Edição 314 | 09 Novembro 2009

Perfil - Faustino Teixeira

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Graziela Wolfart

Um ser apaixonado pelo que faz e que vibra com a vida. Este é Faustino Teixeira, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Dudu, como é conhecido entre amigos, concedeu a entrevista que segue pessoalmente à IHU On-Line, quando esteve na Unisinos no último mês de setembro participando do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Ao contar sua história de vida, Faustino considera que a razão de ser da felicidade está em fazer o que se gosta. E aponta a sensibilidade como o elemento que marca sua vida. “As coisas me tocam muito fortemente e me transformam profundamente”. A questão da religiosidade e a sintonia com o mistério, um mistério sempre maior, é outro ponto que igualmente caracteriza sua vida atual. Conheça um pouco mais deste teólogo que é o pai de Pedro, João, Tiago, e Daniel.

 

Faustino Teixeira nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em julho de 1954, em uma família bem numerosa e muito religiosa. Seus pais tiveram 15 filhos, sendo que atualmente são 13 vivos. São dez homens e cinco mulheres e Faustino é o oitavo filho. Seu pai era médico, “daqueles que tratam com fé, esperança e cafuné”, define. Além disso, durante muito tempo, foi ministro da Eucaristia e tinha uma formação filosófica e teológica muito rica. Era professor de deontologia médica na Universidade Federal de Juiz de Fora e sempre teve a tradição da medicina humanizada muito acentuada. Na casa da família três cômodos foram destinados à biblioteca, pois o pai de Faustino sempre comprou muitos livros. E mais do que obras na área da medicina ele comprava na área de literatura, filosofia e teologia, sua grande paixão.

Dudu lembra que seu pai veio da tradição escolástica da filosofia, inicialmente muito marcado pelo tomismo, e essa influência aparece na vida familiar, no contato com os filhos, nos ensinamentos e também nos encaminhamentos dos filhos para a formação. Um traço forte destacado por Teixeira de seus pais é a preocupação com a dinâmica familiar e a formação. Seu pai faleceu há alguns anos, mas a mãe continua no controle dos filhos, hoje com 92 anos.

Faustino começou sua formação no Instituto Santíssima Trindade e sempre estudou em instituições católicas. Depois, do primeiro ano primário até o final do segundo grau estudou com os jesuítas de Juiz de Fora. Então, fez a graduação em Filosofia e Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF de 1974 a 1978. Depois, continuou com os jesuítas na PUC-Rio (mestrado em Teologia) e de lá seguiu com eles na Gregoriana, em Roma, para o doutorado e o pós-doutorado em Teologia. “A formação jesuíta foi muito forte na minha vida. Mas apesar de estudar com eles, minha influência mais marcante em termos de formação foi com os redentoristas e com os dominicanos”, conta.

Quando terminou a graduação em Filosofia e em Ciências da Religião, que cursava paralelamente, Dudu recebeu o incentivo do padre João Batista Libânio, amigo e orientador de estudos, para fazer o mestrado em Teologia na PUC-Rio. “Nessa época, a PUC-Rio era muito florescente, todos os jesuítas estavam lá. Era talvez um dos momentos mais fortes da formação teológica do Brasil, com um influxo muito forte da Teologia da Libertação. Minha formação teológica foi muito privilegiada em função desse rico período da PUC-Rio, do qual nasceram muitos teólogos leigos”, lembra. A atuação acadêmica de Faustino começou na PUC-Rio, durante o período do mestrado. “Nessa época eu era professor de Teologia na PUC-Rio e na Universidade Santa Úrsula. Aliás, as irmãs ursulinas também tiveram um papel muito importante no apoio à minha formação profissional. Lembro que eu dava 28 aulas por semana, sete matérias diferentes e fazendo mestrado ao mesmo tempo. Só que naquele tempo o mestrado durava três anos. E eu ainda era recém casado”, recorda, ao contar que se casou em 1978 e logo foi para a PUC-Rio. Em 1982 bateu na sua porta a oportunidade de fazer o doutorado em Roma. Lá, foi orientado pelo professor Felix Pastor.

Concluído o doutorado, Teixeira volta para a PUC-Rio e leciona no curso de Teologia. “Aos poucos fui me aproximando da área da teologia das religiões”, conta. Em 1989, ele fez um concurso para a UFJF na área de eclesiologia e conseguiu entrar. Então, com a ajuda dos professores Pedro Assis Ribeiro de Oliveira e Luiz Bernardo Araújo, começou a montar o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da universidade. “Criamos a especialização em 1991, o mestrado em 1993 e o doutorado em 2001. E eu fiquei como coordenador do programa este período todo, dez anos”. Atualmente, ele continua como professor no PPG e concentra seu trabalho como pesquisador e docente. “A minha transição se deu da eclesiologia para a antropologia teológica, depois para a teologia das religiões e então para o diálogo inter-religioso. No fim do processo, começou a abertura para o interesse pela mística inter-religiosa, onde atualmente estou concentrado”, explica.

