Teilhard de Chardin: a natureza como um caminho para Deus

Na visão de Paul Schweitzer, a maior contribuição de Teilhard de Chardin foi a visão integradora de ciência empírica e fé cristã

Por: Graziela Wolfart, Gilda Carvalho e Eliana Yunes

“Para Teilhard, a natureza e as suas leis retratam a presença e a ação de Deus. Ele não somente tem uma confiança forte na compatibilidade entre a ciência correta e a fé cristã, mas vê que uma contribui para a outra. A ordem extraordinária do mundo natural reflete a sabedoria e a bondade de Deus”. A descrição é do professor e padre jesuíta Paul Schweitzer, na entrevista que concedeu, por e-mail, para a IHU On-Line. E ele completa, afirmando que “a evolução, segundo a visão teilhardeana, não é totalmente cega, mas, segundo a lei dos grandes números, ela tem uma flecha, uma direção, que Teilhard chama de ortogênese. Ele vê a progressão do universo tendendo para a plenitude no Cristo”. Para Paul Schweitzer, “a visão de Teilhard oferece uma maneira de encarar o universo como criação de Deus, em total concórdia com a ciência atual. Aliás, a visão que ele oferece é bem mais digna e mais adequada, porque integra a ciência e a fé numa união mutuamente benéfica. O universo, nas suas maravilhas e belezas, revela-se e brilha como obra prima de Deus”.

Paul Alexander Schweitzer é um padre jesuíta americano, naturalizado brasileiro, que vive há mais de 35 anos no Brasil. Atualmente, é professor de matemática na PUC-Rio. Membro da Academia Brasileira de Ciências, é graduado em Teologia e Matemática, mestre em Filosofia e doutor em Matemática pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Sabemos que as proposições do pesquisador Teilhard de Chardin provocaram reações contundentes por parte da Filosofia e da Teologia, até então habituadas de alguma forma a uma posição hegemônica na produção do conhecimento científico.  No tocante à produção de conhecimento das Ciências ditas Exatas, qual a(s) contribuição(ões) efetiva(s) de Chardin? 

Paul Schweitzer - Desde criança, Pierre Teilhard de Chardin tinha um interesse forte pela natureza. Colecionava pedras e fósseis. Ainda jovem, descobriu fósseis de várias épocas geológicas, inclusive algumas de espécies novas, e uma delas recebeu o nome “Teilhardi” em sua honra. Ele se entusiasmou pela evolução refletida na progressão dos fósseis de uma época a outra. Na sua carreira de pesquisador, chegou a publicar muitos trabalhos científicos sobre a geologia e a paleontologia. Teilhard trabalhou na China durante muitos anos. Fez parte da equipe que descobriu o “homem de Pekin”, fósseis de Homo erectus de cerca de 700 mil anos atrás, parte do “elo perdido” na evolução do homem de hoje. Podemos dizer que foi um cientista devoto, competente e produtivo. Seu destaque como cientista eminente foi reconhecido quando convidado a ser professor no Collège de France, a posição do mais alto nível no ensino na França. A maior contribuição de Teilhard, no entanto, foi a visão integradora de ciência empírica e fé cristã. Ele foi profundamente influenciado pelas ideias de São Paulo sobre a atuação do Cristo no universo. Viu na evolução a obra do Cristo aperfeiçoando a natureza que criou. Tudo converge para o ponto Omega, a plenitude de toda a criação no Cristo.
 
IHU On-Line - Teilhard de Chardin foi um autor produtivo ao expor uma cosmovisão original e ousada, fortemente marcada pela teoria da evolução e que lhe valeu vários dissabores no seu relacionamento com a Igreja. Em que aspectos, especificamente, sua visão científica confrontava com a da Igreja de sua época?

Paul Schweitzer - Teilhard via, na evolução, o dedo de Deus Criador, aperfeiçoando a sua obra enquanto alguns católicos consideravam a teoria de evolução como incompatível com a fé. O pensamento de Teilhard encarou a evolução como a estratégia que Deus adotou na criação do universo, subindo desde as formas mais primitivas da vida para chegar ao ser humano, no processo que ele chamou de “hominização”. Para ele, a evolução não era uma teoria contrária aos relatos bíblicos. Ao contrário, mostrou a presença de Deus na natureza. A integração da evolução no pensamento teológico de Teilhard contribuiu muito para a aceitação da evolução pela Igreja. Foi evitada uma condenação da teoria da evolução pelo Magistério, uma condenação que poderia ter causado tantos danos à Igreja como o caso de Galileu.

