Celso Furtado: o teórico do nacionalismo desenvolvimentista

Na opinião de José Saraiva Cruz, todo projeto político que quiser alcançar sucesso deve ter como bandeira o combate à pobreza e à desigualdade. Para alcançar sucesso, recomenda, deve também apresentar soluções rápidas e práticas

Por: Patrícia Fachin

Celso Furtado desenvolveu um novo modelo de análise e mostrou que o subdesenvolvimento não era apenas uma questão de atraso econômico, pelo contrário, tratava-se de um mote muito mais amplo, “que envolvia uma estrutura sociopolítica de dominação que se mantinha sob princípios colonialistas, visando à concentração de renda e poder”. Apesar de a teoria furtadiana ser reconhecida até hoje, há três décadas, a hegemonia do liberalismo vem dominando a prática econômica mundial, na contramão das ideias de Furtado. De qualquer modo, garante Cruz, “seus valores continuam atuais, e seu método histórico, dialético e interdisciplinar também aparece como apropriado para dar conta dos desafios atuais. A questão ambiental permite até mesmo o retorno do comprometimento e do engajamento intelectual”.

Cruz é mestre em Ciências Sociais pelo Programa de Pós Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição, com a tese Celso Furtado, o teórico do nacionalismo desenvolvimentista cepalino-isebiano.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são, em sua opinião, as elaborações furtadianas que constituíram as bases para pensarmos a realidade econômica, política e social do Brasil entre os anos 50 e 60?

José Saraiva Cruz - Antônio Cândido  nomeou Gilberto Freyre,  Caio Prado  e Sérgio Buarque  como demiurgos do Brasil, com muita pertinência, Francisco de Oliveira acrescentou Celso Furtado a este pantheon. Esses intelectuais, a partir da repercussão de suas produções, influenciaram decisivamente na mudança da visão que os brasileiros tinham de si e do país.  Quando Furtado publica Formação Econômica do Brasil, em 1959, o país fazia um enorme esforço para deixar de ser apenas de base agrária. A grande perplexidade era: porque um país com tanto potencial permanecia tão pobre? A Cepal nasce com esta missão: buscar bases racionais, pautadas no planejamento, que dessem subsídios e incentivassem o desenvolvimento econômico da América Latina, isto, na contramão da ortodoxia liberal, que era hegemônica numa região em que se consolidava a influência norte-americana. A partir da constatação da perda nas trocas internacionais por Prebisch, Furtado desenvolve um novo tipo de análise, acrescentando à perspectiva estruturalista uma visão histórica e interdisciplinar, mostrando que o subdesenvolvimento não era uma simples questão de atraso econômico, mas, muito mais ampla, que envolvia uma estrutura sociopolítica de dominação que se mantinha sob princípios colonialistas, visando à concentração de renda e poder. Isto foi uma novidade impactante na análise econômica que até então prevalecia na região.

IHU On-Line - Como o senhor descreve Celso Furtado enquanto “o teórico” do nacionalismo desenvolvimentista cepalino-isebiano?

José Saraiva Cruz – Bresser-Pereira  e Ricardo Bielschowsky  descreveram muito bem as várias correntes do nacionalismo desenvolvimentista no Brasil, contudo, para o interesse precípuo do meu trabalho não bastavam. Eu procurava os “contornos isebianos” presentes na produção e no pensamento de Celso Furtado. Se você me perguntar qual foi o grande intelectual do nacional desenvolvimentismo direi, sem dúvidas, que foi Álvaro Vieira Pinto,  porém, há mais divergências do que aproximações entre Furtado e Vieira Pinto, já com Guerreiro Ramos e Hélio Jaguaribe podemos encontrar uma maior afinidade intelectual. O que os aproxima, além da interpretação das origens do subdesenvolvimento brasileiro e das soluções propostas no campo político e econômico são os fundamentos do método analítico, bem explorado por Furtado em Dialética do Desenvolvimento,  de 1964.

IHU On-Line - Que relações o senhor estabelece entre a trajetória intelectual e a
prática política de Celso Furtado, em especial com o ISEB, principal centro de repercussão das ideias da Cepal no Brasil dos anos 50?