Para Faustino, a mística o fascina por ser o campo onde encontrou mais abertura para o diálogo. “É um campo de liberdade acadêmica, espiritual, de trabalho com prazer”, define. Ele e alguns companheiros, como Luis Felipe Pondé,  Marco Lucchesi  e Maria Clara Bingemer,  montaram um núcleo de mística comparada que se reúne em Juiz de Fora desde 2001, com encontros anuais que acolhem professores e orientandos do núcleo. “É um espaço onde me sinto mais à vontade, considerando o difícil momento que a academia vive no Brasil, de fechamento pragmático de produtividade. Ali temos um clima mais livre, para trabalhar reflexões mais interessantes. Nosso núcleo já produziu dois livros e outro já a caminho. Os laços de amizade que se criaram também são muito importantes”.

Casamento e família

Faustino conheceu sua esposa, Maria Teresa Bustamante,  que todos conhecem por Teita, num grupo universitário chamado “Tropa Maldita”, liderado pelo padre João Batista Libânio. “Ali nasceu uma grande amizade, que depois se aprofundou”. O casal tem quatro filhos: Pedro, 28 anos, que faz mestrado em Literatura; João, 27 anos, que é músico violoncelista da Orquestra Filarmônica de Manaus; Tiago, 21 anos, que faz Geografia na UFJF; e Daniel, 19 anos, que faz Ciências Sociais na UFRJ.

Dudu tem também o talento musical correndo nas veias. Sua família é muito musical, tem dois irmãos que são músicos profissionais e ele foi cantor durante um tempo num grupo de música popular brasileira, chamado “A Pá”, que atuou na década de 70 em Juiz de Fora. “A presença musical é muito forte na minha vida”, confessa.

O sonho atual de Faustino Teixeira é que exista um maior entendimento entre as tradições religiosas, o respeito à diversidade de culturas e de religiões. “Sonho com a quebra de uma certa arrogância que marca as identidades religiosas, numa perspectiva de reconhecer o valor da diversidade. Minha grande luta atual é em favor do que chamo de pluralismo de princípio: reconhecer que o pluralismo é um valor fundamental, que a diversidade é um dom, e que o aprendizado e o encontro com o outro é um horizonte importantíssimo para o nosso tempo”.   

Perguntado sobre o que teme hoje, Dudu considera que vivemos em uma sociedade marcada por medos. “A busca de sentido é sempre feita num ambiente marcado pelas ameaças. Vivemos movimentos de enrijecimento em todos os campos. Tenho medo que os grandes valores possam ser abafados pela dinâmica do mercado, caracterizada pela indiferença. Meu maior medo é que a indiferença se torne a linguagem comum”.

A relação de Dudu com Deus, com o transcendente, é muito forte. “Tenho uma relação pessoal, mais do que exclusivamente sacramental. Tenho um ritmo pessoal de oração muito acentuado há muitos anos”. Ele, sua mãe e sua esposa participam de um grupo de oração em Juiz de Fora. O grupo segue a dinâmica do “Ofício das Comunidades”, enriquecido com orações inter-religiosas e singulares momentos de silêncio. É um espaço onde exerce sua atividade musical, regando os salmos com violão e o canto. “Talvez em função da vinculação muito forte com a mística religiosa, com a liberdade e criatividade que a envolvem, tenho certa dificuldade com a dinâmica atual da religiosidade no mundo católico: o formalismo das missas, a fixação nas rubricas, os sermões e seu distanciamento do tempo etc. Falta um pouco de mundo interior nessa dinâmica do catolicismo hoje”, critica.

Para Faustino Teixeira a política é o espaço da santidade. “A política é o lugar onde podemos lutar para fazer acontecer nossos sonhos. Vejo-a como um espaço fundamental do exercício da cidadania”.

Vale ainda ressaltar que, em parceria com Renata Menezes, Faustino Teixeira organizou uma obra que acaba de ser lançada pela editora Vozes, intitulada Catolicismo plural: dinâmicas contemporâneas . É uma obra que nasceu sob o incentivo da ONG ISER-Assessoria, fruto de um seminário sobre o tema, que aconteceu em Juiz de Fora em abril de 2005. O livro reúne 11 artigos que buscam traçar o quadro plural do catolicismo hoje no Brasil. Nomes importantes das ciências sociais enriquecem a obra com sua preciosa colaboração, como Pierre Sanchis, Otávio Velho, Antônio Flávio Pierucci, Ronaldo de Almeida, Ivo Lesbaupin, Cecília Mariz, Carlos Alberto Steil e outros. E outra obra encontra-se a caminho, fruto de uma longa pesquisa de Faustino sobre os “buscadores de diálogo”. Trata-se de uma pesquisa financiada pelo CNPQ que visa traçar o itinerário de alguns importantes buscadores cristãos que viveram a experiência da liminaridade, de aproximação profunda com outra tradição religiosa. Dentre os autores trabalhados estão: Louis Massignon, Henri le Saux, Raimon Panikkar, Thomas Merton,  Simone Weil  e Ernesto Cardenal.

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