Um giro à esquerda na América Latina? Se há, só na Bolívia

Para o jornalista uruguaio, Raúl Zibechi, a América Latina só vai crescer após romper com o livre mercado e conseguir autonomia econômica diante dos Estados Unidos

Por: Patricia Fachin | Tradução Moisés Sbardelotto e Benno Dischinger

“Este é o momento para avançar em ambas as direções: integração fora das regras neoliberais.” A posição é defendida pelo editor do semanário uruguaio Brecha, Raúl Zibechi. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele destaca a necessidade de o continente alcançar a autonomia econômica e romper com o livre mercado. Se isso não acontecer, enfatiza, “seguiremos sob um modelo em que os mais poderosos exploram os mais fracos”.

O jornalista traça um panorama sobre a atual conjuntura latino-americana e diz que o continente está dividido em três tendências. “Os países do Pacífico, sobretudo Chile, Peru e Colômbia, olham para os Estados Unidos e a Ásia para complementar suas economias com as existentes nessas regiões.” No pólo oposto, continua estão os países da Alba, “que buscam uma integração por fora do livre mercado e que poderiam ser qualificados de nacionalistas. No meio disso está o Mercosul, o grupo mais importante, que não tem nada de nacionalista, mas está perfeitamente adequado ao modelo de livre mercado e às multinacionais”, explica. Para ele, mudanças significativas na América Latina só irão ocorrer com um impulso brasileiro seguido da Argentina, “já que juntos têm uma massa crítica que pode direcionar a região para outro lugar”, assegura.

Raúl Zibechi também atua como assessor de grupos sociais e é editor de política internacional do Semanário Brecha, do Uruguai. De suas obras, destacamos La mirada horizontal – Movimientos sociales y emancipación (Montevideo: Edições Nordam, 1999), Genealogia de la revuelta. Argentina: una sociedad en movimento (Montevideo: Edições Nordam, 2003) e Dispersar el poder. Los movimentos como poderes antiestatales (Buenos Aires: Edições Tinta Limón, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como define a atual conjuntura uruguaia?

Raúl Zibechi - É o melhor governo  em muito tempo, pelo menos desde a década de 1960. É um governo em que não há corrupção, além disso, fez-se uma reforma na área da saúde, o que melhorou a atenção aos mais pobres. O atual governo também concedeu planos sociais e transferências monetárias às pessoas abaixo da linha da pobreza, estabeleceu mecanismos de negociação salarial que o neoliberalismo havia suprimido, melhorou o salário real e as condições de vida da população.

Entretanto, continua sendo um governo neoliberal. Apostou na inversão estrangeira, nos monocultivos de soja e no florestamento, em empresas de celulose, como a Botnia  e a Ence,  em relações estreitas com os Estados Unidos, mas conflitivas com o Mercosul, sobretudo com a Argentina e o Brasil. A distribuição da riqueza não se modificou, não mudou o modelo de acumulação.

IHU On-Line - Tabaré Vasquez foi o primeiro presidente de esquerda eleito no país. No fim do seu mandato, que mudanças ocorreram no país positiva e negativamente? É possível vislumbrar um novo Uruguai?

Raúl Zibechi - Há uma ampliação da democracia, uma crise dos caudilhos tradicionais e do clientelismo, porque agora esse papel é assumido pelo Estado por meio dos planos sociais. O negativo é a continuidade com o modelo neoliberal em aspectos chave, a consolidação das novas elites vinculadas ao agronegócio, à incapacidade da esquerda para ir além e disputar o poder de verdade com os poderosos.

IHU On-Line - Quais as perspectivas econômicas e sociais para o país a partir das eleições que ocorrem em outubro?

Raúl Zibechi - A economia entrou em uma fase de retração, mas ainda não de crise. Há queda nas exportações e um pouco mais de desemprego, mas até agora os dados não são graves.
Acredito que a Frente Ampla irá ganhar no primeiro turno, com cerca de 52, 55% dos votos, porque teve um governo muito superior aos anteriores. E isso não depende de quem for o candidato, Mujica ou Danilo Astori.  Com qualquer um dos dois, ela vai ganhar.

IHU On-Line - O senhor diz que há duas esquerdas do ponto de vista social no Uruguai. Pode explicar a diferença entre ambas e quais são as possibilidades e limites diante da população uruguaia?

Raúl Zibechi - Existe uma esquerda de classe média, de gravata e de carro particular, com emprego fixo, como bancários ou trabalhadores qualificados. A outra esquerda é a das pessoas pobres, que vivem na periferia urbana ou no interior profundo, que têm empregos precários ou mal pagos, poucos anos de educação formal e salários muito baixos e muitos filhos. A primeira está representada por Astori, ex-ministro da Economia. A segunda, por Mujica, granjeiro, cultivador de flores, que se veste e fala como os pobres da cidade ou do campo.

IHU On-Line - Quais são as características históricas do Uruguai que favorecem ou dificultam a constituição de movimentos sociais no país?

Raúl Zibechi - Temos um Estado forte, com grande legitimidade e com uma intensa presença na economia, na sociedade e, sobretudo, na cabeça das pessoas. Por outro lado, a pobreza é relativa, pouco mais de 20% da população, o que fez com que os movimentos dos pobres tenham insinuado, nos últimos anos, uma nova potência, uma capacidade de se mover que muito lentamente está começando a se manifestar. E o fazem do jeito uruguaio, ou seja, por meio do sistema eleitoral e de partidos, apoiando Mujica, a alguém que sentem como um deles.

