Edição 307 | 08 Setembro 2009

Uma novidade na estrutura de vida consagrada na Igreja

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

Brenda Carranza considera que o crescimento das novas comunidades católicas se deve à agilidade da sua organização. “Livre das amarras canônicas das grandes congregações, as novas comunidades se espalham com maior rapidez”, conclui

Na tentativa de definir o que são as novas comunidades católicas, a teóloga Brenda Carranza entende que elas são “novas agregações religiosas católicas que reúnem homens e mulheres, casados ou solteiros, jovens, famílias em torno de experiências religiosas devocionais, sacramentais e projetos de evangelização”, ou em outras palavras, “um certo vinho novo em odres velhos”. Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, Brenda explica as diferenças entre o catolicismo tradicional e as novas comunidades católicas, que “caracterizam-se pelo número pequeno de seus membros, por serem agrupamentos mais controlados socialmente, isto é, estão sob a autoridade de uma liderança, que pode ser o fundador ou formador, convivem mais intensamente, às vezes sob o mesmo teto, e partilham não só seus ideais evangelizadores e de conversão, como seus bens econômicos”.

Brenda Carranza possui graduação em Teologia pela Universidade Francisco Marroquim (UFM), na Guatemala, bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, e bacharelado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas/ Pontifício Ateneo Santo Anselmo, PUC-Campinas/Roma. É mestre em Sociologia pela Unicamp, com a dissertação Renovação Carismática Católica: Origens, mudanças e Tendências e doutora em Ciências Sociais pela mesma instituição com a tese Movimentos do Catolicismo Brasileiro: cultura, mídia e instituição. Docente na PUC-Campinas, Brenda é também coordenadora da Coleção Sujeitos e Sociedade da Editora Idéias & Letras. Tem publicado o livro Renovação Carismática Católica: origens, mudanças e tendências (2. ed. Aparecida - SP: Santuário, 2000). Junto com Cecília Mariz e Marcelo Camurça, é uma das organizadoras de Novas Comunidades Católicas: em busca do espaço pós-moderno (Aparecida: Idéias & Letras, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que são, exatamente, as novas comunidades católicas?

Brenda Carranza - São novas agregações religiosas católicas que reúnem homens e mulheres, casados ou solteiros, jovens, famílias em torno de experiências religiosas devocionais, sacramentais e projetos de evangelização. Elas são, historicamente, um dos desdobramentos da Renovação Carismática Católica — RCC — que, ao longo de quatro décadas, no Brasil, tem se consolidado como movimento espiritual centrado nos dons do Espírito Santo e na vivência de carismas.

IHU On-Line - Em que aspectos elas diferem do modelo tradicional de catolicismo?

Brenda Carranza - O catolicismo tradicional é um catolicismo de massas, que congrega os fiéis em torno de experiências devocionais, sacramentais e, de certo modo, doutrinais. Essas experiências são vivenciadas quase que culturalmente e adquirem feições diferenciadas, dependendo da região geográfica em que acontecem. Já as novas comunidades caracterizam-se pelo número pequeno de seus membros, por serem agrupamentos mais controlados socialmente, isto é, estão sob a autoridade de uma liderança, que pode ser o fundador ou formador, convivem mais intensamente, às vezes sob o mesmo teto, e partilham não só seus ideais evangelizadores e de conversão, como seus bens econômicos.

IHU On-Line - Esse é um novo jeito de ser católico?

Brenda Carranza - É e não é. Enquanto grupos que se propõem a viver juntos sob o mesmo teto, as denominadas comunidades de vida, compartilhando as tarefas domésticas, as responsabilidades econômicas e uma espiritualidade de vida comunitária não diferem da proposta de congregações religiosas tradicionais (salesianos, jesuítas, irmãs paulinas etc.). Porém, por serem grupos de leigos que se propõem a viver esses ideais de castidade, obediência e pobreza em comunidades mistas, isto é, grupos nos quais solteiros e casados submetem-se às mesmas exigências, num mesmo espaço, podemos dizer que é um novo jeito. Até canonicamente vêm representando um impasse que deve ser acomodado na legislação eclesial.

IHU On-Line - Por que as novas comunidades católicas crescem tanto?

Brenda Carranza - Diríamos que crescem dentro da Igreja Católica à sombra da RCC, pois são um desdobramento da mesma. O seu desenvolvimento se deve à proposta de vida comunitária que propõem, pois o fiel que deseja um compromisso religioso encontra nessa maneira de agrupamento duas modalidades de inserção: na primeira, na comunidade de vida, como já disse, na qual pode participar de uma experiência comunitária, sem renunciar à sua profissão ou acomodando-a aos interesses do grupo. Na segunda, na comunidade de aliança, o fiel participa do mesmo estilo e proposta espiritual da comunidade de vida, mas não compartilha a experiência comunitária de viver sob o mesmo teto, além de ficar menos disponível para os deslocamentos geográficos que, porventura, a comunidade nova venha exigir. Por exemplo, fundar um grupo numa determinada área que interesse ter a presença da nova comunidade.

