Edição 306 | 31 Agosto 2009

Darwin e os fundamentos da moral

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Márcia Junges

Teoria da evolução é útil para compreender origens humanas e suas capacidades. Darwin tentou aplicar suas ideias ao fundamento da moral. Há um mau uso do darwinismo pela eugenia, assegura Louis Caruana

Relacionando a teoria da evolução com os fundamentos da moral, o cientista jesuíta Louis Caruana assinalou que Darwin mostra “que alguns sentimentos moralmente significativos surgiram por seleção natural porque eles são vantajosos para a comunidade que os tem. Mas isto não é tudo. Depois de esses sentimentos se tornarem objeto de pensamento, os seres humanos podem refletir sobre eles e julgá-los de maneira diferente”. E continua: “A teoria da evolução é muito útil para entender as origens dos seres humanos em todas as suas capacidades. O próprio Darwin tentou aplicar suas ideias ao fundamento da moral”. Caruana analisa, também, o abuso sofrido pela teoria darwinista, erroneamente ligada à eugenia: “Darwin de fato foi abusado por pessoas que querem minar a dignidade da pessoa humana. Elas criam notícias sensacionalistas sugerindo que, depois de Darwin, o ser humano individual não importa mais. O que importa é a população, na medida em que luta para se adaptar melhor a seu ambiente, ou os vários genes microscópicos que usam o ser humano individual como portador para sobreviverem.”

Filósofo, Caruana lecionou na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma – PUG, e hoje é professor titular de Filosofia no Heythrop College, na Universidade de Londres, Inglaterra. É professor adjunto no Observatório Vaticano. Organizou a obra Darwin and Catholicism The Past and Present Dynamics of a Cultural Encounter (Oxford: T & T Clark International, 2009) e escreveu, entre outros, Holism and the Understanding of Science, and of Science and Virtue: An Essay on the Impact of the Scientific Mentality on Moral Character (Aldershot: Ashgate, 2000). Em 12 de setembro, Caruana será um dos conferencistas que encerram a programação do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como é possível conciliar teoria da evolução com fundamentos da moral?

Louis Caruana - Os filósofos têm discutido os fundamentos da moralidade desde o início da história. Há três tradições principais. Uma tradição sustenta que todo comportamento moral é determinado por sentimentos ou emoções. Outra tradição tem a concepção oposta. Ela sustenta que todo comportamento moral tem a ver com a superação dos sentimentos e emoções pela razão. A terceira tradição assume a posição intermediária. Ela afirma que o comportamento moral é uma interação complexa tanto da razão quanto dos sentimentos. A teoria da evolução é muito útil para entender as origens dos seres humanos em todas as suas capacidades. O próprio Darwin tentou aplicar suas ideias ao fundamento da moral. Desde aquela época, alguns filósofos tentaram mostrar que Darwin refutou tudo o que havia sido dito sobre a moral antes dele. Mas isto está incorreto. Na verdade, sua teoria está em consonância com a terceira tradição. Ela mostra que alguns sentimentos moralmente significativos surgiram por seleção natural porque eles são vantajosos para a comunidade que os tem. Mas isto não é tudo. Depois de esses sentimentos se tornarem objeto de pensamento, os seres humanos podem refletir sobre eles e julgá-los de maneira diferente. O bem que os seres humanos buscam depende da espécie de organismo que eles são, e os seres humanos buscam esse bem não só pelo instinto, mas também pelo raciocínio. Assim, o comportamento moral humano é uma combinação de disposições adquiridas, herdadas do passado evolutivo e da atividade do raciocínio.

IHU On-Line - Dentro dessa perspectiva moral, como podemos compreender as apropriações indevidas da teoria darwiniana, sobretudo no que diz respeito à eugenia, por exemplo?

Louis Caruana - Como todas as outras coisas, a teoria da evolução pode ser abusada. Às vezes, as pessoas tentam usá-la em seu próprio interesse, mesmo que aquilo que elas querem provar não tenha nada, ou muito pouco, a ver com a teoria. Darwin de fato foi abusado por pessoas que querem minar a dignidade da pessoa humana. Elas criam notícias sensacionalistas sugerindo que, depois de Darwin, o ser humano individual não importa mais. O que importa é a população, na medida em que luta para se adaptar melhor a seu ambiente, ou os vários genes microscópicos que usam o ser humano individual como portador para sobreviverem. Essas duas tendências representam equívocos graves. Elas se opõem à revelação de Deus e minam o que é mais caro à civilização: a dignidade da pessoa humana, os direitos humanos, os valores da família e a paz. O exemplo da eugenia é muito significativo, especialmente porque seus traços ainda estão presentes, atualmente, em algumas políticas relativas à biotecnologia humana. A eugenia é o estudo de como melhorar a população humana pela reprodução controlada pelo Estado. Ela se tornou popular simultaneamente com a obra de Darwin. Assim, algumas pessoas pensam que Darwin forneceu a justificação definitiva da eugenia. Mas este não é o caso. A contribuição principal de Darwin tratou da seleção natural como o principal mecanismo para a diversidade da vida orgânica. Assim, ele eliminou a ideia de finalidade no processo. A eugenia é completamente diferente. Ela implica uma opção deliberada referente à direção da evolução humana. E a deliberação implica uma finalidade ou um objetivo. Por conseguinte, precisamos recorrer a princípios morais que não podem ser derivados da teoria da evolução.