No conceito do “Cristo cósmico”, Teilhard recuperou aspectos da teologia cristã antiga, especialmente da Igreja Oriental. Enquanto a Igreja Católica no ocidente dava enorme ênfase ao Pecado Original, que desfigura e enfraquece o ser humano, levando à Paixão e Morte do Cristo para a salvação da humanidade, vários teólogos orientais patrísticos viam a Encarnação mais como parte do plano de Deus de elevar o ser humano a uma participação na própria vida divina. Nessa concepção, não foi o pecado de Adão (“felix culpa”) que levou à Encarnação, mas foi o plano eterno de Deus Pai. Teilhard não negava o Pecado Original, mas olhava mais a vontade do Pai de elevar o ser humano. Alguns escritores criticavam Teilhard e achavam que o seu pensamento não era ortodoxo nesse detalhes, e isso é compartilhado por vários padres da Igreja.

Devemos lembrar que Teilhard viu uma direção que guiava a evolução, direção essa que chamava de “ortogênese”. Para ele, a evolução não era cega, mas avançava a níveis cada vez mais altos, passando pela biogênese até chegar à hominização na “noosfera”. Tudo tende ao ponto Omega, à plenitude em Cristo. “Tudo que sobe converge.” Essa posição tem sido criticada e rejeitada por muitos biólogos, mas essa rejeição é um preconceito, não uma conclusão científica.
 
IHU On-Line - E hoje? Essas divergências persistem? Como o senhor percebe que a figura do pesquisador Teilhard de Chardin é atualmente considerada pela Igreja Católica?

Paul Schweitzer - Logo após a morte de Teilhard no domingo da Páscoa, em 1955, quando as suas obras começavam a ser publicadas pela sua secretária Jeanne-Marie Mortier, muitos católicos ficaram entusiasmados pela visão teilhardeana. Eu me lembro do prazer com o qual líamos as obras dele. Esse grande interesse no pensamento de Teilhard foi diminuindo com o tempo, mas agora há um interesse renovado nele. Hoje em dia, há uma aceitação e um entendimento cada vez maior de Teilhard. O eminente teólogo jesuíta Henri de Lubac,  um amigo de Teilhard, escreveu vários livros sobre ele, mostrando a ortodoxia de seu pensamento. De Lubac também passou por críticas, mas foi um dos teólogos mais importantes no Concílio Vaticano II,  e foi feito cardeal na sua velhice como prêmio pelas grandes contribuições que fez à Igreja. Durante a sua vida, Teilhard circulava seus escritos num grupo pequeno de amigos, entre eles o Pe. de Lubac, para receber sugestões e comentários. Foi uma pena enorme a proibição da publicação das obras de Teilhard durante a sua vida, porque teria permitido um diálogo com outros intelectuais, e esse diálogo teria enriquecido as ideias e esclarecido alguns pontos escuros. Teilhard, sempre fiel à Igreja e à fé cristã, poderia ter explicado melhor suas ideias e evitado a suspeita de faltas contra a ortodoxia. As interpretações erradas e a falta de compreensão de certas ideias de Teilhard poderiam ter sido evitadas. Hoje em dia, felizmente, já são quase totalmente superadas.

IHU On-Line - Que contribuições os embates e aproximações entre Teilhard de Chardin e a Igreja trouxeram ao diálogo entre a fé e a ciência?

Paul Schweitzer - Para Teilhard, a natureza e as suas leis retratam a presença e a ação de Deus. Ele não somente tem uma confiança forte na compatibilidade entre a ciência correta e a fé cristã, mas vê que uma contribui para a outra. A ordem extraordinária do mundo natural reflete a sabedoria e a bondade de Deus. A fé no Criador ajuda a crer que toda a pré-história e história do universo, desde o Big Bang há uns 13,7 bilhões de anos até hoje, tem um sentido, e que ela vai convergindo para a plenitude no Cristo. Conforme o Prólogo do Evangelho, segundo João, “Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada se fez do que foi feito” [Jo 1,3]. Na Carta aos Efésios, Paulo prevê o que Teilhard chama o ponto Omega: “levar os tempos à sua plenitude: reunir o universo inteiro sob um só chefe, Cristo! [Ef 1,10]. Essa visão do “Cristo cósmico” une a fé cristã e o estudo do universo pela ciência.
 
