Edição 309 | 28 Setembro 2009

Perfil - Yara Borges Caznok

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

Quando lhe perguntam como querem que a apresente, prontamente ela responde: “podem me chamar de professora Yara, é isso que eu quero ser”. Feminina, vaidosa e eterna amante de música e francês, Yara revela um jeito singular de ser. Para ela, “a natureza é divina, tem um olhar estético, tem um presente que Deus oferece aos olhos das pessoas: a beleza”. Na entrevista que segue, concedida na semana do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, a professora responsável pelo minicurso A escuta dos mistérios de Deus na obra de J. S. Bach, contou um pouco de sua trajetória e disse que nunca teve dúvidas em relação à atividade que gostaria de exercer ao longo da vida: ser professora de música. Confira.

IHU On-Line – Para iniciar nossa conversa, gostaria que a senhora contasse um pouco da sua trajetória, onde nasceu e como é seu relacionamento com a família.

Yara Borges Caznok – Nasci numa cidadezinha localizada no norte do Paraná, chamada Cornélio Procópio. Sou a segunda de quatro filhas de uma família bastante unida. Minha mãe era professora de música, então tive um vínculo afetivo pela profissão dela e pelo amor que sempre teve no cuidado com as filhas – isso foi muito marcante para mim. Sempre a vi como professora, porque às vezes ela nos levava nas aulas. Desde cedo, nunca tive dúvida do que eu queria ser na vida; só poderia ser professora de música.

Meu pai já faleceu. Ele trabalhou como dentista e, do mesmo modo que minha mãe, gostava muito de música, mas tinha um gosto especial por ópera. Descendente de poloneses, nasceu em Santa Catarina. Um homem muito contido, criado dentro de uma educação bastante rígida. Era também uma pessoa sofrida, parece que antes de ser feliz ele tinha de trabalhar e criar a família. Carinhoso - dentro daquilo que conseguia -, sempre buscava uma proximidade com os filhos e teve muito orgulho da família. Festejava com a gente qualquer vitória, desde uma nota boa na escola. Os pais são mais do que fundamentais, são a decisão na vida espiritual e afetiva de uma pessoa. Eu sou muito grata a eles.

Convivências da infância

Minhas irmãs e eu brincávamos e brigávamos muito numa relação em que éramos muito próximas. Nós temos diferenças de aproximadamente dois anos cada uma. As quatro estudaram música, mas só eu continuei. Lembro que tínhamos uma brincadeira muito interessante: tentávamos trocar de personalidades e pensar como seria ser, gostar e agir de um jeito que não era o nosso. Essa convivência com mulheres foi muito importante. O universo feminino era pesado para meu pai, mas para mim sempre foi uma vantagem, porque esse é um mundo de negociação, observação, cuidar do outro, e isso dá uma visão de mundo bastante interessante.

IHU On-Line – A senhora é muito vaidosa, alegre e transmite esse bem-estar. Essas características são um reflexo também dessa convivência com várias mulheres?

Yara Borges Caznok – Gosto de me arrumar e das coisas bonitas do mundo. Isso vem de uma procura estética que pode parecer besteira, mas não é. Quando olhamos a natureza, percebemos equilíbrio, cuidado nas cores, nas formas, na diversidade e na unidade. A natureza é divina, tem um viés estético, tem um presente que Deus oferece aos olhos das pessoas: a beleza. E nós não podemos achar que isso é supérfluo. Não estou me comparando aos designs da natureza, mas gosto dos objetos bonitos e quando escolho as minhas roupas, tenho esse olhar. Nós nos vestimos para nos dar para os outros. Então, porque não dizer: a parte estética, a beleza das coisas, a combinação de cores que alguém pensou eu quero em mim, porque é assim que eu quero me apresentar para você. Penso muito no Antônio Bispo do Rosário. Ele foi um esquizofrênico que passou 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, e durante o tempo que ficou lá bordou muitas de suas roupas. Ele fez um manto bordado maravilhoso, o qual ele chamava de “manto de apresentação”, que era como ele queria se apresentar para Deus quando fosse embora do mundo.

IHU On-Line – A senhora sempre estudou música?

Yara Borges Caznok – Sempre estudei música e francês. Tinha na minha cidade condições de estudar essas duas coisas. Línguas também sempre foi uma paixão na minha vida. Queria entender como era a sonoridade de outros idiomas e o jeito das culturas pensarem. Mas, nunca tive dúvidas em relação à música.

Tinha na minha cidade uma faculdade de música ligada às irmãs Beata Imelda. Comecei o curso de música e ao mesmo tempo o de Letras/Francês. Numa cidade vizinha tinha um curso de agronomia e eu decidi estudar isso também, porque num município pequeno o tempo rende. Fiz um semestre de agronomia, porque eu queria me ver estudando outra coisa. Se eu tivesse tido tempo, teria concluído o curso. Finalizei a graduação em Letras e quando estava no último ano da faculdade de música, achei que já estava na hora de me mudar para um centro maior. Fui para São Paulo e transferi minha graduação para uma faculdade particular; precisava logo do diploma. Para me sustentar, fazia transcrição de partitura, fui monitora em acampamento de criança. Me formei em 1979. Comecei a lecionar aos 15 anos, então, quando finalizei o curso continuava lecionando.

