Edição 297 | 15 Junho 2009

Rahner e a inovação do pensamento teológico

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Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin | Tradução Walter O. Schlupp

Para o teólogo Albert Raffelt, Rahner se destacou no Concílio do Vaticano II por que seu objetivo não era apenas conseguir maior conhecimento teológico, mas atuar em prol da fé, da esperança e do amor

“Podemos e devemos continuar na linha da sua resposta: o ser humano como ente da transcendência, fundado no mistério de Deus e orientado para ele”, propõe o teólogo Albert Raffelt, ao recordar a participação de Karl Rahner no Concílio do Vaticano II. Segundo ele, o teólogo alemão se empenhou pela inovação do pensamento teológico. “Para Rahner, a teologia não era assunto meramente teórico. Por mais que ele considerasse necessário o raciocínio rigoroso e o conhecimento teológico acadêmico tradicional, seu objetivo não era apenas conseguir maior conhecimento teológico, mas atuar em prol da fé, da esperança e do amor.”

Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, Raffelt aponta que mais importante do que a influência de Rahner na mudança de rumos da Igreja “é o fato de a grande abertura provocada pelo Concílio continuar sendo lembrada, que a mentalidade sectária de alguns grupos tradicionalistas não ganhe influência nem consiga questionar a autoridade do Concílio”.

Raffelt cursou Teologia em Münster, em München e em Mainz, e foi assistente científico junto a Karl Lehmann em Freiburg, na Brisgóvia. É doutor em Teologia com a tese Espiritualidade e Filosofia: sobre o problema da mediação da experiência religioso-espiritual em L'Action de Maruice Blondel. Desde 2000, é professor honorário de Teologia dogmática em Freiburg. Entre suas diversas publicações, citamos Theologie studieren: Wissenschaftliches Arbeiten und Medienkunde (Freiburg: Herder, 2003). Rafelt organizou, ao lado do cardeal Karl Lehmann, a obra Rechenschaft des Glaubens: Karl Rahner-Lesebuch (Zürich: Benziger; Freiburg: Herder, 1979). Juntamente com Hansjürgen Verweyen publicou o livro Leggere Karl Rahner (Ler Karl Rahner), (Brescia: Queriniana, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual foi a principal contribuição de Karl Rahner para o diálogo entre modernidade e teologia?

Albert Raffelt - Para se visualizar o ponto de partida de Rahner, é preciso considerar a situação da teologia e da Igreja na primeira metade do século XX. A Igreja Católica tinha elaborado um sistema de ideias baseado na tradição escolástica; este, em si, era muito inteligente, mas tinha perdido o contato com a cultura viva e a filosofia moderna. Rahner não se desfez do pensamento escolástico, mas mostrou que este era aberto para os enfoques da modernidade. Ele tentou mostrar que uma abordagem  “tomista” tinha condições de encarar perguntas de Kant  ou Hegel,  aliás, precisava fazê-lo. Geist in Welt (1939 = Espíritu en el mundo. Barcelona 1963) é a tentativa de elaborar uma metafísica que parte da dependência humana da cognição sensorial, porém mostra a transcendência do Espírito em cada ato cognitivo.

IHU On-Line - Pode-se dizer que Rahner colaborou com uma nova visão antropológica e cosmológica? Em que ela consistiria? Que estudos e vivências ajudaram-no a dar um salto teológico?

Albert Raffelt - O mencionado fundamento filosófico do pensamento de Rahner implica encarar a moderna fundamentação da metafísica no sujeito [como ente que] conhece [erkennendes Subjekt, sujeito cognoscitivo]. Pensadores como Maurice Blondel  oder Joseph Maréchal  criaram pontes entre a filosofia moderna e o pensamento católico. Rahner continuou nessa trilha. Ele também acolheu a questão teológica fundamental de conceber o ser humano como ouvinte de uma possível revelação (Hörer des Wortes. 1941 = Oyente de la palabra. Barcelona 1967); com este ponto de partida, ele perguntou pelas premissas antropológicas para se compreender a mensagem cristã.

A relação entre teologia e antropologia, porém, é ainda mais íntima. Não se trata apenas da questão das premissas para a compreensão. O cristianismo é a religião da encarnação [Menschwerdung, humanificação] de Deus. O ser humano faz parte do mistério de Deus. Por isso, a antropologia, a questão sobre a natureza de um ente que está aberto para a autocomunicação de Deus, está, em sua própria essência, ligada à teologia. Isto também tem a ver com o caráter universalista da proclamação cristã. O cristianismo não é uma seita isolada.

