Edição 302 | 03 Agosto 2009

O papel contemporâneo da religião

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Moisés Sbardelotto e Patrícia Fachin | Tradução Luís Marcos Sander

Para o teólogo alemão Karl-Josef Kuschel, sem o cumprimento dos dez mandamentos de Deus, não haverá convivência pacífica no mundo

“Não há necessidade de ‘negociações’, e sim de intercâmbio de valores, e, acima de tudo, de ensino religioso, a fim de conscientizar as pessoas de que elas compartilham uma origem comum e um destino comum”, defende Karl-Josef Kuschel ao comentar a relação entre as religiões monoteístas. Para o teólogo, elas compartilham tradições e têm muitos aspectos em comum, “não só em relação à ética, mas também à Teologia, em especial sua crença em Deus criador, mantenedor e consumador do ser humano”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Kuschel frisa que no mundo inteiro há “uma mescla de fenômenos pós e pré-religiosos”. Ele cita o secularismo, o humanismo, o pluralismo religioso, lembra o hedonismo e fala também do “retorno da religião” e do conceito pós-secular de Habermas. Entre tantas formas de seguir a Deus, ele lança o questionamento: “Será que isso também se aplica à África e à Ásia e a muitos países da América do Sul?” E complementa: “Se olharmos para o mundo muçulmano, encontraremos combinações paradoxais, envolvendo o uso de tecnologias ultramodernas e uma atitude de fundamentalismos ultratradicionais. Essas combinações inesperadas, essas misturas surpreendentes de elementos heterogêneos são típicas do papel contemporâneo da religião”.

Karl-Josef Kuschel leciona Teologia da Cultura e do Diálogo Inter-religioso na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tübingen. É vice-presidente da Fundação Weltethos (Fundação Ética Mundial). É autor de Jesus im Spiegel der Weltliteratur. Eine Jahrhundertbilanz in Texten und Einführungen (Imagens de Jesus na literature mundial. Textos e informações introdutórias para um século em perspectiva) (Düsseldorf, 1999), Jud, Christ und Muselmann vereinigt? Lessings “Nathan der Weise” (Judeu, cristão e mulçumano unidos? “Natã, o sábio”, de Lessing) (Düsseldorf, 2004). Ele escreveu o Cadernos Teologia Pública número 28, intitulado Fundamentação atual dos direitos humanos entre judeus, cristãos e muçulmanos: análises comparativas entre as religiões e problemas, e número 21, intitulado Bento XVI e Hans Küng: contexto e perspectivas do encontro em Castel Gandolfo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em uma sociedade moderna (pós-moderna ou até mesmo ultramoderna), como fica o papel da religião? Estamos em uma sociedade pós-religiosa também?

Karl-Josef Kuschel - Sua pergunta exige uma resposta que corresponda aos desdobramentos muito diferentes que estão ocorrendo em diferentes continentes do mundo e em diferentes áreas dentro dos continentes. Nas grandes cidades do mundo inteiro, temos uma mescla de fenômenos pós e pré-religiosos. Temos secularismo e humanismo em vários graus e temos pluralismo religioso. Temos ainda a influência das igrejas tradicionais e o florescimento de novas “seitas” e movimentos religiosos, especialmente no Brasil. Após o colapso das ideologias tradicionais, temos muita desorientação e hedonismo e o que os sociólogos da religião chamam de “retorno da religião”. O mais influente filósofo alemão contemporâneo, Jürgen Habermas,  falou recentemente de uma sociedade “pós-secular” em que nós (ao menos no Ocidente) vivemos. Pergunto-me: será que isso também se aplica à África e à Ásia e a muitos países da América do Sul? Se olharmos para o mundo muçulmano, encontraremos combinações paradoxais, envolvendo o uso de tecnologias ultramodernas e uma atitude de fundamentalismos ultratradicionais. Essas combinações inesperadas, essas misturas surpreendentes de elementos heterogêneos são típicas do papel contemporâneo da religião.

IHU On-Line - O que o Cristianismo tem de específico ou “inegociável” em sua constituição interna que, sem isso, a religião se descaracterizaria?

