do século XIX e início do século XX. Como ser político, preocupava-se e envolvia-se com tudo – não apenas a República, mas com os problemas da Amazônia, com o povo (não se limitando a retratar uma só classe ou grupo social, mas vários), com a história e geografia brasileiras e sul-americanas (está nítido em Peru versus Bolívia), com o Brasil como nação, com a nacionalidade (cuja definição exata constituía a seu ver “nossa missão”).

Uma obra eclética e brasileira

Sua obra - que ultrapassou o regionalismo, abrigando outros projetos literários e históricos em textos esparsos e nas coletâneas Peru versus Bolívia, Contrastes e confrontos, À margem da História, a estimular o desenvolvimento de uma literatura firmada na observação, na análise e estudo dos elementos caracteristicamente nacionais - é uma das mais completas sínteses entre ciência e literatura, nela confrontando-se duas formas básicas de conhecimento: de um lado, a dedução e a indução, a utilização de métodos e conceitos em voga nas Ciências Sociais, com o objetivo de analisar e propor alternativas viáveis para os problemas sociais, econômicos e políticos do país e, de outro, a observação mais direta da realidade, que, por sua vez, não se explicava pelas significações convencionais. Seus textos expressam sempre a realidade social, política e mesmo filosófica de seu tempo, numa espécie de realismo impregnado de historicidade que o distingue claramente de seus contemporâneos, mesmo daqueles de formação positivista. A Euclides da Cunha coube a tarefa de valorização e de compreensão do povo brasileiro nos moldes do cientificismo do século XIX, presente, por exemplo, na interpretação euclidiana de Canudos, ainda que  muito discutido nos meios literários e históricos o teor excessivamente cientificista de seus argumentos – o que não impede que Os sertões seja consensualmente classificado como um dos primeiros tratados de sociologia no Brasil.

O cientificismo veio, assim, a constituir a essência ‘medular’ da devoção, pode-se assim dizer, de Euclides à República da qual foi militante ardoroso de primeira hora (mas que, como a quase todos, o pegou de surpresa, nela não tendo a mínima participação e só tomando conhecimento do fato no dia seguinte, pelos jornais) ainda que, já a partir da década de 1890, fosse tomado pelos primeiros sintomas de desilusão e desalento, chegando,  posteriormente, às raias do repúdio; devoção de  corpo e alma,  por entender ser a  única possibilidade, lastreada numa elite, de trazer ao Brasil uma sociedade democrática. O cientificismo forneceu seu conceito da República, que era para ele uma forma de organização social, mais do que um simples regime de governo, lastreada numa ‘filtragem’ democrática dos talentos ‘superiores’ nas várias camadas sociais, o sistema por excelência dos mais bem dotados intelectualmente, das grandes capacidades: só uma “elite justa e esclarecida” poderia conduzir adequada e competentemente os destinos do país – elite essa formada e proveniente da Escola Militar, ‘o primeiro estabelecimento científico do mundo’; só esse contingente social condensaria os atributos políticos, científicos, racionais, culturais e morais para cumprir sua missão.

Aqui, cabe tecer observações a respeito de dois aspectos dessa ‘existência’ política de Euclides. Se foi um republicano ardoroso, convicto e atuante, desse mesmo modo não se manifestou a respeito da Abolição – o 13 de maio se deu quando ele, com 22 anos, já escrevia os primeiros artigos doutrinários e propagandistas da República no jornal A Província de S. Paulo. Idêntico processo se dá a respeito da questão agrária: ao referir-se ao problema da terra, sua visão inicial é limitada pela condição de geógrafo, vendo na terra apenas seu aspecto geográfico, sua constituição geológica, alheio ao problema da relação da terra com o homem. Porém, tudo muda ao se deparar com a situação dos sertanejos reunidos em torno de Antônio Conselheiro, estarrecendo-se com a miséria em que vivem os moradores de Canudos, aponta em Os Sertões a existência de um “feudalismo bronco” no sertão, e torna-se, a partir de então, o primeiro a propor uma conceituação sociológica precisa sobre o problema da propriedade e uma pioneira definição do estágio econômico-social do campo.

