Edição 290 | 20 Abril 2009

Padre Cícero: o santo dos nordestinos pobres

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Graziela Wolfart

Antônio Braga faz uma análise da trajetória do Padre Cícero Romão Batista, para compreender como ele tornou um dos maiores santos de devoção popular no Brasil

Antônio Braga é autor do livro Padre Cícero. Sociologia de um padre, antropologia de um santo (Bauru: Edusc, 2008). A obra é fruto da pesquisa que ele realizou para a elaboração de sua tese de doutorado em Antropologia Social, defendida em 2007 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, ele fala sobre o Padre Cícero que “descobriu” em seu trabalho. Para ele, “uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas”. Antônio Braga atribui parte da força de liderança de Padre Cícero à atuação de seus devotos, ou romeiros, como são chamados. E explica: “Eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte do Padrinho Cícero foi capaz de romper”.
 
Antônio Mendes da Costa Braga possui graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutorado em Antropologia Social, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem experiência nas áreas de Antropologia e Sociologia, com ênfase em Ensino e Pesquisa, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura popular, religiosidade popular, catolicismo, consumo religioso, devoção popular.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em sua tese de doutorado, que virou o livro Padre Cícero: sociologia de um Padre, antropologia de um santo, qual é o padre Cícero que você descreve?

Antônio Braga - Podemos considerar que o livro aborda o Padre Cícero Romão Batista  sob duas perspectivas, relacionadas com o título que dei à obra. Na primeira, que corresponde ao primeiro momento do livro, eu procuro compreender quem foi o Padre Cícero Romão Batista no contexto cultural, histórico, social e religioso em que se tornou um padre e, depois, uma grande liderança, principalmente religiosa. Procuro fazer ali o que pode ser denominado de análise de trajetória. Procurei demonstrar que Padre Cícero foi, em grande medida, um típico sacerdote formado no século XIX. Diria até que ele foi um caso bem-sucedido de sacerdócio no contexto eclesiástico católico daquele século, e mais ainda no Ceará da segunda metade do século XIX. Era um Ceará que vinha sofrendo uma profunda reforma eclesiástica, a chamada romanização do catolicismo brasileiro. E Padre Cícero foi, no meu entender, e em certa medida, um sacerdote romanizado, um padre que tinha muitas das qualidades que os líderes do processo de romanização – membros do episcopado – esperavam de um sacerdote que estava posicionado nas linhas de frente desse empreendimento eclesiástico.

Um sacerdote romanizado em litígio com o poder eclesiástico

É paradoxal que esse Padre Cícero, que aponto como um caso bem-sucedido de sacerdote romanizado, tenha morrido com suas ordens sacerdotais suspensas e em litígio com o poder eclesiástico local. De sacerdote virtuoso ele passou a ser um problema para esse poder, especificamente no Nordeste brasileiro. Então fica a pergunta: como isso é possível?

Defendo, como Ralph Della Cava e alguns outros autores, que a vida de Padre Cícero mudou a partir de um milagre ocorrido em Juazeiro do Norte, no Ceará, em 1889. Foi o chamado Milagre da Hóstia, protagonizado por uma jovem beata, negra e pobre, chamada Maria de Araujo. Padre Cícero fora o coprotagonista desse milagre, que teve profundas consequências para sua vida, a da beata e do próprio Juazeiro. E é a partir deste evento – porque eu o vejo como paradigmático para sua vida - que procuro apresentar, ou melhor, compreender Padre Cícero, analisando o processo que o tornou um dos maiores santos de devoção popular no Brasil. Daí por que falo numa antropologia de um santo. E o caso de Padre Cícero traz muitos privilégios enquanto objeto de estudo. O principal é que ele se tornou um santo para seus devotos não necessariamente através ou a partir dos altares. O processo através do qual ele vai se convertendo em santo para muitos de seus devotos ocorreu principalmente durante sua vida, logo após o milagre. Temos aí a oportunidade de compreender como vai se dando o processo através do qual um indivíduo vai se tornando uma importante liderança, notadamente religiosa, a ponto de, já em vida, ganhar status de santo para muitos. No entanto, é também importante frisar que para os devotos do Padre Cícero – denominados romeiros –, ele é, antes de tudo, o “Padrinho Cícero”. Eles não costumam falar em Santo Cícero.

IHU On-Line - Como entender tamanha devoção popular no Brasil por Padre Cícero?