José Saraiva Cruz - Admirador de Karl Mannheim, de quem buscou a sustentação teórica que associava planejamento e ação social, Furtado teorizava visando sua aplicação prática e imediata, tanto que não cedeu aos apelos da política e da academia, mantendo-se como policy maker até ser vítima do exílio em 1964.  Mannheim foi um dos pilares da sociologia isebiana, voltada para ação política, para a mudança social. O ISEB propunha uma grande mobilização como forma de pressionar politicamente as elites a aceitarem as reformas estruturais (ou de base), o que, acreditavam, romperia com o modelo socioeconômico concentrador que caracterizava historicamente a sociedade e o Estado brasileiro. Os principais intelectuais isebianos classificavam sua fundamentação filosófica de “cultural existencialista”. Apesar de suas origens anteriores, o existencialismo de Sartre  estava em voga nos anos 50, e o culturalismo, já há muito tempo, vinha influenciando decisivamente boa parte dos intelectuais brasileiros, aqui também vejo uma aproximação importante entre Furtado e os isebianos. Celso Furtado se formou em direito na Universidade do Brasil nos anos 1940 e bebeu da fonte culturalista.

IHU On-Line - Em sua tese, o senhor afirma que muitas das correntes desenvolvimentistas foram influenciadas pelos isebianos. Pode nos dar alguns exemplos dessas influências na América Latina?

José Saraiva Cruz - As fundamentações cepalinas causaram um alvoroço na América Latina, descortinavam um novo caminho, novas possibilidades e retiravam o peso da culpa do atraso das raízes ibéricas, da miscigenação, das condições geográficas e climáticas, vistas até então entre os principais entraves à modernização. São elementos que atuam rompendo a inércia que dominava as sociedades da época, e os intelectuais que criaram o ISEB o fizeram a partir desta percepção, neste sentido eram “oportunistas”. O ISEB era uma instituição que visava à difusão racional e organizada dessa “boa nova”, seus intelectuais se viam como propagadores deste “rompimento com o velho” e viam sua atuação para muito além do meio acadêmico, se imiscuíam nos órgãos do Estado, na política, no meio sindical e artístico, e tinham pressa, por isto foi vista por muitos como “aparelho ideológico”. O ISEB não era uma escola formal, e sim um centro de estudos que agregava um movimento intelectual voltado para o debate dos problemas brasileiros e para a mudança social, sem pretensões de influenciar o resto do continente. 

IHU On-Line - Quais as influências da relação Cepal/ISEB na interpretação de Celso
Furtado sobre a sociedade, a nação e o Estado brasileiro?

José Saraiva Cruz - Como disse, a partir da “compilação” que Celso Furtado faz das orientações cepalinas e isebianas surge um novo método analítico e uma nova interpretação da realidade brasileira. O método é o que ele chamou de “dialética do desenvolvimento”, e a interpretação é aquela difundida por Formação, que supera definitivamente as antigas leituras que ligavam o atraso brasileiro as suas condições culturais, sanguíneas, climáticas e geográficas. A modernização, vista como desenvolvimento, passa a depender da ação social organizada, do planejamento e de um marco legal adequado. A interpretação Furtadiana pautou praticamente todas as discussões sobre desenvolvimento no Brasil da segunda metade do século XX.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a propagação da teoria e da prática do
pensamento cepalino na América Latina?

José Saraiva Cruz - A Cepal lança a ideia das reformas estruturais que os mais importantes movimentos de base nacional-popular vão encampar, cada um de acordo com suas conveniências. Resumidamente, a ideia central que ficou é que os altos níveis de pobreza e desigualdade que caracterizam a América Latina têm origem na forma como as elites locais se apropriaram do Estado, utilizando-o como instrumento facilitador das práticas concentradoras de riqueza e poder geradas pelas trocas comerciais predatórias que caracterizam as relações centro-periferia. Como sabemos, as consequências são imediatas, e uma onda de autoritarismo toma conta da região perdurando por pelo menos duas décadas, desarticulando as alianças políticas de base popular urbana.
 
IHU On-Line - Há espaço para o nacionalismo desenvolvimentista no continente?

José Saraiva Cruz - É o que temos visto neste início de século. Como as antigas condições de pobreza e desigualdade persistem, o clamor por opções políticas que respondam aos anseios dos excluídos permanece, daí o retorno de novas versões do nacional-popular. Mesmo nos meios acadêmicos, a questão da desigualdade ou do seu contraponto a concentração de renda continuam alçadas à condição de principal mal das sociedades latinas. O desafio lançado pela Cepal permanece. O diagnóstico, entretanto, deve ser outro.