À República, a devoção

A República – primeiramente sua pregação e exaltação, depois sua revisão – é tema central na obra de Euclides da Cunha, revelando uma preocupação mantida e cultivada ao longo da vida, presente nos artigos que escreveu para jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, de 1888 a 1892, e na maior parte de seus livros: discutiu o regime republicano não só em Os sertões, como também em Contrastes e confrontos, em À margem da história (cujo centenário de publicação também se dá em 2009), em Outros contrastes e confrontos, e em Amazônia: um paraíso perdido.

Começou a ganhar notoriedade política a partir do incidente ocorrido em dezembro de 1888, na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, quando foi desligado por ato de insubordinação durante a revista das tropas pelo ministro da Guerra. Convidado por Júlio Mesquita para escrever coluna política nas páginas de A Província de S. Paulo (jornal que deu origem ao O Estado de S. Paulo) então engajado na causa republicana, estreou na imprensa diária com artigos inflamados (sob o pseudônimo de Proudhon, anarquista russo – o que já anunciava um Euclides que viria depois) em que atacava o Imperador e a família real, e pregava a necessidade de revolução política. Desde seu primeiro artigo, A pátria e a dinastia, em 22 de dezembro de 1888, deflagra verdadeira campanha republicana, pondo a nu um Euclides doutrinário, propagandista, panfletário. Acreditava ser inevitável a substituição da monarquia pela República, em conformidade com as leis gerais da evolução política: sua formação positivista e cientificista o levava à crença fatalista em uma série linear de etapas do desenvolvimento humano, segundo a qual a República seria introduzida ou pela via pacífica, de forma evolutiva, ou com o uso da força, pela via revolucionária.

Passou da militância pela República à descrença com os rumos do novo regime. Esse distanciamento foi gradativamente revelado na sequência de artigos que publicou, entre 1890 e 1892, em O Estado de S. Paulo e nas cartas escritas ao pai, ao sogro – o general Sólon Ribeiro -, e a João Luís Alves, já em abril de 1897, poucos meses antes de seguir para Canudos.  Esses escritos funcionam como uma espécie de testamento de pessimismo, onde lamenta “A luta começa a perder a sua feição entusiástica e a inocularmos o travor das primeiras desilusões ante esse descalabro assustador, ante essa tristíssima ruinaria de ideais longamente acalentados (...), a República agora paraíso dos medíocres, nela o triunfo das mediocridades e preferência dos atributos inferiores".

Não obstante os primeiros questionamentos e as primeiras desilusões, participou, ainda que de forma secundária, do contragolpe de Floriano Peixoto, em 23 de novembro de 1891, comparecendo a algumas reuniões de preparação da conspiração na casa do vice-presidente. Após a vitória, Floriano chegou a convidá-lo para ocupar um cargo político, o que foi recusado. Defendia, porém, pela imprensa, a legalidade do governo de Floriano, escrevendo não mais como revolucionário, mas como situacionista, que via na permanência de Floriano no poder a possibilidade de consolidação da República. Mostrava-se favorável a uma "política conservadora", capaz de garantir o "estabelecimento da ordem", e atacava os opositores de Floriano. Tinha, contudo, a certeza da vitória do governo, recorrendo ao mesmo paralelo histórico que, em março e julho de 1897, iria aplicar a Canudos - A República vencê-los-á, afinal, como a grande revolução à Vendéia – nos dois artigos que publicou em O Estado de S. Paulo, intitulados A nossa Vendéia, antes de ser enviado como correspondente a Canudos.