Karl-Josef Kuschel - O Judaísmo, o Cristianismo e o Islã estão vinculados desde o início. Eles compartilham entre si tradições que não compartilham com religiões de origem indiana ou chinesa. O Novo Testamento não pode ser entendido sem o legado da Bíblia Hebraica e das tradições rabínicas, e o Corão, a revelação de Deus para o mundo de fala árabe, vê-se situado na linha da revelação de Deus aos judeus e aos cristãos. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islã são, com razão, chamados de “religiões monoteístas, proféticas e abraâmicas”. Para rotular esta característica distintiva, falo de um “ecumenismo abraâmico” entre judeus, cristãos e muçulmanos. Como compartilham grandes tradições umas com as outras, estas religiões têm muito em comum, não só em relação à ética (os Dez Mandamentos também se encontram no Corão), mas também à Teologia, em especial sua crença em Deus como criador, mantenedor e consumador do ser humano. Não há necessidade de “negociações”, e sim de intercâmbio de valores, e, acima de tudo, de ensino religioso, a fim de conscientizar as pessoas de que elas compartilham uma origem e um destino comuns.

IHU On-Line - Qual a contribuição que as religiões monoteístas podem oferecer à humanidade nesse momento de crise econômica, política e ecológica?

Karl-Josef Kuschel - Em todas as três religiões monoteístas, há pessoas que se dão conta de que a crença no mundo como criação de Deus implica uma forte responsabilidade pela Terra. Caso se leve a sério a crença de que o planeta não é propriedade do ser humano, mas uma dádiva de Deus, deixa-se de lidar de maneira irresponsável com os recursos deste mundo. Por causa de sua profunda convicção de que a Terra é uma dádiva de Deus, os adeptos das três religiões monoteístas deveriam ser a vanguarda na proteção do planeta contra a exploração total.

IHU On-Line - É possível um diálogo entre as diferentes religiões, sem que se descaracterizem ou se digladiem? Quais as condições deste diálogo?

Karl-Josef Kuschel - Vou começar falando dos limites. O diálogo inter-religioso não tem o objetivo de dissolver a identidade da religião da pessoa. As várias religiões têm reivindicações mútuas a respeito da verdade. A Torá é definitivamente o centro do Judaísmo, assim como o Corão o é para os muçulmanos, e a pessoa de Jesus Cristo, para os cristãos. Mas o relacionamento com “o outro” tem de partir justamente desse centro. Por ser cristão, tenho interesse nas experiências religiosas do “outro”. Estou interessado e disposto a entender a alteridade do outro, a aprender da riqueza de suas tradições. A mais profunda motivação para mim como cristão é a firme crença de que todo ser humano é criado à imagem de Deus e a “regra de ouro” ensinada por Jesus: “O que queres que façam a ti, faze-o tu aos outros”.

IHU On-Line - Como os 10 Mandamentos de Deus recebidos por Moisés perpassam o Cristianismo e as demais religiões monoteístas? Qual a sua validade e pertinência hoje, após milhares de anos após sua apresentação ao mundo?

Karl-Josef Kuschel - Nossos leitores e leitoras deveriam saber que mandamentos cruciais da tradição judaico-cristão-muçulmana também são compartilhados por adeptos de outras grandes religiões, como o hinduísmo, budismo ou confucionismo. Na declaração intitulada “Uma ética global”, do Parlamento das Religiões Mundiais (Chicago, 1993), eles foram listados pela primeira vez na história das religiões: compromisso com uma cultura de não violência e respeito pela vida (“Não matarás”); compromisso com uma cultura de solidariedade e uma ordem econômica justa (“Não furtarás”); compromisso com uma cultura de tolerância e uma vida de veracidade (“Não mentirás”); compromisso com uma cultura de direitos iguais e de parceria entre homens e mulheres (“Não adulterarás”). Sem esses mandamentos básicos, não haverá convivência pacífica em nenhuma parte do mundo. Visto que o ser humano – falando do ponto de vista ético – não mudou ao longo de milhares de anos, os mandamentos milenares ainda são válidos.

IHU On-Line - Em linhas gerais, que tipo de ética o senhor reconhece nos grandes monoteísmos contemporâneos?

Karl-Josef Kuschel - Uma ética que segue a observação de que não haverá paz mundial sem justiça mundial.

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