Edição 298 | 22 Junho 2009

“O Ágape não pode ser vivido independentemente da libido, do eros e da filia”

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Patricia Fachin

Para o teólogo Etienne A. Higuet, o cristianismo só terá futuro se afirmar com toda força a prioridade do amor em relação ao institucional

“Em todas as dimensões do amor, podemos ter a experiência do amor divino. De modo privilegiado, nas relações interpessoais”, assegura o teólogo Etienne A. Higuet, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Doutor em Ciências Teológicas e Religiosas com a tese Eschatologie et théologie de l'action. Lecture critique de la Théologie Systématique de Paul Tillich, Higuet apresenta um panorama do pensamento e da obra do teólogo alemão Paul Tillich. “Seu pensamento se opõe ao racionalismo, especialmente à valorização unilateral da razão técnica e instrumental”, afirma. E explica: “Ao contrário, ele preconiza uma concepção ‘ontológica’ e ‘extática’ (ou espiritual) da razão”. Segundo Higuet, essa compreensão garante “uma unidade da racionalidade e da espiritualidade”.

Na entrevista a seguir, ele é enfático e diz que a graça e a revelação não produzem uma estrutura diferente do ser humano para possibilitar a experiência religiosa. “Elas dão um novo sentido à vida e à ação humanas. É sempre o ser humano, criatura alienada e salva ao mesmo tempo, que experimenta o amor.”

Higuet é licenciado em Filosofia e doutor em Ciências Teológicas e Religiosas, pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Atualmente, é professor titular da Universidade Metodista de São Paulo, membro do corpo editorial da publicação Estudos de Religião, do Correlatio e da Via Teológica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual são as contribuições, relevância do pensamento de Paul Tillich e suas limitações para nosso contexto?

Etienne A. Higuet - Tillich  elaborou o seu pensamento em relação existencial com a situação cultural (econômica, política, científica, ética, artística, religiosa, filosófica e teológica) da época e do contexto no qual vivia. Conheceu de perto dois mundos culturais diferentes: Europa e Estados Unidos. Esteve em contato com os principais movimentos sociais e as principais correntes de pensamento do seu tempo, incorporando as interrogações e as respostas de boa parte deles à sua própria reflexão. Atravessou de modo comprometido um dos períodos mais conturbados da história: duas grandes guerras, revoluções, crises econômicas e de civilização. Conheceu também um grande número dos pensadores mais originais do século XX, como Heidegger,  Bloch,  Horkheimer,  Adorno,  Fromm, Rogers, Eliade, Barth.  Foi socialista e pioneiro do movimento ecumênico. Ele mesmo se apresentou como um pensador “na fronteira”, sempre desejoso de falar a linguagem do outro, em particular do homem da modernidade. Enraizado nas preocupações humanas essenciais, passou a maior parte do seu tempo à procura do sentido incondicionado, da preocupação última presente em todas as produções culturais. Muita coisa do pensamento dele continua atual, mas o mais importante é a atitude de abertura e de busca que ele manteve a vida toda.

A distância temporal e cultural com o nosso contexto constitui certamente uma grande limitação, mas isso seria verdadeiro de qualquer pensador do passado e mesmo do presente. O seu horizonte sempre foi a Europa central, especialmente a Alemanha, com a sua tradição filosófica e teológica. Seu interesse se voltou sempre de preferência para a cultura erudita, e muito menos para a cultura (e a religião) popular. A sua reflexão estrutura-se ainda em esquemas clássicos, por exemplo, ontológicos. São apenas alguns exemplos.

IHU On-Line - Em que medida as diversas facetas do pensamento de Paul Tillich nos fazem repensar os múltiplos aspectos da religião?

Etienne A. Higuet - A sistematização teológica de Tillich – um esforço que o acompanhou a vida toda – o faz abordar a religião cristã (contrariamente a Barth, Tillich considera o cristianismo como uma religião) e as outras religiões na perspectiva da sua relação com o sagrado ou incondicionado. O fato de que todas as religiões estejam de algum modo em relação com o incondicionado possibilita o encontro e o diálogo entre elas.  Mas, em razão da sua ambiguidade fundamental, elas sempre enfrentam o risco de perder a sua função de veículo simbólico do incondicionado, seja pela identificação das suas formas com o próprio incondicionado (idolatria), seja pelo esvaziamento do seu sentido religioso (profanização). Há também o caso das quase-religiões, como o fascismo, o comunismo e o humanismo, que são perversões da religião, seguindo os mesmos critérios. Por outro lado, o conceito de religião no sentido amplo permite discernir a manifestação do incondicionado na imanência da cultura, que transparece através da multiplicidade das formas culturais, mesmo não explicitamente religiosas. Assim, a religião está na política, na ciência, na moral, na arte, na educação etc.