Diversas são as fontes dessa teologia. A teologia acadêmica escolástica é suplementada por estudos dos pais da Igreja. Aí entram as grandes interpretações de teólogos franceses, especialmente de Henri de Lubac;  a teologia do fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola,  recebe nova interpretação.

Finalmente, deve-se mencionar diferentes diálogos, por exemplo, com cientistas da Paulus-Gesellschaft.  Neste contexto, Rahner também se ocupou de questões cosmológicas, como a questão de como o cristianismo pode ser concebido numa cosmovisão evolutiva. Mas estas são aplicações concretas de uma concepção teológica central, de um universalismo cristão otimista quanto à salvação, se é que se pode sintetizá-lo com chavões.

IHU On-Line - Em que a proposta de Rahner ajudaria a superar a chamada “crise antropológica” atual? Ou o tempo de hoje exige uma nova mudança teológica?

Albert Raffelt - Não sei bem a que se refere essa crise. Atualmente, o principal embate certamente acontece com o chamado naturalismo, que procura contornar toda e qualquer pergunta pelo sentido, reduzindo o ser humano a suas funções neurofisiológicas, assim negando o livre-arbítrio e a decisão, em última análise reduzindo também a ética ao funcionalismo pragmático. Continuo acreditando que um pensamento filosófico transcendental apresenta possibilidades de responder a essas tentativas.

Rahner não é o único garante disso, mas ele enveredou corajosamente nessa direção. Na teologia alemã, eu lembraria nomes como Hansjürgen Verweyen  ou Thomas Pröpper   (os quais, em alguns pontos, não deixam de fazer críticas a Rahner), mas principalmente na filosofia eu citaria pensadores como Emmanuel Lévinas,  além de Gerold Prauss  e Norbert Fischer,  para citar apenas uns poucos.

Passados 25 anos da morte de Rahner, muitas coisas mudaram no mundo. Muitas tendências Rahner percebeu muito cedo, como, por exemplo, os potenciais da nova biologia, inclusive a manipulação genética do ser humano.  Podemos e devemos continuar na linha da sua resposta: o ser humano como ente da transcendência, fundado no mistério de Deus e orientado para ele. Numerosas possibilidades e riscos levantados pelo atual nível de conhecimento [científico] precisam ser sempre reavaliados.

IHU On-Line - Quais foram as principais contribuições e qual a influência de Rahner no Concílio Vaticano II?

Albert Raffelt - Karl Rahner sempre foi muito cauteloso ao se pronunciar sobre sua influência no Concílio. Neste, o trabalho dos teólogos foi um trabalho conjunto. Importantes eu consideraria os seguintes pontos: 1) Na fase de preparo do Concílio, Rahner providenciou, para o cardeal König  (Viena), uma leitura crítica dos trabalhos apresentados pelas comissões preparatórias; este foi um dos fatores a contribuir para que os bispos depois rejeitassem essas propostas. 2) No preparo das constituições dogmáticas Lumen Gentium e Dei Verbum, ele colaborou estreitamente com teólogos alemães, criando alternativas e melhorias, e apresentando com Joseph Ratzinger  (Bento XVI) uma proposta esquemática [Schemaentwurf] sobre a revelação. Embora esta não tenha sido aceita, não deixou de influenciar a discussão. 3) Com palestras perante diversas conferências episcopais, Rahner se empenhou pela inovação do pensamento teológico. Seu enraizamento na teologia acadêmica escolástica permitiu-lhe que o fizesse a partir desse fundamento, assim gerando compreensão para a teologia nova. 4) [Seu] trabalho concreto nas comissões e na elaboração de propostas de mudança teria que ser verificado caso a caso. Rahner ali foi um dos numerosos “carregadores de água” (Wasserträgern) do Concílio, que contribuíram para que se formasse uma grande vertente. Em suma: Rahner com certeza foi um dos importantes orientadores teológicos do Concílio e sem dúvida exerceu grande influência sobre as conferências episcopais de língua alemã; mas no Concílio também houve outros teólogos de igual importância, inclusive alguns que tiveram mais influência sobre a elaboração das versões finais dos textos.

IHU On-Line - É conhecida a afirmação de Rahner de que o cristão do século XXI é místico ou não é cristão. Em que consiste essa afirmação?

