Edição 307 | 08 Setembro 2009

“O ideário das novas comunidades é o ideário comunitário do cristianismo primitivo”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Para Cecília Mariz, uma diferença marcante entre a tradição católica e a protestante é o projeto comunitário católico e o individualizante protestante

Ao refletir sobre o que pode justificar o crescimento das novas comunidades católicas, a professora Cecília Mariz descreve o seguinte cenário: “para se manter uma fé, uma crença em uma moralidade ou em valores que rompem fortemente com os valores predominantes na sociedade mais ampla, ou seja, para experimentá-los como possíveis ou ‘plausíveis’, os indivíduos precisam conviver intensamente e trocar afetivamente com pessoas que compartilham a mesma visão de mundo”. E continua: “as novas comunidades, além de oferecer segurança, são a possibilidade de construção de plausibilidade que se precisa para adotar propostas distintas da sociedade mais ampla”.

Cecilia Loreto Mariz possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, e doutorado em Sociology of Culture and Religion (Phd) pela Boston University. Atualmente é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. É uma das organizadoras de Novas Comunidades Católicas: em busca do espaço pós-moderno (Aparecida: Idéias & Letras, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Considerando as características da sociedade atual, podemos afirmar que o refúgio nas comunidades católicas pode ser um abrigo em um mundo “fora dos limites”, como escreve Luiz Benedetti em seu artigo 'Novos rumos do catolicismo', na obra Novas comunidades católicas: em busca do espaço pós-moderno (Aparecida: Ideias & Letras, 2009)?

Cecília Mariz - Sim concordo com Benedetti , e acrescentaria ainda que Durkheim,  em seu livro clássico O Suicídio, apresenta argumentos a favor dessa hipótese. Para Durkheim, os indivíduos estão, não apenas subjetivamente, mas objetivamente, mais vulneráveis em uma sociedade onde as regras compartilhadas são poucas e fracas.  A força do indivíduo, de acordo com esse autor, estaria na sua interiorização dos limites dados pelo social. Essa linha de pensamento também reaparece, embora sob outra roupagem e permeada de crítica social diversa da feita por Durkheim, no texto de Bauman  sobre a busca de experiências comunitárias no mundo contemporâneo. Para Bauman, a comunidade seria um abrigo para as dúvidas, incertezas que o aumento da autonomia individual da sociedade atual oferece. O dilema do indivíduo contemporâneo seria, segundo Bauman, escolher entre a segurança e a liberdade. Na comunidade, o indivíduo sacrificaria sua liberdade para se sentir seguro. 

IHU On-Line - Como entender a busca dos jovens por movimentos dentro da Igreja que, muitas vezes, reiteram o dogmatismo e o conservadorismo clássico do discurso proferido há vinte séculos? Por que os jovens buscam os “muros internos do coração”?

Cecília Mariz - Os argumentos acima de Benedetti e Bauman ajudariam a entender o porquê da opção por esses “muros internos” que você menciona. “Muros” são ótimas metáforas para se pensar em segurança e proteção. Se, no mundo contemporâneo, existe uma segurança maior em termos existenciais e morais, essa insegurança pode ser maior quando se é jovem. Abraçar um sistema ideológico pouco flexível, radical, fundamentalista sempre foi uma opção juvenil para fugir das dúvidas específicas dessa etapa da vida.  Para os jovens, relativizar, tolerar e flexibilizar um sistema valorativo, moral ou mesmo cognitivo, é uma fraqueza dos mais velhos, e defende que abole radicalmente todo sistema moral ou o adota sem contemporização. Essa atitude não seria específica dos jovens, mas de todos que vivem em estado de vulnerabilidade. Observa-se também que aqueles que vivem em situação de risco, seja por falta de recursos, seja por viver em regiões de conflitos, tendem a abraçar modelos fundamentalistas ou abrir mão de valores e moralidades, ou seja, é tudo ou nada. Ser jovem é viver uma experiência de insegurança existencial por ser, por definição, uma experiência de liminaridade, por não ser mais criança e ainda não ser adulto. Ser jovem em uma sociedade que gera insegurança em todas as faixas etárias é uma experiência ainda de maior vulnerabilidade.

IHU On-Line - Como entender o crescimento das novas comunidades católicas?

