Edição 311 | 19 Outubro 2009

Preservação florestal pode conter aquecimento global

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Patricia Fachin

Na opinião de Paulo Moutinho, as previsões do relatório do IPCC de 2007 estão defasadas e, dois anos depois, a situação climática alardeada pelos cientistas é ainda mais grave

Com o avanço do desmatamento na Amazônia, não se terá chuva suficiente para abastecer a agricultura no centro oeste e sudeste do Brasil, além de falta de água para preencher hidrelétricas, disse Paulo Moutinho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM, em entrevista concedida, por e-mail, para a IHU On-Line. Segundo ele, a redução do desmatamento de florestas tropicais é um dos pontos fundamentais para tentar evitar a catástrofe climática. A combinação de desmatamento com o avanço da mudança climática “gera uma situação de agravamento mais rápido e intenso da mudança climática regional, continental (Américas) e global”, adverte. Na entrevista que segue, Moutinho aponta os indígenas como guardiões da floresta e explica que o modo de vida da comunidade prima pela conservação florestal. “Na Amazônia brasileira, os povos da floresta detêm cerca de 30% do estoque de carbono da região. É neles que devemos investir para que continuem a exercer seu papel de protetores da floresta”, sugere.

Moutinho é doutor em Ecologia e há quinze anos trabalha na Amazônia e atua também como professor orientador de pós-graduação da Universidade Federal do Pará. Participa desde 2000 das discussões internacionais sobre mudança do clima no âmbito da Convenção da ONU de Mudança Climática. Nos últimos anos estuda alternativas de desenvolvimento para a Amazônia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que novos assuntos se tornaram indispensáveis em relação às mudanças climáticas desde o último relatório do IPCC?

Paulo Moutinho - Dois pontos cruciais surgiram do relatório do IPCC.  Primeiro, que não há mais dúvidas de que o aquecimento global está em curso e que é causado pela ação do homem. Segundo, se não reduzirmos o desmatamento tropical (responsável por 10, 15% das emissões globais de gases de efeito estufa), não conseguiremos evitar as tais mudanças perigosas no clima global. Tais mudanças têm uma chance grande de acontecer se passarmos da concentração de 450ppm (partes por milhão) de CO2 na atmosfera (estamos em 378ppm), o que está previsto para 2100 caso continuemos poluindo a atmosfera como no passado.

IHU On-Line – Em que medida o debate floresta-clima se torna imprescindível na agenda de mudanças climáticas? Para o senhor, o tema ganhará relevância em Copenhague?

Paulo Moutinho - A redução do desmatamento tropical é fundamental para a "habitabilidade" do planeta. Além disto, as florestas tropicais, especialmente a amazônica, têm influência fundamental no clima regional e continental e, por sua vez, sofre influência da mudança climática global. Florestas tropicais terão, portanto, relevância fundamental em Copenhague. Os debates se darão em torno do que se convencionou chamar de REDD - Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal. REDD certamente fluirá para um mecanismo que compense financeiramente aqueles países que fizerem esforços de redução de desmatamento em seus territórios. Será um meio de dar valor à conservação florestal, beneficiando aqueles que estão lá na ponta protegendo a floresta.

IHU On-Line - O senhor disse em uma entrevista que a principal contribuição para o agravamento da mudança climática ou do aquecimento global resulta do uso de combustíveis fósseis. Nesse sentido, quais as implicações das reservas de pré-sal para a emissão de gases? A postura brasileira de investir nessas reservas está na contramão das metas de redução de emissão de gases?

Paulo Moutinho - Certamente o grande vilão da mudança do clima são os combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral). Entre 80 e 90% das emissões de gases que aquecem o planeta provêm da queima destes combustíveis. Eliminar a dependência de combustíveis fósseis é um dos grandes desafios da humanidade. Portanto, o caminho correto será investir pesado em tecnologias para energias renováveis. É claro que isto não se faz do dia para noite, embora o Brasil tenha avançado muito em energias alternativas. O álcool combustível é um exemplo. O mais importante, contudo, é que uma redução absoluta das emissões dos países, no caso, do Brasil, se inicie o mais rapidamente possível e de maneira contundente. É neste contexto que devemos encarar o pré-sal. Ou seja, que esta riqueza venha ajudar, de uma forma ou de outra, a redução das emissões brasileiras como um todo. Isto pode se dar através de recursos para encontrar e implementar tecnologias que tornem o setor industrial e energético mais eficientes, e que recursos possam também gerar redução do desmatamento, conservação florestal e distribuição de renda para aqueles que protegem os recursos florestais. Isto tudo deve acontecer de modo que a emissão gerada pelo pré-sal possa ser "absorvida" ou compensada pela redução de emissões de outros setores da economia. Agora, se vai ser assim, é difícil avaliar. Se seguirmos outro rumo, estaremos sim na contramão da história.

IHU On-Line - Quais são suas perspectivas em relação ao Brasil se a Amazônia continuar sendo desmatada? Que implicações diretas ocorrem no país, além da contribuição para aumentar as emissões de gases na superfície, e como isso pode agravar a situação do clima?

Paulo Moutinho - Há várias consequências se seguirmos com o desmatamento. Primeiro, é preciso entender que a combinação do desmatamento com o avanço da mudança global do clima gera uma situação de agravamento mais rápido e intenso da mudança climática regional, continental (Américas) e global. Se continuarmos derrubando a mata na Amazônia, mas não só lá, também no cerrado, que perde uma área maior que a amazônica via desmatamento, nós intensificaremos os períodos de seca na região. Mais seca trará mais incêndios florestais que emitirão mais gases para a atmosfera, fazendo o problema da mudança do clima maior ainda. Seca e incêndios poderão trazer prejuízos enormes para o Brasil e para o mundo. Para se ter uma ideia, quase 5 bilhões de dólares viraram cinzas em 1998 devido ao fogo de florestas e queimadas que atingiram a agricultura. Na saúde, os prejuízos resultantes da fumaça foram da ordem de 10 milhões de dólares. Embora haja muita incerteza cientifica, há chances de que, sem a floresta, não se tenha chuva suficiente para abastecer a agricultura no centro oeste e sudeste do país ou encher os lagos de hidrelétricas na Amazônia e fora dela. Os prejuízos sociais neste contexto são incalculáveis.

IHU On-Line - O senhor alerta para a importância das comunidades indígenas tradicionais na manutenção do clima global. Pode nos explicar melhor essa ideia? Como estas populações podem ser potenciais beneficiários dos acordos internacionais para o enfrentamento das mudanças climáticas?

Paulo Moutinho - Os indígenas, bem como as populações tradicionais, podem ser encarados como os guardiões da floresta. Seu modo de vida tradicional prima pela conservação florestal. Floresta é carbono em essência. Se perturbada, libera este carbono na forma de CO2, o principal gás de efeito estufa. Na Amazônia brasileira, os povos da floresta detêm cerca de 30% do estoque de carbono da região. É neles que devemos investir para que continuem a exercer seu papel de protetores da floresta. 

IHU On-Line - Como as tradições das populações indígenas podem contribuir para a concepção de uma nova formação educacional, no sentido de respeitar o meio ambiente e a diversidade e resgatar o amor pela Terra?

Paulo Moutinho - Acho que temos muito que aprender com os povos indígenas. A sabedoria com que encaram a floresta, os conceitos que detêm sobre a vida, o desenvolvimento e o que é e não é importante pode nos trazer muitas lições neste contexto de mundo aquecido. Certamente, teremos que avançar num desenvolvimento para estas populações, desenvolvimento este realizado e idealizado por eles. Todos precisam de apoio financeiro, saúde, educação e acesso à informação. Se assim for, teremos muitas vantagens no que se refere a um planeta minimamente saudável no futuro.

IHU On-Line - A perspectiva do encontro em Copenhague é acertar um novo acordo climático para suceder o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Que acordos são fundamentais a partir desse momento para atingir as metas em relação às mudanças climáticas?

Paulo Moutinho - Na verdade, temos que lembrar que o que expira não é o Protocolo de Kyoto, e sim o primeiro compromisso do Protocolo, que deverá ser aprimorado a partir de Copenhague. No âmbito da Convenção da ONU sobre Mudança Climática, REDD é talvez o assunto mais quente, e teremos em Copenhague alguma resolução sobre o assunto. O fundamental para o período pós-2012 é que os países, especialmente os desenvolvidos, possam assumir metas realmente ambiciosas e necessárias para enfrentar a deterioração do clima global. Este número gira em 40% de redução de emissões nos países ricos, sendo esta obrigatória.

IHU On-Line - Qual sua avaliação em relação ao Plano Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil, aprovado em dezembro de 2008? Qual tem sido a contribuição prática do país em relação ao desmatamento e a participação de combustíveis fósseis na geração elétrica? E quais são também os desafios?

Paulo Moutinho - O Plano Nacional de Alterações Climáticas (PNAC)  foi com certeza um avanço. Embora não explicite como será implementado, o plano inova ao assumir algumas metas (ou objetivos como quer o governo brasileiro) importantes, como a de redução do desmatamento (80% de redução até 2020). Já reduzimos bastante o desmatamento, embora as taxas atuais ainda sejam escandalosas. Esta redução foi importante, pois a maior contribuição do Brasil para as emissões globais de gases estufa provém do desmatamento, especialmente aquele na Amazônia. Por ter uma matriz energética relativamente limpa, o Brasil, neste quesito, contribui pouco se comparado aos países ricos e também a China e Índia, os dois outros grandes países em desenvolvimento. O desafio maior agora é manter as taxas de desmatamento em queda, pois, sabe-se que parte da redução destas taxas foi devido à crise econômica mundial que afetou os preços de carne e soja, particularmente. Se tivermos uma melhora na economia mundial, e as taxas seguirem caindo, teremos vencido, pelo menos por enquanto, o dragão do desmatamento por ações de governo e da sociedade brasileira. Ações de controle já demonstraram que é possível produzir quedas grandes nas taxas de desmatamento em algumas regiões da Amazônia. Portanto, há esperança, embora tenhamos assistido o ataque à legislação ambiental por parte dos parlamentares no congresso. Se isto avança, o risco de perdermos o que conseguimos até agora de controle sobre o desmatamento será grande. A sociedade precisa exigir o fim do desmatamento.

IHU On-Line - Estudos revelam que as previsões feitas em 2007 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC já estão sendo semelhantes ou superadas. Em sua opinião, se não chegar a um acordo em Copenhague com relação às metas de emissão, mudanças mais extremas podem acontecer? O que, por exemplo?

Paulo Moutinho - As previsões do IPCC estão sim defasadas. O quadro é pior do que o alardeado pelos cientistas no relatório de 2007. Isso traz um sentido de urgência. É nesta urgência que está calcada parte da esperança de que um bom acordo seja alcançado em Copenhague. Caso contrário, vamos assistir cada vez mais eventos extremos e serão frequentes e intensos. Secas, chuvas torrenciais, furações, quebra de safra etc.

IHU On-Line - Outro estudo do Instituto Internacional de Pesquisas de Política Alimentar (IFPRI) prevê escassez de alimento em todo o mundo por volta de 2050, o que irá ocasionar a alta dos preços dos alimentos básicos como trigo, soja e arroz. O senhor compartilha dessa ideia? Que relações estabelece entre mudanças climáticas e escassez de comida e água?

Paulo Moutinho - A escassez de alimento é possível sim. Principalmente naqueles países cuja agricultura é rudimentar, e a capacidade de adaptação é baixa, como em muitos países da África. Não sei bem ao certo sobre o que acontecerá com os preços no nível regional ou nacional, mas é bem provável que haverá um agravamento da fome no mundo. Caso não consigamos barrar o avanço da mudança do clima, estaremos confirmando a nossa incapacidade, seja por ganância ou ignorância, de preservarmos a nós mesmos.

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