Edição 316 | 23 Novembro 2009

A teologia política de Calvino

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Teologia calvinista buscava estruturar uma comunidade política em Genebra. Religião e política andavam lado a lado, o que era compreensível para aquela época, diz Volker Leppin

Manter conexas política e religião era a forma de cumprir a vontade de Deus, pensava Calvino. Evidentemente, isso “não corresponde as nossas concepções modernas de liberdade, mas era totalmente plausível na passagem da Idade Média ao início da Era Moderna”, explica o teólogo alemão Volker Leppin na entrevista especial que concedeu à IHU On-Line por e-mail. “Calvino acentuou a seriedade da vontade de Deus – isto é manifestamente importante e significativo na pós-modernidade!”, avaliou.

Leppin é graduado em Teologia e Literatura Alemã pelas Universidades de Marburg, Jerusalém e Heidelberg. É PH.D pela Universidade de Heidelberg, e, desde 2000 leciona história da Igreja na Universidade de Jena, na Alemanha, onde é decano da Faculdade de Teologia. Escreveu, entre outros, Martin Luther (Darmstadt: Primus Verlag, 2006), Die christliche Mystik (München: Beck, 2007), Das Zeitalter der Reformation. Eine Welt im Übergang (Darmstadt: Theiss Verlag, 2009) e Martin Luther: Gestalten des Mittelalters und der Renaissance (Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Sob que aspectos a teologia calvinista é uma teoria política?

Volker Leppin - A teologia de Calvino tinha relevância política, em primeiro lugar, porque interessava a Calvino a estruturação de uma comunidade política da cidade de Genebra. Ela deveria corresponder à vontade de Deus. O forte significado da vontade de Deus conduziu, entre os huguenotes da França, a que o pensamento calvinista tenha levado a uma forte oposição contra os soberanos que oprimiam a fé. Um longínquo efeito disso ainda se vê nos desenvolvimentos do século XX, como específica forma de relacionamento calvinista, ou, como gostamos mais de dizer em alemão: teólogos cunhados pela Reforma que fundaram a oposição da Igreja ao nacional-socialismo.

IHU On-Line - De que modo Calvino dialoga com outros pensadores políticos? Quais são suas principais influências?

Volker Leppin - Calvino foi influenciado, principalmente, pelos teóricos humanistas, mas ele desenvolveu suas reflexões políticas pessoalmente a partir de sua teologia.

IHU On-Line - Num artigo publicado na revista Cristianità de março deste ano, Roberto Spataro considera que a organização teocrática proposta por Calvino propunha uma legislação opressora. Qual é o sentido do reformador em manter conexas a política e a religião?

Volker Leppin - Como disse anteriormente, ele pensava que podia cumprir assim a vontade de Deus – e isso não corresponde às nossas concepções modernas de liberdade, mas era totalmente plausível na passagem da Idade Média ao início da Era Moderna.

IHU On-Line - Quais os pontos básicos de sua teoria política que continuam atuais?

Volker Leppin - Calvino inculcou que a fé cristã exige opor-se ao poder estatal se ele ultrapassar os seus limites.

IHU On-Line - Neste mesmo artigo escreve Spataro que não há razões para se festejar os 500 anos do nascimento de Calvino. Ele qualifica o reformador como “triste e solitário, duro e intolerante, orgulhoso, colérico e vingativo”. Como o senhor define a pessoa de João Calvino?

Volker Leppin - Calvino foi um pensador assaz, inteligente e penetrante. Avaliar o seu caráter na forma descrita por Spataro é inadequado, e não considera que em Calvino atuou um teólogo manifestamente íntegro, que – como todos nós – evidentemente também cometeu erros.

IHU On-Line - Como a teologia calvinista pode inspirar o homem atual a buscar Deus e um sentido para sua vida? Neste sentido, qual é a atualidade do legado religioso de Calvino?

Volker Leppin - Calvino acentuou a seriedade da vontade de Deus – isto é manifestamente importante e significativo na pós-modernidade!

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