Edição 307 | 08 Setembro 2009

RCC, Canção Nova e o envio de missionários brasileiros ao mundo

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

Para Eduardo Gabriel, a RCC é hoje o melhor modelo de catolicismo para exportação que a Igreja Católica no Brasil pode vislumbrar

“O individualismo e a secularização, antes pensados como fenômenos capazes de minar a expansão religiosa, são hoje usados como argumento suficiente em nome do qual se justifica a necessidade de evangelização”. A opinião é de Eduardo Gabriel, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. E ele continua: “sociologicamente temos percebido que individualismo e secularização não são sinônimos de ausência religiosa ou espiritual nas sociedades”. Ao analisar o crescimento da Renovação Carismática Católica, Eduardo Gabriel lembra que, “para fora, a RCC já não tem tantas armas para disputar com o pentecostalismo, pois a maior disputa hoje passa a ser com outras esferas da sociedade, sobretudo com a esfera do consumo. A preocupação é, por exemplo, como transferir um consumo de lazer normal para um consumo de lazer religioso”, referindo-se ao que hoje conhecemos por “turismo religioso”. “Para as pessoas que sonham fazer uma viagem de navio, um cruzeiro, ao invés de irem com uma agência de viagens normal, hoje já podem fazer um cruzeiro católico, literalmente, onde há um navio que terá lazer, mas também terá retiro espiritual durante a viagem, além de missas, confissões etc.”

Eduardo Gabriel possui graduação e mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, é doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo - USP, com doutorado sanduíche pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: globalização, protestantismo, missões e religião, universidade, catolicismo, RCC.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como religião e globalização se relacionam na chegada da Canção Nova em Fátima, Portugal?

Eduardo Gabriel - A dinâmica do fenômeno da globalização tem sido propulsora dos fluxos religiosos em todo o mundo, aliados igualmente aos fluxos culturais, financeiros, políticos etc. Nas duas últimas décadas, começou a ocorrer um particular movimento de grupos religiosos, tendo como saída os países do sul em direção aos países do norte. Isto é, países que historicamente recebiam missões religiosas na África e América Latina agora começam a enviar missionários, não só para outros países também da África e da América Latina, mas também países de onde saíam os missionários, ou seja, para a América do Norte e a Europa, principalmente. Este fenômeno é o que os especialistas chamam de "retorno missionário". Focando no contexto brasileiro, o grande "boom de envio missionário" aconteceu em meados da década de 1990, momento em que a estabilização monetária nacional em paridade com o dólar motivou a saída. Este é um grande episódio que marca a expansão internacional de grupos religiosos do Brasil, e os primeiros que começam a sair são os grupos evangélicos - pentecostais e neopentecostais. As comunidades católicas do movimento de Renovação Carismática Católica, as chamadas "novas comunidades", só começaram a sair no final dos anos 1990, muito posterior à saída dos grupos evangélicos. Esta saída das comunidades católicas, como sinal de corrida e disputa neste processo de expansão religiosa, começa bastante tardia e só agora dá sinais de algum tipo de aceleração. Exemplificando, a Canção Nova chega a Portugal em 1998, ano em que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)  completou 10 anos, por ter chegado em 1988, o que mostra aquilo que estou dizendo acima. E a aceleração do envio de comunidades católicas começa a acontecer agora com o fato de que, 10 anos da chegada da Canção Nova, só em 2008 em Portugal chegaram outras três comunidades: Toca de Assis, Shalom e Aliança de Misericórdia; a comunidade Obra de Maria sempre esteve trabalhando junto com a Canção Nova. Portanto, hoje são cinco comunidades católicas brasileiras em Portugal: Canção Nova, Obra de Maria (ambas em Fátima), Toca de Assis (na cidade de Balazar, próximo ao Porto, região norte), Aliança de Misericórdia (em Lisboa) e Shalom (em Braga).

IHU On-Line - Quais são as peculiaridades da Canção Nova em Portugal? Que diferenças apresenta em relação ao Brasil?

Eduardo Gabriel - Não há qualquer tipo de diferença na forma e conteúdo de evangelização da Casa de Missão em Portugal em relação à evangelização no Brasil, isto é inclusive um dos principais motivos que desencadeou no começo uma série de ataques à presença da Canção Nova em Portugal. Ou seja, ela implantou sem qualquer preocupação em adaptação cultural local as formas de culto e pregação tal como se vê no Brasil. Um grupo de leigos portugueses de grande articulação com o episcopado português escreveu um documento que se pretendeu ser um manifesto de abaixo-assinado sobre a instalação da Canção Nova em Portugal, particularmente sobre o começo da TV Canção Nova. No dia 05 de Julho de 2001, na página 43 do jornal Público, um artigo  de página inteira, assinado pelo jornalista António Marujo, que é muito ligado à hierarquia católica portuguesa, traz como título: "Canal católico brasileiro perde um dos parceiros portugueses", que tratava de ser o movimento AIS - Ajuda à Igreja que Sofre. No corpo do texto, expressões como "mentalidade neojansenista", "moralista" e "intolerante" desqualificavam a evangelização da TV Canção Nova. No dia 18 de outubro do mesmo ano, um novo artigo assinado pelo mesmo jornalista, trazia como título: "Bispos distanciam-se de canal católico no cabo", o que tratava de demonstrar a grande insatisfação dos bispos com a presença da Canção Nova em Portugal. Na mesma página, outro artigo secundário, para ajudar na desqualificação da TV Canção Nova, tinha como título "Polêmica também no Brasil", tentando demonstrar que também a CNBB não tinha qualquer ligação com a Canção Nova e nem apoiava o trabalho. Essas reações ilustram como foi o processo de chegada e a implantação direta da Canção Nova em Portugal nas mesmas dinâmicas do Brasil, mas, o catolicismo português, e talvez os missionários brasileiros da Canção Nova, estivessem um pouco desavisados de que a realidade não é a mesma do que no Brasil.

