Edição 316 | 23 Novembro 2009

Uma teologia a caminho

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Márcia Junges

De acordo com Ricardo Rieth, Calvino compreendia sua contribuição intelectual como uma “teologia a caminho”. Identificava-se com Santo Agostinho e destacou-se pela capacidade de sistematizar a tradição eclesiástica oriental e ocidental.

A originalidade não é propriamente um traço de Calvino, mas muito antes a sua capacidade sistemática, unificando num “todo orgânico a tradição eclesiástica oriental e ocidental, o ensino do humanismo cristão renascentista e as propostas da primeira geração de reformadores protestantes”. A afirmação é do teólogo e sociólogo Ricardo Willy Rieth na entrevista que concedeu, com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. “Calvino compreendia sua contribuição intelectual como uma ‘teologia a caminho’. Identificou-se com Santo Agostinho, que certa vez descreveu a si mesmo como alguém que escreve a partir da progressão dos pensamentos e progride no escrever. A teologia de Calvino tem um caráter fortemente determinado pela própria experiência”, completa Rieth. Ponderando os aspectos de proximidade e divergência entre Calvino e Lutero, menciona que ambos são referências fundamentais para a teologia e também para o protestantismo.

Rieth é teólogo e sociólogo. Cursou a graduação em Teologia no Seminário Concórdia da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, e em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.  É doutor em teologia pela Universidade de Leipzig, na Alemanha, onde também obteve o título de pós-doutor. Sua tese intitulou-se "Habsucht" bei Martin Luther: ökonomisches und theologisches Denken, Tradition und soziale Wirklichkeit im Zeitalter der Reformation (Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1996). Atualmente, é professor da Universidade Luterana do Brasil – Ulbra, e da Escola Superior de Teologia – EST. É autor do livro Martim Lutero: discípulo, testemunha, reformador (São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a atualidade de Calvino 500 anos após seu nascimento?

Ricardo Rieth - João Calvino continua sendo uma referência para os fiéis que são membros de igrejas surgidas a partir do movimento por ele conduzido. Nesse caso, seus escritos servem de orientação para posicionamentos doutrinários, reflexões teológicas e formulações de juízos éticos acerca de temas desafiadores suscitados pela realidade atual nos diversos contextos em que estão e agem essas igrejas e pessoas. Por outro lado, Calvino foi um intelectual e homem de ação de grande destaque em um período fundamental da história ocidental, quando marcos importantes do que hoje configura nosso contexto de vida foram estabelecidos. Evocar sua memória e refletir sobre as grandes questões de nossos dias, tomando por referência aspectos de sua herança literária e prática, pode ser muito significativo, mesmo para pessoas sem interesse específico quanto à fé cristã ou mesmo à religião de um modo geral.

IHU On-Line - Como pode ser definido o calvinismo?

Ricardo Rieth - Calvino é conhecido como “fundador” do protestantismo reformado. “Reformado”, em sentido estrito, diferencia-se de outras correntes intraprotestantes e designa o movimento originado na Suíça a partir de Zuinglio, Bullinger  e Calvino, entre outros. O próprio reformador genebrino rejeitou que o movimento, a partir dele referenciado, assumisse a denominação “calvinismo”, principalmente quando este foi acolhido em territórios germânicos, algo que se deu com muita intensidade a partir da segunda metade do século XVI. É por isso que igrejas identificadas com sua obra e pensamento adotam o adjetivo “reformadas”, e não “calvinistas”, quando se apresentam. Essa autodesignação lembra que uma igreja que tem por referência a Reforma protestante do século XVI necessita de renovação permanente, pautada pelo ouvir da Palavra de Deus, exatamente como diz o moto: “Ecclesia reformata semper reformanda”.

IHU On-Line - Quais são as mudanças que o calvinismo propõe no protestantismo?

Ricardo Rieth - Calvino não se caracteriza propriamente pela originalidade, mas muito mais pela capacidade de sistematizar em um todo orgânico a tradição eclesiástica oriental e ocidental, o ensino do humanismo cristão renascentista e as propostas da primeira geração de reformadores protestantes. Tinha profundo conhecimento da Antiguidade e da filosofia clássica. Usava as publicações de Erasmo de Rotterdam  para seu trabalho exegético. Suas obras trazem incontáveis citações de Padres da Igreja, principalmente de Santo Agostinho, em especial quando aborda a doutrina sobre a graça, a livre vontade, a eleição e os sacramentos. De grande significado para seu ensino sobre os sacramentos foi São Cirilo de Alexandria.  Como exegeta, valorizava especialmente São João Crisóstomo,  de quem queria editar pregações em francês. A fonte mais decisiva, no entanto, era a Bíblia, a partir da qual repetidamente criticava os Padres, quando concluía que sua opinião dela destoava.