IHU On-Line - O que é o darwinismo social? Como podemos compreender a transposição para as ciências sociais de um conceito oriundo da biologia?

Louis Caruana - O darwinismo social não se originou com Darwin, mas com seu colega Herbert Spencer, que produziu trabalhos sobre a sobrevivência dos mais aptos numa sociedade industrializada. Desde então surgiram vários tipos de darwinismo social. A característica unificadora de todas essas variações reside em seu pressuposto comum. Todas elas pressupõem que os humanos, como outros animais, competem pela existência e que essa característica fundamental explica os mais úteis aspectos da realidade social e política. Às vezes, esse pressuposto é mais enfatizado, e disso resulta uma posição mais radical. Se pressupusermos que a competição pela existência explica não apenas a maioria dos aspectos da realidade social e política, mas toda essa realidade, acabamos na sociobiologia. O darwinismo social, em algumas de suas formas, pode ser útil. Pode mostrar como algumas tendências na sociedade prosperam, ou se extinguem. Mas ele não pode substituir a responsabilidade da sociedade. A sociedade é sempre responsável por decidir que tendências quer apoiar e quais quer suprimir. A sociedade, e especialmente a ciência econômica, não pode simplesmente se sentar e deixar as coisas acontecerem por conta própria. É um erro dizer que os membros individuais da sociedade são inúteis e que eles só deveriam agir em seu próprio interesse, buscando sua própria sobrevivência a todo custo e deixando os fracos morrerem uma morte natural.

IHU On-Line - Conhecido como “o jesuíta de Darwin”, Teilhard de Chardin  procura harmonizar teoria da evolução e cristianismo. O senhor acredita que são campos conciliáveis? Por quê?

Louis Caruana - A verdade que vem da ciência genuína não pode estar em contradição com a verdade dentro do cristianismo porque ambas as espécies de verdade têm a mesma fonte; ambas se originam em Deus. Quando surgem inconsistências entre esses dois campos, é preciso fazer um trabalho cuidadoso em ambos os campos para descobrir onde está a verdade. Pierre Teilhard de Chardin, S.J. (1881-1955) trabalhou visando a uma síntese entre a evolução e o cristianismo. Sua obra ainda é útil e inspiradora hoje em dia. Em vez de partir da matéria e depois construir sua explicação, indo na direção dos seres humanos, como os darwinianos normalmente fazem, ele faz o inverso. Para ele, o darwinismo explica tudo o que há a explicar sobre a vida na Terra até a aparição dos humanos. O darwinismo enfatiza a dispersão e a ramificação. Mas Teilhard insiste que também há um movimento oposto na vida: convergência e síntese. Traços desta última dimensão já estão presentes na história pré-humana da vida, mas eles se tornam realmente evidentes quando os humanos aparecem. A luta entre convergência e divergência está sempre presente. Para interpretá-la corretamente, o que depende da virtude da esperança, Teilhard sustenta que precisamos fazer referência à doutrina cristã do Mistério Pascal. Este é um exemplo de como se pode estabelecer harmonia entre a evolução e o cristianismo. Esta não é a única forma. Com efeito, o trabalho nessa área continua sendo um campo de pesquisa empolgante.

IHU On-Line - Qual é o significado de se comemorar o bicentenário do nascimento de Darwin e os 150 anos de sua obra fundamental?

Louis Caruana - A obra de Charles Darwin realizou um avanço enorme na maneira como entendemos o mundo orgânico e nosso próprio lugar dentro dele. Sua teoria da evolução deu início a um novo paradigma intelectual que afeta não só as ciências biológicas, mas também várias outras disciplinas. Como no caso de todas as grandes pessoas na história, ele dependeu do trabalho de outros que o antecederam. Não obstante, sua realização pessoal é notável e digna de nossa admiração. A comemoração de Darwin em 2009 é uma ótima oportunidade para valorizar seu trabalho e estimular estudos adicionais nesse campo. Também pode ajudar as pessoas hoje em dia a ir além da ideia da evolução como uma teoria abstrata. Pode ajudá-las a se encontrar com o homem Darwin de forma pessoal. Pode ajudá-las a perceber como ele viveu passando por sucessos e fracassos, alegrias e tristezas, períodos de fé religiosa e períodos de dúvida. Tudo isso dá uma face humana ao trabalho científico e destaca a necessidade de pensar responsavelmente sobre seu avanço e suas consequências.

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