IHU On-Line - De que forma podemos compreender a expansão da RCC brasileira? Esse é um modelo de religião “tipo exportação”?

Eduardo Gabriel - A exportação da RCC brasileira representa a quarta fase da trajetória histórica de desenvolvimento do movimento. Primeiro sua chegada ao Brasil, 1969; segundo, sua expansão em grupos de oração e institucionalização por todo o território nacional; terceiro, a grande presença nos meios de comunicação, criação de TVs, rádios, portal na Internet, editoração de livros, CDs, DVDs etc.; e hoje a quarta fase, a expansão internacional. Por apresentar toda estas dimensões, sobretudo com a grande presença nos meios de comunicação, a RCC é hoje o melhor modelo de catolicismo para exportação que a Igreja Católica no Brasil pode vislumbrar.

IHU On-Line - Como você compreende essa globalização da religião frente ao individualismo e à secularização de determinados setores da sociedade?

Eduardo Gabriel - O individualismo e a secularização, antes pensados como fenômenos capazes de minar a expansão religiosa, são hoje usados como argumento suficiente em nome do qual se justifica a necessidade de evangelização. Em outras palavras, sociologicamente temos percebido que individualismo e secularização não são sinônimos de ausência religiosa ou espiritual nas sociedades. Há, cada dia mais, inúmeros seguimentos religiosos, os mais diversos, sobretudo na perspectiva chamada "Nova Era", que estão surgindo e crescendo em todo os cantos.

IHU On-Line - Quais são as verossimilhanças da RCC com o pentecostalismo?

Eduardo Gabriel - Na performance do ritual da RCC, por ter como ênfase a passagem bíblica da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos, que é o mesmo episódio como fundo de cena dos pentecostais, ambos, RCC e pentecostais, acabam tendo comportamentos semelhantes quais sejam, o louvor efusivo com a oração em línguas (glossolalia), ênfase no demônio, palmas nas missas etc., além de uma estrutura arquitetônica nos locais de culto carismática muito similar, com traços estilizados. Este é um dos grandes entraves pelo qual passa a Canção Nova em Portugal, que é constantemente vista como sendo uma Igreja Universal do Reino de Deus. Muitos portugueses que não estão habituados a ver "diferenças" nos estilos de culto, acham que a Canção Nova é a mesma coisa que a IURD, e por isso também fazem muitas críticas à Canção Nova.

IHU On-Line – Podemos ainda apontar a RCC como um movimento conservador de dupla reação?

Eduardo Gabriel - Considero que hoje a RCC já não é mais um movimento conservador de dupla reação porque não é somente para o interior da Igreja Católica e em direção a uma concorrência com os pentecostais que a dinâmica carismática se perfaz. Há outras ramificações por onde a RCC começa a se instalar, tanto para dentro da Igreja Católica, como para fora. Hoje a RCC já não é o principal meio possível para reter fiéis que estavam saindo do catolicismo, pois ao contrário disso, já tem uma massa de fiéis formada que não são pessoas "neo-convertidas" ao catolicismo carismático, que antes eram católicas e deixaram de ser. As observações mostram que já não há tantos católicos regressados por conta exclusiva da RCC. Em suma, já não tem trazido os católicos de volta. Quem foi, foi, e quem está hoje é porque já tem uma trajetória de participação em RCC por mais de 5 ou 6 anos. A pergunta fundamental é: como explicar o crescimento? É preciso notar que, no final dos anos 1980 e até meados dos anos 1990, muitos que participaram da RCC em grupos de oração continuam até hoje, e naturalmente casaram e tiveram filhos. Hoje há um grande volume de jovens que nasceram com pais já ativamente dentro dos grupos de oração, foram criados participando de grupos de oração, são jovens participando desde sempre da RCC. Repito, há um grande volume de pessoas assim. Por isso, o crescimento da RCC é em grande parte um crescimento endógeno. Para fora, a RCC já não tem tantas armas para disputar com o pentecostalismo, pois a maior disputa hoje passa a ser com outras esferas da sociedade, sobretudo com a esfera do consumo. A preocupação é, por exemplo, como transferir um consumo de lazer normal, para um consumo de lazer religioso. Ou seja, as pessoas que gostam de fazer viagens internacionais nas férias, podem hoje optar por fazer as mesmas viagens internacionais, mas só que agora com a presença de um líder espiritual - padre, teólogo etc., e percorrer lugares sagrados como em Fátima, Portugal, Itália, Terra Santa, santuários marianos pelo mundo etc. É a ideia de um turismo religioso. Por isso, antes de buscar disputar forças com o pentecostalismo, segmento estritamente rival, é com estas outras esferas que a RCC começa a ter que disputar força, espaço e público alvo. Para as pessoas que sonham fazer uma viagem de navio, um cruzeiro, ao invés de irem com uma agência de viagens normal, hoje já podem fazer um cruzeiro católico, literalmente, onde há um navio que terá lazer, mas também terá retiro espiritual durante a viagem, além de missas, confissões etc. Com tudo isso, é preciso ver que não só a RCC busca fiéis em outros setores da Igreja e também em disputa com o pentecostalismo, como foi considerado anteriormente, mas tem também hoje outras tantas reações conservadoras que precisam ser reveladas e analisadas sociologicamente.

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