Outra contribuição importante de Teilhard é de atribuir consciência a tudo que existe no universo, embora numa forma somente em potência. A consciência somente se revela, segundo a Lei de Complexidade-Consciência de Teilhard, na medida em que haja uma organização material que possa sustentá-la. Essa visão fenomenológica supera a cisão cartesiana tão problemática entre matéria e mente. A evolução, segundo a visão teilhardeana, não é totalmente cega, mas, segundo a lei dos grandes números, ela tem uma flecha, uma direção, que Teilhard chama de ortogênese. Ele vê a progressão do universo tendendo para a plenitude no Cristo.

IHU On-Line - A vida de Teilhard de Chardin desde a sua adolescência, como nos contam os biógrafos, foi uma vida movida pelo desejo de procurar um Deus sempre maior, um Deus para além daquilo que aos olhos dos cristãos já mostrava a presença de Deus. Quais são os traços mais característicos desse seu encontro pessoal com Deus presentes na sua produção científica?

Paul Schweitzer - Teilhard tinha uma convicção profunda que o Deus cristão que encontramos na fé, na oração e nos sacramentos, revela-se igualmente na natureza. Ele contemplava essa presença divina na sua oração e no seu trabalho científico. A natureza foi, para ele, um caminho para Deus. Na tradição inaciana que ele recebeu como jesuíta, aprendeu a ver todas as coisas em Deus, e Deus em todas as coisas. A oração diária e a contemplação da presença de Deus em tudo, prática constante ao longo da vida de Teilhard, foi uma fonte da sua cosmovisão. Ele não somente estudava a natureza, mas também contemplava a ela e a Deus nela.

IHU On-Line - Como podemos estabelecer uma relação entre o pensamento teológico de Teilhard de Chardin e o creacionismo que vem sendo retomado com força por uma corrente de pensamento anglo-saxônica?

Paul Schweitzer - As pessoas que defendem o criacionismo e o “desígnio inteligente” são cristãs sérias e têm fé, mas, geralmente, esta é uma fé primária e simplista. Ignoram os avanços nos estudos bíblicos dos últimos dois séculos. Sem entender como Deus inspirou os autores sagrados, interpretam as palavras da Bíblia literalmente, e essa interpretação entra em choque com os avanços da ciência empírica dos últimos quatro séculos. (Podemos lembrar também que há textos bíblicos atribuindo a Deus mãos, olhos, etc., textos que evidentemente não admitem uma interpretação literal). A cosmovisão de Teilhard oferece uma resolução desse choque, porque vê a presença e a ação de Deus nas leis da natureza. Santo Agostinho, no seu comentário sobre os primeiros capítulos do livro do Gênesis, escreveu que não se devia insistir numa interpretação literal dos textos da Bíblia, porque poderia acontecer que a ciência mostraria que as coisas não eram assim, e, dessa forma, causaria desprezo pela fé cristã. E de fato isso aconteceu. Galileu, na carta que escreveu à Grã-Duquesa Cristina, durante o conflito sobre os seus escritos, citou os textos de Santo Agostinho, mas muitas pessoas não lhes deram atenção. A visão de Teilhard oferece uma maneira de encarar o universo como criação de Deus, em total concórdia com a ciência atual. Aliás, a visão que ele oferece é bem mais digna e mais adequada, porque integra a ciência e a fé numa união mutuamente benéfica. O universo, nas suas maravilhas e belezas, revela-se e brilha como obra prima de Deus.

IHU On-Line - Poderíamos, então, dizer que Teilhard de Chardin viveu efetivamente o ideal inaciano de ser um homem “contemplativo na ação”?

Paul Schweitzer - Sem dúvida! Teilhard é um modelo excelente da maneira de ser contemplativo na ação, especialmente para hoje. Foi exatamente pela sua oração e reflexão — a dimensão contemplativa na sua vida — que chegou a formular a sua cosmovisão. Podemos lembrar a “Missa sobre o Mundo”, quando Teilhard estava no Deserto Ordos, na China, sem pão nem vinho para celebrar a Eucaristia. Na sua oração, ele ofereceu o novo dia que se iniciava com o sol que se levantava, com todas as obras do mundo todo naquele dia, como hóstia consagrada a Deus. A presença do Cristo Ressuscitado impregna todo o universo com uma força divina que o vai aperfeiçoando. Podemos terminar com a palavra inspirada de Teilhard: “Tudo que sobe converge!” — a convergência de toda a criação para a plenitude que o seu Criador preparou para ela.

Leia mais...

>> Paul Schweitzer já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* A dimensão espiritual do cosmos – publicada na IHU On-Line número 142, de 23-05-2005.

* A relação entre fé e ciência. Uma entrevista especial com o novo membro da Academia Brasileira de Ciências – publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 07-04-2006.

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