IHU On-Line - Como a crise internacional repercute positiva e negativamente no Uruguai?

Raúl Zibechi - Ainda é muito cedo para saber, e vai depender, sobretudo de como irá repercutir no Brasil e na Argentina, para onde a maior parte das exportações do Uruguai vai.

IHU On-Line - Em que sentido os governos de esquerda ampliaram ou esvaziaram a participação dos movimentos sociais no cenário político latino-americano?

Raúl Zibechi - Depende de cada país. Minha impressão é que, em alguns países, como a Argentina e o Brasil, os planos sociais – Bolsa Família e outros – contribuíram para debilitar os movimentos. Não sei ainda se foi uma política intencional do governo Lula, mas é claro que os Kirchner se propuseram a tirar as pessoas das ruas repartindo planos sociais. O caso oposto é o da Bolívia, onde os movimentos mantêm uma grande capacidade de se mobilizar, ao ponto que mudaram a conjuntura da crise de setembro de 2008. Sem os movimentos sociais, é possível que Evo Morales tivesse caído.

IHU On-Line - Como percebe a proposta sul americana de criar uma moeda própria para circular na América Latina? Quais as vantagens ou não dessa política?

Raúl Zibechi - Acredito que é a hora de avançar nessa direção. A América do Sul precisa, de forma urgente, de sua autonomia econômica e financeira com relação aos Estados Unidos e às empresas multinacionais. A integração é boa e necessária, mas, se não rompermos com o livre mercado, com o livre comércio, seguiremos sob um modelo em que os mais poderosos exploram os mais fracos. E este é o momento para avançar em ambas as direções: integração fora das regras neoliberais.

IHU On-Line - Como os diversos países da América Latina estão lidando com a crise internacional? O que esta crise possibilita no continente?

Raúl Zibechi - Não há uma forma única de lidar com a crise. Cada país tende a fazer a sua parte, embora haja algumas coordenações importantes como as que exercem a Argentina e o Brasil. Digamos que esta aliança busca dar prioridade à integração ao estilo Unasul,  embora também esteja presente o setor da Alba. No momento, não há grandes avanços em matérias como o Banco do Sul ou o comércio com moedas regionais, porém existe uma vontade de estabelecer uma coordenação mínima para evitar danos mais pesados da crise.

IHU On-Line - Assiste-se na América Latina a uma retomada das teses nacionalistas? Que outros modelos se destacam?

Raúl Zibechi - Há pelo menos três tendências. Os países do Pacífico, sobretudo Chile, Peru e Colômbia, olham para os Estados Unidos e a Ásia para complementar suas economias com as existentes nessas regiões. O pólo oposto seriam os da Alba, que buscam uma integração por fora do livre mercado e que poderiam ser qualificados de nacionalistas. No meio disso está o Mercosul, o grupo mais importante, que não tem nada de nacionalista, mas está perfeitamente adequado ao modelo de livre mercado e às multinacionais. 

IHU On-Line - A América Latina procura por novos caminhos. É possível vislumbrar mudanças no continente? Que rumo podemos vislumbrar para o futuro?

Raúl Zibechi - Uma virada verdadeira só pode advir do empuxe do Brasil, ao qual deveria seguir a Argentina, já que juntos têm uma massa crítica que pode direcionar a região para outro lugar. A mudança em curso consiste basicamente num projeto de integração segundo a medida dos mercados, do qual o principal beneficiário é a burguesia paulista. Este caminho se distancia dos EUA, porém nada além disso; não chega a ser um novo modelo político, econômico e social.

IHU On-Line - Percebe o giro à esquerda no continente? O que isso representa? A esquerda da América Latina também está em crise?

Raúl Zibechi - Um giro à esquerda, tal como eu o entendo, só estaria sucedendo na Bolívia. Ali, confluem poderosos movimentos sociais com um governo disposto a refundar o país. No resto, ou não há vontade política ou os movimentos são muito débeis ou cooptados pelo Estado. Mas na Bolívia não há esquerda: o MAS é um conjunto de movimentos sociais. Disso, podemos concluir que as mudanças não estão sendo realizadas pela esquerda, porém é o povo organizado que substitui a falta de vontade política das esquerdas.

IHU On-Line - Como o continente está tratando a questão dos recursos naturais e das energias renováveis? A América Latina ainda não percebeu a importância disso?

Raúl Zibechi - Sim, ela o percebeu, porém as esquerdas continuam considerando esses recursos como mercadorias. Aqui está o caso de Rafael Correa,  que se defronta com o movimento indígena para impor a mineração, ou o dos Kirchner que continuam apostando no monocultivo de soja, sendo assim em quase todos os países.

Leia mais...

>> Zibechi já concedeu outra entrevista à IHU On-Line, em 2008. Confira o material na página eletrônica do IHU.
 
Entrevista:

* Militarização do Estado criminaliza movimentos sociais. Edição número 266, de 28-06-2008, intitulada Movimentos sociais. Criminalização é um atentado à democracia.

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