No inicio dos anos 80, surgiu a oportunidade de estudar na França. Então, passei um ano e meio em Paris. Lá, estudei cravo, porque gostava muito de música antiga, período barroco. Tive a oportunidade de desenvolver a língua francesa e estudar um instrumento que já estudava nos festivais de música brasileiros. Esse foi um período de exceção na minha vida. Quando retornei ao Brasil, passei a lecionar em faculdades, encaminhei mestrado e depois o doutorado, já que eu queria ser professora. Até hoje estou nesse caminho.

IHU On-Line – Como é sua rotina em São Paulo? Pode nos contar um pouco quais as são as atividades que desenvolve?

Yara Borges Caznok – Brinco que minha vida não me pertence. Estou na universidade há 16 anos e as minhas disciplinas lá são muito técnicas. Procuro, dentro destas disciplinas, mostrar o pensamento musical em termos de comunicação e história para abrir profissionalmente o horizonte dos alunos. Trabalho com estudantes de licenciatura, com compositores regentes e alguns instrumentistas. Além dessas disciplinas, participo de grupos de estudos, oriento trabalhos de conclusão de curso. Isso também toma bastante tempo, porque cada estudante é um universo. Lido com questões pessoais, indecisões que marcam o período da graduação. Não vejo o ensino apenas como uma forma metodológica, tento ter um relacionamento de orientação pessoal com os alunos.
Sempre tenho atividades de assessoria, as quais estão ligadas diretamente à prefeitura e ao Estado. Então, às vezes me chamam para trabalhar com professores da rede, no sentido de discutir como ensinar música de modo significativo. Há dois anos, também estou assessorando o Programa Santa Marcelina, que trabalha com música na periferia de São Paulo. Atendemos sete mil crianças e contamos com uma estrutura de 200 professores e uma assistente social por núcleo de ensino (21, no total). Se o aluno começa a faltar às aulas, a assistente vai à casa dele para saber o que está acontecendo. Não queremos evasão. Esse é o programa dos meus sonhos: reúne educação musical, inclusão social e o cuidado com os valores humanos.

Alguns de meus alunos são professores do Programa Guri e nós realizamos reuniões informais na minha casa, para fazer um trabalho mais intenso de discussão e de formação. Isso ajuda a ampliar o trabalho, porque eles passam a ter novas iniciativas. Estamos conseguindo trabalhar uma mentalidade diferente – isso para mim é o mais importante –; nosso propósito é formar professores que irão lidar com os problemas do país, tentamos ensinar a valorização da existência de cada um dos alunos. Mais do que dar uma profissão para um menino, é importante dizer que a vida dele vai valer a pena, que sua vida é muito mais do que um simples trabalho.

IHU On-Line – E nos momentos de lazer, o que a senhora gosta de fazer?

Yara Borges Caznok – Ginástica é fundamental três vezes por semana, religiosamente. Preciso de bastante atividade física, do contrário, não aguento. O trânsito e o metrô em São Paulo exigem muita resistência física. Faço exercício físico para manter a minha saúde, porque quero viver muitos anos e, também, por vaidade, não vou negar. Uma pessoa que se apresenta “largada”, deprimida não vai convencer os outros. Sempre gosto de pensar que tenho que chegar com pique na sala de aula, para que os alunos sintam prazer em aprender. Vou à ginástica por volta das 18h e fico, quando consigo fazer todo o treino, até as 20h30min.

Estudava alemão até o ano passado, mas agora é impossível.

Cinema não é algo que me atrai muito, não sou uma pessoa visual nesse aspecto. Sou visual em termos de exposições de artes plásticas; esculturas me atraem muito. Mas eu leio bastante literatura mundial. Adoro Gabriel García Márquez, Dostoiévski, Borges. São pessoas que preciso ler. Também amo as tirinhas de Calvin e Haroldo. Tenho um caderninho – uma espécie de diário -, onde vou colando não somente tirinhas de Calvin e Haroldo, mas frases, piadinhas, trechinhos de poemas, fotos de bichos.

IHU On-Line – A senhora gosta de animais? Tem algum bichinho de estimação?

Yara Borges Caznok – Gosto muito de gatos e felinos em geral. Gosto mesmo é de onças. Gostaria de ter sido bióloga ou veterinária para estudá-las. Esteticamente, esse é o bicho mais equilibrado, lindo, perfeito. Aquela cor, com as manchas, é uma obra de arte. O silêncio dos felinos me atrai muito. Já que não posso ter uma onça, sempre tive gatos. Também tenho presentes de gatos do mundo inteiro; compro bichinhos, cadernos, almofadas com estampas de gatos. Atualmente, tenho uma gatinha que já tem quase 18 anos; já cheguei a ter 12 quando morava numa casa maior. Todos eles vão morrendo de velhice.