IHU On-Line - É possível estabelecer um paralelo entre o pensamento de Paul Tillich e a Teologia da Libertação a respeito da tensão entre racionalidade e espiritualidade?

Etienne A. Higuet - Vários paralelos poderiam ser estabelecidos com a Teologia da Libertação: proximidade com o movimento socialista, uso do instrumental marxista, denúncia da alienação no mundo industrial e técnico, baseado na racionalidade instrumental objetivante, relação dialética teoria-práxis, espírito da utopia e consciência do Kairos. Seu pensamento se opõe ao racionalismo, especialmente à valorização unilateral da razão técnica e instrumental. Ao contrário, ele preconiza uma concepção “ontológica” e “extática” (ou espiritual) da razão. Pode, assim, haver uma unidade da racionalidade e da espiritualidade. Pois, espiritualidade não significa irracionalidade, mas elevação da razão além de si mesma. Nesse contexto, a experiência e a dimensão religiosa de toda experiência ocupam um lugar central.

IHU On-Line - Paul Tillich e Juan Luis Segundo entendem “fé” como estrutura e dimensão antropológica parcialmente acessível a uma intuição e uma sistematização “racionais”. Para o senhor, a experiência de amor de Deus é própria da dimensão antropológica?

Etienne A. Higuet - Tratando-se da fé, evitaria o termo de “estrutura”, excessivamente objetivante. Não vejo a possibilidade de existir alguma experiência – nem a experiência do amor de Deus – fora da dimensão antropológica. A graça e a revelação não produzem uma estrutura diferente do ser humano para possibilitar a experiência religiosa. Elas dão um novo sentido à vida e à ação humanas. É sempre o ser humano, criatura alienada e salva ao mesmo tempo, que experimenta o amor. O Ágape não pode ser vivido independentemente da libido, do eros e da filia, mas abre o amor em todas as suas dimensões à experiência do divino.

IHU On-Line - As pessoas que se dizem sem religião vivem uma experiência de amor de Deus sem sistematizar, ou verbalizar?

Etienne A. Higuet - De fato, a experiência vem sempre antes da sistematização. Eu deixaria em aberto a questão da verbalização, que é diferente. Acho difícil pensar uma experiência humana sem linguagem. Nem todo mundo reflete de modo sistemático sobre a própria experiência, apenas alguns o fazem. O caso da experiência do amor de Deus não é diferente. Por outro lado, a verbalização e a sistematização não usam necessariamente os termos das religiões e teologias estabelecidas. Também, há muitas maneiras diferentes de entender a ideia (cristã) de “amor de Deus”. Além disso, é preciso distinguir, no caso das pessoas que se dizem “sem religião”, entre aquelas que rejeitam as religiões institucionais e aquelas que rejeitam qualquer forma religiosa. Podemos interpretar, a partir da nossa compreensão do divino, determinadas expressões do amor humano como expressões do amor de Deus, mas não podemos impor a nossa visão aos ateus e agnósticos.

IHU On-Line - A noção de transcendência precisa ser repensada para nosso contexto plural e complexo? Que brechas hermenêuticas são necessárias ensaiar?

Etienne A. Higuet - Se a transcendência for entendida como pura exterioridade, ela precisa certamente ser repensada. Seria melhor falar, com diversos teólogos atuais, em “transcendência imanente”. A transcendência é uma dimensão da imanência e só pode ser entendida a partir dela, como um prolongamento e um além das nossas ações e representações, mas sem prescindir das mesmas. A compreensão da dimensão de autotranscendência do ser humano pode ser um caminho para entender a transcendência divina ou incondicionada. A experiência da gratuidade no amor e na solidariedade pode ser outro. Do mesmo modo, a busca de um sentido radical para a nossa existência ou a luta pela igualdade e a justiça. Vale lembrar que não podemos excluir, como acesso à transcendência assim entendida, nenhuma forma religiosa ou cultural.

IHU On-Line - Tillich costumava dizer que Jesus é o centro da história, do universo e de nossas vidas. Para o senhor, Cristo ainda ocupa esse lugar central nos dias atuais?

Etienne A. Higuet - Alguns anos atrás, eu teria respondido “sim” sem hesitação. Agora, parece-me que, para assumir uma posição consequente de pluralismo religioso, e para levar em conta o círculo hermenêutico, precisamos matizar esta afirmação. Ela só pode ter sentido dentro de uma determinada constelação religiosa e hermenêutica, precisamente dentro da constelação cristã. Trata-se de uma interpretação que depende de uma opção explícita pela fé cristã, assim como ela foi formulada na época dos grandes concílios (séculos IV e V) e, sobretudo, sob a influência das filosofias modernas da história. Estas filosofias – como a ideia burguesa do progresso indefinido e a visão marxista de um fim positivo da história – são hoje objeto de questionamento. Será que a história possui um centro? Apenas numa determinada visão cultural e religiosa, além do mais especificamente ocidental. Esta visão foi, durante muito tempo, abusivamente apresentada como universal. Acho que precisamos rejeitar agora toda concepção metafísica da história. Isso não impede que alguém (ou uma comunidade) continue dizendo que Jesus – ou o Cristo - é o centro existencial da sua vida (seria longo demais introduzir aqui a distinção entre o Jesus histórico e o Cristo da fé).