Com a República, decepção

O idealismo republicano de Euclides diluiu-se ao longo dos anos subsequentes, e sua crítica aos desvios da política republicana radicalizou-se em Os sertões, em que, a par de outros elementos que conhecemos, discutia a fundação da República por meio de um golpe militar e os problemas que tal origem trouxe ao novo regime, criticava de forma aguda quer o militarismo dos primeiros governos, quer o liberalismo artificial de uma Constituição que as elites civis violentavam por meio de fraudes e manipulações eleitorais: em trecho não incluído na versão final do livro, observou que o novo regime fora incapaz de romper com o passado: "A República poderia ser a regeneração. Não o foi. (...) a velha sociedade não teve energia para transformar a revolta feliz numa revolução fecunda". Em Um velho problema, publicado em O Estado de S. Paulo, em 1° de maio de 1904, quase como uma revisão de um artigo de janeiro de 1889, sustentava que a Revolução Francesa tinha oferecido ainda "o espetáculo singular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus próprios criadores, o que poderia ser aplicado também à República brasileira”.

Contudo, a desilusão euclidiana com a República não fez dele um resignado. Ao contrário, empenhou-se em delinear um programa de ação com o fito de restauração da dignidade, da racionalidade e da moralidade no país, programa cujo pressuposto era a superioridade do saber científico para a organização e condução da sociedade brasileira, o Estado como núcleo catalisador, concentrador e irradiador das energias sociais em conjunto com uma elite técnica e científica – um projeto, como se vê, inexoravelmente advindo de sua ideologia positivista-cientificista.
Na essência, as críticas traziam implícita a revisão de suas próprias posições políticas, que foram, paulatinamente, incorporando-se a um processo de conhecimento e consciência inerentes a sua vivência em Canudos – onde foi testemunha ocular e física dos cenários de miséria, opressão, violência, injustiça social - e depois em São José do Rio Pardo, quando e onde entrou em contato com um movimento ideológico já grassando em partes do mundo e entre muitos intelectuais brasileiros, então emergente na cidade.

O socialismo assumido

Com efeito, não pode deixar de se considerar, dentro do espectro ideológico euclidiano, a questão do socialismo, assumido explicitamente a partir de 1901. Euclides efetivamente se achegou ao grupo socialista de São José do Rio Pardo, mas uma plêiade de opiniões conflitantes cercam sua atuação e participação como militante. As interpretações controversas vão do prof. Francisco Venâncio Filho – que assevera ter Euclides fundado na cidade o partido socialista, a 1º de maio de 1900 - ao biógrafo Eloy Pontes, que coloca Euclides à frente de comícios socialistas, passando pelo escritor Silvio Rabelo e pelo jornalista e político Freitas Nobre, que afiançam ter Euclides redigido o manifesto de fundação do partido socialista riopretano. Também o escritor e político Abguar Bastos sustenta que teria Euclides fundado com Francisco Escobar e Paschoal Artes o Clube Os Filhos do Trabalho, e reitera a sua autoria no manifesto de 1º de maio de 1900. Por fim, testemunham ainda o poeta e escritor Menotti del Picchia e, do lado contrário, o promotor Aleixo José Irmã, sendo este rigorosamente o único que, com argumentos falhos e artificiais, contesta em Euclides a condição de socialista militante, mas não consegue desmentir a de simpatizante das ideias socialistas.

Aqui o que menos importa, a meu juízo, é se Euclides participou direta e ativamente do movimento socialista no Clube Os Filhos do Trabalho, ou nas manifestações de rua, na redação do manifesto etc.: o que interessa fundamentalmente é a postura euclidiana face à questão social e ao socialismo, postura esta absolutamente certa e plenamente comprovável pelos artigos de 1892, em O Estado de São Paulo, pelo programa de O Proletário e pelo artigo de 1904, Um velho problema. Permeando-os, está a evidência de um claro processo de amadurecimento ideológico, pelo menos a nível teórico, intimamente ligado à sua desilusão cética com a República. E o que é relevante mesmo é a assimilação de critérios progressistas na gênese de sua obra e em seus últimos escritos.

Três Euclides - mas um só ente político

Três Euclides, sim: um antes de Canudos, outro depois de Canudos e antes de São José do Rio Pardo, o terceiro depois de São José do Rio Pardo. Mas, sobretudo, um intelectual, empenhado em todas as fases na reflexão e formulação de propostas para fazer do Brasil uma nação progressista e afinada com a civilização de seu tempo.

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