Albert Raffelt - Para Rahner, a teologia não era assunto meramente teórico. Por mais que ele considerasse necessário o raciocínio rigoroso e o conhecimento teológico acadêmico tradicional, seu objetivo não era apenas conseguir maior conhecimento teológico, mas atuar em prol da fé, da esperança e do amor. Fé vivida somente é viável com base na experiência da proximidade de Deus. Se a gente chama isso de “mística”, não vem ao caso. Por isso já se encontram orações entre os primeiríssimos textos de Rahner. Seu primeiro texto publicado em 1925 trata da oração, seu primeiro livro é uma coletânea de orações (Worte ins Schweigen. 1938 = Apelos ao Deus do silêncio. Lisboa 1969, 21974), aliás também seu último livro: Gebete des Lebens. 1984 (Oraciones de vida. Madrid 1986).

O coração da teologia de Rahner é a experiência da graça. Esta não é um sentimento religioso. É uma experiência em que as funcionalidades deixam de ser determinantes, onde se experimenta bondade pura sem recompensa, onde ocorre renúncia sem agradecimento, onde a transcendência do Espírito não é vista como autoconfirmação ou enfeite do cotidiano, mas como deixar-se cair no mistério maior de Deus. Rahner descreveu isto também numa linguagem muito bela (Alltägliche dinge [Coisas do cotidiano]. 1964 = Everyday things. London 1965). Aí está o dinamismo da sua teologia, que é uma teologia da graça universal. Aí também se encontra o centro da sua religiosidade pessoal.

IHU On-Line - Em um tempo de pluralismo religioso e de busca de maior diálogo com as diferentes religiões, qual a importância do conceito de “cristão anônimo”? Como essa ideia pode ser hoje reinterpretada?

Albert Raffelt - Talvez não se deva dar tanta importância à expressão "cristão anônimo". Não passa de um chavão, mesmo que adequado e estimulante, quando se pensa nas discussões que ele desencadeou. A ideia, que é a possibilidade de salvação de todas as pessoas , também foi formulada por teólogos que criticam essa expressão, como Hans Urs von Balthasar  ou Joseph Ratzinger. Ela também foi enunciada no Concílio Vaticano II. Rahner vai mais longe, ao tentar formular a maneira como essa possibilidade de salvação pode ser concebida no seio da teologia católica tradicional de modo tal que continuem preservados o significado universal de Jesus Cristo e a Igreja como sacramentum mundi.

Frente a tentativas que hoje são formuladas como “teologia pluralista da religião”, Rahner sempre insistiu na pretensão absoluta da mensagem cristã. Rahner deixou igualmente claro que essa pretensão não deve levar a um integralismo eclesiástico ou a uma comunhão religiosa obrigatória. A mensagem do cristianismo é uma mensagem de liberdade. A “última palavra de Deus” não restringe o ser humano, mas o convida para a comunhão com Deus.

IHU On-Line - Qual é a importância de se recuperar o pensamento de Rahner na atual conjuntura da Igreja?

Albert Raffelt - Acontece que a teologia de Rahner trata do aspecto central: a significação absoluta de Deus e da sua autocomunicação para o ser humano no Espírito e na história (encarnação).

Mas, além disso, existem numerosos enfoques menores em que os esforços de Rahner continuam servindo de modelo. Dele podemos aprender, por exemplo, que a percepção dos problemas é a premissa para sua solução. Ele tinha um faro apurado para novos problemas e questões urgentes: desde a ecumene até as questões estruturais do ministério no seio do catolicismo, desde a posição do leigo ou da mulher na Igreja até as questões limítrofes entre teologia e ciências naturais, desde os desafios políticos (na época, por exemplo, o diálogo com marxistas na Paulus-Gesellschaft) até a globalização e as transformações pelas quais a Igreja precisa passar no mundo globalizado, se ela quiser entender-se como Igreja mundial. A publicação dos escritos tardios de Rahner nas suas obras completas mostra como ele se preocupa com o fato de problemas não serem percebidos e soluções não serem tentadas. Para ele, esta é uma forma errada de se pensar na segurança. Contra isso ele exigia o “tutorismo  da ousadia”, única forma de manter abertas as possibilidades do futuro.

IHU On-Line - Quais são as características político-sociais de Igreja a partir dessa mudança de rumos a partir do Concílio, que teve a influência marcante de Rahner?

Albert Raffelt - Rahner com certeza diria que não importa onde estão as marcas resultantes da sua influência. Muitos prepararam e contribuíram para a transformação libertadora da Igreja desde o Concílio Vaticano II: éticos sociais como Oswald von Nell-Breuning,  teólogos da moral como John Courtney Murray,  teólogos sistemáticos como Henri de Lubac, para mencionar apenas alguns dos grandes teólogos jesuítas. Rahner defendeu a teologia da libertação e a  “opção pelos pobres”. Nisso ele não foi pioneiro, mas deu seu apoio à esforços sérios e procurou mostrar e preservar sua continuidade com a tradição da Igreja. Mais importante que a questão da influência de Rahner sobre essa evolução é o fato de a grande abertura provocada pelo Concílio continuar sendo lembrada, que a mentalidade sectária de alguns grupos tradicionalistas não ganhe influência nem consiga questionar a autoridade do Concílio.

IHU On-Line - Quais são os avanços no diálogo inter-religioso e no ecumenismo a partir das ideias defendidas por Rahner no Concílio?

Albert Raffelt - Os esforços de Rahner visando o diálogo ecumênico começaram bem antes. Já durante a Segunda Guerra Mundial, fundou-se um grupo de contato entre as Igrejas Evangélica e Católica na Alemanha, o qual depois se transformou num grupo de trabalho. Inicialmente, as possibilidades de trabalho estavam muito restritas pelos regulamentos eclesiásticos. Em termos de Igreja mundial, o Concílio já provocou uma abertura no sentido de também teólogos evangélicos poderem participar como observadores, sendo que mais tarde esses contatos foram institucionalizados. Mas isto não é mérito de Rahner. Nesse aspecto, cabe mencionar o cardeal Bea. A teologia ecumênica de Rahner propriamente dita só foi elaborada após o Concílio. Seu ponto de partida é que teologia ecumênica não deve ser teologia da controvérsia, fixada nas diferenças, mas deve partir do grande tesouro conjunto da fé das Igrejas cristãs, o qual deve servir de base para a busca de possibilidades de aproximação.

As questões ainda mais difíceis do diálogo inter-religioso Rahner tentou abordar pouco antes do Concílio, interpretando as religiões e o mundo não-cristão em geral sob a ótica da dogmática católica, a qual parte da noção da oferta universal de salvação por parte de Deus e conclui com a palavra de São Paulo: “O que não conheceis, mas adorais, isso vos proclamo” (Atos dos Apóstolos17, 23). Rahner parte da declaração de fé cristã, que visa a salvação de todas as pessoas. Essa declaração de fé não é açambarcamento da outra pessoa (ser "cristão anônimo" não é algo que uma pessoa não-cristã diria sobre si própria!), mas uma oferta. Em última análise não se trata de uma oferta da “Igreja” enquanto comunhão confessional, mas de Deus.

IHU On-Line - Qual é a concepção de Deus de Rahner? Em que consiste a ideia da incompreensibilidade de Deus e do Mistério, tão presentes na obra do teólogo?

Albert Raffelt - Rahner é o teólogo da experiência de Deus, da experiência da proximidade de Deus. Esta ele tentou vivenciar como cristão, como integrante de ordem religiosa e como sacerdote, ao longo de sua vida ao longo do século XX, marcado por muitas convulsões – guerras, revoluções, reviravoltas sociais – no meio eclesiástico tradicional, no desempenho das formas de vida eclesiais convencionais, mas sempre com o olhar voltado para o mundo, a sociedade e suas transformações. Ele sempre resistiu a todo e qualquer estreitamento da concepção de Deus bem como do conceito de Igreja que questionasse a universalidade da mesma. Deus, que sempre é maior – premissa inaciana básica do jesuíta –, marcou seu pensamento e sua vida. Isto conduz o pensamento necessariamente para o mistério. O fato de Deus ser incompreensível [unbegreiflich] constitui tema central principalmente nas duas últimas décadas da sua vida. Esse fato significa que a compreensão em si tem seus fundamentos no mistério, na abertura que ultrapassa toda e qualquer definição concreta [Dingfestmachen].  O mistério de Deus ser incompreensível está em seu amor vir ao nosso encontro. O amor não é “compreensível”.

Leia mais...

>> Albert Raffelt concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* “Deus é o homem e o será eternamente”. Publicada na edição número 102, de 24-05-2004, intitulada Deus e a humanidade: algo a ver? Karl Rahner 100 anos.

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