Rahner e a entrada da Igreja na modernidade

O teólogo alemão Karl Rahner, através do Concílio do Vaticano II, tentou intensificar o diálogo entre Igreja e seres humanos, assinala João Batista Libânio

Por: Moisés Sbardelotto, Márcia Junges e Patricia Fachin

“Rahner pensa uma Igreja aberta e dialogável. Ele espera que ela se aproxime daqueles que estão fora, dos ateus e que assuma corajosamente o confronto com os problemas da atualidade”, aponta o teólogo João Batista Libânio. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele diz que Rahner, com respaldo institucional e forte personalidade, “exerceu enorme influência em todo o conjunto do Concílio”. Libânio destaca ainda o desejo de Rahner em “compreender o ser humano no segredo de Deus, tanto na sua estrutura real criatural como nas condições históricas de cada momento”. A paixão por Deus e pelo ser humano, na visão do teólogo alemão, devia servir de modelo para a Igreja. Para Libânio, “os que precederam o Concílio influenciaram em sua redação e os que seguiram a ele estão ainda a contribuir para a configuração do novo paradigma de Igreja”. Como não se trata de um processo linear, assegura, “os escritos de Rahner continuam referência para manter viva a chama da eclesiologia do Concílio”.

João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor, filósofo e teólogo. É também mestre e doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de diversos livros, dentre os quais Teologia da revelação a partir da Modernidade (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), Qual o caminho entre o crer e o amar? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e Qual o futuro do cristianismo (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual foi o significado do Concílio Vaticano II para a Igreja e dentro dessa mudança, qual foi a atuação de Karl Rahner?

João Batista Libânio - O Concílio Vaticano II significou a entrada oficial da Igreja na modernidade com todas as riquezas e problemas que isso supõe. Modernidade significa nova imagem científica do mundo, valorização da subjetividade e da hermenêutica, diálogo aberto com mundo industrializado capitalista, proximidade e valorização das realidades terrestres, secularização de muitas estruturas internas da Igreja, maior sensibilidade para com as igrejas evangélicas, com as outras religiões e com os ateus, liberdade religiosa, abertura inicial para o mundo dos pobres, valorização do leigo, novo zelo missionário com respeito às culturas autóctones em espírito de diálogo e inculturação etc. Esse enorme programa recebeu influência de muitas idéias que Rahner já vinha defendendo em seus escritos. Perito conciliar desde a preparação e durante todo o Concílio, gozava de enorme respeitabilidade diante dos bispos e, sobretudo, de cardeais alemães de grande peso como o cardeal König e outros. Com tal respaldo institucional e com sua forte personalidade, aliada à profunda e sólida teologia, exerceu enorme influência em todo o conjunto do Concílio. Difícil indicar os pontos em concretos. Praticamente, Rahner trabalhou teologicamente todas as grandes questões da modernidade, indicadas acima.

IHU On-Line - Na sua opinião, as propostas sugeridas por Rahner no Concílio do Vaticano II ajudaram a construir que modelo de Igreja?

João Batista Libânio - A categoria Povo de Deus foi decisiva. Deixou-se a visão abstrata e jurídica para assumir uma posição antes pastoral. O fato de o capítulo dedicado ao povo de Deus preceder o estudo da hierarquia e dos leigos mostrou a base comum da Igreja por força do batismo. A hierarquia se entende na perspectiva da diaconia e não do poder autoritativo. A colegialidade foi outro ponto nodal. Seria longo detalhar os aspectos da eclesiologia do Vaticano II que receberam dos escritos de Rahner substanciosa contribuição. Basta lançar rápida mirada sobre as suas obras para ver a quantidade enorme de temas relativos à Igreja. Os que precederam o Concílio influenciaram em sua redação e os que seguiram a ele estão ainda a contribuir para a configuração do novo paradigma de Igreja. Não se trata de processo linear, mas com avanços e retrocessos. Os escritos de Rahner continuam referência para manter viva a chama da eclesiologia do Concílio.

IHU On-Line - É possível caracterizar Rahner como um teólogo que tentou aproximar tradicionais e progressistas?

João Batista Libânio - Rahner tinha a vantagem de conhecer profundamente a teologia tradicional na qual foi formado. Dominava a patrística, a grande Escolástica e também a neoescolástica. De dentro dela, era capaz de avançar para as novas intuições da teologia moderna. Com isso, conseguia lançar ponte para os padres conciliares, formados na neoescolástica, entenderem e depois votarem proposições consoantes com a teologia moderna ou como se dizia então com la nouvelle théologie, iniciada, aliás, na  França.

IHU On-Line – Como podemos classificar os pensamentos de Rahner para a Igreja de hoje? Eles permanecem atuais ou ainda configuram um desafio para a Igreja e ajudam sua atualização?

João Batista Libânio - Rahner continua um teólogo desafiante. Pôs os fundamentos para os avanços ulteriores, inclusive para a Teologia da Libertação. Considero suas reflexões sobre a graça a partir da categoria do existencial sobrenatural extremamente inovadoras. Relativizam bastante o poder institucional, ao valorizar a dimensão existencial do fiel. Além disso, ele insiste em dar ao homem moderno a confiança de que ele pode crer com honradez intelectual, e isto desde o conteúdo do dogma cristão. Crer não implica nenhuma violência contra a inteligência. As pessoas hoje rejeitam imposições. Rahner pensa uma Igreja aberta e dialogável. Ele espera que ela se aproxime daqueles que estão fora, dos ateus e que assuma corajosamente o confronto com os problemas da atualidade. Rejeita a atitude eclesiástica de avestruz. A tônica fundamental de Rahner visa a compreender o ser humano no segredo de Deus, tanto na sua estrutura real criatural como nas condições históricas de cada momento. Ele une a paixão por Deus e pelo ser humano. E pensa uma Igreja desta maneira. Toda teologia para ele é pastoral. E a Igreja só tem sentido propter homines e não para ela mesma.

IHU On-Line - Como o trabalho cristão anônimo de Rahner pode ser reinterpretado hoje, especialmente quando se reflete sobre o pluralismo religioso?

João Batista Libânio - A intuição rahneriana do “cristão anônimo” nasce de sua concepção da graça numa perspectiva antropológica. Vê o ser humano numa nova e radical orientação de sua existência animada pela graça (anônima) de Deus. E tal graça atravessa todos os seres humanos, e, portanto, está presente em todas as religiões. Para ele, a experiência da graça de Cristo é a realidade fundamental do cristianismo, base importante para um diálogo positivo com as religiões, ao saber que Deus age em todas elas e que seus fundadores e membros refletem do atuar de Deus e podem manifestar-nos facetas de Deus que nos escapam. No diálogo com elas, temos a originalidade de Jesus a oferecer e facetas de Deus a aprender delas. No final do diálogo, tanto nós como os outros saímos enriquecidos a respeito do mistério de Deus.

IHU On-Line - Qual foi a principal contribuição de Karl Rahner para o diálogo entre ciência e teologia na sociedade? Como Rahner lidou com as questões antropológicas e cosmológicas do seu tempo?

João Batista Libânio - Rahner não refugou nenhuma questão moderna. Enfrentou todas as que se lhe apresentavam. Daí a amplitude da temática abordada em seus artigos. Mas sempre a partir das intuições básicas teológicas, cujo núcleo consiste na relação de graça entre o Mistério insondável de Deus e o ser humano, existencialmente voltado para ele pela força dessa graça. A graça não desce diretamente do céu, casualmente, de um Deus perdido na sua Transcendência, mas está já inserida, de modo permanente, no mundo e aparece como realidade historicamente palpável, fundada na carne de Cristo. Com tal concepção de graça, aproxima-se para dialogar com todo tipo de pessoas e posições, procurando discernir nelas a presença desse mistério de Deus. Não as julga de fora nem as condena, mas discerne nelas o jogo da graça e dos limites humanos. Aí está a fonte do diálogo. Em concreto tratou de muitas questões da relação entre teologia e ciência. Haja vista os artigos sobre a hominização, a manipulação genética, o ser humano como experimentação científica, o monogenismo, a relação entre cristologia e concepção evolucionista do mundo etc.

IHU On-Line - Quais ideias defendidas por Rahner prosperam ainda hoje e estão presentes na Igreja em seu diálogo com as ciências?