IHU On-Line - O que explica o número de 550 novas comunidades católicas no Brasil, conforme seu artigo Novas Comunidades Católicas: em busca do espaço pós-moderno?

Brenda Carranza - Acho que a agilidade da sua organização. Livre das amarras canônicas das grandes congregações, as novas comunidades se espalham com maior rapidez, ora para fundar novos grupos, realizar projetos, ora para incorporar novos membros e os deslocar de um lado para outro.

IHU On-Line - Qual é o perfil das pessoas que procuram as novas comunidades católicas?

Brenda Carranza - Em geral são de classe média, média baixa, como os profissionais liberais, sobretudo, a liderança. Já os membros tendem a ser de classe popular.

IHU On-Line - Como compreender essa revolução e renovação interna do catolicismo em contraposição ao crescimento das religiões neopentecostais?

Brenda Carranza - Não sei se podem ser compreendidos como revolução, pois suas propostas não trazem transformações estruturais, antes, se alinham numa perspectiva conservadora da Igreja. Talvez seja melhor as designar como inovação, no sentido de que são uma novidade na estrutura de vida consagrada na Igreja, outrora marcada por uma divisão sexual das formas de viver os votos religiosos. Ou seja, as novas comunidades propõem a vivência da castidade aos matrimônios e o celibato aos solteiros. Ambos pertencem ao mesmo grupo e são cobrados, comunitariamente, pela vivência do voto realizado publicamente. O mesmo se pode dizer da obediência e castidade. Já o neopentecostalismo evangélico é o movimento de massas, contrário às novas comunidades. 

IHU On-Line - O que é a neopentecostalização católica? Em que contexto ela surge?

Brenda Carranza - Face ao neopentecostalismo, diríamos que ela  se caracteriza pelo uso da mídia, sua presença nos meios de comunicação social, a incisiva participação na vida política, a espetacularização do sofrimento, da aflição e da dor, e a demonização do cotidiano. As novas comunidades participam desses elementos à maneira católica, ou seja, muitas assumem o uso da mídia como canal privilegiado de evangelização, outras são preocupadas pela aflição e a dor das pessoas, promovendo uma vida litúrgica e sacramental centrada na cura e libertação. Outras, ainda, se preocupam com a presença do demônio na vida cotidiana das pessoas e, a partir daí, propõem ações concretas de libertação. Já na vida política partidária, normalmente acatam as indicações da RCC.

IHU On-Line - Em que aspectos essas comunidades inauguram um catolicismo midiático?

Brenda Carranza - No sentido em que reforçam uma opção preferencial pelos meios de comunicação de massa como sendo os veículos de evangelização. No entanto, fazer uso desses meios não dispensa da apropriação da cultura midiática que traz no seu seio valores que se contrapõem à doutrina católica. Dito de outra maneira: esses grupos apostam nos valores de uma cultura que, revestida de marketing religioso, propiciam outras formas de experiências religiosas, entretanto, essa cultura pode estar indo contra os princípios dessas comunidades, embora isso não seja perceptível a olho nu.

IHU On-Line - Acredita que essas novas comunidades são expressões pós-modernas de religião? Por quê?

Brenda Carranza - A pós-modernidade é um termo polivalente, que precisa ser matizado a cada vez que é utilizado. Se entendermos a pós-modernidade como expressões conflitantes num mesmo tempo e espaço, acho que as novas comunidades são uma manifestação de um catolicismo que se repõe com matrizes conservadoras e tradicionais num novo contexto de expressão midiática. Um certo vinho novo em odres velhos. 

IHU On-Line - Em que medida elas significam “ar fresco” a uma religião milenar que precisa se adaptar aos novos tempos?

Brenda Carranza - Na medida em que essas novas comunidades agregam jovens por meio da música e de projetos de vida, capazes de canalizar suas energias e ideias, e de multiplicar-se por toda a geografia brasileira sob o lema de “ser feliz por ser católico”, talvez possa ser interpretado como ar fresco. Mas acho que, seja mais um “ar” de visibilidade de Igreja do que fresco, no sentido de propostas transformadoras, capazes de revitalizar por dentro a própria Igreja.

IHU On-Line - Como a hierarquia vaticana percebe essas novas comunidades?

Brenda Carranza - Não só as percebe como apoia. Nas últimas cerimônias de celebração de Pentecostes, o Papa Bento XVI tem manifestado seu apoio e impulso a essas novas comunidades, ao mesmo tempo em que as reconhece como um dos desdobramentos da RCC. 

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