IHU On-Line – A senhora é casada?

Yara Borges Caznok – Fiquei casada por quase 25 anos com um pianista. Foi um casamento ótimo, nos ajudamos muito e continuamos, ainda depois da separação, amigos. Um torce pelo outro, como sempre fizemos no nosso relacionamento. Acho que o casamento é somente um na vida e é para sempre. A dedicação, a disponibilização que se tem para realmente compartilhar a vida com alguém é uma vez só. As pessoas devem casar, porque isso representa uma entrega muito forte. Mesmo separada, eu fui muito feliz no casamento.

IHU On-Line – A senhora tem filhos?

Yara Borges Caznok – Tenho um filho de 24 anos, Pedro, que mora comigo. Ele é o presente que Deus me deu; agradeço todos os dias. Ele está formado, trabalhando na área de marketing.

IHU On-Line - Herdou da sua mãe esse jeito afetivo, de cuidado? Conte-nos um pouco desse lado mãe.

Yara Borges Caznok – Muito! Sou muito mãe! Inclusive meus alunos também pensam isso. Como ele é filho único, sempre tive que me conter. Queria que ele fosse menino cantor, como aqueles dos corais de Viena. Mas ele virou roqueiro e jogador de futebol. Esse exercício de aceitar o outro e reconhecê-lo no que ele é foi impressionante para mim. Sempre imaginei que ele teria uma biblioteca de música, mas ele não quis. Durante muitos anos, isso significou para mim uma lida com a frustração, mas consegui superar.  Meu filho está realizado, é muito amigo meu, não quis sair de casa ainda e vejo que ele presta atenção nas minhas coisas também. Então, gosto bastante dessa convivência. Mas, de qualquer forma, algumas coisas de supermãe sempre passam, então ele brincava comigo dizendo: “Sim, general”. Me chamava assim, de general.

Mantenho até hoje as lembranças do meu lar e tento também, nas minhas aulas, fazer com que os alunos se sintam bem, que eles tenham essa afetividade e o gosto pelo conhecimento. Essa é uma busca minha o tempo todo. 

IHU On-Line – Qual é o sentido da música na sua vida? Que emoções a senhora sente quando ouve Bach, por exemplo?

Yara Borges Caznok – Sinto que a vida é uma benção, um milagre e que só pode vir de Deus. Ter consciência disso é o maior presente que uma pessoa pode ter, porque aí tudo ganha significado. Quando escuto, quando me emociono parece que eu pego a vida no sentido dela: o que é estar vivo, o que é ter vindo para o mundo. Isso só acontece quando estou com outras pessoas; é diferente de quando ouço música sozinha. Mesmo quando preparo as aulas, as audições, sempre tem a presença imaginária de outras pessoas. Jamais consigo analisar uma música para mim e pensar: não vou mostrar isso para ninguém. O outro já está implicado imediatamente quando eu começo a trabalhar uma obra. Estar com o outro tem um significado muito forte para mim. São momentos de ápice de intensidade de vida. Por isso que eu gosto cada vez mais de música.

IHU On-Line – A senhora segue alguma religião, tem um lado espiritual desenvolvido?

Yara Borges Caznok – Sou católica e, quando posso, vou a uma igreja que tem próximo à minha casa. Sou muito inconstante nessa frequentação do ritual, mas cultivo minhas orações diariamente, não só em horas marcadas; a cada momento que o mundo me apresenta alguma coisa significativa, agradeço a Deus. Essa presença de Deus no meu cotidiano é muito forte. Cultivo isso também no meu relacionamento com os alunos. Nós fazemos, regularmente, reuniões de escuta de repertório de música sacra. Então, na Páscoa, por exemplo, todo Domingo de Ramos, fizemos essas reuniões em casa. Não vejo a minha vida sem esse intenso cultivo espiritual e essa comunicação que tenho com Deus.

IHU On-Line – Que sonho a senhora ainda deseja realizar?

Yara Borges Caznok – Pode ser uma coisa bem bobinha? Ser magra! Eu brinco, mas é verdade, é pessoal. Um sonho em termos de país, eu tenho: que a educação volte a ter como eixo os valores humanos, que o ser humano seja o eixo das ações educativas. Fico muito triste com a desvalorização das pessoas nos relacionamentos, a degradação nas relações de convivência. Não tenho outro sonho e nunca perco a esperança que a educação consiga valorizar esse acolhimento, esse momento de comunicação que um ser humano precisa ter com o outro; somos diferentes, mas o outro tem tanto valor quanto eu. Esse exercício e essa prática da tolerância é algo que vou, o tempo todo, esperar. Enquanto puder, num pequeno universo, disseminar essa ideia, farei, seja por meio da música ou por outros objetos que sejam intermediários nesse relacionamento humano.

Últimas edições

  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição
  • Edição 536

    Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

    Ver edição
  • Edição 535

    No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

    Ver edição