João Batista Libânio - Mais do que reflexões para questões científicas que surgem a cada momento, Rahner nos oferece um modo de diálogo. Não teme a razão, nem os conflitos, por que tem posição extremamente esperançosa sobre o ser humano e suas possibilidades. Todo ser humano vive já num âmbito de existência concreta [Daseinsraum] ao qual pertence a realidade de Jesus Cristo; está integrado no espaço da história do qual faz parte Jesus Cristo. Essa irradiação da graça vitoriosa de Cristo possibilita dialogar com qualquer realidade humana, filosófica ou científica. No fundo, está a visão de Paulo  de que tudo foi criado através de Cristo e para ele. “Ele existe antes de todas as coisas e nele todas as coisas têm consistência (Cl 1, 16s). Texto, que, por sinal, fascinava a Teilhard de Chardin.  Essa postura teilhardiana e rahneriana favorece o diálogo com as ciências, venham os problemas que vierem.

IHU On-Line - Como se pode situar a atuação de Rahner e de Ratzinger no Concílio Vaticano II? Como suas teologias foram se encaminhando a partir desse momento histórico?

João Batista Libânio - Na biografia de Rahner, Vorgrimler  alude ao fato de que M. Schmaus rejeitara o escrito de habilitação de Ratzinger. Apesar disso, houve uma primeira aproximação de Rahner a ele, pois ficara muito satisfeito com artigos que o jovem Ratzinger, especialista em dogmática, escrevera para o dicionário Lexikon für Theologie und Kirche. Ambos trabalharam na época da primeira sessão do Concílio, em 1962, como peritos conciliares, na nova redação do que será mais tarde a Dei Verbum. Apesar dessa proximidade inicial, Rahner trilhou uma trajetória em que o mistério de Deus se espelhava na realidade humana, enquanto Ratzinger se inclinava para uma leitura antes dogmática. O próprio Ratzinger reconhece que ambos moravam em dois planetas teológicos diferentes. Via em Rahner uma influência do idealismo alemão e de Heidegger, enquanto ele se julgava mais ligado aos Padres da Igreja e à Escritura. Talvez não seja exato a respeito de Rahner dizer que para ele a Escritura e os Padres não desempenhavam função importante. Ratzinger aproximou-se mais tarde de Hans von Balthasar, que prima por uma teologia estética do Deus transcendente. De uma maneira bem simplista, Rahner cultivou uma “teologia de baixo” e Ratzinger “de cima”. Naturalmente não se pode exagerar tal distinção. Serve apenas como tendência, já que só existe teologia na articulação entre ambas.

IHU On-Line - Quais foram os teólogos que tinham afinidade com Rahner, com seu pensamento mais avançado? E na Teologia da Libertação?

João Batista Libânio - Na nossa Faculdade de Teologia de Belo Horizonte, FAJE, praticamente todos recebemos forte influência de Rahner. Padre Taborda  o conhece mais profunda e detidamente. Ele é o que mais entende de Rahner entre nós. Na PUC-Rio, está o padre Mário de França Miranda,  que fez sua tese doutoral sobre Rahner. Todo teólogo que assimilou as questões modernas deve, sem dúvida, muito a Rahner. A própria Teologia da Libertação avança sobre a antropologia rahneriana, mas não a salta. Supõe-na como base imprescindível. Sua compreensão aberta em relação ao mundo moderno permitiu que a teologia da libertação lhe ampliasse o campo em direção aos pobres, também eles em profunda relação com a situação atual. Só que estão na condição de vítimas desse sistema. Nisso, a Teologia da Libertação  trouxe um avanço sobre a antropologia rahneriana. Foi além desse sujeito moderno, pensado predominantemente a partir da modernidade eurocêntrica, em direção ao pobre, excluído do sistema. Uma visão demasiadamente otimista sobre o mundo moderno recebe corretivos a partir da situação dos marginalizados e deserdados dos países pobres.

Leia mais...

>> Confira outras entrevistas concedida por Libânio à IHU On-Line:

• “Aparecida significou quase uma surpresa”. Edição 224, de 20-06-2007, intitulada Os rumos da Igreja na América Latina a partir de Aparecida. Uma análise do Documento Final da V Conferência;

• “A Teologia não se dá mal com o discurso não metafísico, por isso ela pode falar muito bem na pós-modernidade”, publicada no sítio do IHU, em 16-08-2008;

•  “A morte não deve ser o critério de leitura dos acontecimentos”, publicada no sítio do IHU, em 10-04-2009.

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