IHU On-Line - No amor humano não se encontra o amor Divino? Existem fronteiras definidas entre o amor Divino e humano?

Etienne A. Higuet - Para responder à sua pergunta, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer que o conceito de amor é polissêmico. Distingui, acima, as quatro dimensões do amor humano, a partir de Tillich: libido (amor sexual), eros (desejo), filia (amizade, amor entre pessoas) e ágape (amor incondicionado). O amor autêntico inclui sempre as quatro dimensões. Poderíamos introduzir outras. Por exemplo, para Tillich, eros é também uma força cósmica, que tende a unificar a realidade no seu fundamento divino. Em todas as dimensões do amor, podemos ter a experiência do amor divino. De modo privilegiado, nas relações interpessoais. O encontro com o divino exige evidentemente a fé como atitude de abertura ao incondicionado, como Ultimate concern. Se for preciso falar em fronteira, não seria no sentido de uma linha de demarcação absoluta entre um “sim” e um “não”, mas como passagem constante a uma dimensão mais abrangente.

IHU On-Line - Vattimo aposta que o ponto central do cristianismo é o amor. Qual é a sua compreensão em relação à contribuição de Vattimo num cristianismo pós-moderno?

Etienne A. Higuet - É impossível não concordar com ele neste sentido. Para responder à pergunta, é preciso lembrar algumas das ideias de Vattimo.  Ele entende o amor como caritas no sentido paulino de amor cristão (I Carta de Paulo aos Coríntios, 13) em resposta ao amor de um Deus enfraquecido, esvaziado de si mesmo (Carta de Paulo aos Filipenses 2).  Em particular, o amor justifica a relatividade da verdade, agora suscetível de múltiplas interpretações. O amor não permite que seja imposta uma determinada interpretação da ética ou do dever. A caridade está aberta à multiplicidade, ao diálogo, ao outro. Ela nos leva à aceitação das diferenças. A única medida do amor é amar sem medida.

Vattimo traz uma visão não metafísica da ética, a visão de uma ética da não-violência e do diálogo. Para ele, a caridade é o sentido último do cristianismo e o único objetivo da revelação. É um chamado para a prática, que só tem sentido quando relacionado com situações concretas e cotidianas.

Concordo com Vattimo: o cristianismo só terá futuro se afirmar com toda força a prioridade do amor em relação ao institucional. É preciso que este amor se concretize, em particular nas situações de injustiça e opressão, de miséria material e moral. Não se pode esquecer a sua dimensão política. Contudo, acho que o cristianismo não pode ser reduzido a uma ética. Ele pode também responder aos anseios de mística e espiritualidade muito presentes no tempo atual, sem dissociá-los da prática. Ele pode também atender às necessidades de saúde, cura e sentido radical, para as quais a ciência nunca encontrará soluções. Porém, em nenhum momento, o cristianismo pode reclamar para si a exclusividade.

IHU On-Line - Em que sentido a Teologia Feminista pode ajudar na superação das categorias metafísicas abstratas e no tratamento mais decidido e mais concerto de todas as dimensões de amor?

Etienne A. Higuet - Não me atreveria a falar da teologia feminista em geral. No artigo que foi publicado em A forma da religião,  fiz uma incursão na teologia feminista em relação com a reflexão de Tillich sobre o erótico. Pareceu-me, de fato, que, na reflexão de algumas teólogas feministas, havia uma abordagem mais concreta e mais integrada do amor em todas as suas dimensões. As mulheres podem certamente fazer valer a sua experiência própria do amor erótico (altruísta, afetivo e sexual), experiência sistematicamente sufocada e reprimida nos contextos patriarcais. Nesse sentido, estava e ainda está faltando algo importante no pensamento filosófico e teológico predominantemente masculino. Não há dúvidas que o pensamento feminista ajudou a derrubar os fundamentos metafísicos da universalização ideológica do masculino, em particular da suas pretensas raízes divinas ou naturais. Para a teologia feminista, a força de Eros, como poderosa energia criativa encontrada na experiência concreta das mulheres, desempenha também um papel crítico e transformador nas lutas éticas e sociopolíticas contra o poder patriarcal. A referência constante à afirmação da diferença baseada na experiência dos comportamentos concretos (na sexualidade, na sociedade, na economia, no trabalho) traz um conhecimento do ser humano mais fiel à realidade vivida. Enriquece também o acesso à dimensão sagrada ou transcendente da existência humana.

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