Calvino partia da premissa – como Lutero – de que nos primeiros cinco séculos da Igreja teria inicialmente havido um consenso doutrinário. Posteriormente, teria iniciado um processo de decadência. Calvino também tinha profundo conhecimento da escolástica medieval,  como mostram citações literais do Livro das Sentenças de Pedro Lombardo  e do Código do Direito Canônico. Criticava em vários autores da escolástica a falta de uma ênfase cristocêntrica, seu caráter especulativo e filosófico, suas múltiplas distinções no ensino acerca da fé, a doutrina da graça e a compreensão sacramental. Não há dúvida alguma quanto ao decisivo significado de Lutero para a teologia de Calvino. Nos pontos centrais de sua confissão pelo ensino reformatório, Calvino se mostrou um aluno de Lutero: na doutrina da justificação (somente Cristo, somente a fé, somente a graça, somente a Escritura) e na compreensão acerca da Igreja. Em relação a Ulrico Zuinglio, apesar do inegável parentesco, Calvino tinha certas restrições. Por Martin Bucer,  reformador em Basiléia, Calvino foi influenciado, acima de tudo, por interpretações dos evangelhos, além do ensino sobre a Igreja, ministério, liturgia e disciplina eclesiástica.

IHU On-Line - Quais são as principais proposições defendidas por Calvino?

Ricardo Rieth - Calvino compreendia sua contribuição intelectual como uma "teologia a caminho". Identificou-se com Santo Agostinho, que, certa vez, descreveu a si mesmo como alguém que escreve a partir da progressão dos pensamentos e progride no escrever. A teologia de Calvino tem um caráter fortemente determinado pela própria experiência. Sua obra magna, Institutas ou Tratado da Religião Cristã, saiu em primeira edição em 1536, mas foi sistematicamente revisada e ampliada por ele nos anos subsequentes, o que deixa evidente esta perspectiva. Nela, temos uma síntese do pensamento de Calvino. Sua estrutura compreende 80 capítulos, distribuídos em quatro livros, e alterou-se completamente até 1559, ano da última edição por ele preparada. O primeiro livro traz a descrição das fontes do conhecimento de Deus, aborda a revelação, o conhecimento natural e bíblico acerca de Deus, o dogma da Trindade e o ensino sobre a providência divina. O segundo livro centra o interesse na cristologia: encarnação, ensino sobre as duas naturezas de Cristo, seu tríplice ministério de Cristo como profeta, sacerdote e rei, e a unidade entre antiga e nova aliança. O terceiro tematiza a obra do Espírito Santo e a vida cristã com suas facetas, que são o levar a cruz, a autonegação, a meditação sobre a vida futura, a liberdade cristã e a oração. Aqui também aborda a justificação por graça e fé em perspectiva forense e desenvolve suas compreensões sobre predestinação e ressurreição. O quarto livro, por sua vez, é o mais detalhado. Nele, Calvino trata da obra externa do Espírito, o ensino sobre Igreja, ministérios, disciplina na vida cristã e sacramentos. A passagem em que discute os meios pelos quais a pessoa permanece em comunhão com Cristo é concluída com um parágrafo sobre a autoridade, à qual é dada a tarefa de promover o culto exterior e proteger a doutrina correta e a posição da Igreja, que proporciona a comunhão entre as pessoas. No prefácio de “Institutas”, Calvino revela a intenção de preparar estudantes de teologia para a leitura da palavra de Deus. Afirma querer ser, em primeira linha, teólogo da Escritura. O que ensinou do púlpito e da cátedra em suas aulas de exegese bíblica estaria sistematizado na obra para auxiliar teólogos e professores de religião. A exegese bíblica deveria acontecer exclusivamente para o bem das pessoas na Igreja, ou seja, o texto deveria ser interpretado em função da práxis eclesial. As maiores virtudes de quem interpreta a Bíblia seriam a clareza e a brevidade. Como autêntico representante do humanismo bíblico francês, trabalhava com extremo cuidado do ponto de vista histórico e filológico.

IHU On-Line - Quais seriam os principais pontos de convergência e divergência entre Calvino e Lutero?