Antônio Braga – Posso apontar alguns aspectos que dão ao caso do Padre Cícero tamanha força e – em certa medida – especificidade. Um deles é o fato de que os seus devotos são como que coprotagonistas de sua história de santidade. São sujeitos e agentes. Sem seus romeiros, Padre Cícero não teria se tornado santo. E sem eles a devoção não teria se mantido nem se desenvolvido após sua morte, em 1934. E essa é uma devoção que passa de mãe para filho, de pai para filho, de avó e avô para netos. E nessa história tem sempre um avô, bisavó, e assim por diante, que conheceu o Padre Cícero em vida, que era romeiro do Padrinho Cícero enquanto ele ainda era vivo. Então, os devotos estão falando e vivenciando uma devoção que também tem relação com suas próprias histórias, com a história de todo um vasto grupo de indivíduos que se encontram em torno da força identitária de serem afilhados do Padrinho Cícero. Agora, como todo o santo que se preze, ele é santo porque – para seus devotos –também faz milagres e intervém junto a Deus. Em suma, como todo santo de devoção popular, ele é uma força atuante, presente na vida daquele que crê e que – em sua perspectiva – se faz presente quando chamado a ajudar.

IHU On-Line - Quais são os principais debates provocados pela figura dele dentro da Igreja Católica e no meio acadêmico brasileiro?

Antônio Braga - No meio acadêmico, Padre Cícero e o fenômeno religioso do Juazeiro já foram objeto de um número respeitável de estudos, muitos de grande qualidade. Agora, dentro da Igreja Católica, em um catolicismo mais oficial e eclesiástico, ele suscita muitas polêmicas. Se bem que é possível perceber que estamos diante de um claro processo de superação de muitas delas. E afirmo isto porque percebo que cada vez mais a devoção ao Padre Cícero é aceita por agentes de um catolicismo mais oficial, por um número cada vez maior de padres e bispos. Talvez de um santo popular outsider, cuja devoção se dava de forma um tanto quanto marginal em relação a um catolicismo mais oficial, o santo Padre Cícero esteja pouco a pouco se aproximando dos cânones através do qual a Igreja Católica reconhece oficialmente seus santos. Pensar num processo de canonização do Padre Cícero tornou-se algo possível.

A questão da obediência

De certa forma, todos os debates em torno do Padre Cícero, dentro da Igreja, tem alguma relação com o problema da obediência. Todos os debates internos e que dizem respeito ao Padre Cícero – Ele era ou não um sacerdote virtuoso? Era ou não um homem santo? Era ou não demasiadamente um homem da política? – tendem e tenderão a serem relativizados quando esta questão da obediência for mais bem compreendida e equacionada. Agora, se tudo isto está acontecendo, é mérito, em uma grande medida, dos devotos do Padre Cícero, de seus romeiros. Foram eles e ainda são, mesmo com todas as objeções e desconfianças em relação a esta sua fé, que mantiveram e mantêm a devoção ao Padre Cícero como um dos maiores e mais relevante casos de devoção popular no Brasil.

IHU On-Line - Quais as características dos romeiros de Padrinho Cícero?

Antônio Braga - Se fôssemos definir a maioria dos romeiros do Padre Cícero em três palavras seria: nordestinos, pobres, perseverantes. Padre Cícero é, dentre outras coisas, um santo dos nordestinos pobres. É impressionante como são muitos, até milhares, o número de nordestinos pertencentes às camadas sociais mais pobres do Nordeste que se identificam com o Padrinho Cícero. Uma boa questão é procurarmos entender por que alguém como Padre Cícero foi capaz de atrair tantas pessoas pertencentes aos segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade em torno de si, ou de que forma ele se converteu num santo para essas pessoas.

IHU On-Line - Que elementos fizeram de Padre Cícero um fenômeno social, político e religioso?

Antônio Braga - Boa parte desses elementos estão dispersos nas várias décadas através das quais Padre Cícero, ainda em vida, foi construindo um determinado tipo de relacionamento com os romeiros. Um relacionamento sustentado numa perspectiva religiosa, mas que abrangia também relações do tipo social, econômica e política. Padre Cícero, por exemplo, exercia uma autoridade religiosa sobre os romeiros. Mas também era um provedor nos casos de necessidades materiais e políticas. Em contrapartida, eram os próprios romeiros que legitimavam a autoridade religiosa e moral do Padre Cícero. Eram eles os sustentáculos da autoridade política, social e econômica do sacerdote. Se estabeleceu entre Padre Cícero e seus romeiros um vínculo, uma relação de dom e contra-dom que nem a morte do Padrinho Cícero foi capaz de romper.

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