IHU On-Line – O nacionalismo desenvolvimentista seria uma alternativa para a América Latina? Que questões deveriam fazer parte de um projeto nacionalista no continente?

José Saraiva Cruz - Acredito que todo o projeto político que quiser alcançar sucesso na nossa região deva ter como bandeira o combate à pobreza e à desigualdade e, para se manter, terá que apresentar respostas rápidas e práticas. Na medida em que os indicadores socioeconômicos vão, lentamente, traduzindo uma melhora, e as populações mais pobres vão se organizando, a cobrança sobre os organismos institucionais tende a ser maior, e os políticos devem procurar mecanismos para atender a estas demandas. O perigo volta a ser a tentação autoritária. Não vejo o nacionalismo como resposta aos problemas da América Latina, mesmo os mais nacionalistas defendem a integração regional. Talvez, desde a onda libertadora de Bolívar e San Martín, o panamericanismo nunca tenha estado tão em moda. Os isebianos Guerreiro e Jaguaribe (assim como Furtado) diziam que eram nacionalistas de “circunstância”, viam a opção pelo nacionalismo como conjuntural, apenas como meio, e não como fim, fato que os distanciou de Vieira Pinto.
 
IHU On-Line - Qual é a atualidade da Cepal no sentido de estimular o desenvolvimentismo em tempo de globalização?

José Saraiva Cruz - Não sei se a Cepal se arrisca a produzir interpretações e soluções criativas atualmente, não acompanho suas produções, entretanto, penso que como organismo da ONU deva estar alinhada às linhas mestras da instituição mãe, dadas pela questão ambiental (desenvolvimento sustentado) e a universalização dos ideais de cidadania e democracia (As agendas 21), associados à extensão dos direitos sociais. No Brasil, com o governo Lula, intelectuais desenvolvimentistas (novos e antigos) assumiram importantes cargos na administração direta e nos organismos de pesquisa ligados ou patrocinados pelo executivo. Chega-se a falar num novo desenvolvimentismo ou “neodesenvolvimentismo”.

IHU On-Line - Como aplicar as propostas desenvolvimentistas de Celso Furtado, considerando os problemas de desemprego, concentração de renda, pobreza e miséria, que estão agregados ao modelo capitalista?

José Saraiva Cruz - A convicção positivista, no sentido de racionalista, e sua formação keynesiana sustentaram as suas elaborações norteadas pelos ideais de igualdade e liberdade, conforme aparecem na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, o que o caracterizam como um “neoiluminista”. Furtado foi um homem de convicções, um intelectual que via, na ciência, um valor instrumental, eram os valores morais que norteavam seus trabalhos. Suas análises não se esgotavam na descrição do real, o que o fazia não perder as esperanças na capacidade humana de projetar e planejar socialmente o futuro.

IHU On-Line - Que aspectos do modelo furtadiano deveriam ser resgatados com urgência?

José Saraiva Cruz - As últimas três décadas do século passado foram de hegemonia do liberalismo econômico e do distanciamento científico. Na contramão das ideias de Furtado. A questão ambiental trouxe uma inflexão a esta situação. Ora, hoje em dia, está cada vez mais difícil encontrar alguém que não acredite nos efeitos perversos do mau uso dos recursos naturais, principalmente na questão climática evidenciada pelo aquecimento global. No mesmo sentido, dificilmente encontraremos grupos sensatos que não defendam uma ação coordenada no enfrentamento destas dificuldades. Se podemos adotar mecanismos complexos de coordenação e planejamento para o enfrentamento destas questões, se podemos investir em mudanças culturais e comportamentais que dêem conta de salvar o planeta, porque não adotá-las também no sentido de humanizar o capitalismo, de salvar pessoas? Os organismos da ONU, me parece, trabalham nesta direção e, neste sentido, está a contemporaneidade de Celso Furtado. Seus valores continuam atuais e seu método histórico, dialético e interdisciplinar também aparece como apropriado para dar conta dos desafios atuais. A questão ambiental permite até mesmo o retorno do comprometimento e do engajamento intelectual.

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