Ricardo Rieth - Lutero e Calvino são referências fundamentais para a teologia e o protestantismo. É natural, portanto, que se busque comparar seus legados intelectuais, buscando neles elementos que justifiquem a aproximação ou o afastamento entre denominações surgidas por iniciativa de seus herdeiros. Inúmeras abordagens desenvolvidas em distintas escolas de pesquisa sobre a teologia da Reforma ousaram empreender estudos comparativos, dando ênfase ao lado da divergência. Assim, trabalhos comparando modelos de constituição eclesiástica, concepções a respeito da Santa Ceia e noções acerca dos dois reinos e do senhorio de Cristo mereceram lugar destacado. Com frequência, deixou-se de lado o grande número de aspectos convergentes entre Calvino e Lutero, dando a entender que discrepâncias e divergências seriam o decisivo e primordial. Isso muitas vezes contribuiu para que se promovesse uma abordagem carente de equilíbrio e bom senso. Mais ou menos um ano antes da morte de Lutero, Calvino lhe escreveu uma carta. Pediu-lhe para escrever “em poucas palavras” qual sua opinião sobre os “nicodemitas” na França, bem como sua opinião acerca do escrito em que ele, Calvino, rejeitava sua prática de, mesmo assumindo uma consciência evangélica, seguir participando de cerimônias conforme o rito romano. Melanchthon,  portador da carta de Calvino, não se atreveu a entregá-la a Lutero. Calvino escreveu: “Ao mui excelente pastor da Igreja cristã, Dr. M. Lutero, meu mui venerado pai”. Concluiu com as palavras: “Ah, pudesse eu escapar até vossa presença, mesmo que fosse para usufruir somente algumas horas de teu convívio. Pois desejaria muito conversar contigo não só sobre essa questão, mas falar pessoalmente sobre todos os outros assuntos. O que, porém, não é possível na Terra, logo será possível, eu espero, no reino de Deus. Viva bem, tu, homem mais que famoso, tu, o mais excelente servo de Cristo, para mim um pai constantemente considerado. Que o Senhor continue a conduzir-te com seu Espírito até o fim, para o bem comum de sua Igreja. Teu João Calvino.” Pena que por tanto tempo as atitudes de luteranos e calvinistas, uns em relação aos outros, pautaram-se pelo completo descompasso em relação a este espírito.

IHU On-Line - Que possibilidades de diálogo inter-religioso se abrem a partir do calvinismo hoje?

Ricardo Rieth - No campo das doutrinas e ideias teológicas, Calvino se esforçou ao máximo pela unidade de pensamento e na pregação. Os religiosos de Genebra e cercanias tinham a obrigação, juntamente com outros membros da comunidade, de participar toda sexta-feira, a partir das 7 horas da manhã, de uma reunião de estudos. Pela ordem, cada participante tinha que interpretar um texto bíblico, sendo avaliado por todo o grupo. No caso de Calvino, não se tratava de disciplinar obsessivamente a teologia e o pensamento. Considerando sua postura de um modo geral, é possível verificar uma tensão dialética entre o esforço por uma unidade fechada na doutrina e a abertura ecumênica. Esse segundo aspecto se manifestou nos diálogos religiosos, dos quais Calvino participou, e na relação com outros reformadores, como, por exemplo, Filipe Melanchthon. Há inúmeros impulsos advindos do pensamento e da prática de Calvino que encorajaram e seguem encorajando pessoas cristãs e pessoas religiosas em geral ao diálogo e a práticas ecumênicas e inter-religiosas.

IHU On-Line - Calvino queria instaurar uma teocracia? Por quê?

Ricardo Rieth - Em geral, a atuação de Calvino em Genebra é caracterizada pelo termo "teocracia". No entanto, os conflitos com o conselho municipal, especialmente na questão da prática da disciplina na Igreja, demonstram o quanto as autoridades municipais conseguiram impor seu poder sobre a Igreja e o quanto Calvino, como membro do clero local, acabou submetido a isso. Seria mais apropriado, portanto, falar em uma teocracia do conselho municipal de Genebra do que em uma teocracia de Calvino. Para entender o pensamento político-religioso de Calvino, é preciso ter por referência o contexto político em que ele viveu. O que observamos em Genebra em relação às determinações rigorosas quanto à disciplina na Igreja e na moral cristã, ou então, com relação à união entre Igreja e Estado, não era incomum ou excepcional na Europa do século XVI. Representava, isso sim, uma tendência crescente no início da era moderna. O que talvez possa ser considerado incomum era a personalidade de Calvino, que defendia incondicionalmente as determinações do alto do púlpito e perante o conselho municipal. Desenvolveu, assim, uma teologia que primava pela santificação da comunidade de fé. Uma rápida análise da pesquisa especializada deixa evidente a dificuldade de rotular o conjunto de ideias político-religiosas desse reformador. Além de teocracia, fala-se em governo realizado a partir da Bíblia (“bibliocracia”), por inspiração do Espírito Santo (“pneumatocracia”) e pelo clero (“clerocracia”). Em síntese, teocracia tem o sentido de governo realizado pelo clero, e isso foi algo terminantemente rejeitado por Calvino.

Leia mais...

Ricardo Willy Rith já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Ela está disponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br)

* Entre a cidadania teológica e a esquizofrenia acadêmica. Notícias do Dia 24-04-2008.

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