Cecília Mariz - Para se manter uma fé, uma crença em uma moralidade ou em valores que rompem fortemente com os valores predominantes na sociedade mais ampla, ou seja, para experimentá-los como possíveis ou “plausíveis”, os indivíduos precisam conviver intensamente e trocar afetivamente com pessoas que compartilham a mesma visão de mundo. As novas comunidades católicas criam o que Peter Berger  chama de, “estrutura de plausibilidade” para várias dimensões do catolicismo seja para a moralidade sexual, tal como pregada pelo Papa, seja para um projeto de catolicismo social. Para se manter um tipo de moralidade sexual contrária a predominante é importante namorar com pessoas que compartilhem a mesma visão de mundo. Onde encontrar essas pessoas? As comunidades os reúnem. Por outro lado, também alguém que rejeite consumir modas ou diversos supérfluos constantemente criados pela sociedade industrial precisa do apoio de uma comunidade forte. O indivíduo imerso na sociedade consumista nem percebe que está consumindo demais, pensa que precisa de fato do tal supérfluo (isso não apenas para os ricos, mas também e mais dolorosamente para os pobres). Se, por acaso, se questiona e se nega a entrar na onda consumista mais geral, pode ser considerado como “deprimido”, “desistindo” da vida, ou “reprimido”. As novas comunidades, além de oferecer segurança, são a possibilidade de construção de plausibilidade que se precisa para adotar propostas distintas da sociedade mais ampla.
 
IHU On-Line - O que podemos entender por catolicismo social? Como as novas comunidades católicas se inserem nesse contexto?

Cecília Mariz - Há várias formas de entender o catolicismo social: há definições mais amplas e mais específicas. De uma forma mais genérica, eu entenderia como catolicismo social aquele que afirma que a verdadeira espiritualidade cristã resulta necessariamente numa busca de maior justiça social e numa preocupação com os mais pobres e carentes. Nesse sentido amplo, as novas comunidades se inserem em um catolicismo social, tanto por sua experiência comunitária - há compartilhamento nas comunidades de vida de todos os bens -, como também por obras sociais. A criação de comunidades que redefinissem a forma de distribuição e produção dos bens e riquezas na sociedade tem sido uma das estratégias das utopias socialistas. Nesse sentido, há convergência entre o projeto socialista, o cristianismo primitivo e as novas comunidades.

IHU On-Line - O que os jovens buscam hoje dentro da Igreja Católica que as religiões neopentecostais, por exemplo, não podem oferecer?

Cecília Mariz - Uma diferença marcante entre a tradição católica e a protestante é o projeto comunitário católico e o individualizante protestante. O pentecostalismo, e mais ainda o neopentecostalismo, carregam esse projeto individualista. A prosperidade individual neopentecostal pode ser uma boa promessa para muitos, mas pode não ter o apelo para todos, especialmente para aqueles que criticam a sociedade de consumo e que se sentem insatisfeitos com o individualismo extremo do mundo contemporâneo. 

IHU On-Line - Quais as mudanças que as novas comunidades católicas provocam dentro da Igreja no sentido da atuação do leigo e da sua espiritualidade?

Cecília Mariz - Uma mudança importante parece ser o papel do leigo. As comunidades possuem líderes leigos e, por vezes, casados e com filhos. Acho isso uma novidade. Nessa experiência, a família, filhos e vida sexual não parecem ser um impedimento para a liderança e o crescimento espiritual. Nesse sentido, o projeto das novas comunidades questiona o modelo mais tradicional de igreja.

IHU On-Line - Em que medida as novas comunidades católicas refletem o ideário de vida comunitária cristã?

Cecília Mariz - Acho difícil responder a essa pergunta, se de fato as novas comunidades conseguem viver esse ideário, porque projeto e discurso podem ser diferentes da realidade cotidiana, e me parece muito difícil fazer uma análise de uma realidade que terminaria por ser um julgamento: estaria ela sendo cristã como quer mesmo? Se elas conseguem viver esse ideário cristão de fato? Não sei, mas sem dúvida o ideário das novas comunidades é o ideário comunitário do cristianismo primitivo. Creio que isso também explica seu forte apelo para tantos.

IHU On-Line - Qual a influência da Teologia da Libertação para a formação e fortalecimento das novas comunidades católicas?

Cecília Mariz - Não sei se podemos identificar influência direta dessa teologia nas novas comunidades. Acho que não. Mas podemos verificar que tanto a Teologia da Libertação como as novas comunidades se inspiram no cristianismo primitivo e nesse aspecto compartilham valores e ideais. No Brasil, em minha pesquisa, encontrei jovens que tiveram experiência em pastoral vinculada à Teologia da Libertação e depois abraçaram novas comunidades. Mas não diria que uma opção influenciou a outra. Pelo menos em minhas pesquisas até agora não observei isso. Embora Teologia da Libertação e novas comunidades possam compartilhar a mesma utopia cristã, a forma como define essa utopia, como a percebe, ou como se pode construí-la, e os caminhos para alcançá-la parecem realmente bem distintos.

Últimas edições

  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição
  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição